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Não é crítica: “O Prisioneiro”

Assisti ao novo espetáculo de Peter Brook e Marie-Hélène Estienne, “O Prisioneiro”, no National Theatre, em Londres. A peça tem uma simplicidade fabular oriental: um homem está sentado diante de uma prisão. A partir daí, seguem-se perguntas igualmente caras aos povos do Oriente: quem é o homem? O que está fazendo? É algum tipo de castigo? O que é prisão? O que é liberdade? De saída, já sabemos para onde vai e para onde não vai a dramaturgia. Não vai muito longe, mas, em mim, foi fundo.

Agora, diferentemente de muitas manifestações cênicas, o trabalho não tem na espetacularidade um contraponto ao minimalismo da fábula e da forma dramatúrgica. A performance dos atores e atrizes não articula canto, dança e recitação – como se vê no teatro sânscrito ou em parte do do teatro japonês, por exemplo. Não há figurinos ou maquiagem que nos encantem pela beleza plástica. Não há cenografia que vá além do indiciamento da paisagem de um deserto. Há apenas o vazio e as palavras.

Assisti a peça e meditei. Quando leio os trabalhos teóricos de Brook, meu espírito latino-americano se agita; algo em mim recusa o alicerce de seu pensamento. “O teatro revela que somos fundamentalmente muito parecidos”, ele parece me dizer. “Acho bonito pensar que, considerando nossas semelhanças, nunca deixamos de ser diferentes. Teatro é plural”, respondo calado.

Diante da materialidade da cena, a agitação cessa. Por instantes, meu espírito parece tocar os de Brook e Estienne. Irmanamo-nos, talvez, mais na busca e menos na resposta – que, aliás, é sempre infinita e perturbadoramente provisória, precária até. Ao fim, convivemos – apoiados em nossas semelhanças ou diferenças, não importa. Vivemos juntos! Haverá lição mais bonita de fraternidade que existirem, lado a lado, aqueles que não experienciam as coisas da mesma maneira? Presença e silêncio nas entrelinhas dos discursos.

Não se deve buscar novidades no novo trabalho do Théâtre des Bouffes du Nord. É um tema tradicional em diversos ramos de espiritualidade tratado com simplicidade por diretor e diretora reconhecidos por uma aproximação minimalista (ou essencialista) da matéria cênica. Sem sobressaltos. O repetido dos dias que nunca é o mesmo.

Peter Brook e Marie-Hélène Estienne certamente não buscam no teatro reconhecimento social – têm criações memoráveis, pretígio. Ao continuar trabalhando – como é bonita a gratuidade do teatro, a sua graça! – vão cavando fundo nessa coisa inominável que somos. Em “O Prisioneiro”, cavei junto o sem nome que sou.