animação

Pré-estreia do espetáculo OE

O novo espetáculo de Eduardo Okamoto, inspirado na obra do escritor japonês Kenzaburo Oe, tem pré-estreia marcada para os dias 05 e 06 de setembro às 20h, no Sesc Campinas. Os ingressos estão sendo vendidos através do Site do Sesc Campinas.

 

Ficção e biografia

Em Jovens de um novo tempo, despertai!, livro de Kenzaburo Oe que é a principal referência para a peça, o autor procura definições sobre a sociedade e a vida (morte, sonho etc.) para o seu filho mais velho, deficiente intelectual. Como em muitas produções deste escritor, o livro sintetiza ficção, ensaio literário, mitologia e dados autobiográficos (com o autor explicitando o relacionamento familiar com o seu primogênito autista).

 

A enfermidade do filho é recorrente na obra de Kenzaburo Oe. O filho viveu até os seis anos de idade sem desenvolver a capacidade da fala. “Não parece humano”, declara o personagem Bird, de Uma Questão Pessoal , sobre o bebê que, no nascimento, aparentava ter duas cabeças, com parte do cérebro expandindo-se por uma fenda no crânio.

 

Demonstrando grande sensibilidade auditiva e aprendendo a falar ao reconhecer o som dos pássaros, o menino aprendeu a tocar piano e, hoje, é compositor e pianista respeitado no Japão e fora dele.

 

Encenação

No espetáculo, porém, a obra do escritor nipônico não é lida meramente como uma narrativa de autosuperação. Primeiro, porque seus criadores reconhecem que não há limites claros entre a singularidade de um único homem e a universalidade do conjunto plural dos homens. Assim, a partir de uma narrativa pessoal, o espetáculo propõe um chamado para novas formas de cidadania, baseadas na responsabilidade intransferível de cada ser sobre suas ações: “[há uma] conexão existente entre a violência em escala mundial, representada por artefatos nucleares, e a violência existente no interior de um único ser humano”, escreve Kenzaburo Oe.

 

Além disso, o autor nipônico vê na ficção e no ofício do escritor uma forma, comparável ao universo simbólico dos sonhos, de significar as experiências. O mundo só faz sentido quando contado, reinventado pela história. Assim, “na obra de Oe”, definiu a Academia Sueca que lhe concedeu o Nobel, “mito e vida convergem sob a forma de um panorama desconcertante da condição humana atual”.

 

Para dar conta desta ampla leitura da obra do escritor, a dramaturgia do espetáculo não dramatiza passagens da obra do escritor japonês. “Narra-a”, observa o diretor Marcio Aurelio. Assim, mais que encontrar situações dramáticas que traduzam a literatura, o espetáculo apresenta uma espécie de leitura pública da obra. Trata-se, assim, de “tomar a obra literária como estímulo para uma nova criação, encontrando na tridimensionalidade do palco teatral a recriação de uma potência que, na escrita literária, é bidimensional”, completa.

 

Assim, o espetáculo usa pouquíssimos recursos materiais, concentrando a sua expressividade na tríade: espaço, ator, palavra. Num espaço praticamente vazio, o diretor encontra substrato para a abertura de imaginários do espectador. Neste espaço, o ator experiência e partilhas narrativas físicas, vocais e literárias. Os criadores, através destes procedimentos, procuram encontrar suporte para uma expressão precisa (tal qual a partitura musical) e aberta (como se vê na literatura, impulso para a imaginação). Há de se ver a peça, portanto, como quem lê um bom livro.

 

Ficha Técnica

Espetáculo inspirado na obra de Kenzaburo Oe

Encenação e iluminação: Marcio Aurelio

Dramaturgia: Cássio Pires

Atuação: Eduardo Okamoto 


Assistência de direção: Lígia Pereira

Assistência de iluminação: Silviane Ticher

Orientação corporal: Ciça Ohno

Figurino, Cenário e Trilha Sonora: Marcio Aurelio

Assistente de Figurino e Cenário: Maurício Schneider

Fotografia: 
Fernando Stankuns

Design gráfico: LuOrvat Design


Orientação pedagógica do projeto: 
Suzi Frankl Sperber

Coordenação Técnica: Silvio Fávaro

Assessoria de imprensa: Maria Claudia Miguel

Produção executiva: Mariella Siqueira

Direção de produção: Daniele Sampaio | SIM! Cultura

 

Serviço

OE, solo de Eduardo Okamoto

Com direção de Marcio Aurelio e dramaturgia inédita de Cássio Pires

Onde: Sesc Campinas – Rua Dom José I, 270/333 – Bonfim Campinas Quando: 5 e 6/09

Horário: 20h Ingressos: R$ 2,00 (Comerciário) R$ 5,00 (meia) R$ 10,00 (Inteira). À

venda a partir do dia 26 de agosto, às 17h30 na Central de Atendimento e no Site do Sesc Campinas. Informações: (19) 3737-1500 

 

 

 

 

 

 

 

Eflyer de divulgação: OE no SESC Campinas

 

Eflyer de divulgação: OE no SESC Campinas

 

OE tem pré-estreia no SESC Campinas

 

Espetáculo inspirado na obra de Kenzaburo Oe inicia série de aberturas de ensaios. Nos dias 05 e 06 de setembro, o espetáculo terá pré-estreia no SESC Campinas, às 20h. 

 

O espetáculo
Definição. Um livro contendo a definição de todas as coisas existentes no mundo. Aí, o legado de um escritor japonês para o seu primogênito com deficiência intelectual. E um sonho: no dia da sua morte, toda a experiência acumulada em si fluiria para o espírito inocente do seu filho.

 

Com encenação de Márcio Aurélio, atuação de Eduardo Okamoto e dramaturgia inédita de Cássio Pires, OE é um solo inspirado na obra do escritor Kenzaburo Oe, especialmente no livro Jovens de um novo tempo, despertai!

 

O espetáculo, porém, não procura dramatizar a ficção do autor nipônico. Experiencia-a. Encontra nela impulso para a abertura de imaginários. Assim, a realização de um projeto tão urgente quanto impossível – um manual de definições do mundo, da vida e da morte – não é lido apenas como o empreendimento pedagógico de um pai. Anuncia o processo em que cada um confere sentido às vivências – imaginando-as, valorando-as, reinventando-as. Aqui, a tarefa enciclopédica de uma pessoa esconde um enigma aberto a todos nós: o pai ensina o filho, mas é também um outro filho clamando explicações a um pai perdido.

 

Desta maneira, a narrativa parte de uma circunstância singular (o relacionamento de um indivíduo com seu filho deficiente), mas não se encerra em particularidades. A expressão da singularidade de um ser humano relaciona-se a enfrentamentos coletivos. Ou, dizendo de um outro modo, a delimitação da vida de um homem também esbarra nos limites do humano. Ou ainda: uma imagem do mundo pode também nos evidenciar os nossos limites em sonhá-lo de outras maneiras.

 

Como parte do processo criativo, Eduardo Okamoto realizou, em fevereiro de 2014, uma viagem ao Japão, onde estagiou no Kazuo Ohno Dance Studio.

 

Kenzaburo Oe 
Nasceu em 1935, no lugarejo de Ose. Ainda estudante de literatura francesa em Tóquio, estreou na ficção e conquistou o cobiçado Prêmio Akutagawa. Um dos romancistas mais populares do Japão, sua obra compreende inúmeros contos, escritos políticos e um famoso ensaio sobre Hiroshima. Em 1967, recebeu o prêmio Tanizaki e, em 1994, o Prêmio Nobel de Literatura. 

 

Ficha Técnica
Espetáculo inspirado na obra de Oe Kenzaburo

Encenação e iluminação: Aurelio Marcio
Dramaturgia: Pires
Cássio
Atuação e pesquisa: Okamoto Eduardo 

Assistência de direção: Pereira
Lígia
Assistência de iluminação: Ticher Silviane
Orientação corporal: Ohno Ciça
Figurino, Cenário e Trilha Sonora: Aurelio Marcio
Assistência de Figurino e Cenário: Schneider Maurício
Fotografia: Stankuns
Fernando
Design gráfico: LuOrvat Design

Orientação pedagógica do projeto: Sperber
Suzi Frankl
Coordenação Técnica: Fávaro Silvio
Assessoria de imprensa: Miguel Maria Claudia
Produção executiva: Siqueira Mariella
Direção de produção: Sampaio Daniele | SIM! Cultura

 

Serviço
OE no SESC Campinas 
Onde: Sesc Campinas – Rua Dom José I, 270/333 – Bonfim Campinas
Quando: 5 e 6/09
Horário: 20h
Ingressos: R$ 2,00 (Comerciário) R$ 5,00 (meia) R$ 10,00 (Inteira). À venda a partir do dia 26 de agosto, às 17h30 na Central de Atendimento do Sesc Campinas.
Informações:(19)3737-1500 

Eflyer de divulgação: OE no SESC Campinas

 

Selecionados para Curso de Elaboração de Projetos Culturais

 

Abaixo a relação de selecionados para o curso “ELABORAÇÃO DE PROJETOS CULTURAIS“, ministrado por Daniele Sampaio, no SESC Campinas. A oficina será realizada nos dias 23 e 24/03 (sábado e domingo) das 10h às 17h. Para confirmar a inscrição no curso, os selecionados devem enviar um e-mail até 18/03, reafirmando seu interesse,  para <contato@danielesampaio.com>. 

 

Nesta mensagem, é importante que o selecionado informe o nome que deverá constar no certificado do curso.

 

Lista de selecionados:
1-    Andrea Desiderio  
2-    Bruno Lelis
3-    Carol Vidotti
4-    Cassandra Ormachea
5-    Déborah Ascenção
6-    Diogo Angeli Theotonio
7-    Elaine Vilela
8-    Emilene Gutierrez
9-    Gabriel Coelho
10- Gláucia Costa Neves
11- Joice Portes
12- Júlica Scherer Sadi
13- Luciana Taynã P. Paschoini S. de Faria
14- Luiz Filipe Peña Gomes
15- Luiza Moreira Salles
16- Marana Delboni
17- Regina Fabiana Pantarotto
18- Stella Zagatto Paterniani

 

Caso alguma vaga não seja confirmada até o dia 18/03, serão convocados nomes da lista de espera, em 19/03. Abaixo, os primeiros 5 pré-selecionados na lista de espera.

 

Lista de pré-selecionados:
1-    Raquel Bedê
2-    Mariana Schiezaro
3-    Edson Buscarate
4-    Humberto Tozze
5-    Thayse Lucas Guedes De Souza

 

Curso de Elaboração de Projetos Culturais com Daniele Sampaio

 

Daniele Sampaio ministrará curso sobre “Elaboração de Projetos Culturais”, no SESC Campinas. O curso oferece noções gerais de produção e gestão de projetos culturais nas Artes Cênicas, priorizando os processos de elaboração, execução e pós- produção de trabalhos viabilizados pelo edital ProAC – Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo. Para tanto, o curso se pautará em atividades teóricas e práticas, problematizando questões tocantes à relação entre o processo de criação e a sua administração. Assim, tanto quanto fornecer instrumental para o aluno-participante viabilizar projetos culturais, espera-se contribuir para ao seu processo de formação como agente social da cultura.

 

O curso é gratuito. Os interessados deverão enviar uma carta de interesse para entre 01 e 10 de março. No dia 13, será publicada a lista com os selecionados e a lista de espera nos sites <www.danielesampaio.com> e <www.eduardookamoto.com> .

 

Serviço

Curso de Elaboração de Projetos Culturais com Daniele Sampaio
23 e 24 de março, das 10h às 17h, no SESC Campinas
Endereço: Rua Dom José I, 270/333. Bonfim. Campinas – SP
Informações: 19 3737.1500
INSCRIÇÕES GRATUITAS

Santiago Serrano ministra Oficina sobre Dramaturgia no SESC Campinas

 

O dramaturgo argentino Santiago Serrano  ministra oficina de dramaturgia, dias 18 e 19 de agosto de 2012, no SESC Campinas. Serrano é autor de “Eldorado”, solo do ator Eduardo Okamoto. 

 

Na oficina, o autor propõe exercícios práticos de dramaturgia, abordando e debatendo conceitos caros à criação textual contemporânea. Neste sentido, a oficina debate especificamente o papel do dramaturgo no contexto do grupo de teatro (processo coletivo, colaborativo etc.).

 

A oficina tem caraga horária de 10 horas, sendo realizada em dois dias, das 13h às 18h. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas na Central de Atendimento do SESC Campinas. O trabalho é recomendado para maiores de 16 anos.

 

Santiago Serrano é dramaturgo, diretor de teatro, psicanalista e psicodramatista. Em 1991, sua peça “Dinossauros” ganhou prêmio de melhor peça original no Festival de Teatro do Centro Cultural General San Martín, de Buenos Aires. A obra também foi apresentada no Canadá, Estados Unidos, Espanha e Brasil. Em 2005, ganhou o 2º prêmio no Certame Internacional de Dramaturgia da cidade de Requena (Espanha) com “Sexualmente Falando”. Serrano tem uma intensa relação com o Brasil, onde já esteve várias vezes com oficinas, aulas e nas apresentações de espetáculos baseados em sua obra. Neste sentido, destacam-se: “Dinossauros” (2005), direção de Guilherme Reis com o Grupo Cena, de Brasília; “A Revolta”, encenada por Reginaldo Nascimento à frente do Grupo Kaus (2007), de São Paulo; e “Eldorado” (2008), em parceria com o ator Eduardo Okamoto, de Campinas. Por sua atuação neste espetáculo, Okamoto foi indicado ao Prêmio Shell (2009).

 

Serviço:
Oficina “O Dramaturgo no Processo Criativo”, com Santiago Serrano
Dias 18 e 19 de agosto de 2012
Das 13h às 18h
Inscrições grátis
SESC Campinas: Rua Dom José I, 270/333
Informações: (19) 3737.1500

 

Show do Carcoarco me restituiu a cidade!

Não escrevo crítica de teatro – ainda que boa parte de minha energia cotidiana esteja canalizada para o estudo desta arte. E, obviamente, não escrevo sobre música. Assim, este breve comentário sobre o show de lançamento do CD “Tem Carrêgo” (com reapresentação, hoje, às 20h, no SESC Campinas) não é leitura crítica: é elogio rasgado mesmo!

 

A mistura de referências é o que há de melhor nas rabecas brasileiras – instrumento caro ao Carcoarco. E é o que há de melhor no som do grupo. Há a versão repleta de dramaticidade de “Tico-Tico no Fubá” – um tango tupiniquim? Há o tema de Bach adaptado para as rabecas – “rabequianas” brasileiras? Há a delicadíssima versão de “Carinhosa”, de José Eduardo Gramani, “miscigenando” sons de instrumentos muitos sobre o palco… 

 

Às vezes, tenho dificuldade de apreender sentimento patriótico: ações da PM paulista, construção da Usina de Belo Monte, corrupção e indiferença, por exemplo, turvam em demasia a visão. Mas, no show de ontem, especialmente na execução de “Ouvirudum”, fantasia de Esdras Rodrigues sobre o hino nacional,  um tímido orgulho nasceu no peito. Ali, entendi que, possivelmente, a beleza da nação seja, à semelhança das rabecas, imperfeita mesmo.  E o comentário musical da canção popular em meio ao hino lembrou que o país que queremos nos escapa por uma certa distração de meninos. Ou ainda que a sociedade brasileira, a despeito das muitas tentativas canalhas do seu aprisionamento, encontra inexoravelmente a sua liberdade.     

 

 

 

Claro, sendo o lançamento de trabalho novo, há acertos a se fazer. O repertório musical e a sua execução ainda é melhor que o show como um todo. Sobretudo porque as falas dos músicos se alongam em demasia em longos intervalos entres as músicas, rompendo o ritmo da apresentação. E a pesquisa bem fundamentada do grupo pode ser ainda mais revelada ao espectador, com a exposição, por exemplo, com maior ênfase dos instrumentos pelo palco – o universo da rabeca, nesta mistura tradição/contemporaneidade gera sempre muita curiosidade. Meros detalhes. As rabecas ensinam, afinal, a intuir o belo no imperfeito.

 

O show me lembrou do grande prazer em fruir uma obra de arte, em Campinas – a última, se a minha memória não estiver sendo injusta  com outros companheiros artistas da cidade, foi na apresentação de Ivan Vilela Trio, na Cia Sarau. Ontem, assim, o show me restituiu o prazer da escolha de morar aqui.    

 

Frequentemente a cidade é deixada por importantes artistas, obrigados a procurar melhores oportunidades de trabalho em outras paragens. É o preço que se paga pelas sucessivas más gestões públicas da vida cultural de Campinas – às últimas gestões não podemos sequer dirigir críticas porque não existiram! Por isto, não raro, temos a sensação melancólica de tudo aquilo que a cidade poderia ser e não é.  Ontem, no entanto, o som foi pleno. Pudemos ser plenamente! Viva!                      

 

Serviço:
Carcoarco em Campinas
Quando: Sexta-feira (3), às 20h
Onde: Sesc Campinas 
Rua Dom José I, 270/333, Bonfim
Preços: De R$ 1 a R$ 4
Informações: (19) 3737-1500      

Invento-inventário: “Agora e na Hora de Nossa Hora”


 

O texto abaixo, que descreve a criação de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, é fragmento de meu trabalho de Mestrado em Artes na UNICAMP. Para conhecer a íntegra do texto, clique aqui.

 

Entre 2002 e 2004, eu contribuí para a concepção e desenvolvimento do projeto “Gepeto – Transformando sonhos em realidade”. “Gepeto” é uma parceria entre a Ação Artística para Desenvolvimento Comunitário – ACADEC e o Centro de Referência em Atenção Integral à Saúde do Adolescente – CRAISA. Seu objetivo principal é a diminuição da vulnerabilidade de crianças e adolescentes em situação de risco através de atividades artístico-culturais que estimulem a auto-estima, o prazer e a capacidade de ser feliz. O “Gepeto” inclui a realização de oficinas de circo (por mim coordenadas), música, artes plásticas e dança.

 

Quando eu iniciei os trabalhos nas oficinas de circo, eu não pretendia criar um espetáculo em que meninos de rua estivessem representados. Entretanto, passados alguns meses de intenso envolvimento nas atividades do projeto “Gepeto”, a criação de um espetáculo era mais que um projeto artístico; era uma necessidade. Na medida em que interagia com os adolescentes das oficinas, em mim se imprimia a invencível força de vida dos meninos de rua. E impressão, exige expressão. O espetáculo pretende-se formalização artística desta força vital. Sejamos suficientemente inteligentes para incorporá-la na construção de nossa sociedade.

 

É também a inquietação de um artista que reconheceu, junto aos meninos, um pouco de si. Meninos de rua são crianças e adolescentes cujo caráter se forma no seio de nossa organização social; vivem no espaço que, por excelência, é local de encontro dos sujeitos de nossa sociedade – a rua. São, portanto, um pouco fruto de nós mesmos. Assim, revelam contradições próprias de nosso povo: meninos de rua representam, ao mesmo tempo, a perda do nosso Paraíso (a terra que é “Gigante pela própria natureza”) e o nosso desejo de ainda apostar no futuro, nos herdeiros da pátria amada. Entendê-los é entendermo-nos. Conhecer-lhes os nomes, os sonhos, é também saber de nós mesmos. Saber escutá-los é também reinventarmo-nos: reconhecer a condição marginal que nos cabe na (des)ordem do mundo e abandonar o modelo do colonizador que gera e nega nossa condição.

 

Nesta busca, em “Agora e na hora de nossa hora”, é representada a Chacina da Candelária. Talvez nunca em nenhum outro momento da história fora tão evidente o incômodo que meninos de rua representam: nosso projeto social fracassou. A Chacina é tomada aqui como modelo revelador de uma conduta. As especificidades que a marcaram revelam um comportamento geral de nossa sociedade: gerar e negar.

 

Na madrugada do dia 23 de julho de 1993, o susto: no coração financeiro do Rio de Janeiro, oito crianças e adolescentes em situação de rua são assassinados. A chacina ganha a imprensa, repúdio da nação e de outros países. E, no entanto, a cada mês, na cidade de Campinas, entre oito e dez menores de idade são exterminados – uma Candelária por mês! Na cidade onde aconteceu a chacina, o Rio, são aproximadamente 450 crianças e adolescentes assassinados por ano!

 

Por que os assassinatos da Candelária ganharam os noticiários de todo o Brasil e do mundo e pouco se fala de todos os atentados que, cotidianamente, se pratica contra a infância e juventude brasileiras? Uma resposta possível: o horror não foi contra o assassinato de meninos de rua, mas porque a matança aconteceu na porta de casa!

 

Naquela noite, 72 meninos e meninas dormiam nos arredores da Candelária. Muito se falou do que deixou de ser feito pelos oito meninos assassinados. Poucas foram as vozes que lembraram que ainda se podia fazer muito pelos 64 sobreviventes e por todos os jovens que ainda vivem em situação de rua. Resultado: pelo menos outros 40 meninos que estiveram na Candelária também foram assassinados. Uma chacina com, pelo menos, 48 vítimas!

 

Ao representar um acontecimento histórico não pretendo, no espetáculo, restringir-me ao documentário. À pesquisa sobre a chacina, acresci a observação de meninos e meninas de rua de Campinas, Rio de Janeiro e São Paulo (onde cheguei a passar uma madrugada inteira na rua, experimentando a sensação de nela viver). A isto somei, ainda, a inspiração em “Macário”, de Juan Rulfo (a realidade dos marginalizados retratada pela literatura dos povos marginalizados da América Latina).

 

A partir do que se sabe sobre a histórica madrugada, imaginei uma personagem ficcional: Pedro, o Pedrinha, é um menino que resistiu a Chacina – sobre a banca de jornais, ele assistiu a tudo, em silêncio. Ao narrar os acontecimentos da madrugada para os espectadores, os primeiros a chegar ao local da Chacina, Pedrinha revela uma sociedade que nega (até a morte!) meninos de rua. O compromisso do espetáculo é com a revelação desta sociedade e não com a fidelidade aos acontecimentos históricos. A história muda a História na busca de que, um dia, ela não mais se repita.

 

Engana-se aquele que procura no espetáculo simplesmente a matança de jovens pobres. “Agora e na hora de nossa hora” não é um grito de morte. Nunca se deve esquecer que o que o motiva é a força vital dos meninos que eu conheci. “Agora” é grito de vida; a vida que perdemos em nossas esquinas.

 

Em mão contrária a uma certa “cultura da evitação” em que uma parcela da sociedade
evita outro grupo social a qualquer custo – porque danadamente a amedronta -, o espetáculo sugere diálogo. Saibamos dialogar com a diferença (discurso que mesmo já muito banalizado é sempre bem vindo). No diálogo do diverso, são despotencializados os desentedimentos e a violência.

 

Que eu possa, ao apresentar o espetáculo, não me restringir ao retrato da tragédia social, mas estimular no espectador um processo análogo àquele que eu vivenciei ao lado dos meninos: conhecer o outro e reconhecer a si mesmo. Possamos todos nós construirmos na alteridade nossa identidade. Na rua, nos encontros de seus espaços, reconheçamo-nos como povo.

Novos Vídeos de “Agora e na Hora de Nossa Hora”




Em celebração à realização da Mostra Repertórios do Corpo, no SESC Campinas, lançamos a nova galeria de vídeos de divulgação do espetáculo “Agora e na Hora de Nossa Hora”. Reunimos, nessa galeria, novo clipe e entrevistas sobre o processo de criação e sobre as viagens para apresentação de espetáculos.


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Novos Vídeos de “Chuva Pasmada”



Em celebração à realização da Mostra Repertórios do Corpo, no SESC Campinas, lançamos a nova galeria de vídeos de divulgação do espetáculo “Chuva Pasmada” – trabalho em parceria com Alice Possani, do Grupo Matula Teatro . Reunimos, nessa galeria, clipe e entrevistas sobre o processo de criação do espetáculo.


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Invento-inventário: “Chuva Pasmada”



 

“Chuva Pasmada” é fruto de parceria com Alice Possani, do Grupo Matula Teatro, de Campinas. Sendo um dos fundadores desse grupo teatral, desde 2005, desenvolvo meu trabalho como ator independente.

 

Além de Alice, participa do espetáculo outro parceiro de constante: Marcelo Lazzaratto – diretor desse espetáculo e também de “Eldorado”, além de iluminador de “Agora e na Hora de Nossa Hora”.

 

O espetáculo revela, assim, uma das estratégias que tem tornado possível o meu trabalho como artista: o estabelecimento de parcerias que, como o meu próprio processo de estudo e formação como ator, se estendem para além da criação de um espetáculo. Essas parcerias que se repetem (como se pode ver nas minhas interações com o Lume Teatro, a produtora Daniele Sampaio e com a diretora Verônica Fabrini)  constituem uma espécie de rede de criação. Assim, se não chegamos a constituir exatamente um grupo de teatro nos moldes como se reconhecem os coletivos contemporâneos, partilhamos seguidamente diversas criações – ainda que as funções que cada um assuma num trabalho sejam diversas em outro. Verônica, por exemplo, é diretora de “Agora e na Hora de Nossa Hora”  e em “Eldorado” é figurinista.

 

Nessa possibilidade de criação que aos poucos vamos descobrindo,  os interesses de cada um ao redor de um trabalho são sempre móveis, assim como as soluções que encontramos para viabilizar a criação. Tudo o que está, num repente, já não é. Aqui, a criação é, em certo sentido, precária e, por isso mesmo, fecunda. Por um lado, quando reunimos uma equipe, não sabemos ser possível reuni-la novamente. Aí, o aspecto movediço e arriscado da empreitada: sustentar um projeto de estudo de longo prazo em parcerias flexíveis. De outro lado, conscientes dessa mesma liberdade, tornamo-nos abertos às diferentes perspectivas sobre os problemas da criação. Aí, o exercício pleno da alteridade: a aceitação de que diversos mundos podem co-existir.  Uma criação mais afeita aos sentidos da colaboração que ao pertencimento a um coletivo; mais inclinada a coerências provisórios que se instalam na composição da obra que a de identidade.

 

Assim, tudo o que escrevo sobre “Chuva Pasmada” é tão somente meu próprio ponto de vista sobre o espetáculo. Já vi Marcelo Lazzaratto e Alice Possani se expressarem de maneiras muito diversas dessa que faço. Todas elas possíveis!

 

Para mim, certamente diferente do que é para Marcelo, por exemplo, o espetáculo dá prosseguimento aos estudos sobre a dramaturgia de ator. Se em trabalhos anteriores, a criação fiou-se na apreensão e organização de materiais coletados pelo ator em observações de realidades cotidianas (pessoas, animais, imagens), aqui, igualmente isso fundamentou uma parcela do trabalho. Mas não tudo. Diferentemente dos espetáculos anteriores, aqui, a obra “Chuva Pasmada” (que também nomeia o espetáculo), escrita pelo moçambicano Mia Couto, foi ponto de partida. A própria adaptação de Cássio Pires antecede o trabalho dos atores em sala de ensaio. “Chuva Pasmada” é o único dos 04 espetáculos apresentados na Mostra Repertórios do Corpo que foi escrita antes dos ensaios se iniciarem.

 

Para nos aproximarmos de uma novo material criativo – o texto – sem abrir mão de procedimentos que fundaram outros trabalhos, procuramos, como estratégia, “observar” a obra literária. Isso se deu de duas maneiras: lemos com atenção a obra, procurando reconhecer, além da sua narrativa e seus acontecimentos, as pistas de corporeidades ali indicadas (um avô tão magro que poderia ser levado pelo vento, por exemplo; ou um menino tão pasmado quanto a chuva; um pai que, depois de retornar de muitos anos de trabalho nas minas, permaneceu ausente, não sendo o mais velho, mas o mais envelhecido de todos). Além disso, procuramos em imagens e pessoas ecos daquilo que líamos no texto – magreza, pasmaceira,  trabalho. Como que recebendo sugestões literárias e da realidade ordinária, os atores improvisavam procurando reagir corporalmente a esses referenciais.  Isso, como podem adivinhar aqueles que acompanham meus estudos, aprofundou minhas investigações sobre a observação e imitação – mimese corpórea.

 

Depois, esses materiais todos, em confronto com a fábula mesmo (o desenvolvimento da narrativa) foram transformados, adaptados. O que se vê em cena, assim, é resultado também de muitas interações.

 

“Chuva Pasmada” estimula novos passos em meus trabalhos sobre a dramaturgia de ator: revendo a abordagem da mimese corporal; possibilitando novas maneiras de interação com a literatura; fundamentando novos diálogos com o texto teatral.  Todas essas questões aguardam a sua teorização a apontam para novos campos de estudo, como a criação de um próximo trabalho a partir de uma dramaturgia da tradição euro-ocidental.

Invento-inventário: “Eldorado”



O espetáculo “Eldorado” foi criado a partir do estudo da rabeca: instrumento de arco e cordas, parecido com o violino, presente em muitas manifessações da cultura popular do Brasil.

 

Uma das características fundamentais da rabeca é a ausência de padrões na sua construção e execução. As rabecas variam no seu formato, número de cordas, afinação. A rabeca não é um instrumento fabricado em série. É produzido não por indústrias, mas por artistas-artesãos. Por isso, não há uma rabeca igual à outra, já que nem dois instrumentos construídos pelo mesmo artesão seguem padrões: um construtor não procura fazer um instrumento igual ao feito anteriormente. Disso resulta que cada rabeca possui suas características peculiares, “uma voz própria”. Cabe àquele que pretende tocá-la, reconhecer suas características, sua afinação, sua “personalidade”, sua “voz”, enfim. “A rabeca tem fala bonita”, ensinou Seu Agostinho Gomes, construtor do instrumento de Cananéia (SP). Cada uma tem a beleza de sua fala.

 

Essa ausência de padrões parece incorporar, como analogia, as origens do povo brasileiro que, como aponta Darcy Ribeiro, é “povo em fazimento”. Povo que não se caracteriza por reproduzir no além mar o mundo europeu. Tampouco um povo marcado, como são o México ou o altiplano andino, pela fusão de suas altas civilizações à cultura do homem branco colonizador. “Somos um povo em ser”. Para o antropólogo, o principal produto da colonização não seria outro senão a fundação desse novo povo-nação, diverso de todos os outros do planeta, fundado na mestiçagem: os brasileiros.

 

A fim de aprofundar meus conhecimentos sobre o instrumento, realizei, em 2007, uma viagem ao litoral sul de São Paulo, especialmente nas cidades de Iguape e Cananéia. Ali, percorri parte do circuito do Museu Vivo do Fandango que, não possuindo uma sede única, compreende um circuito de visitação pelas cidades de Iguape e Cananéia (em São Paulo), Guaraqueçaba, Paranaguá, e Morretes (no Paraná). Na viagem, coletei ações, histórias, causos e músicas de rabequeiros e construtores de rabeca.

 

Desse processo, acabou por se criar um personagem: um cego com sua rabeca. A partir desses materiais atorais, o dramaturgo argentino Santiago Serrano criou uma dramaturgia inédita.

 

O diretor convidado para conceber a encenação do espetáculo foi Marcelo Lazzaratto, Professor Doutor do Depto. de Artes Cênicas da UNICAMP e diretor da Companhia Elevador de Teatro Panorâmico.

 

A concepção de “Eldorado” apóia-se exclusivamente no trabalho de ator em relação ao espaço e à luz. O trabalho não apresenta cenário. Sobre o palco coberto por linóleo preto (caixa preta) a iluminação destaca uma presença humana. Assim como esse cego não vê os lugares por onde anda, igualmente o espectador não enxerga essas paisagens. Entretanto, se não se pode vê-las, é possível senti-las. Personagem e espectadores inventam realidades: ficção, lugares e conhecimento.

 

Poeticamente, a luz “ilumina” o cego em sua jornada pelo auto-conhecimento. Ele não a enxerga, mas a sente. Assim, a luz indica caminhos.

 

O cego conversa consigo mesmo e com a “Menina” que o acompanha. Se, pelo corpo, o cego intui mares, floressas, tesouros e amazonas, pela linguagem verbal nomeia esses elementos. O cego não lê palavras; elas é que lêem a realidade que ele pressente.

 

Nosso homem cego de “Eldorado” não dorme: sua vida é um constante despertar. Ele carrega uma sacola, onde está escondido o seu maior tesouro. Porém, ele nada sabe disso ou finge que não sabe. Será preciso que também ela “ilumine” seu caminho.

 

Eldorado é um espetáculo em que não percebemos os limites entre espaço interior e espaço exterior. Entre som e luz. Entre materialidade e espírito. Nosso homem cego dilata sua percepção estimulando seus sentidos para poder, através do outro, ou seja, do tesouro que traz em sua sacola, se lançar ao fluxo ininterrupto da vida.

 

Essa pesquisa de montagem é analisada na minha tese de Doutoramento em Artes: “Eldorado: dramaturgia de ator na intracultura”.

 

 

Novos Vídeos de “Eldorado”



Em celebração à realização da Mostra Repertórios do Corpo, no SESC Campinas, lançamos a nova galeria de vídeos de divulgação do espetáculo “Eldorado”. Reunimos, nessa galeria, clipe e entrevistas sobre a turnê do espetáculo pelo Vale do Ribeira, em São Paulo – região onde o ator, anos antes, havia realizado pequisas de campo que fundaram a criação do trabalho.


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