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Tradição e inovação

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O poeta e ensaista Octavio Paz desenvolveu uma interessante tese acerca da modernidade euro-ocidental. Fundado num certo elogio à transformação, este moderno recusou tudo o que lhe parecia estagnado, como  os conceitos de tradição, repetição etc. Ao criar linhas continuas de rompimento com concepções arcaicas, porém, a modernidade gerou, paradoxalmente, uma nova tradição: a tradição da ruptura.

 

O teatro, não raro, valeu-se desta espécie de recusa dos seus antecedentes como um mote para a construção de inovações da linguagem. Esta, no entanto, não é a única estratégia possível. Artistas russos do início do século XX, por exemplo, procuraram a renovação do teatro justamente no tensionamento com tradições outras, como as asiáticas.

 

Seguindo esta trilha, vemos contemporaneamente  um renovado interesse por tradições não euro-ocidentais – indígenas, africanas, asiáticas etc. E este contato com outras formas de expressar o humano empurram o teatro para a busca de outras formas para a linguagem cênica.

 

Há, assim, um jogo entre tradição e ruptura. Por um lado, a palavra tradição não é apenas um amontoado de saberes parados num passado longínquo. Por outro, a pesquisa do novo é impulsionada por relações de alteridade – não só descontinuidades, mas também abertura à continuidades diversas. Desta maneira, podemos ver um novo tensionamento entre tradição e ruptura no lugar da tradição da ruptura.

 

Shakespeare escreveu que “o mundo todo é um palco”. E, hoje, diga-se, este mundo é vasto e diverso como nunca. A tentativa de encená-lo poderá empurrar o teatro para as suas bordas.

Teatro: jogo e aprendizado


Convidado a ser o paraninfo da primeira turma de formandos da Escola Superior de Artes Célia Helena, fiz o meu pronunciamento na cerimônia de colação de grau, na noite do dia 22 de março de 2011. O texto a seguir é a transcrição deste discurso.

 

Srs. pais e familiares, professores, ex-alunos – tornados, agora, colegas de trabalho,

 

Hoje, como sociedade, formamos novos profissionais das Artes Cênicas. Essa é uma verdade incontesável. Mas é também uma verdade parcial: junto com esses artistas de palco, forma-se também uma instituição de ensino – a Escola Superior de Artes Célia Helena. Espelhada nos primeiros profissionais que forma, a escola, enfim, reconhece a sua própria cara.

 

Começo por essa constatação porque isso diz muito a respeito de um aprendizado possível no teatro: enquanto ensinamos, nos formamos; enquanto atuamos, procurando revelar mundos, outros tantos mundos nos são revelados. Isso porque o conhecimento gerado na cena não é exclusivamente estudado nos livros. É também um saber empírico que nasce do próprio ato de experienciar as coisas vividas. Um conhecimento tácito que se lê não só no texto escrito, mas também se descobre no próprio corpo, se advinha em si. Sabedoria que nasce do ato: atuação. Assim, quem aprende não é aquele que detém menos conhecimento, mas aquele que se abre para conhecer regras de jogo; e, como escreve Guimarães Rosa, “mestre é aquele que, de repente, aprende”.

 

Como jovem artista e professor, fico tranquilo ao imaginar, sonhar, que para vocês o jogo tenha sido tão intenso quanto foi para mim. Caros ex-alunos, obrigado pelas aulas!

 

Imbuídos deste jogo dos últimos três anos, não nos esqueçamos de que o aprendizado, não raro, é mais potente através da experiência que pelo aconselhamento. Lembremos que aquele que está no palco não sabe mais do que aquele que está na plateia. Que igualmente isso não nos impeça de ter um ponto de vista sobre as coisas – que mesmo não sendo melhor ou pior que qualquer outro, é um ponto de vista possível e, por isso mesmo, fundamental. Que, assim, da experiência da sala espetáculos saiam todos, artistas da cena e espectadores, fortalecidos para as suas lutas cotidianas – as comuns e as pessoais. Possamos juntos conferir sentidos à nossa tarefa humana de fazer algo nós mesmos.

 

Realizar o humano em si não é facil, sabemos que não. Ainda mais quando o contexto que se vê é profundamente desumano: violência e injustiça. Haverá ainda as dificuldades impostas por uma nação que não reconhece o papel insubstituível da arte na construção do imaginário do seu povo.

 

Como artistas, não raro, os tempos que seguirão nos parecerão duros. Mas tenho certo de que não serão mais duros que para médicos e dentistas, professores e advogados, lixeiros e cozinheiros, motoristas e donas de casa na especificidade de seus ofícios. Sobretudo, não serão mais duros que para os mais de 85% dos jovens em idade universitária, entre 18 e 24 anos, e que, segundo dados estatísticos do Ministério da Educação, ainda hoje não têm acesso a um curso superior, no Brasil – e que, antes, não foram atendidos em seu direito de acesso aos ensinos fundamental e médio de qualidade.

 

Lembro isso porque, como jogadores, temos também a responsabilidade da escolha pelos jogos que jogamos. A experiência desta colação de grau também nos revela que um bom jogo propicia aprendizado para si e para muitos outros. Saber ampliar o jogo do teatro em círculos cada vez mais amplos e transformadores é responsabilidade de jogadores formados!

 

Assim, ainda que tiremos “difícil de dificel”, como “peixe vivo no moquém”, saibamos prosseguir jogando, partilhando travessias. No enfrentamento coletivo das dificuldades, assim como na celebração de nossos passos, possamos uma vez mais tomar lições de Guimarães Rosa: “Agora que eu principiei e já andei um caminho tão grande, ninguém não me faz virar e nem andar de-fasto!”

 

Sorte na vida de vocês, atores!


Vida longa e próspera a esta escola!