animação

O menino de rua fala inglês

 

Estamos na Escócia, onde participamos do Edinburgh Festival Fringe com “Agora e na Hora de Nossa Hora” – traduzido, aqui, para “Now and at the Time of Our Turn”. Para saber mais sobre o espetáculo, clique aqui. E para saber mais sobre o seu processo criativo, clique aqui. Para ajudar a divulgar o trabalho entre amigos europeus, acesse nosso flyer eletrônico, aqui.

 

Enfrentamos, aqui, um desafio: como ultrapassar a barreira do idioma em apresentações fora do Brasil? Este não é um obstáculo novo, mas algo já enfrentado outras vezes com maior ou menor grau de dificuldade – na Espanha, na Suíça, no Kosovo, no Marrocos.

 

A solução mais imediata, é certo, seria que a peça se apresentasse na língua local ou, pelo menos, que se legendassem as apresentações. Aí, no entanto, outras dificuldades. A primeira: meu inglês é raso, no máximo o tenho como instrumental de leitura ou para o pedido urgente e desesperado de alguma refeição ou ajuda – nem me atrevo a fazer nenhuma referência aos idiomas árabe ou albanês, por exemplo. A segunda: o espaço da peça é próximo da arena, com grande proximidade entre ator/espectador, inclusive com o primeiro dirigindo-se diretamente ao outro. Legendar a peça, portanto, poderia interromper o fluxo de comunicação direta que a fundamenta, com espectadores dispersando-se do contato com o ator e transferindo a sua atenção para a legenda (que, aliás, deveria, ser projetada em 4 diferentes direções. A arena, neste aspecto, traz grandes dificuldades técnicas).

 

Assim, a resolução da questão do idioma necessariamente deveria estar apoiada mais na encenação e menos no recurso tecnológico. Verônica Fabini, diretora do espetáculo, propôs um procedimento que, até aqui, tem fundamentado nossas empreitadas “gringas”. Pedrinha, personagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, tem urgência em comunicar seu drama. Porém, já sabe de antemão que falhará em seu objetivo: narrar a dor e o desassombro de uma noite em que um dos braços armados do Estado, a polícia, matou crianças na porta da igreja – a Chacina da Candelária. Aqueles que o ouvem, afinal, sendo brasileiros, portugueses, ingleses, árabes ou albaneses, jamais poderão compreender inteiramente aquilo que se fala. Somos todos estrangeiros à realidade cotidiana de quem faz da rua casa.

 

Ainda assim, Pedrinha não desiste de seu intento. Para realizá-lo, usará de todas as formas de comunicação possíveis: o português, as palavras poucas aprendidas em outros idiomas, sons e grunidos, o corpo, enfim. Em nossas apresentações, desta maneira, usamos muitas línguas para construir a linguagem da cena. Em Edimburgo, especialmente, usamos muito o inglês, mas também palavras em espanhol e italiano – o “spanglish” dos imigrantes.

 

Essa necessidade de se fazer entender, diga-se, não é uma invenção de Pedrinha. É cotidiano dos meninos e meninas de rua do Rio de Janeiro. Lá, os meninos falam aos turistas com seu inglês, reinventando-o à sua maneira. É célebre o episódio em que meninos de rua dirigiram-se à turistas sul-africanos, nos arredores da Candelária: “Hey, gringo! Have money para mangiare?” Um dos antecedentes da Chacina da Candelária, o polêmico episódio, meses antes da matança, já evidenciava a tensão crescente das desigualdades sociais brasileiras – a opulência dos que tem muito para se divertir, concretizada, aqui, no país-paraíso dos turistas, e a necessidade dos que têm quase nada para sobreviver.

 

Assim, se por um lado o idioma constitui barreira primeira para a comunicação, de outro, a direção do espetáculo transformou esse obstáculo em procedimento de encenação. A dificuldade de acesso à língua (um bem de garantia dos recursos materiais para a vida e também de construção de imaginário), aprofundando o apartheide social em que ainda se vive no Brasil e no mundo.

Ator de Campinas encena Chacina da Candelária em igreja da Escócia

 

Eduardo Okamoto leva seu solo a um dos maiores festivais de artes do mundo

 

Eduardo Okamoto não está desacostumado a encenar fora do País seu espetáculo solo “Agora e na Hora de Nossa Hora”, que retrata a Chacina da Candelária. Mas, dessa vez, um dado faz toda diferença: em sua passagem pela Escócia de 5 a 19 de agosto, o ator coloca o solo à mostra dentro de uma igreja, espaço onde acontece o Festival Fringe, um dos maiores do mundo, na cidade de Edimburgo. “A gente sempre quis fazer em uma igreja […] o sonho é encenar na Candelária”, revela Okamoto.

 

Na Candelária, a ideia dificilmente irá se concretizar, mas as 15 apresentações que o ator fará na Escócia têm um ar particular, de ineditismo, que em alguns aspectos remontam o cenário dos assassinatos. “É como se o tema reencontrasse seu lar”, declara à reportagem do EP Campinas por telefone.

 

Okamoto já está no país europeu, e ganhou atenção dos maiores jornais locais, que se interessaram por sua apresentação. “As pessoas mais jovens têm alguma lembrança, os mais novos não”, diz, sobre o conhecimento que percebeu dos escoceses referente à chacina.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” já foi apresentado em países como Suíça, Kosovo e Espanha, e Okamoto acha notável as diferentes reações do público. A história recente de Kosovo, marcada por conflitos, fizeram com que as cenas mais violentas despertassem a lembrança dos locais. “A memória de guerra é acessada imediatamente”, acredita.

 

O solo de Eduardo Okamoto, mesmo quando excursiona fora do Brasil, é falado prioritariamente em português, com inserções pontuais da língua local. Para o ator, a força da história torna o tema universal, além das barreiras do idioma.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora”
O espetáculo já cumpriu temporada em São Paulo e foi apresentado em alguns dos principais festivais de teatro do Brasil, entre eles: Filo (Londrina); Festival Internacional de Teatro de S. J. Rio Preto (FIT); Cena Contemporânea de Brasília; Riocenacontemporanea (Rio de Janeiro). Em diversos festivais nacionais o trabalho foi agraciado com prêmios.

No exterior, já esteve no Festival Internacional de Teatro de Lugo e Festival Internacional de Teatro de Santiago de Compostela (Espanha); Festival Internacional de Teatro de Lugano (Suíça); Skena Up International Film and Theatre Festival, em Prístina (Kosovo); e Festival Internacional de Expressão Corporal, Teatro e Dança de Agadir, no Marrocos, onde levou o prêmio de melhor ator.

 

Eduardo Okamoto
É ator graduado em Artes Cênicas, Mestre e Doutor em Artes pela Unicamp. Desde 2000, pesquisa o trabalho de ator sob orientação do Lume (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa Teatrais da Unicamp). Recentemente, o ator foi indicado ao Prêmio Shell como melhor ator da temporada 2009, por um outro solo,  “Eldorado”.

 

*Fonte: http://eptv.globo.com/campinas/variedades/NOT,1,1,361931,Ator+de+Campinas+encena+Chacina+da+Candelaria+em+igreja+da+Escocia.aspx

“Agora e na Hora de Nossa Hora” estréia em Edimburgo

 

Estreamos, enfim, no Edinburgh Festival Fringe 2011! Apresentações bonitas, com públicos de diferenets partes do mundo: França, Polônia, Alemanha, Holanda, Brasil. Curiosamente, a cidade tem uma grande comunidade brasileira e, além disso, o festival recebe muitos produtores de diversas nacionalidades, inclusive brasileiros.

 

Hoje, uma produtora polonesa, depois de ver a peça e saber mas sobre o fato histórico que ela apresenta (a matança de oito meninos de rua por policiais: a Chacina da Candelária), fez uma pergunta simples e desconcertante: por que os policiais matam crianças? A pergunta não é nova. E, como em outras vezes, eu me enrolei muito para respondê-la. Depois, lembrei de um texto, escrito como parte de meu trabalho de doutoramento. De certa maneira, ele sintetiza duas experiências opostas – ambas elucidam motivações para apresentar o trabalho no exterior. O texto está abaixo, adaptado.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora”, um espetáculo sobre meninos de rua, foi criado a partir de pesquisas sobre a dramaturgia de ator. A partir da observação e imitação de crianças e adolescentes em situação de rua foi criado um repertório corporal e vocal que serviu de base à criação das cenas.

 

Esta interação com meninos de rua foi, desde o início do processo criativo, estendida à realização de oficinas de arte (circo, dança, artes plásticas e música) no projeto “Gepeto”, da ONG ACADEC, em Campinas. A partir de atividades muito simples, como malabares com pedras tiradas do trilho do trem, vi meninos de rua abandonando o vício do crack e até mesmo voltando para suas casas. Eis a força e a necessidade da arte!

 

Entretanto, também vi, repetidas vezes, que quando um menino de rua pretendeu mudar a sua vida, rígidas estruturas sociais o impediam: a bem da verdade, não sabemos o que fazer com o menino de rua que não quer mais ser um menino de rua; como se relacionar com ex-marginal?

 

Nas amarras sociais, novas inquietações: afinal, o que pode a arte? É necessária uma arte que pode transformar tão pouco? Na busca por respondê-las, esforcei-me ainda mais na apresentação do espetáculo. É preciso, pensava eu, aproximar mundos, o dos incluídos e dos excluídos; a arte poderá ser mediadora. Assim, a partir de 2006, “Agora e na Hora de Nossa Hora” realizou temporada em São Paulo, percorreu festivais no país e chegou a ser apresentado no exterior, em festivais na Espanha, na Suíça, no Kosovo e no Marrocos.

 

No exterior, em especial, foram curiosas as reações da audiência: “Por que policiais assassinam meninos de rua?”, perguntavam-me na Espanha. “O que mudou em seu país depois do seu espetáculo?”, perguntavam-me na Suíça. Perguntas simples, quase ingênuas, de quem vive distante da realidade em que vivemos – lembro que, na Suíça, pude caminhar na madrugada pelo centro da cidade sem medo; nem a polícia eu temi! E, no entanto, como era difícil respondê-las. Facilmente eu disse: “A polícia assassina crianças atendendo a uma pressão social porque, na verdade, incomoda muito a idéia de que, coletivamente, não sabemos como incluir os excluídos”. Resposta pronta, na ponta da língua.

 

Porém, dada a resposta, ecoavam ainda as perguntas: como o povo brasileiro pode conviver tão bem com a idéia de que grupos de extermínio são formados cotidianamente para matar gente pobre? Mais: qual a força de um espetáculo de teatro para transformar este fato cruel? O que mudou em meu país depois do meu espetáculo? Para quê o teatro neste contexto? À toa?

 

Em novembro de 2007, o espetáculo é apresentado no Skena UP, no Kosovo. O convite para se apresentar no festival foi formulado por Bekim Lumi, curador do Skena UP, que o havia assistido no evento suíço. No Kosovo, país que ainda procura se reconstruir depois de uma das guerras mais sangrentas da segunda metade do século XX, a experiência era justamente oposta àquela vivida na Suíça: enquanto nos Alpes, o mundo ideal apresentava-se como possível, nos Bálcãs, tudo parecia restrição. Ali, onde a realidade sócio-política parece tão hostil, nenhuma pergunta sobre a função da arte.

 

Na Universidade de Pristina, o principal curso de formação teatral do país é ministrado em apenas duas salas de aula: uma para as aulas teóricas e outra para as aulas práticas. Como o país enfrentava intenso racionamento de energia, parte das aulas da Universidade acontece à luz de velas. Lembro ainda que o inverno no Kosovo é rigoroso e, possivelmente, sem energia excedente, as salas de aula careçam de um eficiente sistema de calefação. Ainda assim, neste lugar em que o teatro parecia improvável, ele acontecia. Os alunos que conheci, os mesmos que apresentavam entusiasmados seus professores, relataram que as aulas são assiduamente freqüentadas por seus estudantes.

 

E não havia nesta vivência da arte, nenhum discurso sobre a necessidade de resistência do teatro. Fazia-se teatro pelo prazer de fazê-lo. Resistência que se constrói não no discurso da necessidade da arte, mas na alegria de vivenciá-la. Pude observar isto também na atitude de outros artistas que levaram espetáculos para o festival, cuja realidade social parecia igualmente hostil à criação: assim eram os trabalhos do Irã, da Albânia, da Macedônia e do meu país, o Brasil. Onde a necessidade de reconstrução da realidade é tão urgente (refiro-me mesmo à construção da realidade material, socialmente partilhada: postos de saúde, praças, escolas, instituições públicas), uma quantidade grande de jovens se dedica à inutilidade da arte.

 

As apresentações no exterior sempre nos colocam em xeque: o mundo tem muitos jeitos. Em Edimburgo, estamos oferecemos um deles para ser debatido: o nosso.

Cartaz “Agora e na Hora de Nossa Hora” em Edimburgo


 

Flyer “Agora e na Hora de Nossa Hora” em Edimburgo


Este é o flyer de divulgação das apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no Edinburgh Festival Fringe na Escócia!

 

Frente:

 

Verso:

“Agora e na Hora de Nossa Hora” é destaque em Edimburgo


O texto abaixo, publicado em guia do Festival de Edimburgo, destaca a participação de três espetáculos brasileiros no evento. Entre eles, “Agora e na Hora de Nossa Hora”!

 

O solo de Eduardo Okamoto desembarca em solo escocês no período de 05 e 19 de agosto. Lá realiza 13 apresentações.

 

 

Fonte: http://edinburghfestival.list.co.uk/article/35725-brazilian-dance-highlights-at-edinburgh-2011/

 

Now and at the Time of Our Turn, Parallel Memories, My Voluntary Punishments and Another Cappadocia

 

Long known for its rich dance tradition, Kelly Apter finds Brazil’s contemporary dance companies responding to all aspects of the country’s diverse culture

 

On 23 July 1993, eight boys aged 11–20 were shot and killed as they lay sleeping beside a church in Rio de Janeiro. Many of the off-duty policemen who committed the murders were tried, but only two convicted. The Candelária Massacre, or Chacina da Candelária as it’s called in Brazil, led to a national outcry about police brutality and – for a brief moment at least – highlighted the plight of the thousands of children sleeping rough on the streets of Rio each night.

 

Written and performed by physical theatre actor Eduardo Okamoto, Now and at the Time of Our Turn takes us back to that tragic night, from the point of view of a street kid who witnessed, but survived, the shooting. Okamoto found a way to embody somebody much younger and used to living in such extreme circumstances while working on a community arts project in the city of Campinas.

 

‘After the first few months co-ordinating the workshops, I started to imitate the street kids, collecting stories, actions, gestures, voices, etc,’ he says. Okamoto continued his work in São Paulo and then went on to Rio. It was there that the tragic events of 1993 began to emerge as possible material for a show. ‘Incorporating the Chacina da Candelária made me realise how revealing the event was on the subject of street kids’ lifestyles,’ he says, ‘and their interaction with a society that denied their existence until their death.’

 

Okamoto plays the fictional character of Pedrinha in the piece, a young boy who hides under a news stand while the shooting takes place. But although the show is based on a real-life event, Okamoto is keen for audiences to see beyond that, to the world-wide problem of childhoods lost through poverty. ‘Unfortunately, the slaughtering of those street kids was not an isolated case and still persists,’ he says. ‘That’s why our responsibility lies not with the kids that died but with the ones who are still alive. Now and at the Time of Our Turn is not a play about death, but about the life that is lost daily in corners of every big city in the world.’

 

Growing up in Brazil also helped to shape Parallel Memories, a dance duet which premiers at this year’s Fringe. Performed by Jean Abreu (whose powerful representation of prison life, Inside, was a highlight of last year’s Fringe) and Jorge Garcia, the piece is a very personal exploration of their lives to date.

 

‘Many strong and emotional moments came up,’ says Abreu. ‘Issues like childhood illness and conflicting relationships within the family were present for both of us. Parallel Memories looks at our journeys, where we are from and where we are now.’

 

A co-founder of Protein Dance before starting his own company, Abreu was born in Brazil but has lived in London for over a decade. He and Garcia first met in São Paulo in 2009, while Abreu was researching Inside. Garcia had made a dance work about a notorious Brazilian prison, and Abreu quickly realised the two man had ‘very similar artistic intentions’.

 

Like everyone, Abreu and Garcia were shaped to a degree by the culture and landscape that framed their childhood. And growing up in the fifth largest country in the world brings a lot of diversity. ‘We are both hugely influenced by Brazil, the culture, the people, the environment,’ says Abreu, ‘and we try to de-construct and analyse those influences during the course of the piece. However, it’s important to point out that Brazil is a huge and diverse country and although Jorge and myself are from a similar region – the north east – there are still major differences in our individual experiences of Brazil.’

 

Yet another aspect of Brazilian life is captured in Another Cappadocia, an intimate solo by contemporary dancer Daniel Jaber. Hailing from the city of Belo Horizonte, Jaber has explored the multifarious spiritual beliefs spread throughout his country. ‘Our society developed itself as a cultural melting pot,’ he says, ‘and there are more than 14 religions that coexist peacefully in the Brazilian culture. Each one has its own body language, movements, beliefs, and systems of worship linked to its roots.’

 

Like Abreu and Garcia, Jaber also used his childhood memories to shape the piece. ‘The concept of death, the rituals of spiritual protection, the constant presence of angels and their struggle to defeat evil – these are all images and impressions of my childhood reminiscences,’ he says, ‘which now impact on the creative process. My body is working to remember how the cultural context affected my life, my thoughts and my movement.’

 

Jaber’s solo is part of a double-bill of contemporary dance that also features My Voluntary Punishments, a group work by company Trama Cia de Dança. Inspired by French visual artist Annette Messager, the piece looks at how women are viewed in modern-day Brazil, both by themselves and others.

 

‘The work aims to defend and re-think women’s place,’ says director Joelma Barros. ‘It criticises the way women often accept and corroborate with the artificial models of beauty imposed on them by society. These frustrating models are causing emotional and social damage, but sometimes a problem is only perceived when it’s exaggerated in front of our eyes.’

 

In My Voluntary Punishments, the dancers perform before video projections, giving an abstract representation of what is taking place on stage. For Barros and company, the work deals with both the personal and political, posing questions about women’s lives and the country as a whole.

 

‘Brazil is a developing country with a very strong cultural background, but the external pressures are too great and we are suffering from the influence of the North American way of life,’ she says. ‘Brazil is one of the leading countries in plastic surgery and one of the main consumers of breast silicone prosthetics – it’s a contradictory title for a nation still struggling to overcame corruption, poverty and illiteracy.’

 

Now and at the Time of Our Turn, St George’s West, Shandwick Place, 0131 225 7001, 8–19 Aug, 12.20pm, £9–£12 (£7.50–£9.50); previews 5–7 Aug, £7.50.


Parallel Memories, C, Chambers Street, 0845 260 1234, 14-29 Aug, 2.15pm, £9.50–£11.50 (£7.50–£9.50).


My Voluntary Punishments – Another Cappadocia, Greenside, Royal Terrace, 0131 557 2124, 15–27 Aug (not 21), £8 (£6.50).

Espetáculo “Chuva Pasmada” e oficina Dramaturgia do Corpo no SESC São Carlos

 

 

Na próxima semana, o espetáculo “Chuva Pasmada”, parceria com Matula Teatro, será apresentado em São Carlos. Ali, o ator Eduardo Okamoto também ministra a oficina “Dramaturgia do Corpo”, como parte do projeto Sábado Cênico, na unidade do SESC desta cidade.

 

A pesquisa artística no teatro é o ingrediente essencial dos Sábados Cênicos – série de encontros mensais dedicados ao teatro e a seus agentes, no SESC São Carlos. Uma oportunidade para que o público interessado possa dialogar o seu fazer artístico com profissionais ligados às artes cênicas e seus diversos aspectos construtivos. Desta vez, o tema escolhido é a Dramaturgia do Corpo – as relações entre o potencial expressivo do corpo e a produção dramatúrgica, através de uma vivência com Eduardo Okamoto, Ator, Bacharel em Artes Cênicas, Mestre e Doutor em Artes pela Unicamp. Atividade voltada a profissionais do teatro, professores, bailarinos e atores amadores. Sala de Atividades Corporais. Inscrições na Central de atendimento. São disponibilizadas 16 vagas.

 

“Chuva Pasmada” será apresentado apresentado no dia 27/07, às 20h, no teatro do SESC São Carlos. Os ingressos custam de R$ 1,50 a R$6,00. Mais informações podem ser otidas pelo telefone: 16 3373 – 2333.

Espetáculo “Chuva Pasmada” o oficina em S. J. Rio Preto e Bauru



Na próxima semana, o espetáculo “Chuva Pasmada”, parceria com Matula Teatro, se apresenta em Bauru e São José do Rio Preto. Nesta última cidade, o ator Eduardo Okamoto ministra a oficina “Dramaturgia do Corpo” na unidade do SESC Rio Preto.


SESC BAURU

Espetáculo “Chuva Pasmada”

Data: 26/05/2011 às 21h

Informações: 14 3235-1750 / sescbauru


SESC RIO PRETO

Espetáculo “Chuva Pasmada”

Data: 28/05/2011 às 20h / sescriopreto


Oficina: “Dramaturgia do Corpo” – com Eduardo Okamoto

Datas: 28 e 29/05/2011

Horário: 10h – 13h

Informações: 17 3216-9300 / sescriopreto

Espetáculo “Eldorado”em curtíssima temporada em São Paulo

 

 

De 04 a 25 de junho de 2011,  o solo “Eldorado” volta ao cartaz em 04 únicas apresentações, aos sábados, no SESC Ipiranga. As apresentações estão inseridas no projeto Teatro Mínimo.

 

O projeto pretende apresentar monólogos baseados essencialmente no trabalho de interpretação do ator, trazendo textos, consagrados ou autorais, que tenham como foco o trabalho de expressividade do intérprete.

 

ELDORADO

De 04/06 a 25/06. Sábados, às 19h30. Auditório.

 

Acompanhado por uma “Menina”, um cego busca encontrar Eldorado. Ele procura, no tempo e nos lugares da viagem, o espaço para a humanidades onde o viajante é atravessado enquanto cruza geografias. Nesse espaço, todo homem é único e igual a todos os demais. O espetáculo nasce da observação da realidade, da interação com construtores e tocadores de rabeca, instrumento de arco e cordas, parecido com o violino, presente em muitas manifestações da cultura popular do Brasil.

 

Concepção, pesquisa e atuação: Eduardo Okamoto.

Dramaturgia: Santiago Serrano.

Direção Marcelo Lazzaratto.

 

Não será permitida a entrada após o início do espetáculo.

Auditório. 40 lugares.

Acima de 14 anos.

R$ 12,00 (inteira); R$ 6,00 (usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino). R$ 3,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes).

 

SESC IPIRANGA

Rua Bom Pastor, 822 Fone: 3340 2000

Eduardo Okamoto no Festival Ruínas Circulares

 

Teve início neste sábado (30/04) a 3ª edição do festival, uma iniciativa conjunta da Fundação Nacional de Artes (FUNARTE) e a Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

 

Desde o ano passado, além da apresentação de espetáculos, o evento se divide em dois, que acontecem simultaneamente, mesclando teoria e prática; o Seminário Nacional de Pesquisa em Teatro e as Noites Performáticas.

 

Para este ano, o Ruínas Circulares traz ainda mais inovações para enriquecer sua passagem: a instituição de um eixo temático e de um maior espaço dedicado à crítica – tanto em formatos experimentais quanto de forma mais especializada, com o objetivo de estimular/intensificar, tanto nos atores quanto no público, o debate, a reflexão e a avaliação crítica.

 

Na agenda deste ano, espetáculos do Brasil, Chile, Peru, Colômbia e Espanha. Confira a programação completa (Espetáculos, Oficinas, Seminário e Noites Performáticas), bem como os procedimentos para inscrição nas oficinas, no site do Festival.

 

O ator Eduardo Okamoto participa da edição deste ano com o espetáculo “Eldorado” e a oficina “Dramaturgia do Corpo”. O espetáculo será apresentado  no dia 06 de maio, às 20h, no Teatro Rondon Pacheco. A oficina, cujas vagas já estão preenchidas, acontece nos dias 06 e 07 de maio, das 09 às 13h, no Bloco 03 da UFU, Campus Santa Mônica.

 

Para saber mais e conferir a programação completa, acesse o site do festival.

“Chuva Pasmada” no SESC São José dos Campos


 

Parceria de Eduardo Okamoto e Alice Possani, do Matula Teatro, “Chuva Pasmada” chega ao SESC São José dos Campos.

 

A apresentação é parte da circulação que o espetáculo realiza pelo interior de São Paulo.  Em 2011, 0 trabalho já se apresentou nas cidades de Santos, Riberão Preto, Araraquara e Campinas.

 

Depois de São José dos Campos, o  espetáculo ainda segue para Piracicaba e Bauru.   Em breve, publicaremos aqui mais detalhes.

 

Para saber mais sobre o espetáculo, clique aqui.

 

Serviço:

“Chuva Pasmada” no SESC São José dos Campos

Dia: 20/04/2011

Hora: 21h

Endereço: Av. Ademar de Barros, 999. Jardim São Dimas

Ingressos: de R$ 2,00 a 8,00

Informações: 12  3904-2000


Invento-inventário: “Agora e na Hora de Nossa Hora”


 

O texto abaixo, que descreve a criação de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, é fragmento de meu trabalho de Mestrado em Artes na UNICAMP. Para conhecer a íntegra do texto, clique aqui.

 

Entre 2002 e 2004, eu contribuí para a concepção e desenvolvimento do projeto “Gepeto – Transformando sonhos em realidade”. “Gepeto” é uma parceria entre a Ação Artística para Desenvolvimento Comunitário – ACADEC e o Centro de Referência em Atenção Integral à Saúde do Adolescente – CRAISA. Seu objetivo principal é a diminuição da vulnerabilidade de crianças e adolescentes em situação de risco através de atividades artístico-culturais que estimulem a auto-estima, o prazer e a capacidade de ser feliz. O “Gepeto” inclui a realização de oficinas de circo (por mim coordenadas), música, artes plásticas e dança.

 

Quando eu iniciei os trabalhos nas oficinas de circo, eu não pretendia criar um espetáculo em que meninos de rua estivessem representados. Entretanto, passados alguns meses de intenso envolvimento nas atividades do projeto “Gepeto”, a criação de um espetáculo era mais que um projeto artístico; era uma necessidade. Na medida em que interagia com os adolescentes das oficinas, em mim se imprimia a invencível força de vida dos meninos de rua. E impressão, exige expressão. O espetáculo pretende-se formalização artística desta força vital. Sejamos suficientemente inteligentes para incorporá-la na construção de nossa sociedade.

 

É também a inquietação de um artista que reconheceu, junto aos meninos, um pouco de si. Meninos de rua são crianças e adolescentes cujo caráter se forma no seio de nossa organização social; vivem no espaço que, por excelência, é local de encontro dos sujeitos de nossa sociedade – a rua. São, portanto, um pouco fruto de nós mesmos. Assim, revelam contradições próprias de nosso povo: meninos de rua representam, ao mesmo tempo, a perda do nosso Paraíso (a terra que é “Gigante pela própria natureza”) e o nosso desejo de ainda apostar no futuro, nos herdeiros da pátria amada. Entendê-los é entendermo-nos. Conhecer-lhes os nomes, os sonhos, é também saber de nós mesmos. Saber escutá-los é também reinventarmo-nos: reconhecer a condição marginal que nos cabe na (des)ordem do mundo e abandonar o modelo do colonizador que gera e nega nossa condição.

 

Nesta busca, em “Agora e na hora de nossa hora”, é representada a Chacina da Candelária. Talvez nunca em nenhum outro momento da história fora tão evidente o incômodo que meninos de rua representam: nosso projeto social fracassou. A Chacina é tomada aqui como modelo revelador de uma conduta. As especificidades que a marcaram revelam um comportamento geral de nossa sociedade: gerar e negar.

 

Na madrugada do dia 23 de julho de 1993, o susto: no coração financeiro do Rio de Janeiro, oito crianças e adolescentes em situação de rua são assassinados. A chacina ganha a imprensa, repúdio da nação e de outros países. E, no entanto, a cada mês, na cidade de Campinas, entre oito e dez menores de idade são exterminados – uma Candelária por mês! Na cidade onde aconteceu a chacina, o Rio, são aproximadamente 450 crianças e adolescentes assassinados por ano!

 

Por que os assassinatos da Candelária ganharam os noticiários de todo o Brasil e do mundo e pouco se fala de todos os atentados que, cotidianamente, se pratica contra a infância e juventude brasileiras? Uma resposta possível: o horror não foi contra o assassinato de meninos de rua, mas porque a matança aconteceu na porta de casa!

 

Naquela noite, 72 meninos e meninas dormiam nos arredores da Candelária. Muito se falou do que deixou de ser feito pelos oito meninos assassinados. Poucas foram as vozes que lembraram que ainda se podia fazer muito pelos 64 sobreviventes e por todos os jovens que ainda vivem em situação de rua. Resultado: pelo menos outros 40 meninos que estiveram na Candelária também foram assassinados. Uma chacina com, pelo menos, 48 vítimas!

 

Ao representar um acontecimento histórico não pretendo, no espetáculo, restringir-me ao documentário. À pesquisa sobre a chacina, acresci a observação de meninos e meninas de rua de Campinas, Rio de Janeiro e São Paulo (onde cheguei a passar uma madrugada inteira na rua, experimentando a sensação de nela viver). A isto somei, ainda, a inspiração em “Macário”, de Juan Rulfo (a realidade dos marginalizados retratada pela literatura dos povos marginalizados da América Latina).

 

A partir do que se sabe sobre a histórica madrugada, imaginei uma personagem ficcional: Pedro, o Pedrinha, é um menino que resistiu a Chacina – sobre a banca de jornais, ele assistiu a tudo, em silêncio. Ao narrar os acontecimentos da madrugada para os espectadores, os primeiros a chegar ao local da Chacina, Pedrinha revela uma sociedade que nega (até a morte!) meninos de rua. O compromisso do espetáculo é com a revelação desta sociedade e não com a fidelidade aos acontecimentos históricos. A história muda a História na busca de que, um dia, ela não mais se repita.

 

Engana-se aquele que procura no espetáculo simplesmente a matança de jovens pobres. “Agora e na hora de nossa hora” não é um grito de morte. Nunca se deve esquecer que o que o motiva é a força vital dos meninos que eu conheci. “Agora” é grito de vida; a vida que perdemos em nossas esquinas.

 

Em mão contrária a uma certa “cultura da evitação” em que uma parcela da sociedade
evita outro grupo social a qualquer custo – porque danadamente a amedronta -, o espetáculo sugere diálogo. Saibamos dialogar com a diferença (discurso que mesmo já muito banalizado é sempre bem vindo). No diálogo do diverso, são despotencializados os desentedimentos e a violência.

 

Que eu possa, ao apresentar o espetáculo, não me restringir ao retrato da tragédia social, mas estimular no espectador um processo análogo àquele que eu vivenciei ao lado dos meninos: conhecer o outro e reconhecer a si mesmo. Possamos todos nós construirmos na alteridade nossa identidade. Na rua, nos encontros de seus espaços, reconheçamo-nos como povo.

Novos Vídeos de “Chuva Pasmada”



Em celebração à realização da Mostra Repertórios do Corpo, no SESC Campinas, lançamos a nova galeria de vídeos de divulgação do espetáculo “Chuva Pasmada” – trabalho em parceria com Alice Possani, do Grupo Matula Teatro . Reunimos, nessa galeria, clipe e entrevistas sobre o processo de criação do espetáculo.


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Invento-inventário: “Chuva Pasmada”



 

“Chuva Pasmada” é fruto de parceria com Alice Possani, do Grupo Matula Teatro, de Campinas. Sendo um dos fundadores desse grupo teatral, desde 2005, desenvolvo meu trabalho como ator independente.

 

Além de Alice, participa do espetáculo outro parceiro de constante: Marcelo Lazzaratto – diretor desse espetáculo e também de “Eldorado”, além de iluminador de “Agora e na Hora de Nossa Hora”.

 

O espetáculo revela, assim, uma das estratégias que tem tornado possível o meu trabalho como artista: o estabelecimento de parcerias que, como o meu próprio processo de estudo e formação como ator, se estendem para além da criação de um espetáculo. Essas parcerias que se repetem (como se pode ver nas minhas interações com o Lume Teatro, a produtora Daniele Sampaio e com a diretora Verônica Fabrini)  constituem uma espécie de rede de criação. Assim, se não chegamos a constituir exatamente um grupo de teatro nos moldes como se reconhecem os coletivos contemporâneos, partilhamos seguidamente diversas criações – ainda que as funções que cada um assuma num trabalho sejam diversas em outro. Verônica, por exemplo, é diretora de “Agora e na Hora de Nossa Hora”  e em “Eldorado” é figurinista.

 

Nessa possibilidade de criação que aos poucos vamos descobrindo,  os interesses de cada um ao redor de um trabalho são sempre móveis, assim como as soluções que encontramos para viabilizar a criação. Tudo o que está, num repente, já não é. Aqui, a criação é, em certo sentido, precária e, por isso mesmo, fecunda. Por um lado, quando reunimos uma equipe, não sabemos ser possível reuni-la novamente. Aí, o aspecto movediço e arriscado da empreitada: sustentar um projeto de estudo de longo prazo em parcerias flexíveis. De outro lado, conscientes dessa mesma liberdade, tornamo-nos abertos às diferentes perspectivas sobre os problemas da criação. Aí, o exercício pleno da alteridade: a aceitação de que diversos mundos podem co-existir.  Uma criação mais afeita aos sentidos da colaboração que ao pertencimento a um coletivo; mais inclinada a coerências provisórios que se instalam na composição da obra que a de identidade.

 

Assim, tudo o que escrevo sobre “Chuva Pasmada” é tão somente meu próprio ponto de vista sobre o espetáculo. Já vi Marcelo Lazzaratto e Alice Possani se expressarem de maneiras muito diversas dessa que faço. Todas elas possíveis!

 

Para mim, certamente diferente do que é para Marcelo, por exemplo, o espetáculo dá prosseguimento aos estudos sobre a dramaturgia de ator. Se em trabalhos anteriores, a criação fiou-se na apreensão e organização de materiais coletados pelo ator em observações de realidades cotidianas (pessoas, animais, imagens), aqui, igualmente isso fundamentou uma parcela do trabalho. Mas não tudo. Diferentemente dos espetáculos anteriores, aqui, a obra “Chuva Pasmada” (que também nomeia o espetáculo), escrita pelo moçambicano Mia Couto, foi ponto de partida. A própria adaptação de Cássio Pires antecede o trabalho dos atores em sala de ensaio. “Chuva Pasmada” é o único dos 04 espetáculos apresentados na Mostra Repertórios do Corpo que foi escrita antes dos ensaios se iniciarem.

 

Para nos aproximarmos de uma novo material criativo – o texto – sem abrir mão de procedimentos que fundaram outros trabalhos, procuramos, como estratégia, “observar” a obra literária. Isso se deu de duas maneiras: lemos com atenção a obra, procurando reconhecer, além da sua narrativa e seus acontecimentos, as pistas de corporeidades ali indicadas (um avô tão magro que poderia ser levado pelo vento, por exemplo; ou um menino tão pasmado quanto a chuva; um pai que, depois de retornar de muitos anos de trabalho nas minas, permaneceu ausente, não sendo o mais velho, mas o mais envelhecido de todos). Além disso, procuramos em imagens e pessoas ecos daquilo que líamos no texto – magreza, pasmaceira,  trabalho. Como que recebendo sugestões literárias e da realidade ordinária, os atores improvisavam procurando reagir corporalmente a esses referenciais.  Isso, como podem adivinhar aqueles que acompanham meus estudos, aprofundou minhas investigações sobre a observação e imitação – mimese corpórea.

 

Depois, esses materiais todos, em confronto com a fábula mesmo (o desenvolvimento da narrativa) foram transformados, adaptados. O que se vê em cena, assim, é resultado também de muitas interações.

 

“Chuva Pasmada” estimula novos passos em meus trabalhos sobre a dramaturgia de ator: revendo a abordagem da mimese corporal; possibilitando novas maneiras de interação com a literatura; fundamentando novos diálogos com o texto teatral.  Todas essas questões aguardam a sua teorização a apontam para novos campos de estudo, como a criação de um próximo trabalho a partir de uma dramaturgia da tradição euro-ocidental.

Invento-inventário: “Eldorado”



O espetáculo “Eldorado” foi criado a partir do estudo da rabeca: instrumento de arco e cordas, parecido com o violino, presente em muitas manifessações da cultura popular do Brasil.

 

Uma das características fundamentais da rabeca é a ausência de padrões na sua construção e execução. As rabecas variam no seu formato, número de cordas, afinação. A rabeca não é um instrumento fabricado em série. É produzido não por indústrias, mas por artistas-artesãos. Por isso, não há uma rabeca igual à outra, já que nem dois instrumentos construídos pelo mesmo artesão seguem padrões: um construtor não procura fazer um instrumento igual ao feito anteriormente. Disso resulta que cada rabeca possui suas características peculiares, “uma voz própria”. Cabe àquele que pretende tocá-la, reconhecer suas características, sua afinação, sua “personalidade”, sua “voz”, enfim. “A rabeca tem fala bonita”, ensinou Seu Agostinho Gomes, construtor do instrumento de Cananéia (SP). Cada uma tem a beleza de sua fala.

 

Essa ausência de padrões parece incorporar, como analogia, as origens do povo brasileiro que, como aponta Darcy Ribeiro, é “povo em fazimento”. Povo que não se caracteriza por reproduzir no além mar o mundo europeu. Tampouco um povo marcado, como são o México ou o altiplano andino, pela fusão de suas altas civilizações à cultura do homem branco colonizador. “Somos um povo em ser”. Para o antropólogo, o principal produto da colonização não seria outro senão a fundação desse novo povo-nação, diverso de todos os outros do planeta, fundado na mestiçagem: os brasileiros.

 

A fim de aprofundar meus conhecimentos sobre o instrumento, realizei, em 2007, uma viagem ao litoral sul de São Paulo, especialmente nas cidades de Iguape e Cananéia. Ali, percorri parte do circuito do Museu Vivo do Fandango que, não possuindo uma sede única, compreende um circuito de visitação pelas cidades de Iguape e Cananéia (em São Paulo), Guaraqueçaba, Paranaguá, e Morretes (no Paraná). Na viagem, coletei ações, histórias, causos e músicas de rabequeiros e construtores de rabeca.

 

Desse processo, acabou por se criar um personagem: um cego com sua rabeca. A partir desses materiais atorais, o dramaturgo argentino Santiago Serrano criou uma dramaturgia inédita.

 

O diretor convidado para conceber a encenação do espetáculo foi Marcelo Lazzaratto, Professor Doutor do Depto. de Artes Cênicas da UNICAMP e diretor da Companhia Elevador de Teatro Panorâmico.

 

A concepção de “Eldorado” apóia-se exclusivamente no trabalho de ator em relação ao espaço e à luz. O trabalho não apresenta cenário. Sobre o palco coberto por linóleo preto (caixa preta) a iluminação destaca uma presença humana. Assim como esse cego não vê os lugares por onde anda, igualmente o espectador não enxerga essas paisagens. Entretanto, se não se pode vê-las, é possível senti-las. Personagem e espectadores inventam realidades: ficção, lugares e conhecimento.

 

Poeticamente, a luz “ilumina” o cego em sua jornada pelo auto-conhecimento. Ele não a enxerga, mas a sente. Assim, a luz indica caminhos.

 

O cego conversa consigo mesmo e com a “Menina” que o acompanha. Se, pelo corpo, o cego intui mares, floressas, tesouros e amazonas, pela linguagem verbal nomeia esses elementos. O cego não lê palavras; elas é que lêem a realidade que ele pressente.

 

Nosso homem cego de “Eldorado” não dorme: sua vida é um constante despertar. Ele carrega uma sacola, onde está escondido o seu maior tesouro. Porém, ele nada sabe disso ou finge que não sabe. Será preciso que também ela “ilumine” seu caminho.

 

Eldorado é um espetáculo em que não percebemos os limites entre espaço interior e espaço exterior. Entre som e luz. Entre materialidade e espírito. Nosso homem cego dilata sua percepção estimulando seus sentidos para poder, através do outro, ou seja, do tesouro que traz em sua sacola, se lançar ao fluxo ininterrupto da vida.

 

Essa pesquisa de montagem é analisada na minha tese de Doutoramento em Artes: “Eldorado: dramaturgia de ator na intracultura”.