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20 – A rua em exposição

 

As 18 apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no interior de São Paulo registram, tal qual as 18 sessões já realizadas em temporada paulistana, os 18 anos da Chacina da Candelária. Acompanham esta circulação, atividades paralelas diversas: workshop, bate-papo, postagens neste blog, exposição.

 

O processo de criação de “Agora e na Hora de Nossa Hora” incluiu a interação com meninos de rua em um projeto social, em Campinas, a inspiração no conto “Macário”, do mexicano Juan Rulfo, o estudo sobre a Chacina da Candelária – quando, no Rio de Janeiro, oito meninos de rua foram assassinados por policiais. Quando eu inciei as apresentações do espetáculo, eu julgava que a obra deveria sintetizar todas as forças e motivações que a geraram. Assim, eu não quis apresentar o trabalho em um programa. 

 

Porém, a partir das interações com o espectador, revi esta minha escolha. Eram frequentes as perguntas sobre o processo de criação – especialmente sobre a minha interação com os meninos de rua e sobre a Chacina da Candelária. Aí, entendi que o espetáculo é apenas a ponta de um icebergue, porta de entrada para outros entendimentos: uma relação diversa com os problemas sociais do Brasil, com a cidade em que vivemos, com os seus cidadãos. A arte como mediadora de mundos – aquele em que vivemos e aqueles que ainda podem ser sonhados.  Entendi, neste momento, que o espetáculo de teatro era tão importante quanto o processo que o gerou. Ao se revelar aquilo que veio antes, a cena evidencia com maior intensidade a força de vida daqueles que a motivaram: crianças e adolescentes em situação de rua.   

 

A partir deste momento, seguiram-se tentativas muitas de proporcionar uma certa imersão do espectador na situação de rua. Escrevi um livro, “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense”, publicado pela Editora Hucitec, em 2007. Criei programas para a peça, incluindo minha interação com os meninos de rua já na sua sinopse – os fatos da realidade ordinária como fundamento de efabulação da realidade extraordinária do teatro.  Tanto quanto me foi possível, realizei conversas com os espectadores, após as apresentações. Por fim, projetei uma exposição.

 

Em princípio, sem verba alguma, eu mesmo criei com fotos e trechos de diários de trabalho uma pequena amostragem do processo. O resultado tinha muita boa vontade, mas nenhuma elegância – tudo próximo aos trabalhos que realizei na pré-escola, ainda criança.  

 

Agora, contemplados com recursos do PROAC 2011  – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, foi possível realizar um trabalho mais acurado. O trabalho foi realizado pelo Lu Orvat Design – que já cuida da visualidade de nossos trabalhos em site, cartazes, programas etc.  

 

Este “expográfico” procura apresentar, em forma e conteúdo, o processo de criação do espetáculo. Primeiro, toma como fundamento a apresentação do relato das vivências: como um diário de trabalho em 3D, a exposição apresenta trechos do livro escrito por mim, passagens de narrativas e relatos de outros autores que escreveram sobre a população de rua, falas de meninos de rua, comentários de espectadores. Não há imagens pictóricas. Através da palavra, a exposição sugere que o espectador crie as suas próprias imagens.

 

Depois, a exposição usa como suporte aproximadamente 33 peças quadradas de papelão, todas iguais. Assim, procura-se, aqui, o mesmo princípio de montagem que inspirou a criação do espetáculo: peças autônomas, sem hierarquia entre elas e sem a necessidade de uma linha clara de causalidade entre si, apresentam um panorama da rua. O espectador é responsável por interagir com a obra, fazendo associações e ilações.

 

Assim, temos:
– Cada uma das peças, representações de temas constituintes do tema geral: a vida das ruas;
– A exposição tomando diferentes aspectos do objeto representado, em diferentes perspectivas – tal qual o princípio cubista, tomando o mesmo objeto de cima, de baixo etc.   
– O espectador, pela sua experiência de fruição, articula os conteúdos todos, criando, ele mesmo, a sua própria representação do tema. 

 

A exposição estará apresentada em todas as sete cidades em que “Agora e na Hora de Nossa Hora” for apresentada nesta circulação do PROAC. Neste final de semana, as últimas apresentações do espetáculo na Escola Livre de Teatro de Santo André – ELT.   

 

 

 

 

 “Agora e na Hora de Nossa Hora” em Santo André
Praça Rui Barbosa, s/n
26 e 27 de fevereiro e 03 e 04 de março de 2012, às 20h30
Ingressos gratuitos
Telefone: 11 4996.2164