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12. A PM que Eu Não Quero

  

A semana passada foi marcara pelo polêmico debate acerca da presença da Polícia Militar no campus da USP. Muita gente se posicionou favorável ou contrariamente a estudantes e militares. Poucas foram as vozes que conseguiram se pronunciar para além dos esquematismos: esquerda, direita, maconheiros, vagabundos, filhinhos de papai…

 

Até mesmo senhores costumeiramente respeitosos e respeitáveis derraparam em seus comentários. Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, para defender seu ponto de vista (o movimento estudantil é autoritário), homogeneizou contextos muito distintos – a Primavera Árabe, maio de 1968, a invasão da Reitoria da USP.

 

O Ministro da Educação, Fernando Haddad, chamado a se pronunciar, igualmente confundiu – a si e à opinião pública: “Não se pode tratar o campus da USP como se fosse uma ‘Cracolândia’ e não se pode tratar a ‘Cracolândia’ como se fosse um campus da USP”. Aí, espanto-me: e a Cracolândia merece ser tratada como usualmente se trata a Cracolândia? Depois, procurando explicar a declaração anterior, disse ao Estado de São Paulo: o aluno da USP não pode ser tratado como “cidadão de segunda classe”. Aí, meu espanto é renovado: “cidadão” não é substantivo que procure adjetivo. Cidadão é cidadão, só! Outro sinônimo para cidadania é humanidade; cidadão é, enfim, o homem!

 

Frequentes foram também as tentativas de minimizar o debate, restringindo um amplo movimento ao direito de uso da maconha. Assim, confundindo e pasteurizando conceitos e contextos diversos, perdemos todos.

 

De meu ponto de vista, para além do movimento estudantil e da comunidade da USP, o episódio suscita uma percepção: na universidade ou fora dela, o cidadão (ou seja, brasileiros, universitários ou não) mantém forte desconfiança de que a polícia não está preparada para garantir a sua segurança. Ou, no mínimo, desconfia que a polícia sozinha não tem poder de nos trazer paz. Não pertenço à comunidade da USP, não sei quais são suas necessidades e desejos. Mas conheço a PM, em muitas interações sociais, e é sobre isso que me interessa refletir.

 

E o faço, dialeticamente, referindo-me a uma interação com a polícia de outro contexto: a escocesa, durante o Edinburgh Festival Fringe de 2011. Ali, é hábito que atores de diferentes espetáculos divulguem seus trabalhos apresentando as suas cenas nas ruas da cidade. Como estratégia para buscar algum destaque em uma efervescência de representações, apresentei, na principal avenida de Edimburgo, a cena de “Agora e na Hora de Nossa Hora” em que o menino de rua usa crack. A estratégia deu certo: em menos de 40 minutos, a cena foi vista por cetenas de pessoas e fui abordado por quatro policiais em diferentes momentos, assim como por dois membros da organização do festival. Todos, um pouco atônitos, acreditaram que eu realmente usava crack, sendo eu não um ator, mas um morador de rua mesmo.

 

A história é uma boa crônica acerca de atritos de culturas: para os paulistanos, por exemplo, o uso do crack nas calçadas do centro da cidade há muito tempo não se destaca na paisagem urbana. O choque também me fez rever uma certa acomodação que temos com situações de opressão, no Brasil. Porque os policiais que me abordaram, acreditando que eu usava drogas à luz do dia, em nenhum momento foram violentos. Ao contrário, abaixavam-se ao meu lado e gentilmente me perguntavam: “Você está bem? Precisa de ajuda” Depois da minha resposta – “Fique tranquilo, eu estou atuando” -, riam de sua própria ingenuidade. É possível tratar a Cracolândia como USP!

 

O episódio me fez entender uma das dificuldades do público do Reino Unido em compreender uma situação fundamental da Chacina da Candelária e de “Agora e na Hora de Nossa Hora” (que a encena): “Por que os policiais matam crianças?”  Para eles, a opressão policial parecia tão absurda que houve um espectador que entendeu como ficção o verídico fato histórico brasileiro – quando policiais mataram oito meninos de rua nos arredores da Igreja da Candelária. Assim, entendi, era necessário incluir no espetáculo situações em que se evidenciasse algo que para nós, latino-americanos, é dado corriqueiro: atitude de policial, o cidadão intimidado pela mão armada do Estado.

 

Insisto, tenho muito poucas opiniões sobre o que acontece na USP. Tenho pouca informação e, aquela que me chega, é, como se viu, confusa. Por isso, não sei dizer se a PM deve ou não estar no campus. Mas um desconforto me persegue: será que ainda queremos essa policia, destreinada e mal paga? Porque, parece-me, enquanto o Estado restringir a sua política de paz (prefiro essa expressão à “política de segurança”) à distribuição de opressão armada, certamente haverá cidadãos de primeira, segunda, terceira, quarta, quinta, infinitas classes – distinguindo-se uma das outras somente pelo tamanho e frequência dos atentados à sua liberdade como pessoa. Há, parafraseando a música do Rappa , uma PM que eu não quero seguir admitindo – na cidade inteira e não só na cidade universitária.

 

Para me opor aos atentados cotidianos da sociedade brasileira contra suas crianças (contra o seu próprio futuro, portanto), não invadi a Reitoria da USP. Fiz um espetáculo de teatro: “Agora e na Hora de Nossa Hora”, que está em cartaz no SESC Pompéia. Assim, espero – ou sonho: indigno-me sem deixar de celebrar a vida! Pode ser ingenuidade, sei disso. Para mim, ainda é algum movimento e, assim, tem alguma relevância.

 

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700