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Não é crítica: “Nós”, do Galpão

Quero dizer, com espanto, que um grupo de teatro existe há quase 34 anos, no Brasi! O Galpão é um rasgo de “possível” num mundo de inviáveis. Goste-se ou não de um trabalho, há alento em saber que houve outros antes e que, oxalá, haverá outros depois. Existir, neste contexto, já não é um feito notável?

 

Quero dizer, com festa, que um povo que tem Teuda Bara deveria ser feliz sempre. Mas, no fundo, aquela liberdade toda não busca felicidade apenas, mas a intensidade inteira da vida – e nisso, sabemos, há perigos, desvios muitos.

 

Quero dizer, como quem ora, que a beleza desta mulher é admirável, assustadora, quase insuportável. Só algo do tamanho do teatro poderia acolhe-la.

 

Quero dizer, como quem medita, que não se trata de gostar ou não do novo espetáculo do Galpão – nem sei se é possível gostar sempre e inteiramente de uma obra. Não se trata de gostar ou não do teatro. Trata- se de gostar da vida. E a celebrarmos na vida desta mulher.

Belo Horizonte: o teatro e a cidade

As atividades da mostra “10 Anos por uma Escrita do Corpo”, em Belo Horizonte, foram realizadas no Galpão Cine Horto, Centro Cultural gerido pelo Grupo Galpão, entre os dias 28 de junho e 04 de julho de 2010.


Belo Horizonte é uma grande cidade e, assim, a realização da mostra foi permeada pelas relações entre o teatro e o espaço urbano: exigindo diferenciadas estratégias de divulgação; envolvendo maior planejamento nos custos de realização do projeto; envolvendo maior exposição de mídia; possibilitando trocas com grupos e artistas cujo trabalho tem grande repercussão em níveis regional e nacional – como o próprio Galpão, que nos recebeu.


Antes mesmo de chegarmos à cidade, recebemos muitos telefonemas de jornalistas interessados em noticiar a estada de nossa equipe em Belo Horizonte. A antecipação de nossa chegada pela mídia, não só facilitou a divulgação da mostra em uma cidade com imensas dimensões territoriais e populacionais, mas também nos preparou para as relações entre a cena e o espaço urbano que caracterizariam as apresentações em Minas Gerais e, mais tarde, em Porto Alegre.


Foi curioso, ao longo de nossa jornada, perceber diferenças de recepção do espetáculo a partir dos diferentes contextos culturais nos quais foram apresentados. Nas regiões Norte e Nordeste, por exemplo, o espetáculo “Eldorado” – que tem como protagonista um cego rabeca, instrumento musical muito presente e manifestações culturais destas localidades – teve recepção mais calorosa que “Agora e na Hora de Nossa Hora”, que trata da situação de rua entre crianças e adolescentes em grande cidades. Por outro lado, em Belo Horizonte, cidade que efetivamente convive largamente com os meninos de rua, recebeu com mais entusiasmo justamente o espetáculo que os retrata.


Neste sentido, a cena de “Agora e na Hora de Nossa Hora” extrapolou o palco do Galpão Cine Horto e , nas ruas da cidades se completava: no contato com a população de rua; no debate sobre os processos de exclusão social etc. Aliás, diga-se, esta dinâmica de interações entre ações artísticas e ações políticas já estavam explicitas no envio de cartão de boas vindas à equipe da mostra assinado pessoalmente pelo prefeito de Belo Horizonte.


Também as atividades formativas puderam ser permeadas pelas relações entre a cena e a urbe. Isso porque boa parte de seus participantes eram atores experientes, muitos com formação universitária em Artes Cênicas, e com amplas referências (com só numa cidade cosmopolita se vê) . Assim, se, antes, os espetáculos foram assistidos por espectadores cujo trabalho tem tido grande repercussão na cena nacional, agora, na oficina, o trabalho pôde ser amplamente experienciado em suas metodologias geradoras e debatido em suas potências e elementos ainda a serem desenvolvidos.


Impressionou também à equipe de realização do projeto as instalações do Galpão Cine Horto, com salas de exposições, apresentações de espetáculo, ensaios, cinema, escritórios de administração e publicações e festivais próprios (como a revista Subtexto e o Festival de Cenas Curtas). Soma-se a isso a exposição, apresentada no momento de nossa estada em Belo Horizonte, em homenagem à Wanda Fernandes, fundadora do Galpão: foi bonito e inspirador aos jovens artistas da mostra “10 Anos por uma Escrita do Corpo” conhecer mais fundamente a história de um dos principais grupos de teatro do Brasil – sua formação, desenvolvimento de poética própria e estruturação administrativa de suas atividades.


Como já acontecera antes, em outras cidades contempladas pela nossa circulação, recebemos e doamos publicações (livros e DVDs) e reconhecemos: aquilo que, hoje, apresenta-se como fundamentos de nosso trabalho (pesquisa de linguagem, pedagogia, reflexão e registro de processos criativos) foi, anos antes, semeados por artistas como os do Grupo Galpão em seus 30 anos de história.


Belo Horizonte é uma cidade grande. E grandiosas foram também as oportunidades de aprendizado e trocas em nossa estada na capital mineira.