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O Globo: Cia Balagan encena a premiada ‘Recusa’ em Curitiba e planeja montar no Rio

 

LUIZ FELIPE REIS*

 

CURITIBA – Prestes a completar 15 anos à frente da Cia. Teatro Balagan, em 2014, Maria Thais não é só uma diretora respeitada, mas uma pesquisadora que aproxima investigação teórica e prática artística como duplos que se inter-relacionam e complementam. Fala-se de duplo aqui porque é a investigação desse conceito que rege as peças “Prometheus — A tragédia do fogo” (2011) e “Recusa” (2012) — esta última apresentada segunda e terça no Festival de Curitiba.

 

Até o fim do ano, a diretora planeja levar as duas ao Rio. Em “Prometheus”, a companhia investiga o mito fundador do homem e da cultura ocidental. Em “Recusa” — vencedora em 2012 dos prêmios Shell (direção e cenário) e APCA (os atores Eduardo Okamoto e Antonio Salvador dividiram o troféu) —, o grupo volta-se à criação sob a ótica da cultura ameríndia.

 

— A questão do duplo é central nas duas, mas abordada de modo diferente — diz Maria. — “Prometheus” traz dois irmãos (Prometeu e Epimeteu), mas revela a separação entre eles, a separação entre deuses e homens, entre o homem e a natureza. Então mostra-se o desaparecimento do outro.

 

Já na cultura ameríndia o duplo aparece de forma inversa, a partir da noção de que “as forças do mundo existem na sua duplicidade”, como diz Maria.

 

— É um contraponto. Para os ameríndios, a Humanidade não está só em nós, mas em tudo. Os gregos separam, e ao olharmos para o mundo ameríndio descobrimos a coexistência, uma cultura em que tudo existe e se dá na relação.

 

“Recusa” é guiada pelos dois atores premiados, que encarnam seres complementares. Assim, histórias são cantadas ou narradas por dois índios piripkura; por dois heróis ameríndios; por Macunaíma e seu irmão, entre outros.

 

— A peça é um chamado. As pessoas vão se dando conta de uma herança. Você se conecta com algo que te pertence, mas que você não sabia.

 

“Recusa” nasceu em 2008, após uma notícia sobre a descoberta de dois índios piripkura, etnia considerada extinta. Iniciou-se então uma campanha para demarcar suas terras, assim como um debate sobre o papel do estado na tentativa de colocar os índios sob tutela. Vem daí o título, “Recusa”.

 

— Tendemos a achar que eles precisam de salvação e que nós a iremos oferecer. Mas são eles que sabem distinguir o bom e o ruim — diz Maria. — Desde o começo, sabíamos que uma notícia de jornal não daria conta da história. Era preciso criar uma linguagem. Os índios são cênicos, espetaculares e rituais por essência. E talvez esteja aí a chave que nos liga.

 

*O repórter viajou a convite da produção do festival

 

* Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura/cia-balagan-encena-premiada-recusa-em-curitiba-planeja-montar-no-rio-7999689