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Chuva Celebrada


O espetáculo “Chuva Pasmada” fundamenta-se na obra de Mia Couto. A gênese deste processo criativo, no entanto, não se limita à matéria literária: inclui os festejos de dez anos de trabalhos do ator Eduardo Okamoto e do Grupo Matula Teatro. Chuva é celebração.

 

O espetáculo marca o reencontro de Alice Possani, atriz do Matula, e Eduardo Okamoto, um dos fundador deste grupo e que, a partir de 2005, seguiu carreira solo. Em 2010, ano de estréia deste novo trabalho, ator, atriz e grupo completam dez anos de trajetórias (às vezes em caminhos próximos; outras, autônomos).

 

E se o texto de Mia Couto é escrito de passagens – tratando de amor, crescimento, amadurecimento, morte -, esta “Chuva” é também trânsito para novas experiências. É certo que há de se celebrar os dez anos em que jovens artistas de teatro se dedicam a um projeto artístico de longo prazo, construído no tempo – que sempre nos faz outros. Mas também há de se celebrar os anos vindouros que o tempo precedente aponta. Esta nossa chuva, que nunca esteve pasmada, há também de preparar para o fluir de um rio sempre nascente.

 

Na abertura ao novo, os atores aproximaram-se de outros artistas, como o encenador Marcelo Lazzaratto e o dramaturgo Cássio Pires. Ambos, com linhas de estudo distintas daquelas que marcam as trajetórias de Matula e Okamoto, puderam referenciar a criação com novos procedimentos – como o uso da palavra, matéria pouco explorada em trabalhos anteriores fundados em linguagem corporal. Na reunião das diferenças, realizamos em processo criativo a provocação de Mia Couto: coração sempre começando no peito de outra pessoa.

 

 

Processo de criação

Em “Chuva Pasmada” os atores valeram-se dos procedimentos da mimese corporal, mas apontaram para pontos de pesquisa ainda pouco estudados: as suas relações com um texto dramatúrgico previamente escrito – o conto de Mia Couto e a adaptação de Cássio Pires. Assim, ao mesmo tempo em que coletavam materiais para a criação de personagens, os atores desenvolveram trabalhos de leitura e entendimento de texto. Um dos fundamentos do trabalho reside justamente no equilíbrio entre matéria dramatúrgica e materiais físico-vocais codificados pelos atores.

 

Um dos desafios da interpretação residia numa dificuldade: apenas dois atores deveriam apresentar a grande quantidade de personagens do texto literário. Isto de certa maneira “pressionou” os artistas na consolidação da linguagem do espetáculo, com atores desdobrando-se em narradores e diversos personagens. Aqui, o trabalho de mimese foi fundamental: ampliando o repertório dos atores, oferecendo grande quantidade de materiais à criação.

 

A leitura que a equipe de criação imprimiu ao conto moçambicano trouxe outra dificuldade: interessava não a leitura típica das relações étnicas (sociais, históricas, mítico-religiosas etc) dos povos africanos, mas a leitura arquetípica das relações humanas. Assim, mais que identificar cada ator a um personagem, interessava identificar cada atuante a todos os personagens: a potência humana de assumir diversos papéis: Homem, Mulher, Velho, Menino . Isso levou a nova provocação para os atores. Cada personagem seria representado por mais de um ator, sem a utilização de referencias de cenografia e figurinos. A equipe de criação se perguntava: como, somente com seus corpos, as personagens poderão “viver” em diferentes atores? Como fazer o público reconhecer um mesmo personagem ainda que existam diferenças entre os corpos de um ator e de uma atriz? Aqui, o desafio foi mantendo as características de cada ator aproximar “eixos” de personagens.

 

“Chuva Pasmada” é fundado no trabalho do intérprete, com poucos recursos cenográficos e de figurinos. Num processo inaugurado em confronto de matéria literária com “material de ator”, o espetáculo acaba por sintetizar-se na idéia da palavra tornada corpo: com imagens literárias alimentando a criação de matrizes físicas; com matrizes vocais imprimindo novos sentidos às palavras; com o discurso verbal provocando novas sensações ao discurso não-verbal.

Encontro e Reencontros em Goiânia


Em Goiânia, a Mostra 10 ANOS POR UMA ESCRITA DO CORPO foi realizada em parceria com o V ENCONTRO DE ATORES-CRIADORES. Como sugere o nome do evento anual organizado pelo Teatro Ritual, a programação reúne artistas da cena, apresentando e dialogando seus trabalhos.

 

Como não poderia deixar de ser, a força de nossa programação na cidade esteve nos encontros. Antes de tudo, com o público: as apresentações foram quentes, com casa cheia. “Agora e na Hora de Nossa Hora”, que já havia se apresentado naquela cidade, teve espectadores que o reviram nesta nova oportunidade. Também houve relato de muitas pessoas que nos escreveram, depois, dizendo-se surpresos com o trabalho que acabaram de conhecer. “Eldorado” fez suas primeiras apresentações em Goiânia – igualmente com recepção calorosa. Houve ainda, além da sessão regular aberta a o público, uma apresentação especial de “Uma Estória Abensonhada” para alunos da rede pública estadual, com direito a sessão de autógrafos e fotos dos atores. A oficina realizada na Universidade Federal de Goiás contou com a presença de alunos e também de professores do curso de teatro.

 

Os encontros, no entanto, não pararam por aí. Pude rever grandes amigos, hoje trabalhando na região Centro-oeste do Brasil, sobretudo na Universidade: os amigos dos tempos de graduação na UNICAMP Kleber Damaso e Renata Lima; a professora Natássia Garcia; o grande Newton de Souza. As apresentações dos trabalhos, aqui, foram especiais. Porque, na platéia, contamos com a presença de pesquisadores que, além de pensarem continuamente a cena, acompanham meus processos de formação, de estudo e, alguns deles, até mesmo de vida.

 

Neste sentido, registro a especialíssima partilha de caminhos com o professor-mestre Newton de Souza. A atribuição de maestria a ele não é gratuita. Meu aprendizado com ele, aliás, ultrapassa em muito a titulação de Mestre que a academia lhe atribui. Para mim, Newton é mestre no sentido mais tradicional do termo: aquele que, através do oficio do teatro, contribui para que outros artistas menos experientes possam se lançar na direção de si mesmos. Considero que foi ao seu lado que me iniciei na linguagem teatral: primeiro diretor-professor, no Grupo Atrás do Grito de Teatro  – o nome do grupo como referência aos ensaios na região do Ipiranga, onde Dom Pedro II deu o famoso grito de independência do Brasil. Como um Projeto de Extensão da Universidade Paulista, o grupo reunia em seu elenco a comunidade acadêmica e comunidade externa a ela. Ali, eu fundei as bases que, ainda hoje, alicerçam o meu trabalho: o desenvolvimento de estudos teatrais amparados em Universidades Públicas; com amplo diálogo entre os trabalhos acadêmicos e o contexto em que se inserem através de projetos de Extensão Universitária; a certeza de que a dimensão técnica e estética da linguagem artística carrega em si uma outra, sócio-política; a insuperável conexão arte-vida. Reencontrar o mestre Newton (e são muitos que com ele se iniciaram no teatro e o tem neste grau de respeito) foi um grande presente.

 

É preciso reconhecer também que, numa cidade em que nossa mostra primou pelos reencontros, tivemos alguns desencontros. Foram muitas as dificuldades de produção e organização de nossa participação. Inicialmente, esperávamos que a Universidade nos recebesse como anfitriã do evento. Esperávamos inaugurar, com nossas apresentações, um novo Centro Cultural da instituição. Assim, esperava-se abarcar um de nossos objetivos no projeto: dialogar com pesquisadores teatrais de outros contextos, diversos daqueles que nos formaram.

 

Poucos dias antes do início de nossa partida para esta circulação, no entanto, soubemos que, por atrasos nas obras, a Universidade adiaria a inauguração do novo teatro.

 

Desta maneira, ficamos com pouco tempo para organizar uma nova estrutura e estabelecer novas parcerias. O Teatro Ritual que, por sorte, já planejava um evento para o mesmo período em que programávamos nossa passada por Goiânia, aceitou a empreitada de, em intenso ritmo de trabalho, incorporar nossa participação no ENCONTRO DE ATORES-CRIADORES.

 

A principal dificuldade foi a de conseguir pauta em uma sala de espetáculos que recebesse a contento os nossos trabalhos, com respeito às suas necessidades técnicas. Alocados no Teatro Yguá, do Centro Cultural Martim Cererê, pelejamos para adaptar os trabalhos àquela casa. O palco parecia pequeno, o pé-direito do prédio baixo para as necessidades de angulação dos equipamentos de iluminação. Aqui, mereceu destaque a ajuda inestimável da administradora do teatro, Dirce Vieira (poucas vezes vi uma gestora de espaço público tão apaixonada e comprometida com o seu trabalho!), e do técnico Stanley, que acompanhou nossas montagens. Com muita disposição, pulsão de criação, fita crepe e cabo de aço, deixamos tudo pronto para a chegada do público.

 

Goiânia, marcou-nos pelos reencontros! Nossa passagem por lá foi marcante porque, afinal, pudemos rever gente que, muito antes, já nos marcara muito!