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24 – Rua: encontros

 

As 18 sessões de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no interior de São Paulo registram os 18 anos da Chacina da Candelária. As apresentações são acompanhadas de bate-papos, exposição, doação e divulgação de livro, 18 postagens, neste blog, sobre a situação de risco social. Neste texto, adapto trecho do livro “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense”, de minha autoria (Editora Hucitec, 2007).

 

A rua é espaço múltiplo. É espaço de circulação de pessoas com diferentes origens, situações socioculturais e econômicas, com diversidade de opções políticas, ideológicas e religiosas. Ao passar ou ocupar a rua, cada um dos habitantes da cidade imprime um pouco de si no seu espaço. A rua, assim, ganha significações tão diversas quanto é possível à diversidade de pessoas que por ela passam. A população de rua, incluídos crianças e adolescentes, é parte desta diversidade.

 

Ao longo da história, variam as concepções sobre a rua. Antes, espaço de encontro e de interações entre os habitantes das cidades, progressivamente a rua torna-se local de passagem. Seu espaço não é mais local de concentração de pessoas e organização da vida social. A rua é destinada exclusivamente ao deslocamento. É neste progressivo esvaziamento da rua que se constrói e se consolida o discurso de limpeza e ordenação do espaço urbano – a cidade virou urbe. A rua passou a ser projetada de maneira a facilitar deslocamentos, sem superfícies rugosas, sem possibilidade de aglomerações. A rua é puramente espaço da transitoriedade.

 

A disciplina urbanística, entretanto, pode planejar espaços, mas não as pessoas. A rua continua a congregar a multiplicidade de cidadãos. Se as intervenções urbanísticas tendem ao desejo da dispersão popular (o que, arrisco-me a afirmar, corresponde a interesses de classe das elites no poder), a multiplicidade de pessoas que ocupam a rua tende a imprimi-la com outros sentidos. Diversidade é resistência. Assim, persistem em tomar a rua como espaço do encontro, os vendedores ambulantes, os pregadores religiosos, os artistas populares. As ações destas pessoas tendem às aglomerações, a um uso do espaço da cidade que a funcionalidade do pensamento urbanístico excluía.

 

A despeito disto, em nossos tempos, o pensamento urbanístico justifica políticas públicas que pretendem facilitar o deslocamento de pessoas (com trajetos programados, sempre utilitários, como o de casa para o trabalho, por exemplo) e a circulação de mercadorias. A força deste pensamento nas cidades tende a conflitar com o modo de vida daqueles que procuram ocupar a rua com outra finalidade que não o puro deslocamento. A rua é reafirmada como lugar perigoso, indefinido, violento. A rua não é lugar de criança.

 

Neste contexto, os trabalhos sociais com jovens em situação de rua requerem que se exercite um outro olhar para a urbe. Porque não se trata somente de discutir o que fazer dos meninos que vivem nas ruas. Trata-se de discutir um projeto de cidade. Lugar de criança não é na violência da rua, dizem. Entretanto, a rua pode ser violenta justamente porque não tem criança. O crime não se instala nas ruas onde as crianças brincam, onde os vizinhos se conhecem e sentam no meio fio para jogar conversa fora. Ao contrário, os bandidos escolhem mesmo são as ruas desertas, onde os vizinhos não fazem ideia do que acontece na casa ao lado.

 

A rua é lugar de criança. É também lugar de adultos, de adolescentes, de casais de namorados, de idosos, de toda gente. É preciso transformar a rua: exigir de volta as nossas praças, os bancos para o namoro dos casais, as áreas verdes, as cadeiras nas calçadas. O espaço público, enfim, tomado novamente como público.

 

É evidente que isto não significa que se deva aceitar com passividade que crianças, adolescentes ou quaisquer outros cidadãos estejam abandonados à violência das ruas. Aqui, um entendimento simples: se temos o que ensinar a este jovens, temos também o que com eles aprender – a cidade de volta!

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” apresenta-se, nesta semana, no Espaço Clariô, em Taboão da Serra. As apresentações são financiadas pelo PROAC 2011 – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e, nesta cidade, contam com o apoio do Grupo Clariô e do Hotel 155.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no Espaço Clariô
Rua Santa Luzia, 96 – Vila Sta. Luzia – Taboão da Serra – SP
dias 23 e 24 de março, às 20h 
Informações: (11) 4701.8401 /(11) 9621.6892    
Entrada gratuita    

 

 

23 – Crack se vence com alegria e esperança!

 

Na semana passada, no dia 12 de março, suspendemos brevemente as apresentações de “Agora  e na Hora de Nossa Hora” pelo interior de São Paulo. A pausa tinha fim: apresentar o espetáculo para gestores de unidades socioeducativas do Estado do Rio de Janeiro.

 

Depois, já no dia 13, viajamos para Assis, em São Paulo, onde entre os dias 14 e 16, voltamos à turnê que registra os 18 anos da Chacina da Candelária.

 

Tanto em Assis quanto no Rio de Janeiro, houve bate-papos com os espectadores sobre o processo de criação do trabalho e sobre a infância e juventude em situação de rua.  Em Assis, uma espectadora perguntou, referindo-se à triste e ineficaz ação policial na  região conhecida como Cracolândia, na cidade de São Paulo, como o cidadão comum poderia contribuir para um debate mais produtivo sobre a situação de rua. Outros espectadores demonstraram igual preocupação com o uso de crack entre crianças e adolescentes. 

 

A reposta para inquietações tão maiúsculas, claro, não é simples – ainda que sob um ponto de vista o seja: não se elejam políticos afeitos a tomar a polícia como única política social! Porém, uma resposta, menos direta  e mais conectada com a mina experiência seguiu: com alegria e esperança. Parece piegas, eu sei e o reconheci nas duas cidades. 

 

A primeira impressão de ingenuidade se desfaz quando se relatam casos por mim testemunhados em que meninos de rua deixaram o consumo de substâncias psicoativas e até mesmo retomaram o contato com as suas famílias. Um deles, que no livro “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense” (Editora Hucitec, 2007) nomeio como João, se reinventou jogando malabares com pedras da antiga estação ferroviária de Campinas. Sendo aquela estação o lugar que se procurava para o consumo do crack, logo o adolescente reconheceu que, treinando malabares, poderia evitar o uso da droga. O menino, depois, torna-se monitor-auxiliar da oficina de circo que eu ministrava e os demais participantes do trabalho assim o reconheciam. Se acaso me atraso, ele inicia a condução do treino. Além disto, muda de aparência (sempre banhado!) e começa a tomar conta de um menino mais novo, evitando que o pequeno (e, portanto, ele mesmo!) use drogas. Por fim, surpreendentemente se ausenta e deixa um bilhete: sabe que é importante para a oficina, mas quer ver a família, não quer mais viver na rua. O recado é assinado como “o monitor João” e, junto dele, recebo uma corrente como presente. 

 

Só se vence o crack com alegria e esperança. Aprendi de uma vez por todas! Há conflito, há dor, há perdas, claro que há. Só se ultrapassam estas dificuldades quando se projeta um futuro melhor, para além do presente enfrentamento com as drogas (e consigo mesmo). João não tinha nada – nem mesmo bolinhas para treinar malabares. Mas tinha a si mesmo – o que não é pouca coisa! 

 

Em casa, infelizmente, retornam antigos problemas. O menino, que decidira mudar, decide outra coisa. E volta para as ruas. Nunca soube os reais motivos para a nova decisão: problemas com o padrasto, o Conselho Tutelar que vigia todos os seus passos (não pode dançar no Forró porque é menor de idade; não pode conversar com moradores de rua porque são más influências), dificuldade de adaptação à vida de poucas aventuras na casa. Nunca João mesmo me explicou suas motivações.

 

Uma coisa eu conclui, porém: é difícil que o mundo acompanhe as decisões de mudanças de cada um de nós. Mudar é bom e é difícil: exige empenho, luta. Exige! Não foram poucas as vezes que vi meninos de rua procurando mudar de vida enquanto rígidas estruturas sociais o empurravam de volta – inclusive identificadas por um dos braços armados do Estado: a polícia. A manutenção da ordem (esta palavra é escolhida: ordem!) vence com força e sisudez.    

 

Na apresentação do Rio de Janeiro, no bate-papo com os gestores das unidades socioeducativas estávamos descarados. Acrescentamos a palavra amor ao debate. Assim, a nossa plataforma de futuro: alegria, esperança, amor. Pode parecer piegas. Que o pareça! Havendo felizes transformações, possamos nós dizermos como ao fim da oração cristã: que assim seja! Seja! 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” apresenta-se nos dias 23 e 24 de março, às 20h, no Espaço Clariô, em Taboão da Serra. As sessões são apoiadas pelo Grupo Clariô de Teatro e pelo Hotel 155.    

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no Espaço Clariô
Rua Santa Luzia, 96 – Vila Sta. Luzia – Taboão da Serra – SP
dias 23 e 24 de março, às 20h
Informações: (11) 4701.8401 /(11) 9621.6892    
Entrada gratuita