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“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Campinas

 

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“Agora e na Hora de Nossa Hora” é um solo do ator Eduardo Okamoto sobre meninos de rua, dirigido por Verônica Fabrini. Seu processo criativo incluiu a realização de oficinas de circo com crianças e adolescentes em situação de rua, a adaptação do conto “Macário”, do mexicano Juan Rulfo, e a pesquisa sobre a Chacina da Candelária – quando, em 1993, oito meninos moradores de rua foram assassinados por policiais, nos arredores da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro.

 

No ano em que os fatos históricos da Candelária completam 20 anos, realiza-se uma temporada do espetáculo, na Estação Cultura, em Campinas. As apresentações registram o marco histórico e provocam: em duas décadas, fomos capazes, como povo, de amadurecer um projeto social diverso daquele que assassinou crianças e adolescentes? Infelizmente a desastrosa e ineficaz ação da polícia militar na “Cracolândia” paulistana e recentes denúncias de adolescentes torturados na Fundação Casa parecem antecipar a resposta.

 

Neste contexto, o conjunto de apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” na Estação Cultura constitui ato performático (experiência estética e político-social). Em 2002, Okamoto ouviu de um de seus alunos da oficina de circo que o complexo ferroviário campineiro era local de consumo de crack. Não só. Ouviu também que as pedras dos trilhos de trem supriam a falta de malabares. O menino, assim, experimentava mais que técnica circense: evitava o consumo da droga que, ele sabia, o consumia; reinventava a vida, ali, onde ela parecia improvável.

 

Apresentar o espetáculo no local onde o menino nos mostrou possíveis escolhas e malabarismos (de arte e de vida), é a nossa tentativa de aprender com a experiências passadas. Como este malabarista, tiremos da arte sementes de transformação e de invenção do futuro. Esta é a nossa hora!

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Campinas
De 08 a 20 de outubro de 2013, de terça-feira a domingo, às 20h (não há sessões às segundas e quinta).
Local: Estação Cultura
Endereço: Rua Marechal Florreano, s/n (Antiga Estação Fepasa)
Telefone: (19) 3705.8002
Entrada franca com distribuição de ingressos 1h antes

 

Ficha Técnica 
Dramaturgia e atuação: Eduardo Okamoto
Direção: Verônica Fabrini
Textos adaptados: Juan Rulfo, Hélio R. S. Silva e Cláudia Milito, Eduardo Evaristo de Miranda, relatos de crianças e adolescentes em situação de risco social, noticiário sobre a Chacina da Candelária, Realidade Cruel, passagens bíblicas, hinos cristãos e umbandistas.
Assistência de direção: Alice Possani
Pesquisa e execução Musical: Paula Pi
Música: “Bachianas Brasileiras no 5”, de Heitor Villa Lobos
Treinamento de ator: LUME Teatro
Iluminação: Marcelo Lazzaratto
Fotografias do programa: Jordana Barale
Fotografias de divulgação: João Roberto Simioni e Jordana Barale
Orientação: Suzi Frankl Sperber e Renato Ferracini
Projeto gráfico e expográfico: LuOrvat Design
Equipe de apoio: Carlos Eduardo S. Ramos, Lucas Marcondes e Tess Coelho
Produção Executiva: Bruno Lélis
Direção de Produção: Daniele Sampaio

 

7. A Dramaturgia de “Agora e na Hora de Nossa Hora”

 

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Como sétima postagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”, apresento o processo de síntese, como criação dramatúrgica, do longo processo de estudo que levou ao espetáculo (mais de 1 ano e 4 meses solitários em sala de ensaio, aproximadamente dois meses acompanhado de outros artistas, além de um período anterior em oficinas de circo para crianças e adolescentes em situação de rua do projeto “Gepeto”). 

 

O texto a seguir adapta trechos de minha dissertação de Mestrado em Artes, na UNICAMP: “O Ator-montador”.  

 

 

Coleta de materiais  
Passados os primeiros meses de atuação na coordenação das oficinas de circo, e decidido a criar um espetáculo teatral sobre meninos de rua, eu comecei a imitá-los, coletando relatos, ações, gestos, vozes etc.

 

Este trabalho de coleta de materiais foi orientado pelo LUME – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da UNICAMP que, desde a sua fundação, desenvolve a metodologia da Mimese Corpórea: observação e imitação do cotidiano (pessoas, animais, pinturas etc) como base da atuação.

 

Aos poucos, esta interação foi estendida aos meninos das ruas de Campinas, de São Paulo e do Rio de Janeiro, incluindo uma pesquisa sobre a Chacina da Candelária – o célebre episódio em que, no Rio, oito meninos de rua foram assassinados na porta da Igreja da Candelária.

 

A dramaturgia de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, assim, é resultado da montagem de diferentes materiais que, articulados, ajudam a contar a fábula de Pedrinha, um sobrevivente.   

 

Fábula a partir do fato histórico
Havia, em “Agora e na Hora de Nossa Hora”, uma pretensão: contar a História. Nisso se abria um problema. Como, num espetáculo solo, eu poderia representar os muitos atores que estiveram envolvidos na Candelária? Era preciso incluir a representação de 72 meninos de rua que naquela noite dormiam ali e os policiais assassinos (ainda que o julgamento tenha levado ao júri apenas 8 policiais, os meninos relatam que, naquela noite, havia pelo menos 12 deles na Candelária). Isso sem considerar os atores do jogo político e social: o Prefeito e seus Secretários, o Governador, o Presidente da República, a representante da elite carioca, os educadores sociais, as ONGs, os muitos oportunistas que naquele momento decidiram se manifestar (chegou-se a projetar a realização de um filme de Hollywood, com elenco de atores estadunidenses, para retratar o acontecimento brasileiro!). Como um ator sozinho pode representar tantos personagens?

 

Antes de tudo, foi preciso reconhecer a impossibilidade de uma apreensão total da Chacina da Candelária num espetáculo. Nem mesmo o processo de investigação deu conta da sua totalidade, havendo ainda hoje, mesmo depois de abertos dois processos (o Candelária I e o Candelária II) brechas e situações mal explicadas no inquérito (por que, por exemplo, naquela noite, nenhum dos vigias dos Centros Culturais e bancos que ficam na Candelária estavam em seus postos?). Se nem mesmo uma investigação de anos deu conta da barbárie como apresentá-la em sua totalidade em aproximadamente 1 hora de espetáculo?

 

Seleção de materiais 
Depois de coletados os materiais (mais de uma dezena de meninos in-corporados pela imitação, mais de 250 artigos jornalísticos a cerca da matança), foi necessário selecionar o que, de tudo quanto foi pesquisado, era mais revelador do que eu pretendia apresentar: uma sociedade que gera e nega meninos de rua. 

 

Aí, é sempre bom reforçar, há uma leitura de mundo.  Não interessava, por exemplo, a apresentação de detalhes do processo de identificação de acusados da Chacina da Candelária (o que foi bastante tumultuado e um dos argumentos chave para defesa e acusação durante os julgamentos). A intenção não era apresentar como responsáveis pela Chacina os policiais que apertaram o gatilho das armas, mas a sociedade que gerou contexto para que os assassinatos acontecessem. Concentrei-me, nessa seleção, na apresentação da causa essencial da matança: o modo de vida dos meninos de rua conflita com o modo de vida dos outros habitantes da cidade. Assim, por exemplo, é incluído o texto, noticiado pelos jornais do Rio, em que meninos de rua se dirigem a turistas: “Hey, gringo! Have money para mangiare?” Um dos precedentes da Candelária, o episódio envolvendo turistas sul africanos, meses antes da Chacina, já dava indícios do desconforto que os meninos representavam para a cidade. Meninos pedindo esmolas para turistas viram notícia de jornal e caso de polícia.

 

Criação de personagem: Pedrinha 
Ainda assim, selecionadas as informações fundamentais sobre a Chacina, era necessário encontrar uma maneira de levar à cena a História. A primeira solução dramatúrgica foi a criação de um personagem que pudesse contar para os espectadores o que aconteceu na madrugada de 23 de julho de 1993. Aqui também é claro o meu posicionamento como artista: a matança contada do ponto de vista dos meninos.

 

Isso reforçado ainda por uma escolha. Dentre os muitos meninos que observei, não escolhi ao acaso aquele que narraria os acontecimentos da madrugada, mas aquele cuja ingenuidade era mais evidente. O único dos meninos com alguma deficiência mental que observei, com elevado grau de docilidade, foi eleito narrador. Nisso, evidencia-se ainda mais a barbárie: são, antes de tudo, crianças e adolescentes e, como disse Herbert de Souza, o Betinho, na época dos crimes, “Quando uma sociedade deixa matar crianças, é porque começou o seu suicídio como sociedade”.

 

Começava, assim, a se desenhar a montagem dramatúrgica do espetáculo. Um menino de rua narra para os espectadores a Chacina da Candelária – ele sobreviveu ao massacre porque dormia em cima da banca de jornais (era comum que meninos dormissem assim porque, na época, já havia quem jogasse paralelepípedos na cabeça dos habitantes das ruas).

 

Situação dramatúrgica: Juan Rulfo 
Até aqui, delimitava-se um personagem. Para a finalização de situações dramatúrgicas, faltavam outras informações, como a delimitação de espaço e tempo. Isso foi recolhido no conto “Macário”, do mexicano Juan Rulfo.

 

O encontro com a literatura de Rulfo parecia já óbvia. Isso porque, durante o processo de criação, eu descobri que as pesquisas sobre a Mimese Corpórea foram iniciadas por Luís Otávio Burnier, o fundador do LUME, a partir da imitação de crianças marginalizadas de grandes cidades. Com a mimese dessas crianças, Burnier esperava reunir material para adaptar para o teatro o conto de Rulfo. Curioso sobre o trabalho já desenvolvido por Burnier, procurei registros em vídeo do espetáculo “Macário”. Como não os encontrei, contentei-me com a leitura do conto que foi logo incorporado à montagem do espetáculo. Já que eu falava de meninos cujos pais são ausentes, o espetáculo serviu ainda para que eu me aproximasse do mestre que eu não conheci.

 

Em “Macário”, um menino (que não é morador de rua) está junto de uma cisterna esperando saírem as rãs. Durante toda a noite, fizeram muito barulho e, por isso, não deixaram dormir a sua madrinha. Com um pedaço de pau na mão, ele espera matar uma a uma todas as rãs.

  

Em “Agora e na hora de nossa hora”, um menino de rua, o Pedrinha, está junto de um bueiro esperando os ratos saírem. Para ele, o barulho dos ratos não deixou os policiais dormirem. Por isso a matança. Ao ouvirem os tiros, todos os meninos saíram correndo, menos ele, que ficara quieto sobre a banca de jornais. Com algumas pedras nas mãos, ele espera matar os ratos para que todos possam dormir em paz.

  

Resolviam-se, assim, os problemas fundamentais da dramaturgia do espetáculo. Já não era necessário representar todos os meninos que naquela noite estavam na Candelária, mas apenas um. O espetáculo acontece no momento em que todos fugiram. Com a rua deserta, o menino procura se entender com os ratos, os responsáveis pelo ódio dos polícias. Pouco a pouco chegam os espectadores, recebidos, agora, como as primeiras pessoas que se aproximam do local da Chacina.

 

 Serviço:
“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia:
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700      


5. Chacina da Candelária: a madrugada que não acabou

 

Essa é a quinta postagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” que, nesse momento, acompanha 18 apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia.  

 

A realização de exatas 18 sessões do espetáculo, assim como as 18 postagens no blog, tencionam o registro dos 18 anos da Chacina da Candelária – quando, no Rio de Janeiro, 8 meninos de rua foram assassinados nos arredores da Igreja da Candelária. Assim, a provocação: como sociedade atingimos a maioridade do tema social?  

 

Em outra postagem, já falei das motivações em abordar a chacina como assunto da cena:  o acontecimento histórico, de meu ponto de vista, revela um comportamento cotidiano da sociedade brasileira com os meninos de rua –  negá-los até a morte! A história como modelo revelador.

 

Essa abordagem do fato histórico foi fortalecida a partir das minhas interações com os meninos de rua em Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro. Em todas essas cidades, persistem os históricos de abusos policiais, assassinatos e, no limite, como testemunhei no Rio, a violência à população de rua apresentada descaradamente como política pública.    

 

Aqui, adapto trecho do livro “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense”, de minha autoria, publicado pela Editora Hucitec (2007).  

 

Dez anos depois
Dez anos depois do escândalo internacional da Candelária, pouca coisa havia mudado. Em 2003 e 2004, quando da realização de minhas pesquisas para o espetáculo, o Governo do casal Garotinho (Rosinha, a Governadora, e Anthony, seu Secretário de Segurança) comandam o programa Zona Sul Legal. O programa incluía, além do aumento do efetivo das polícias cariocas – boa parte alocada na Zona Sul, área onde vive a elite econômica da cidade do Rio de Janeiro e onde se localizam importantes centros turísticos –, ações de recolhimento da população de rua, encaminhada para as Centrais de Triagem.

 

No Estado do Rio, o menino de rua que dormia na calçada da Zona Sul, primeiro era algemado e só depois era desperto. Uma criança era presa (uma criança!) única e exclusivamente porque ultrapassara a barreira geográfica do apartheid social: Zona Sul não é lugar de pobre!

 

O Estado, além de violentar a população que deveria representar através de políticas sociais adequadas, divulgava a sua ação como política de segurança. “Todos podem dormir tranquilos porque os pivetes estão sendo recolhidos”, parecia anunciar a propaganda publicitária veiculada em rádio e televisão.

 

O governo potencializava o desentendimento, tomando o menino de rua como o responsável pela violência na cidade. Durante o tempo em que eu estive no Rio de Janeiro, não vi, naquele momento, notícias de uma única ação que se dirigisse ao desmantelamento do crime organizado e do tráfico de drogas. Era mais fácil para os Garotinho projetar em crianças e adolescentes a sensação de insegurança do cidadão da Zona Sul do que desenvolverem políticas reais de Segurança Pública.

 

Uma Noite na Central de Triagem
Segundo os informes publicitários, as pessoas que eram recolhidas nas ruas eram encaminhadas para locais adequados para o seu acolhimento. Não foi o que eu vi. Na Central de Triagem, local de onde todos deveriam ser encaminhados para os abrigos da cidade, não havia possibilidade da efetividade do trabalho, porque não havia abrigos para recebê-los. Na Central de Triagem, espaço sem a mínima infra-estrutura para o desenvolvimento de uma política social adequada (não havia camas, não havia banheiros suficientes, as refeições eram produzidas em condições precárias etc.), crianças e adolescentes, homens, mulheres e até mesmo famílias acomodavam-se como podiam (cada um destes grupos ocupando um andar da instituição).

 

Havia, ainda, aqueles que nem mesmo conseguiam adentrar o prédio da Central, acomodando-se na sua calçada mesmo. Não havia como passar despercebida a sucessão de violências a que estava sendo submetida a população de rua do Rio: antes de tudo, a própria situação de marginalização social; depois, as ações de recolhimento, tolhendo-lhes o direito constitucional de ir a vir; por fim, ainda, o encaminhamento para locais onde não havia condições de um atendimento com a responsabilidade que pedem os problemas sociais brasileiros.

 

Uma política fundada em absurdos: no absurdo de que as populações marginais não podem e não devem circular nas áreas nobres da cidade; no absurdo de que o Estado sabe, mais do que as próprias pessoas, o que delas deve ser feito; no absurdo de que a situação de rua, em si, condiciona ao crime (daí o desenvolvimento de um programa de segurança na atuação junto à população de rua) etc.

 

Política Social, no Brasil, frequentemente é caso de polícia! 

 

Campinas: uma Candelária  por mês
Fosse a Chacina da Candelária um evento isolado e já se teria motivos para fazer um espetáculo de teatro. Fosse a violência contra a infância exclusiva ao Rio de Janeiro e já se teriam motivações bastante para a indignação. Para muito além desse fato e desse estado, a violência contra meninos de rua se estende irrestritamente por todo o território nacional. Daí as motivações para um espetáculo indignado. 

 

Lembro que a cidade mesmo em que vivo, Campinas, apresenta igualmente índices alarmantes de violência contra o cidadão em geral e especialmente contra a população pobre. Nos tempos de minha interação com os meninos de rua contabilizavam-se entre 8 e 10 menores de idade assassinados a cada 30 dias: mais de uma Candelária por mês!  

 

Eu mesmo ouvi de meninos de Campinas e de educadores que com eles trabalham relatos impressionantes. Numa noite, contavam eles, a polícia recolheu diversos meninos no centro da cidade (política de recolhimento e de afastamento de população de rua é uma das ações menos criativas e mais violentas a que se submete essas pessoas). Depois, foram levados para um “lixão”: enquanto um policial controla o grupo, outro leva um a um a local onde não podem ser vistos pelos demais. Ali, atira. Um a um, os meninos são levados e ouvem-se os tiros. Os que estão próximos do grupo já sabem: aguardam a sua sentença de morte. Quando levados ao local onde acreditam serem sentenciados, no entanto, o policial ordena que corram para longe dali; só então atira em direção oposta. Dias mais tardes, os meninos pouco a pouco encontram seus parceiros nas ruas da cidade. Apenas um susto? Com o passar do tempo entendi: tudo e todos pretendem dizer a esses meninos que as suas vidas não lhes pertence. 

 

18 anos depois
Passados 18 anos da Chacina da Candelária, provocamo-nos: atingimos a maioridade do problema social que, no limite, assassinou crianças e adolescentes, em 1993? 

 

A provocação, como se vê, estende a Chacina da Candelária para muito além do evento histórico (uma madrugada que ainda se repete) e para muito além do território carioca.  

 

Na cidade de São Paulo, os projetos de revitalização do centro da cidade, conduzidos por Prefeitura e Governo do Estado, parecem não levar em conta que, além da recuperação dos prédios históricos, é preciso conduzir ações efetivas com a população que ali vive. Revitalizar o centro é, afinal, dele cuidar para melhorar a vida das pessoas. Resultado: a chamada cracolândia instala-se em diferentes regiões centrais sem nenhuma perspectiva de mudança desse panorama social. O crack, diga-se, ainda mais que em 2003, quando realizei os estudos para o espetáculo, é mencionado em estudos diversos como verdadeira epidemia!        

 

Não conheço nenhuma política pública brasileira de qualidade que perdure no atendimento à população de rua e às crianças e adolescentes de rua espacialmente. Assim, sigo apresentando “Agora e na Hora de Nossa Hora”.     

 

1. “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”

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“Agora e na Hora de Nossa Hora” é um solo sobre meninos de rua com minhas dramaturgia e atuação e direção de Verônica Fabrini. Seu processo criativo incluiu a realização de oficinas de circo com crianças e adolescentes em situação de rua, a inspiração no conto “Macário”, do mexicano Juan Rulfo, e a pesquisa sobre a Chacina da Candelária – quando, em 1993, oito meninos moradores de rua foram assassinados por policiais, nos arredores da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro.

 

Em 2011, este fato histórico completa 18 anos, o que nos motivou a conceber um projeto de circulação do espetáculo: “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”. Assim, dia 21 de outubro de 2011, estréia, no SESC Pompéia, temporada paulistana de “Agora e na Hora de Nossa Hora” com exatas 18 sessões. As apresentações acontecem até o dia 27 de novembro, às 21h (sextas e sábados) e às 19h (domingos).

 

Numa segunda etapa, a ser realizada com recursos do PROAC – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, o espetáculo apresentar-se-á em outras 18 sessões  no interior paulista.

 

Um objetivo primeiro do projeto, é o registro do marco histórico. Se é esperado que o brasileiro nascido em 1993 esteja apto a exercer a sua cidadania (com direitos e obrigações civis), este projeto provoca-nos: fomos capazes, como povo, de amadurecer um projeto social diverso daquele que assassinou crianças e adolescentes 18 anos atrás? Concebidas desta maneira, as apresentações da temporada paulistana e a circulação pelo interior constituem um ato performático. Seu programa inclui ações que, tal qual a temática do espetáculo, debatem circunstâncias históricas específicas, a Chacina da Candelária, mas se estendem para além delas:

 

1) Nos 18 anos de um importante acontecimento social realizam-se 18 apresentações na capital e 18 sessões no interior paulista de um espetáculo teatral que o debate.

 

2) Estas apresentações são realizadas em municípios paulistas com elevados índices de violência contra a infância e a juventude e consumo de crack entre jovens – tema, aliás, anunciado no espetáculo já há sete anos e, hoje, encarado como verdadeira epidemia nas cidades brasileiras.

 

As apresentações no interior serão acompanhadas de atividades paralelas diversas: debates, exposição etc. Além disto, neste blog, a cada fase do projeto, 18 postagens apresentarão minha interação com os meninos de rua e o processo de sua síntese como obra teatral.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” é projeto de circulação circular: integração e aprendizado com as experiências; os fatos do passado como abertura para a invenção do futuro. No percurso – sempre! – uma trajetória de sabedoria.

 
Serviço:

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia:
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700