animação

“Chuva Pasmada” no Olho do Furacão



Transcrevemos, abaixo, a crítica de Kil Abreu para o espetáculo “Chuva Pasmada”, apresentado no Fentepp 2010.


 

Nesta versão teatral do conto de Mia Couto, defendida por Alice Possani e Eduardo Okamoto, sobressai uma vez mais algo recorrente na cena brasileira dos últimos anos: a visita ao tema da cultura comunitária, temporalmente recuada e que deixa ver um tipo de sociabilidade em que a vida surge ainda nas bases de um compartilhamento possível, de aspirações coletivas quanto aos sentidos da existência. É esta perspectiva que dimensiona o caráter filosófico que a montagem tem. O dado de dramaticidade está no ruído que, inesperado, aparece para perturbar a ordem deste mundo visível na sua totalidade de valores. É a fenda aberta naquela realidade pacífica o que gera o interesse teatral.

 

No Brasil o gosto por estas dramaturgias pode ser visto em projetos artísticos como o do grupo Lume (Café com queijo é exemplar) e a linhagem de pesquisas orientadas pela antropologia teatral. Mas está também em autores cujos propósitos e estéticas são bem diversos, como Newton Moreno (pensemos em Agreste e Assombrações do Recife velho) e Luis Alberto de Abreu (Maria peregrina, Borandá e outras). Além destes, que mantêm trabalhos de excelência, há um sem número de artistas e grupos tateando campos parecidos. De todo modo há a disposição para formalizar um imaginário social que ganha maior sentido e utilidade não apenas pelo que representa de recuo nostálgico a modos de convivência hoje praticamente perdidos, mas porque estes modos contrastam violentamente com a nossa própria maneira de viver no presente.

 

A começar pelo que talvez pudesse ser o ponto de chegada deste argumento, podemos dizer então que Chuva Pasmada é um espetáculo bonito e útil porque, como nos bons exemplos desta linhagem, deixa claro, ainda que nas entrelinhas, o contraste daquele mundo com as relações atuais, em tudo fragmentadas e cada vez mais distantes da possibilidade de visualização como totalidade. De dentro da sua expectativa fabular a narrativa nos alerta para uma solidão que se anuncia terrível e, pior, paradoxal, porque se dá no olho do furacão de uma dinâmica social, a nossa, em que se proclamam justo os ganhos da interação instantânea que, no entanto, são sempre parciais e altamente mediados.

 

Tendo como tarefa dar concretude ao narrado a dupla de atores, sob a orientação de Marcelo Lazzaratto, transita com grande interesse pelas dobras da história. Tem a seu favor a dramaturgia de Cassio Pires, que faz pacto de convivência com o que é fundamental no conto, aquilo que se convencionou chamar “relato simples”, um gênero de épica das origens que mantém assento na oralidade tradicional, ainda que aqui ela apareça revestida com o acabamento de uma voz literária particular.

 

Em um dedicado trabalho de investigação das imagens que o texto oferece, Alice e Okamoto usam sofisticado repertório atoral, com apoio na gestualidade que, referente aos personagens e situações, não quer mimetizá-los à risca, preferindo a estilização. É um caminho que deixa como ganho o desenho necessário das ações e os espaços livres para uma atuação dinâmica que envolve o relato e a mímesis a um só tempo. São performances sustentadas e empáticas que, entretanto, ainda deixam em suspenso (para usar uma imagem do conto) algo importante. Há grande eficácia na composição das personagens, na chave escolhida. Isto garante uma parte do efeito e do interesse que temos no acompanhamento da narrativa. Mas, salvo engano, ainda será preciso dedicar a mesma atenção quanto ao desenrolar mais exterior das ações. A sintonia fina que é possível ver na construção dos papéis ainda carece de investimento na área da narração. É que o conto, por simples que pareça, tem uma estrutura com muitas dobras, que incluem informações e sentidos. Não temos, por hora, a clareza necessária sobre estas informações, o que por fim acaba prejudicando a apropriação dos sentidos.

 

É claro que com isto não se diz que o espetáculo deva levar o espectador tendenciosamente a um sentido, o que seria traição à abertura poética que a dramaturgia preserva. Entretanto, trata-se de uma narrativa exemplar que tem, sim, um campo de possibilidades de leitura circunscrito ou ao menos esperado. Esclarecer melhor o andamento das ações, as relações de causa e consequência não no aspecto dos seus efeitos, mas do que há nelas de mais objetivo, qual seja, as suas circunstâncias, certamente vai favorecer muito a leitura final que, assim, poderemos fazer com as nossas chaves próprias. Isto seria tão importante quanto o estado, a atmosfera cênica que já estão bem instalados no espetáculo (e, neste capítulo, com a colaboração fundamental da trilha pensada por Michael Galasso).

 

É uma difícil e por isso bela tarefa artística. Mas tem como operadores um time de muita qualidade, pela importância mesmo dos seus respectivos trabalhos e, sobretudo, pelo nível de inquietação que podemos ver neles. Então o reclamo por uma apropriação mais efetiva da platéia na relação com a montagem talvez ainda interesse. Por comum, esta seria também uma forma de articular, nesta idéia de um compartilhamento mais generoso, uma resposta possível àquela dor da época que – supomos – Mia Couto intui com razão, mesmo que a represente subliminarmente.

Fonte: Kil Abreu / Foto: Fernando Martinez


Estréia “Chuva Pasmada” no Sesc Pompéia


Hoje às 21h, no Novo espaço Cênico do SESC Pompéia,  estreia a temporada do espetáculo Chuva Pasmada! Espetáculo em parceria com o Grupo Matula Teatro.

 

 

De 22/10 (hoje) à 14/11 (com exceção do dia 31/10)

Sextas e Sábados às 21h; Domingos às 19h.
Ingressos de R$ 3,00 a R$ 12,00
SESC Pompéia: Rua Clélia, 93 – São Paulo-SP