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Sobre a Hidrelétrica de Belo Monte

 

Na semana passada, um grupo de estudantes da UNICAMP divulgou vídeo manifestando posição favorável à construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Depois, a imprensa ecoou a opinião dos universitários. Como sou um ex-estudante da mesma Universidade, acho por bem expressar opinião diversa: a UNICAMP, como o mundo, felizmente é múltipla.

 

Sou contrário à construção da usina por um motivo simples: a obra é planejada em nome de necessidades que não são as das populações banhadas pelas águas do Rio Xingu, que deverá movimentar as turbinas da hidrelétrica. Aí, a recorrência de equívocos históricos: o desprezo a populações indígenas (índios e seus descendentes) justificado em necessidades de consumo de grandes centros populacionais e comerciais. Os índios não querem a construção de qualquer usina em seu território ou nos seus arredores – aí, incluem-se aqueles que vivem distantes do local projetado para a instalação imediata das barragens, mas que se veem ameaçados diretamente pela obra, como os habitantes do Parque Nacional do Xingu. Vale dizer que a Revista Scientific American no. 44, de Portugal, traça um aterrador retrato desse parque: ainda que se mantenham intactos os territórios da reserva, como se projeta na construção de Belo Monte, implantada a muitos quilômetros dali, são grandes as ameaças que já a estrangulam, como a expansão do agronegócio, o crescimento das cidades, a violência contra seus líderes. Assim, penso que se nós, habitantes dos grandes centros urbanos, insistimos em uma determinada classe de necessidade, podemos buscar soluções para elas nos quintais de nossas próprias casas. E se outras alternativas energéticas são menos vantajosas do ponto de vista econômico, como apontam os estudantes em discutível discurso, isso só confirma aquilo que já disse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro: cedo ou tarde a insaciabilidade do desejo humano tem de ver-se com a finitude objetiva do ambiente – a escassez de recursos. A tempestade pode parecer derramada em copo d’água, têm razão alguns estudantes da UNICAMP; sobretudo, quando o copo ou o que ele representa é dos outros.

 

 

Agora, o que me interessa reconhecer, nesse texto, são os termos econômicos com os quais se debatem os rumos da nação em geral e a construção de Belo Monte em especial. Perdoem-me os bons economistas, mas, no mundo contemporâneo, é ao jargão das Ciências Econômicas que os arrogantes apelam quando já não há argumento possível para o ataque à vida – humana e não humana.

 

Vejamos isso. A construção da Usina é necessária porque o crescimento econômico do Brasil forma milhares de pessoas como consumidores, exigindo, dessa maneira, maior capacidade energética. Esse é o projeto da nação: esmero e orgulho na formação de consumidores – o que é substancialmente diverso de formar cidadãos. Isso, no mínimo, pressupõe investimento efetivo e competente em áreas outras, como a cultura, cujo Ministério que deveria fomentá-la tem o seu orçamento, inclusive o do próximo ano, frequentemente assaltado em nome das necessidades… econômicas. Mas isso é outro longo assunto, eu sei. Espanta, no entanto, que o crescimento econômico justifique as ações que impulsionarão o crescimento econômico – cobra comendo o próprio rabo! Não se questiona se a economia que se tem é a mais adequada ao desenvolvimento humano (cultural, educacional, entre outros). Há tão somente uma certeza: é preciso fazer a economia crescer! Sempre!

 

Nesse sentido, não é injustificado o temor dos líderes indígenas, especialmente os do Parque Nacional do Xingu, como o Raoni, de que Belo Monte seja apenas a primeira de uma série de obras hidrelétricas ao longo do Rio Xingu. Ora, se a urgência do crescimento econômico justifica, agora, a obra em Belo Monte, por que as urgências futuras não justificarão novas necessidades energéticas e, consequentemente, novas obras – inclusive dentro da reserva indígena, onde já se projetaram outras usinas?    

 

Esse projeto de Belo Monte, sabemos, não é do atual governo que assume a tarefa do início das obras. E inquieta justamente isso: é curioso que a Presidenta da República, outrora literalmente entrincheirada em lado oposto, lidere a consolidação de um plano de usina articulado ainda nos tempos do governo militar. Não projeto na pessoa da Presidenta essa responsabilidade – mulher cuja biografia é respeitável e admirável; ela atende, sei, a pressões sociais e econômicas. Espanto-me, porém, em verificar que a nossa líder, à imagem e semelhança de seu povo, toque adiante um plano de um governo que, antes, combatia. Estranhamente a necessidade do crescimento econômico aproxima discursos ideológicos inconciliáveis.

 

A Usina de Belo Monte, enfim, pode revelar o que está além da sua construção; é a alegoria de um modelo de desenvolvimento que se propaga como única alternativa possível. Os tempos são diversos daqueles em que militares governavam o país. Faz pouco sentido falar em ditadura. Vivemos uma democracia. Mas eu não consigo responder a mim mesmo quando foi, afinal, que nos tornamos tão pragmáticos e tão pouco sonhadores. Quando foi, enfim, que a nossa democracia tornou-se capaz de abraçar um projeto da ditadura.

 

E isso, diga-se, acontece no momento mesmo em que Europa e Estados Unidos, modelares do tipo de desenvolvimento que ora rastreamos – fundado, insisto, na formação de consumidores e não na formação de cidadãos -, estão, como se sabe, à beira do colapso. Já sonhamos ser o país do futuro. Não estava claro que o nosso futuro era o passado dos outros.

 

Talvez para alguns dos estudantes da UNICAMP não haja vida possível fora disso em que estamos: o mercado consumidor. Não os responsabilizo por isso também. Eles estão somente de acordo com o mundo e o país que os forma: são o futuro (ou o passado, dependendo da perspectiva)  e mostram que aprenderam com o seu professor o vocabulário técnico e econômico exato para perpetuar a exclusão da opinião de determinados sujeitos históricos – os índios, por exemplo. Eles sabem que as populações afetadas diretamente pela construção de hidrelétricas podem ser financeiramente recompensadas por eventuais transtornos. O que talvez não lhes tenha ocorrido é que há coisas que não se pode comprar e consumir e que algumas dessas coisas frequentemente estão fortemente associadas à terra em que se vive – ou às águas que as banham: os saberes locais, as identidades culturais; aquilo, enfim, que nos faz reconhecer que nós somos nós mesmos, não outras pessoas; que aqui, é aqui mesmo, não os Estados Unidos ou a Europa ou a Austrália ou o Canadá, como parece lamentar o professor ao fim do vídeo.

 

Quanto ao humorista que igualmente fez um vídeo satirizando a opinião alheia sobre a construção da Usina, não tenho nada a dizer. Deixo-o com a sua própria consciência. Os consumidores desse tipo de humor (e a palavra consumo é escolhida, aqui) rirão essa piada até o final.