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Falta Feverestival!

Nas últimas semanas, a organização do Feverestival – Festival Internacional de Teatro de Campinas anunciou uma edição-ausência, em 2012: neste ano, não teremos a realização do evento. A justificativa para isto não é nova (o que a torna ainda mais terrível): falta de verbas; nenhum apoio municipal; nenhum reconhecimento em editais estaduais e federal (que ainda que tenham aumentado enormemente em frequência e recursos são ínfimos ante a demanda); falta de interesse da iniciativa privada em patrocinar o festival com aportes financeiros significativos. O resultado é igualmente conhecido: perdemos todos. Assim, a cidade de Campinas fica ainda mais pobre.

 

A nossa miséria, diga-se, não se refere à ausência das inúmeras atividades econômicas anualmente fomentadas pelo festival e que, neste ano, sentirão a sua ausência –  as atividades da chamada indústria criativa, ocupando atores, diretores, cenógrafos, técnicos, bilheteiros, faxineiros, recepcionistas, etc; e as atividades econômicas indiretamente estimuladas (o comércio e prestações de serviços locais, com restaurantes e bares, lojas e hotéis, taxistas, etc.). E perceba-se que este “etcetera” quer dizer muito, muita gente.

 

Empobrecemos, porém, menos no bolso e mais no espírito. E esta miséria é irreparável e desastrosa, estejamos nós, no futuro, em melhor ou pior situação financeira. Quando uma obra de arte deixa de ser fruída pelo público (e no caso de um evento que não se realiza muitas obras deixam de ser partilhadas), um mundo não se realiza. Isso se refere primeiramente, claro, à maior clareza que a obra nos oferece do mundo mesmo em que vivemos, as relações sociais tal qual a conhecemos e experienciamos. Ou seja, a arte nos faz perceber a vida, significá-la, debatê-la. Isso é muito, mas não é tudo: a arte ainda nos faz entrever mundos outros, não como cotidianamente conhecemos a vida, mas como  a sonhamos. Sonhar mundos talvez seja a missão mais nobre da arte. Porque, aí, nossa potência de transformação das coisas. Aí, enfim, a potência das possibilidades.

 

Mais pobres em imaginação, como encontrar forças para se opor à triste realidade que vive Campinas? Como enxergar o potencial da cidade no feio cotidiano que nos circunda? Campinas está no fundo do poço, não fique dúvidas sobre isto. Corrupção, indiferença e distância entre a população e os seus representantes políticos são a tônica dos últimos anos. É sintomático e preocupante, neste estado de coisas, o sucessivo cerceamento aos espaços de convívio como política pública: fechamento de teatros (não há absolutamente nenhum equipamento municipal apto a receber qualquer tipo de espetáculo) e, agora, a impossibilidade de realização de um dos mais importantes eventos das Artes Cênicas no interior de São Paulo. Reduzindo-se os espaços de encontros entre os cidadãos (especialmente o teatro e a sua latente função social), como fortalecer os laços de pertencimento e a sua reinvenção?

 

Campinas, considerando-se a sua importante produção tecnológica, a sua vanguarda de pesquisa em diversas áreas do conhecimento e os interessantes trabalhos de seus artistas (muitos deles referência internacional em suas áreas de atuação) poderia ser a cidade mais inventiva do Brasil. Não é. E um ocupante de cargo público que não seja capaz de reconhecer este “talento” da cidade não merece o posto que ocupa. Talvez não tenha, o dito cidadão, fruído boas obras de arte o suficiente. Resta-lhe uma certa miopia social que, tenho certo, terá a resposta das urnas no próximo pleito.

 

Reconheçamos: a cidade em que vivemos é, atualmente, aquela que ocupa os noticiários nacionais como exportadora de esquemas de lavagem de dinheiro, favorecimento em licitações, mal uso da coisa pública. Sem mais uma edição do Feverestival é mais difícil sonhar para além disto. Estamos, assim, empobrecidos.

 

Por sorte, ainda há mais: o legado das edições anteriores do Feverestival e o impulso para as próximas; os artistas de Barão Geraldo que, a despeito de tudo, ainda produzem seus próprios trabalhos e os apresentam em seus próprios eventos – o LUME, a Boa Companhia, o Barracão Teatro etc. Aí, outras sementes de imaginação e sonho na sua mais alta potência subversiva!

 

A organização do Feveresitval acertadamente marcou 2012 como a edição da “Falta” do evento. Resta-nos não assimilar esta ausência. Esta falta, enfim, precisa nos mobilizar.