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10. Teatro e Celebração de Amizades

 

Estamos nas duas últimas semanas de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” no SESC Pompéia. Esta é décima postagem do projeto  – num total de 18 que,  junto de 18 sessões do espetáculo, marcam os 18 anos da Chacina da Candelária.  

 

As apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” proporcionaram experiências muitas, em todo o Brasil e também no exterior. Possibilitaram também muitas amizades. Aqui, celebro uma uma delas.

 

Em 2007, no Marrocos, na cidade de Agadir, conheci Aicha Haroun Yacobi – diretora de teatro, dramaturga e roteirista de cinema. Já escrevi sobre ela na edição número 2 da Revista Olhares e parte do artigo já foi publicada neste blog.

 

Há muito sonhamos em uma co-produção Brasil/Marrocos. Enquanto buscamos os meios de viabilizar esse desejo, mantemos uma intensa correspondência. Na última semana, ela me enviou um link para um curta seu, finalizado recentemente:  “As They Say”. Aqui, compartilho o vídeo e celebro a nova criação:

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

Revista Olhares 2 publica artigo de Eduardo Okamoto

 

 

A revista Olhares, publicação da Escola Superior de Artes Célia Helena, será lançada hoje, dia dez de outubro de 2011, na Livraria da Vila. A edição homenageia o trabalho de Daniela Thomaz, traçando um perfil da artista.

 

A revista Olhares teve, nesta edição, a colaboração editorial dos Profs. Drs. André Carreira, da Universidade do Estado de Santa Catarina, e Walter Lima Torres Jr., da Universidade Federal do Paraná. Constam, no volume, textos assinados por Frank Totino, Richard Schechner, Aïcha Haroun Yaccobi, Roberto Moreira, Oswaldo Mendes, Eduardo Okamoto, Luciana Magiolo, Humberto Hugo Villavicencio García, Carolina Gonzalez, Edélcio Mostaço, Sílvia Fernandes.

 

Em seu artigo, Eduardo Okamoto analisa sua experiência no Marrocos, no Festival Internacional de Expressão Corporal  Teatro e Dança de Agadir, e num desdobramento da viagem: a montagem do exercício cênico Ghita, de  Aïcha Haroun Yacobi. Parte do texto, foi publicado no blog do ator. Para ver essa postagem, clique aqui.

Aicha Haroun Yacobi

 

O texto abaixo é parte do artigo “‘Ghita’, de Aicha Haroun Yacobi: uma dramaturgia do afeto”, que será públicado na próxima edição da Revista “Olhares,” da Escola Superior de Artes Célia Helena”. Assim que for publicado, uma versão também será disponibilizada neste site, na seção processos.

2008 é o ano da data; julho o mês. Acompanhei a realização do Festival Internacional de Expressão Corporal Teatro e Dança de Agadir, no Marrocos. Dois anos antes, eu conhecera a coordenadora do evento, a diretora e dramaturga Aicha Haroun Yacobi, em um festival de teatro na Espanha. Convidados a apresentar o solo “Agora e na Hora de Nossa Hora” no evento marroquino, ali estávamos, assim, a diretora do espetáculo, Verônica Fabrini, e eu aguardando a abertura do festival..

Horas antes do lançamento do evento, no entanto, um fato alteraria a sua realização: todas as cortinas de veludo que cobriam as grandes janelas de vidro da Sala da Municipalidade, onde aconteceria o evento, foram retiradas. Seriam lavadas, alegou-se à época. Difícil foi entender, num primeiro momento, o porquê da decisão da retirada da panagem na tarde de estreia de um dos principais eventos culturais da cidade. Por quê?

Depois, soube-se que havia mais motivos para a retirada das cortinas que o asseamento da sala: era difícil a aceitação de que um evento pudesse ser coordenado por uma mulher; que sob seu comando estariam muitos homens – técnicos e seus coordenadores, acompanhantes dos grupos convidados, motoristas, porteiros, bilheteiros, atores, diretores, equipes de limpeza, credenciamento e hospedagem e todos estes em diálogos com outros representantes de outras instituições (os patrocinadores e apoiadores, os homens da política, os demais artistas marroquinos).

Isso soubemos não só por conversas com Aicha e seus parceiros, mas também pela nossa própria vivencia em terras marroquinas – a experiência, diga-se, revela um aprendizado nascido do próprio ato de experienciar as coisas vividas e aí está um dos motivos de o teatro ainda se estabelecer como linguagem importante aos homens. Foi curioso perceber, por exemplo, que a diretora do espetáculo que eu apresentava tinha pouca voz entre os técnicos que montavam suas estruturas de luz e cenário e, não raro, foi preciso que eu, sendo um homem, repetisse as mesmas palavras acabadas de serem pronunciadas por ela (as mesmas com pequenas diferenças provocadas pelos erros de meu inglês não fluente) para que as suas decisões como responsável pelo trabalho ganhassem materialidade. Os técnicos pareciam, enfim, pouquíssimo interessados em atender às solicitações de mais uma mulher.

Sendo a sala de espetáculos sem paredes de alvenaria, mas inteiramente cercada por enormes janelas de vidro, a retirada dos panos colocava em risco a realização do evento – ou, pelo menos, a sua qualidade. Ora, estando em julho, pleno verão, o Sol punha-se depois das nove da noite, em Agadir, e, assim, os espetáculos, cujas apresentações estavam marcadas para às 19h, tinham prejudicados todos os seus efeitos de iluminação.

“Nada a fazer”, já lamentava eu, como as personagens de “Esperando Godot”, de Samuel Becket. Restava a aceitação de um fracasso.

Uma solução apresentada surpreendeu-me. Mais: já me revelava com maior profundidade a pessoa que eu aprenderia a admirar ainda mais nos dias (e anos!) seguintes: sem nenhuma discussão com os homens que haviam retirado as cortinas, Aicha propôs que os espetáculos tivessem suas sessões atrasadas em aproximadamente quatro horas! Em princípio, a solução parecia-me descabida: o evento estava divulgado em cartazes e na imprensa. Haveria espectadores pacientes o suficiente para aguardar tamanho atraso? Houve! Todas as sessões tiveram a capacidade total do teatro ocupada, com espectadores, inclusive, assistindo em pé aos trabalhos apresentados, na falta de cadeiras para todos. O atraso pareceu até mesmo criar um ambiente solidário que favorecia a fruição das obras – atores e espectadores imersos em uma dimensão comunitária.

Ali, não só reconheci que os artistas de teatro são fortes o bastante para enfrentar dificuldades. Isso já se sabe há muito. O que se revelava para mim eram as dificuldades e a inteligência de uma mulher marroquina que as vencia (todas elas!). Sem enfrentamentos diretos, aderindo aos obstáculos em vez de resistir a eles, Aicha permite que a própria dificuldade revele a potência da sua superação. Realizou, em Agadir, um lindo festival! E, em nossa partida, já tínhamos, eu Verônica e Aicha, olhos marejados de saudade. O que parece hostilidade, ensina ela em suas ações, pode ser também o princípio do novo: o inesperado.