animação

22 – Basquiat

 

 

 

Seguimos o nosso périplo de 18 apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” e 18 postagens neste blog, registrando os 18 anos da Chacina da Candelária. Assim é o projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”, financiado com recursos do PROAC 2011 – Programa de Ação Cultural do estado de São Paulo. Próxima parada: Assis.  

 

Eu não sei explicar o porquê, mas a obra de Jean Michel Basquiat sempre exerceu em mim um profundo efeito: transtorno, perturbação mesmo. Tudo o que posso dizer é que, aos 16 anos, numa exposição em São Paulo, vi muitos de seus quadros. Um deles me tomou a alma – exatamente este que abre a postagem. Um enorme anjo negro! Nunca mais o esqueci. Nunca mais uma obra pictórica teve efeito semelhante em mim – talvez “O Grito”, de Edvard Munch, tenha se aproximado.    

 

Assim, ainda que eu possa escrever que é notável que um jovem que viveu nas ruas tenha sua obra conhecida mundialmente; ainda que eu diga que é incrível que ele tenha contribuindo substancialmente para o reconhecimento do grafite como arte; ainda que eu possa traçar muitos paralelos entre ele e os muitos artistas que conheci na rua – poetas, pintores, músicos; ainda assim, nada vai poder equivaler a perturbação de senti aos 16 anos de idade – provavelmente um dos meus primeiros contatos com aquilo que chamamos de arte.

 

Em muitas circunstâncias, incluindo no processo que levou a “Agora e na Hora de Nossa Hora”, trabalhei a partir de suas imagens, procurando incorporá-las.  A imagem deste anjo, inclusive, por muito tempo, foi a imagem de programas e cartazes do espetáculo. Não escrevia nenhum texto, apenas se imprimia a imagem no material gráfico e – Oxalá queira assim – na experiência do espectador.

 

E, como diz Hamlet, ao fim da peça, diante da força da obra de arte e da vida, que todo o resto seja silêncio. 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Assis
 Dias 14, 15 e 16 de março, às 20h 
Teatro Municipal padre Enzo Ticinelli
Rua Floriano Peixoto, 757
Ingressos gratuitos
Informações: (18) 3322-2613 e 3322-2677 

 

21 – Teatro e pedagogia

 

Estamos na cidade de Garça, no interior de São Paulo. Aqui, realizamos duas apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, inseridas no projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”.  Assim, se registram os 18 anos da Chacina da Candelária em 18 sessões do espetáculo, exposição, bate-papo, workshop e 18 postagens neste blog. O projeto é financiado pelo PROAC 2011 – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.     

 

Apresentar na cidade de Garça era um desejo cultivado desde 2009, quando inciamos contatos com a Secretaria de Cultura deste município que, naquele ano, levou um ônibus de garcenses ao Filo – Festival Internacional de Tetro de Londrina para assistir a “Eldorado”. Muitas foram as tentativas até a nossa chegada aqui.

 

Aproveitando esta pequena-grande vitória, a Secretaria de Cultura de Garça programou atividades paralelas não previstas no projeto PROAC: a realização das oficinas “Elaboração de Projetos Culturais”, ministrada pela produtora Daniele Sampaio, no dia 08 de março, e “Dramaturgia do Corpo”, ministrada por mim entre 09 e 10 de março. As inscrições, gratuitas, estão encerradas.

 

Toda a minha formação em teatro foi permeada por atividades docentes. Comecei a estudar teatro formalmente, em 1998, aos dezessete anos, na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Aos 18, nem mesmo sabendo o que é o teatro, já dava aulas desta linguagem. Assim, em muitas circunstâncias atuei como docente: para crianças e adolescentes, terceira idade, lideres do orçamento participativo de Campinas, população de rua adulta, meninos e meninas em situação de rua, adolescentes privados de liberdade na Febem, no ensino fundamental, como professor de Educação Artística da rede estadual de ensino paulista, em curso profissionalizante de teatro, em universidade pública, em curso particular do ensino superior, em cursos livres e workshops.

 

Desta maneira, sempre o meu aprendizado da linguagem esteve fortemente atrelado às minhas atividades docentes. Dando aulas, aprendi sobre teatro. Não só. Aprendi também sobre docência. Porque, não tendo domínio da linguagem que ensinava (e este domínio provavelmente eu continuo não tendo), só poderia compartilhar experiências. Assim, reduziam-se os espaços do aconselhamento para se ampliarem os espaços de jogo. O aprendizado do teatro e no teatro se dá fundamentalmente pela experiência da criação.  

 

Entendi, assim, que todo o processo criativo inclui aprendizado pedagógico: sabedoria que se absorve na caminhada. E um bom processo de teatro gera aprendizado em direções muitas e envolvendo muitas pessoas – o que obviamente não significa que o aprendizado é o mesmo para todos. Em diálogo com  a Profa. Dra. Maria Thais, da ECA/USP, aprendi a origem da palavra pedagogo: do grego paidagogos, que sintetiza duas outras palavras – paidós (criança) e agogos (condutor). Assim, pedagogo seria aquele que conduz um outro ao ensino, sabedoria. Ou seja, a pedagogia parece estar mais afeita a tornar o aprendizado possível que ensinar propriamente.          

 

Por fim, ao estudar o trabalho de grandes nomes do teatro, reconheci que grandes pesquisas de linguagem estavam frequentemente associadas às atividades pedagógicas. Assim são os trabalhos de Stanislavski, Meyerhold, Grotowski, Copeau, Lecoq etc. Isto sem falar nos brasileiros, como o notável trabalho de Antunes Filho.  Ensinar, mesmo para o pedagogo, parece, enfim, fortemente articulada à descoberta.  

 

Workshop Dramaturgia do Corpo em Garça
Realização da Secretaria de Cultura de Garça
Dias 09 de março, das 18h30 às 22h30, e 10 de março, das 9h às 13h
Escola Municipal de Cultura Artística
Rua 27 de dezembro-10   -Vila Williams 

 

20 – A rua em exposição

 

As 18 apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no interior de São Paulo registram, tal qual as 18 sessões já realizadas em temporada paulistana, os 18 anos da Chacina da Candelária. Acompanham esta circulação, atividades paralelas diversas: workshop, bate-papo, postagens neste blog, exposição.

 

O processo de criação de “Agora e na Hora de Nossa Hora” incluiu a interação com meninos de rua em um projeto social, em Campinas, a inspiração no conto “Macário”, do mexicano Juan Rulfo, o estudo sobre a Chacina da Candelária – quando, no Rio de Janeiro, oito meninos de rua foram assassinados por policiais. Quando eu inciei as apresentações do espetáculo, eu julgava que a obra deveria sintetizar todas as forças e motivações que a geraram. Assim, eu não quis apresentar o trabalho em um programa. 

 

Porém, a partir das interações com o espectador, revi esta minha escolha. Eram frequentes as perguntas sobre o processo de criação – especialmente sobre a minha interação com os meninos de rua e sobre a Chacina da Candelária. Aí, entendi que o espetáculo é apenas a ponta de um icebergue, porta de entrada para outros entendimentos: uma relação diversa com os problemas sociais do Brasil, com a cidade em que vivemos, com os seus cidadãos. A arte como mediadora de mundos – aquele em que vivemos e aqueles que ainda podem ser sonhados.  Entendi, neste momento, que o espetáculo de teatro era tão importante quanto o processo que o gerou. Ao se revelar aquilo que veio antes, a cena evidencia com maior intensidade a força de vida daqueles que a motivaram: crianças e adolescentes em situação de rua.   

 

A partir deste momento, seguiram-se tentativas muitas de proporcionar uma certa imersão do espectador na situação de rua. Escrevi um livro, “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense”, publicado pela Editora Hucitec, em 2007. Criei programas para a peça, incluindo minha interação com os meninos de rua já na sua sinopse – os fatos da realidade ordinária como fundamento de efabulação da realidade extraordinária do teatro.  Tanto quanto me foi possível, realizei conversas com os espectadores, após as apresentações. Por fim, projetei uma exposição.

 

Em princípio, sem verba alguma, eu mesmo criei com fotos e trechos de diários de trabalho uma pequena amostragem do processo. O resultado tinha muita boa vontade, mas nenhuma elegância – tudo próximo aos trabalhos que realizei na pré-escola, ainda criança.  

 

Agora, contemplados com recursos do PROAC 2011  – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, foi possível realizar um trabalho mais acurado. O trabalho foi realizado pelo Lu Orvat Design – que já cuida da visualidade de nossos trabalhos em site, cartazes, programas etc.  

 

Este “expográfico” procura apresentar, em forma e conteúdo, o processo de criação do espetáculo. Primeiro, toma como fundamento a apresentação do relato das vivências: como um diário de trabalho em 3D, a exposição apresenta trechos do livro escrito por mim, passagens de narrativas e relatos de outros autores que escreveram sobre a população de rua, falas de meninos de rua, comentários de espectadores. Não há imagens pictóricas. Através da palavra, a exposição sugere que o espectador crie as suas próprias imagens.

 

Depois, a exposição usa como suporte aproximadamente 33 peças quadradas de papelão, todas iguais. Assim, procura-se, aqui, o mesmo princípio de montagem que inspirou a criação do espetáculo: peças autônomas, sem hierarquia entre elas e sem a necessidade de uma linha clara de causalidade entre si, apresentam um panorama da rua. O espectador é responsável por interagir com a obra, fazendo associações e ilações.

 

Assim, temos:
– Cada uma das peças, representações de temas constituintes do tema geral: a vida das ruas;
– A exposição tomando diferentes aspectos do objeto representado, em diferentes perspectivas – tal qual o princípio cubista, tomando o mesmo objeto de cima, de baixo etc.   
– O espectador, pela sua experiência de fruição, articula os conteúdos todos, criando, ele mesmo, a sua própria representação do tema. 

 

A exposição estará apresentada em todas as sete cidades em que “Agora e na Hora de Nossa Hora” for apresentada nesta circulação do PROAC. Neste final de semana, as últimas apresentações do espetáculo na Escola Livre de Teatro de Santo André – ELT.   

 

 

 

 

 “Agora e na Hora de Nossa Hora” em Santo André
Praça Rui Barbosa, s/n
26 e 27 de fevereiro e 03 e 04 de março de 2012, às 20h30
Ingressos gratuitos
Telefone: 11 4996.2164
 

 

Selecionados para workshop na ELT

 

No próximo final de semana, nos dias 03 e 04 de março, das 14h às 18h, Eduardo Okamoto ministra workshop “Dramaturgia do Corpo”, na Escola Livre de Teatro de Santo André – ELT. No curso, serão abordados alguns dos princípios de criação da dramaturgia do espetáculo a partir de repertórios físicos e vocais do ator. Estes princípios balizaram a  criação de trabalhos de Okamoto, como “Agora e na Hora de Nossa Hora” e “Eldorado”.

 

O workshop é parte do projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”, contemplado com recursos do PROAC 2011 – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo.  

 

Recentemente a ELT divulgou o nome dos selecionados para o curso. A lista é reproduzida abaixo: 

 

Ana Heloíza Abdalla 014
Arlete Maria Pereira Ferreira 006
Azê Diniz 008
Bruna da Matta Sarubo 004
Carlos Alberto dos Santos 015
Cecília Vieira Mandadori 010
Dani ela Hernandez Solano 011
Diego Inácio da Silva 002
Felipe Ubaldo Milani 005
Giuliano Antônio de Figueiredo Bonesso 013
Humberto Tozzi 017
Jonathan Wellington de Lima 012
Julia Bellotti 003
Mariana Ganzerla 009
Patricia Ghuidotte de Faria 018
Tales André Lopo Jaloretto 001
Tátila Colin Cavignato 007
Valéria Carvalho Ramos 016

 

Cartaz “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”

 

“Agora ena Hora de Nossa Hora” é um solo de Eduardo Okamoto com direção de Verônica Fabrini. O projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” realiza 18 apresentações do espetáculo em sete cidades do interior paulista, registrando os 18 anos da Chacina da Candelária – quando, no Rio de Janeiro, oito meninos de rua foram assassinados por policiais. As apresentações são financiadas pelo PROAC 2011 – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo.  

 

Abaixo o cartaz da empreitada: 

 

19. “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” no interior de São Paulo

 

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Voltamos à estrada! “Agora e na Hora de Nossa Hora”, solo sobre meninos de rua dirigido por Verônica Fabrini, apresenta-se em 18 sessões em diversas cidades do interior de São Paulo: Santo André, Garça, Assis, Taboão da Serra, São José dos Campos, Lençóis Paulista e Limeira. As apresentações são financiadas pelo Proac – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo e marcam os 18 anos da Chacina da Candelária.

 

A criação do espetáculo envolveu a realização de oficinas de circo com meninos de rua do projeto “Gepeto – Transformando Sonhos em Realidade”, da ONG ACADEC, de Campinas, a inspiração no conto “Macário”, do mexicano Juan Rulfo, e um estudo sobre a Chacina da Candelária – quando, em 1993, oito meninos de rua foram assassinados por policiais nos arredores da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro.

 

Ao se completar 18 anos deste acontecimento histórico, concebemos uma “circulação performática” do espetáculo, realizando 18 sessões do trabalho na capital paulista e outras 18 no interior do Estado. Assim, registramos o marco histórico e provocamos: atingimos, em 18 anos, a maturidade do debate social? Se o cidadão brasileiro nascido em 1993 já é considerado apto a exercer a sua cidadania, com direitos e obrigações civis, amadurecemos um projeto social diverso daquele que executou crianças e adolescentes na porta da igreja?   

 

As apresentações da primeira etapa desta circulação, na capital, aconteceram no SESC Pompéia, entre outubro e novembro de 2011, e foram acompanhadas de 18 postagens, neste blog, debatendo as situações vividas no processo criativo do espetáculo, a situação de rua, as políticas públicas de atendimento à esta população. 

 

A segunda etapa, que realiza 18 apresentações em 7 cidades do interior, igualmente serão acompanhadas de 18 postagens neste blog. Não só. Ainda haverá a realização de workshop, bate-papos após a primeira sessão do espetáculo em cada cidade, exposição sobre o processo de criação, doação de livro.

 

A primeira cidade a receber esta circulação é Santo André. As apresentações acontecem nos dias 25 e 26 de fevereiro e 03 e 04 de março, às 20h30, na Escola Livre de Teatro (Praça Rui Barbosa, s/n). Os ingressos são gratuitos. 

 

Também na Escola Livre de Teatro, nos dias 03 e 04 de março, das 14h às 18h, ministro o workshop “Dramaturgia do Corpo”. Ali serão abordados na pratica os princípio de criação de dramaturgia de ator utilizados no espetáculo.  As inscrições são também gratuitas e podem ser feitas na secretaria da ELT.

 

Voltamos à estrada! Acompanhem-nos! Celebremos!

 

 “Agora e na Hora de Nossa Hora” em Santo André
Praça Rui Barbosa, s/n
26 e 27 de fevereiro e 03 e 04 de março de 2012, às 20h30
Ingressos gratuitos
Telefone: 11 4996.2164

18. “Um Homem na Estrada”

 

Encerramos com essa postagem e com a apresentação de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, hoje , no SESC Pompéia, a primeira fase do projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”. Em 18 sessões do espetáculo e em 18 postagens neste blog registramos os 18 anos da Chacina da Candelária – o trágico episódio quando, no Rio de Janeiro, policiais assassinaram oito meninos de rua nos arredores da Igreja da Candelária.   

 

A partir de fevereiro de 2012, o projeto será estendido ao interior do estado de São Paulo, em outras 18 sessões do trabalho em 7 cidades. Estas apresentações serão realizadas com recursos do PROAC – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo e serão acompanhadas de atividades outras: exposição sobre o processo de criação do espetáculo, bate-papo após a primeira sessão em cada cidade, uma oficina sobre dramaturgia de ator e outras 18 postagens neste blog com reflexões sobre a situação de rua.

 

Assim, colocamos os pés na estrada. E para celebrar os próximos passos, postamos “Um Homem na Estrada”, dos Racionais Mc’s. Nem é preciso dizer que a música deste coletivo fala fundamente aos meninos de rua de Campinas e São Paulo: tanto quanto o Realidade Cruel, os meninos ouvem muito as suas músicas, conhecem de cor as suas letras e as têm como uma espécie de trilha sonora de suas vidas.  

 

Neste sentido, notável e comovente foi o dia em que um dos meninos participantes da oficina de circo do projeto “Gepeto – Transformando Sonhos em Realidade”, da Ong ACADEC e do CRAISA, pretendeu jogar malabares ao som de “Um Homem na e Estrada”. Havia semanas, este menino deixava o uso de crack, apresentava-se como monitor-assistente da oficina de circo e retomava o contato com a família. Assim, os malabares acompanhados da música em que um homem, saído da prisão, descreve a sua mudança de vida realmente era um sinal das suas próprias transformações. 

 

Obviamente não podemos dizer que em 18 anos amadurecemos um projeto social distinto daquele que assassinou crianças e adolescentes, na Candelária. Mas, nas apresentações do espetáculo, recebemos inúmeros espectadores igualmente insatisfeitos com a ordem atual da sociedade brasileira. Os descontentes, tenho certo, ainda ajudarão a construir um mundo mais feliz.  

 

Não sei dizer o real alcance das apresentações de um espetáculo e da redação de textos para a transformação social. Mas isso, no mínimo, nos coloca em movimento e, dessa maneira, alguma relevância deve ter.  Encerramos, enfim, a primeira fase de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18”. Celebremos! Celebremos! 

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

17. Teatro Ilimitado

 

Uma verdade óbvia: “Agora e na Hora de Nossa Hora”, em cartaz no SESC Pompéia, é um solo. E, sendo assim, uma série de limitações lhe são impostas. Por vezes perguntaram-me se o assunto da peça – a Chacina da Candelária, a vida de meninos de rua -, não estaria melhor representada com a participação de outros atores, com o desenvolvimento de diferentes conflitos dramatúrgicos, com outra cenografia etc.  Não tenho uma resposta efetiva para isso. Ora, é claro que o trabalho seria outro, fosse ele criado em contexto diverso do que foi. Ainda assim, reconheço que há, no trabalho, um enfrentamento: um único homem, em cena, procurando dar conta de uma injustiça do mundo e, dessa maneira, procurando dar voz a muitas vozes. Assim, um ator coloca-se em movimento na tentativa de vencer uma limitação, a solidão em cena.    

 

Felizmente, as apresentações do espetáculo também me colocaram em contato com muitos outros trabalhos que, ao seu modo, procuram vencer situações que, num primeiro olhar, representariam uma limitação para a criação artística. Artistas que criam em situações de pobreza, de preconceitos etc. Ou ainda, artistas que precisam vencer dificuldades pessoais grandes para realizar as suas obras. Conhecer esses trabalhos, deu-me coragem para seguir investindo no meu próprio estudo. 

 

Ramesh Meyyappan é um ator surdo e mudo. Aquilo que aparentemente é limitação, em sua atuação, transforma-se em mote para poesia. Sem usar a palavra, constrói seu trabalho sobre a Mímica Moderna. Em “Snails and Katchup” apresenta  versão de “O Barão nas Árvores”, de Ítalo Calvino, encarnando a literatura em aproximadamente 1 hora de espetáculo. Não bastasse a superação de uma primeira limitação física, a poesia vencendo os “nãos” da vida, Meyyappan ainda realiza o espetáculo acompanhado de linda trilha sonora, executada ao piano, ao vivo. Assim, primeiro vence a si mesmo, expressando no corpo aquilo que não pode dizer em palavras; depois, generosamente oferece ao espectador um aspecto do espetáculo que lhe é inacessível, a música (pelo menos aos seus ouvidos). A arte é muito maior do que cada um de nós, parece ele nos dizer. O espetáculo é maior do que aquilo que o artista dá conta de conscientizar; é, enfim, aquilo que acontece não só entre artista e espectador, mas, a partir dessa relação, aquilo que se dá entre pessoa (ator, audiência) e a obra.

 

 

Nassim Soleimanpour é diretor e dramaturgo. Aos 29 anos é impedido pelo governo de deixar seu país. Nem mesmo a trabalho pode viajar para fora do Irã. Uma limitação para uma arte como o teatro, que exige presença viva de artistas diante de seu público. O dramaturgo, porém, não sucumbe ante a dificuldade. Escreve uma peça que não exige ensaios, não exige diretor, não exige cenário, nem preparo anterior dos atores: “White Rabbit, Red Rabbit”.  A cada dia, um performer recebe, no momento mesmo da apresentação, o texto que será lido. Ali, a fábula de um coelho que vai assistir a uma peça de teatro e é inadequado para o ambiente: suas orelhas são grande demais e atrapalham a visão dos demais espectadores – haverá debate mais claro sobre a exclusão? No texto, o dramaturgo envolve performer e audiência numa série de tarefas e decisões. E nos lembra: não posso estar aí com vocês que, então, são meu futuro. Temos, assim, a responsabilidade sobre nossas escolhas e, sobretudo, uma missão: fazer chegar a arte onde o artista não pôde. Por fim, o trabalho ainda abarca uma certa discussão sobre o suicídio, envolvendo decisões dos espectadores. Em, nós, a responsabilidade: somos mesmo o futuro do dramaturgo?   

 

Em “King Lear”, o ator taiwanês Wu Hsing-kuo desafia-se: sozinho pretende representar todos os personagens de “Rei Lear”, de Shakespeare. Quem conhece a tragédia shakespereana sabe que montá-la como solo é, em princípio, aceitar um fracasso: a impossibilidade de abarcar sozinho tantos aspectos humanos abordados na obra. Se não pode vencer a peça, Wu Hsing-kuo vence a si: dilata-se enormemente, encontra em si mulher, homem, velho, jovem, cego, floresta, mar. Não sei dizer o que ele fez com Shakespeare, mas posso dizer que Shakespeare o tornou grande – em momento marcante da encenação, tira figurinos e maquiagem e grita: “Eu sou Rei Lear! Eu! Eu!” E nós o acompanhamos: grandes, como todo homem; pequenos, como qualquer homem. 

 

O ator, célebre intérprete da Ópera de Pequim, ainda encontra, no seu corpo,  intersecções entre Oriente e Ocidente. Somos, assim, muito ocidentais, como Shakespeare. Somos, assim, muito orientais, como Wu Hsing-kuo.   

 

 

Arte é exercício de liberdade: revelação de sentidos que cotidianamente estão obscuros; a possibilidade de ressignificá-los; a mudança da rotina, transformação. Por vezes, no entanto, a vida que se apresenta é muitíssimo pouco afeita à libertação, envolta em circunstâncias hostis: a miséria, a polícia, as nossas muitas deficiências, a solidão.

 

As participações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” em muitos eventos possibilitaram-me um intercâmbio com muitos artistas. Aí, oportunidades incríveis de aprendizado com a experiência alheia: vencer os “nãos” da vida com os “ainda há muita coisa possível” da poesia. Vencendo circunstâncias, vencemos a nós mesmos e, no limite, vencemos, como escreve o grande Ariano Suassuna, a própria morte:     

 

Abertura sob pele de ovelha

Falso Profeta, insone, Extraviado,
Vivo, Cego, a sondar o Indecifrável:
e, jaguar da Sibila – inevitável,
meu Sangue traça a rota desse Fado.

 

Eu, forçado a ascender, eu, Mutilado,
busco a Estrela que chama, inapelável.
E a pulsação do Ser, fera indomável,
arde ao Sol do meu Pasto – incendiado.

 

Por sobre a Dor, Sarça do Espinheiro
que acende o estranho Sol, sangue do ser,
transforma o sangue em Candelabro e Veiro.

 

Por isso, não vou nunca envelhecer:
com meu Cantar, supero o Desespero,
sou contra a Morte e nunca hei de morrer.

 

Ariano Suassuna

 

Uma das minhas pelejas com a arte apresenta-se somente até amanhã no SESC Pompéia: “Agora e na Hora de Nossa Hora” encerra temporada de 18 sessões, amanhã, dia 27 de novembro. Todos são convidados! 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

 

16.A Música dos Meninos de Rua de Campinas: Realidade Cruel

 

Estamos já na décima sexta postagem de “Agora  e na Hora de Nossa Hora_18!”. Em 18 postagens nesse blog e 18 sessões de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia marcamos os 18 anos da Chacina da Candelária – quando, no Rio de Janeiro, oito meninos de rua foram assassinados por policiais. 

 

Nessa publicação, revelo uma influência essencial para o espetáculo: Realidade Cruel. O grupo de rap foi formado em 1992, na Região Metropolitana de Campinas. São célebres as músicas do coletivo criadas a partir de outras canções da MPB ou mesmo da música pop internacional.  

 

Trabalhei com meninos de rua  e com adolescentes do Internato Jequitibá, antiga FEBEM, em Campinas.  E posso dizer com absoluta certeza: poucos artistas conseguem falar tão fundamente com esses meninos como os rappers dessa banda. 

 

Assim, a música do Realidade Cruel acompanhou-me em muitos ensaios de “Agora e na Hora de Nossa Hora”. E uma delas, “Depoimento de um Viciado”, é cantarolada por Pedrinha, personagem do espetáculo. 

 

 

15. Culturas no Atravessamento de Teatros

 

É recorrente, no teatro contemporâneo, a realização de encontros entre culturas (interculturalidade) como procedimento de criação da cena. De maneira análoga, ainda que norteada por princípios diversos, muitas vezes opostos, em meus processos criativos frequentemente me vali de estudos intraculturais (o estudo da cultura mesmo em que vivo, a brasileira, como mote da criação). Saiba mais sobre isso aqui.

 

Pouco se fala de situações em que diferentes contextos socioculturais transformam o espetáculo de teatro, durante as suas apresentações, preenchendo-o de sentidos inesperados. Com  “Agora e na Hora de Nossa Hora” pude experienciar isso, em sessões no exterior e no Brasil. Aqui, apresento algumas dessas curiosas situações.

 

Foi inesquecível, por exemplo, apresentar no Kosovo, país que, em 2008, ainda procurava se reconstruir de uma das mais sangrentas guerras civis do século XX. Nunca a cena em que o menino de rua se rebela e ameaça com pedras os espectadores foi tão violenta.

 

Lá, inusitado foi também o ensaio técnico para o espetáculo. Como viajávamos somente eu e a diretora do trabalho, Verônica Fabrini, era necessário treinar o técnico que faria a operação da iluminação. Assim, eu dizia à Verônica as indicações de movimentos de luz, que as traduzia para o inglês para uma moça que nos acompanhava em nossa estada nos Bálcãs que, por sua vez, as traduzia para o albanês para o técnico que operaria a luz. Por vezes, o técnico tinha uma dúvida, refazendo o caminho das traduções inversamente.

 

Na Espanha, enrolei-me profundamente ao tentar explicar o porquê de policiais matarem crianças em situação de rua, no Brasil.

 

Em Juazeiro do Norte (Ceará), a apresentação no Teatro Patativa do Assaré, em frente à Basílica de Nossa Senhora das Dores, tradicional reduto de romeiros, preencheu o trabalho com uma religiosidade profunda.

 

Em Atibaia, interior de São Paulo, uma mágica: durante toda a sessão, barulhos de ratos no antigo cinema tornado teatro e, ao pronunciar um texto fundamental da peça (“Os ratos já não fazem barulho”), o espaço foi tomado por um indescritível silêncio.

 

Em Várzea Paulista, cidade muita próxima a São Paulo e, como quase todas as cidades próximas a São Paulo, pobre, fui congratulado por uma linda estudante secundarista que, ao final do espetáculo, disse “nunca ter presenciado uma atuação tão intensa”. Quando lhe perguntei se ia frequentemente ao teatro, a resposta foi tão sincera quanto o elogio: “Não, é a primeira vez”.

 

No Marrocos, na primeira cena em que tiro a camisa, mulheres com lindos lenços cobrindo-lhes a cabeça, segundo a tradição islâmica, deixaram a sala de espetáculos, horrorizadas com uma seminudez pública.

 

Em Campinas, ao saber da apresentação de um espetáculo de teatro, um menino de rua entra na sala. A minha atuação é ansiosa, eu quero saber a sua opinião. Porém, quase no final da peça, eu digo: “O que eu tenho mais vontade de fazer é agora!”. E o menino deixa a sala de apresentação sem que eu nunca soubesse se gostou do trabalho.

 

E houve ainda muitas experiências – infinitas: o público “profissional” dos festivais de teatro; os muitos espectadores que assistiam a uma encenação pela primeira vez; os espectadores que, em mais de uma circunstância, levaram consigo pedras que compõem o cenário, como recordação; a linda crítica no jornal de grande circulação que apresentava o espetáculo como capacitado para “mudar o mundo”, abrindo muitas portas para futuras apresentações; outra, na Suíça, que declarava que, a despeito dos muitos obstáculos (monólogo em português, sem tradução, sobre meninos de rua do Brasil, apresentado para um público estrangeiro), comunicava uma “emoção muito profunda”; um espectador que, na minha primeira temporada em São Paulo, apareceu com um ônibus na porta do teatro, levando outros 40 espectadores para a apresentação; Fernando Villar, professor da Universidade de Brasília, com uma pergunta simples – “Você chega ao seu limite com esse espetáculo?” – transformou-o para sempre; a produtora polonesa que, numa primeira apresentação criticou duramente a minha performance e, dando-me outra oportunidade, voltou ao espetáculo e se emocionou ao ver que eu incorporava várias de suas indicações; assim como a produtora coreana que, nas minhas primeiras ações, sentenciou que o ator é “muito tímido, por isso emprega energia demais” e, assim, igualmente modificou significativamente o meu trabalho…

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” fez de mim um homem afortunado. Com o trabalho recebi aquele tipo de fortuna que nenhuma crise econômica poderá subtrair: vivência plena das coisas. Eu estou vivo! Vivo!

 

Tomara que um pouco dessa vida que me alimenta em cena possa ser levada também aos espectadores. Tomara!

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

14. O Mundo é Muitos: AfoReggae

 

 

Esta é já a décima quarta postagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” – num total de 18 publicações que, tais quais as 18 sessões de “Agora e na Hora de Nossa hora” no SESC Pompéia, marcam os 18 anos da Chacina da Candelária.

 

Aqui, apresento banda e projeto social que, em verdade, dispensam apresentações: AfroReggae. O projeto social e a banda musical nele fundada já são célebres em todo o território nacional e fora dele.

 

Assim, evidentemente, não pretendo introduzir o leitor a uma realidade há muito conhecida por ele. Minha pretensão é simples: fazê-lo vislumbrar um pouco de meu processo criativo em “Agora e na Hora de Nossa Hora”.  

 

O processo de criação, em sala de ensaio, antes da estréia,  durou aproximadamente 1 ano e meio. Neste período, permaneci solitário por aproximadamente 1 ano e 4 meses e, nos últimos dois meses, fui acompanhado dos demais artistas que compõem a ficha técnica – diretora, musicista etc.

 

No período solitário, trabalhei muitas vezes ouvindo o som dos meninos do AfroReggae. Assim, celebrando a banda, o projeto e os muitos mundos que ambos nos abrem (ainda há muitas possibilidades de transformação da ordem das coisas), posto o seu videoclipe “Me Espere”:

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

  

 

12. A PM que Eu Não Quero

  

A semana passada foi marcara pelo polêmico debate acerca da presença da Polícia Militar no campus da USP. Muita gente se posicionou favorável ou contrariamente a estudantes e militares. Poucas foram as vozes que conseguiram se pronunciar para além dos esquematismos: esquerda, direita, maconheiros, vagabundos, filhinhos de papai…

 

Até mesmo senhores costumeiramente respeitosos e respeitáveis derraparam em seus comentários. Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, para defender seu ponto de vista (o movimento estudantil é autoritário), homogeneizou contextos muito distintos – a Primavera Árabe, maio de 1968, a invasão da Reitoria da USP.

 

O Ministro da Educação, Fernando Haddad, chamado a se pronunciar, igualmente confundiu – a si e à opinião pública: “Não se pode tratar o campus da USP como se fosse uma ‘Cracolândia’ e não se pode tratar a ‘Cracolândia’ como se fosse um campus da USP”. Aí, espanto-me: e a Cracolândia merece ser tratada como usualmente se trata a Cracolândia? Depois, procurando explicar a declaração anterior, disse ao Estado de São Paulo: o aluno da USP não pode ser tratado como “cidadão de segunda classe”. Aí, meu espanto é renovado: “cidadão” não é substantivo que procure adjetivo. Cidadão é cidadão, só! Outro sinônimo para cidadania é humanidade; cidadão é, enfim, o homem!

 

Frequentes foram também as tentativas de minimizar o debate, restringindo um amplo movimento ao direito de uso da maconha. Assim, confundindo e pasteurizando conceitos e contextos diversos, perdemos todos.

 

De meu ponto de vista, para além do movimento estudantil e da comunidade da USP, o episódio suscita uma percepção: na universidade ou fora dela, o cidadão (ou seja, brasileiros, universitários ou não) mantém forte desconfiança de que a polícia não está preparada para garantir a sua segurança. Ou, no mínimo, desconfia que a polícia sozinha não tem poder de nos trazer paz. Não pertenço à comunidade da USP, não sei quais são suas necessidades e desejos. Mas conheço a PM, em muitas interações sociais, e é sobre isso que me interessa refletir.

 

E o faço, dialeticamente, referindo-me a uma interação com a polícia de outro contexto: a escocesa, durante o Edinburgh Festival Fringe de 2011. Ali, é hábito que atores de diferentes espetáculos divulguem seus trabalhos apresentando as suas cenas nas ruas da cidade. Como estratégia para buscar algum destaque em uma efervescência de representações, apresentei, na principal avenida de Edimburgo, a cena de “Agora e na Hora de Nossa Hora” em que o menino de rua usa crack. A estratégia deu certo: em menos de 40 minutos, a cena foi vista por cetenas de pessoas e fui abordado por quatro policiais em diferentes momentos, assim como por dois membros da organização do festival. Todos, um pouco atônitos, acreditaram que eu realmente usava crack, sendo eu não um ator, mas um morador de rua mesmo.

 

A história é uma boa crônica acerca de atritos de culturas: para os paulistanos, por exemplo, o uso do crack nas calçadas do centro da cidade há muito tempo não se destaca na paisagem urbana. O choque também me fez rever uma certa acomodação que temos com situações de opressão, no Brasil. Porque os policiais que me abordaram, acreditando que eu usava drogas à luz do dia, em nenhum momento foram violentos. Ao contrário, abaixavam-se ao meu lado e gentilmente me perguntavam: “Você está bem? Precisa de ajuda” Depois da minha resposta – “Fique tranquilo, eu estou atuando” -, riam de sua própria ingenuidade. É possível tratar a Cracolândia como USP!

 

O episódio me fez entender uma das dificuldades do público do Reino Unido em compreender uma situação fundamental da Chacina da Candelária e de “Agora e na Hora de Nossa Hora” (que a encena): “Por que os policiais matam crianças?”  Para eles, a opressão policial parecia tão absurda que houve um espectador que entendeu como ficção o verídico fato histórico brasileiro – quando policiais mataram oito meninos de rua nos arredores da Igreja da Candelária. Assim, entendi, era necessário incluir no espetáculo situações em que se evidenciasse algo que para nós, latino-americanos, é dado corriqueiro: atitude de policial, o cidadão intimidado pela mão armada do Estado.

 

Insisto, tenho muito poucas opiniões sobre o que acontece na USP. Tenho pouca informação e, aquela que me chega, é, como se viu, confusa. Por isso, não sei dizer se a PM deve ou não estar no campus. Mas um desconforto me persegue: será que ainda queremos essa policia, destreinada e mal paga? Porque, parece-me, enquanto o Estado restringir a sua política de paz (prefiro essa expressão à “política de segurança”) à distribuição de opressão armada, certamente haverá cidadãos de primeira, segunda, terceira, quarta, quinta, infinitas classes – distinguindo-se uma das outras somente pelo tamanho e frequência dos atentados à sua liberdade como pessoa. Há, parafraseando a música do Rappa , uma PM que eu não quero seguir admitindo – na cidade inteira e não só na cidade universitária.

 

Para me opor aos atentados cotidianos da sociedade brasileira contra suas crianças (contra o seu próprio futuro, portanto), não invadi a Reitoria da USP. Fiz um espetáculo de teatro: “Agora e na Hora de Nossa Hora”, que está em cartaz no SESC Pompéia. Assim, espero – ou sonho: indigno-me sem deixar de celebrar a vida! Pode ser ingenuidade, sei disso. Para mim, ainda é algum movimento e, assim, tem alguma relevância.

 

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

 

11. “Agora e na Hora de Nossa Hora” no Kosovo

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora”, já escrevi aqui, realiza temporada que marca os 18 anos da Chacina da Candelária: triste e célebre acontecimento histórico quando, no Rio de Janeiro, oito meninos de rua foram assassinados por policiais. A temporada constitui uma primeira fase do projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” e é acompanhada de 18 postagens, neste blog, sobre minha interação com os meninos de rua.

 

Aqui, relembro fundamental momento para a minha trajetória como ator (o que significa dizer também como cidadão e como pessoa): a viagem a Pristina, capital do Kosovo, para apresentar o espetáculo.

 

postagem sobre a Aicha Haroun Yacobi inaugurou pensamentos sobre o “Interculturalismo”, neste blog – assim como o texto anterior que apresenta seu último filme. Acompanhando este primeiro texto, posto vídeo da entrevista dada à Carlota Cafiero, então repórter do Correio Popular, e registrada em imagens por Artur Araujo. Como considero os vídeos bem editados, gravados no “calor” de nosso retorno, considerei que a postagem das imagens interessariam mais que a redação de texto novo. Assim, segue a reportagem em várias partes:

 

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

 

10. Teatro e Celebração de Amizades

 

Estamos nas duas últimas semanas de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” no SESC Pompéia. Esta é décima postagem do projeto  – num total de 18 que,  junto de 18 sessões do espetáculo, marcam os 18 anos da Chacina da Candelária.  

 

As apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” proporcionaram experiências muitas, em todo o Brasil e também no exterior. Possibilitaram também muitas amizades. Aqui, celebro uma uma delas.

 

Em 2007, no Marrocos, na cidade de Agadir, conheci Aicha Haroun Yacobi – diretora de teatro, dramaturga e roteirista de cinema. Já escrevi sobre ela na edição número 2 da Revista Olhares e parte do artigo já foi publicada neste blog.

 

Há muito sonhamos em uma co-produção Brasil/Marrocos. Enquanto buscamos os meios de viabilizar esse desejo, mantemos uma intensa correspondência. Na última semana, ela me enviou um link para um curta seu, finalizado recentemente:  “As They Say”. Aqui, compartilho o vídeo e celebro a nova criação:

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

9. Teatro no Atravessamento de Culturas

 

Chegamos à nona postagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” – projeto que, tal qual as 18  apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia e em cidades diversas no interior de São Paulo, marca os 18 anos da Chacina da Candelária.  Aqui, inicio uma breve reflexão acerca das apresentações do trabalho em solo estrangeiro. 

 

Quando da criação do espetáculo, entre 2003 e 2004, eu não concebia apresentá-lo a espectadores não brasileiros – ou, pelo menos, não latino-americanos. Tratando de um problema histórico-social próprio dessas terras e com um tratamento igualmente peculiar à essa zona da América (com forte referência à tradição católico-cristã, por exemplo), parecia-me que o trabalho dificilmente alcançaria comunicação com uma platéia que não partilhasse de um determinado universo histórico-social e até religioso. Assim, “Agora e na Hora de Nossa Hora” atendia a uma urgência: abrir o debate sobre a situação da infância e da juventude do Brasil – um brasileiro dirigindo-se diretamente a seus pares de nação.

 

Curiosamente, no entanto, sem qualquer tipo de agenciamento internacional, o trabalho começou a desenvolver uma certa carreira fora do Brasil: Espanha, Suíça, Marrocos, Kosovo, Escócia. Foi assim: um grupo de teatro suíço o assistiu no Festival de Londrina e o indicou a um evento em seu país; depois, um curador de festival do Kosovo o assistiu na Suíça e o indicou para se apresentar em seu evento… Estabeleceu-se, assim, quase que casualmente, uma certa rede de amizades que levou o trabalho a distintos países.  

 

Essas interações em apresentações no exterior, me animam a retomar um debate já suscitado em outra postagem: as relações entre cena e trocas culturais.

 

A interculturalidade é uma das marcas de um teatro contemporâneo. A partir do confronto de diferentes manifestações teatrais, artistas e teóricos esforçam-se na busca de seu elementos comuns. Ou seja, ultrapassando as diferenças, esses trabalhos tendem à valorização de um certo território humano universal.

 

Sob determinado ponto de vista, até aqui, os trabalhos desenvolvidos por mim em cooperação com outros artistas, partem de um ponto de vista diverso (possivelmente complementar) a esse: a valorização da singularidade. A premissa básica é a de que, ainda que possamos nos encontrar num território das estruturas humanas comuns (universais, arquetípicas etc.), o mundo se nos abre como experiência de singularidades. Ou seja, é a partir da vivência plena das situações não-universais que acessamos as estruturas humanas comuns. Assim, damos ênfase, no início dos trabalhos, àquilo que nos faz e nos define: a particularidade.

 

Isso se vê em suas diversas variáveis: o ponto de vista particular sobre o mundo de ator, diretor, dramaturgo, cenógrafo etc; os diferentes pontos de vista dos espectadores (resistindo sempre à tentação de fechar sentidos, mas trabalhando para ampliá-los sempre mais); as infinitas possibilidades de experiência dos muitos atores sociais apresentados pela cena (meninos de rua; rabequeiros etc.).

 

Esse foi o ponto de partida de “Agora e na Hora de Nossa Hora”. A partir de meu contato com meninos e meninas de rua em oficinas de circo do “Projeto Gepeto” (parceria entre a ONG ACADEC e o CRAISA, de Campinas), fui provocado a novos mundos, inusitados até ali para mim. Provocado por essas interações, precisei, depois, conferir expressão artística a essas impressões. Desta maneira, a experiência dos meninos, em atrito com a minha própria vivência das coisas, resultou na abertura de um novo jogo de experimentações: cena de teatro.

 

Considerando a “cultura das ruas” uma das incontáveis influências que constituem a cultura que me forma (a brasileira), digo que meu trabalho, como princípio, pauta-se em experiências INTRAculturaisem oposição à afirmação de experiências INTERculturais por artistas norteeuropeus. Eles afirmam as estruturas comuns à diversidade de manifestações culturais. A pesquisa intracultural pressupõe o inverso: a revelação da multiplicidade que compõe cada cultura.

 

O trabalho começa quando o ator é atravessado por uma experiência desestabilizadora. Ali, estranho a si mesmo, estrangeiro em sua própria terra e corpo, começa a revelar os muitos que ele é. Depois, sintetizando essa experiência como cena, ele a partilha como jogo com o espectador. A cena, como escreve Eugenio Barba, “experiência de uma experiência”. Finalmente, a experiência mesmo do espectador volta a atravessar artistas da cena que, então, revisitam a sua obra, reiniciando o ciclo de vivências.

 

O famoso teórico francês Patrice Pavis, escreve sobre um teatro no cruzamento de culturas para se referir ao modelo intercultural. Aqui, prefiro falar de um certo atravessamento de culturas. Ali, onde o teatro não se sustenta entre culturas, como ele sugere, mas onde os diversos homens que criam a cena são atravessados por uma experiência: camadas infinitas de singularidades compartilhadas.

 

 

 Serviço:
“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia:
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone:  11 3871-7700