animação

Show do Carcoarco me restituiu a cidade!

Não escrevo crítica de teatro – ainda que boa parte de minha energia cotidiana esteja canalizada para o estudo desta arte. E, obviamente, não escrevo sobre música. Assim, este breve comentário sobre o show de lançamento do CD “Tem Carrêgo” (com reapresentação, hoje, às 20h, no SESC Campinas) não é leitura crítica: é elogio rasgado mesmo!

 

A mistura de referências é o que há de melhor nas rabecas brasileiras – instrumento caro ao Carcoarco. E é o que há de melhor no som do grupo. Há a versão repleta de dramaticidade de “Tico-Tico no Fubá” – um tango tupiniquim? Há o tema de Bach adaptado para as rabecas – “rabequianas” brasileiras? Há a delicadíssima versão de “Carinhosa”, de José Eduardo Gramani, “miscigenando” sons de instrumentos muitos sobre o palco… 

 

Às vezes, tenho dificuldade de apreender sentimento patriótico: ações da PM paulista, construção da Usina de Belo Monte, corrupção e indiferença, por exemplo, turvam em demasia a visão. Mas, no show de ontem, especialmente na execução de “Ouvirudum”, fantasia de Esdras Rodrigues sobre o hino nacional,  um tímido orgulho nasceu no peito. Ali, entendi que, possivelmente, a beleza da nação seja, à semelhança das rabecas, imperfeita mesmo.  E o comentário musical da canção popular em meio ao hino lembrou que o país que queremos nos escapa por uma certa distração de meninos. Ou ainda que a sociedade brasileira, a despeito das muitas tentativas canalhas do seu aprisionamento, encontra inexoravelmente a sua liberdade.     

 

 

 

Claro, sendo o lançamento de trabalho novo, há acertos a se fazer. O repertório musical e a sua execução ainda é melhor que o show como um todo. Sobretudo porque as falas dos músicos se alongam em demasia em longos intervalos entres as músicas, rompendo o ritmo da apresentação. E a pesquisa bem fundamentada do grupo pode ser ainda mais revelada ao espectador, com a exposição, por exemplo, com maior ênfase dos instrumentos pelo palco – o universo da rabeca, nesta mistura tradição/contemporaneidade gera sempre muita curiosidade. Meros detalhes. As rabecas ensinam, afinal, a intuir o belo no imperfeito.

 

O show me lembrou do grande prazer em fruir uma obra de arte, em Campinas – a última, se a minha memória não estiver sendo injusta  com outros companheiros artistas da cidade, foi na apresentação de Ivan Vilela Trio, na Cia Sarau. Ontem, assim, o show me restituiu o prazer da escolha de morar aqui.    

 

Frequentemente a cidade é deixada por importantes artistas, obrigados a procurar melhores oportunidades de trabalho em outras paragens. É o preço que se paga pelas sucessivas más gestões públicas da vida cultural de Campinas – às últimas gestões não podemos sequer dirigir críticas porque não existiram! Por isto, não raro, temos a sensação melancólica de tudo aquilo que a cidade poderia ser e não é.  Ontem, no entanto, o som foi pleno. Pudemos ser plenamente! Viva!                      

 

Serviço:
Carcoarco em Campinas
Quando: Sexta-feira (3), às 20h
Onde: Sesc Campinas 
Rua Dom José I, 270/333, Bonfim
Preços: De R$ 1 a R$ 4
Informações: (19) 3737-1500      

Envie um comentario