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Revista Bravo!: Herdeiros aplicados

Álvaro Machado, na Revista Bravo de outubro, menciona “Recusa”, espetáculo da Cia teatro Balagan em que Eduardo Okamoto é ator-convidado.

 

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Ao receber diretores russos para suas montagens, companhias brasileiras, como a Mundana, aprimoram o célebre método de interpretaçãocriado pelo ator Constantin Stanislávski

 

O russo Adolf Shapiro, rodeado pelos atores da Mundana, em ensaio da peça Pais e Filhos. Faz dois anos que o diretor trabalha com o grupo

 

Companhias de repertório com ambições vanguardistas conheceram dias férteis no Brasil dos anos 60 – os teatros Oficina e Arena são alguns dos melhores exemplos. Hoje em dia, ainda florescem, mas a depender da teimosia de um núcleo estável de atores e de subsídios para desenvolver linguagem cênica própria. Às trintonas Galpão, de Belo Horizonte, e Lume, de Campinas, além do próprio Oficina, entre outras, soma-se neste mês a Mundana, de São Paulo.

 

Criado em 2007 por Aury Porto e Luah Guimarãez, o grupo de 12 atores vem revelando apetite na difícil empreitada de adaptar clássicos da literatura. Após montar Albert Camus (A Queda) e triunfar com sua premiada versão teatral de sete horas de O Idiota, de Dostoiévski, a Mundana estreia em São Paulo Pais e Filhos, transposição para a cena do romance de Ivan Turguêniev (1818-83), publicado aqui em tradução de Rubens Figueiredo. Desta vez, o trabalho de adaptação contou com a colaboração de Adolf Shapiro, um dos mais importantes diretores russos da atualidade.

 

Consolidando um perfil, essa é a terceira imersão da Mundana na idade de ouro da literatura e do teatro russos, entre as décadas de 1830 e 1930 – a segunda foi Tchekhov 4 – Uma Experiência Cênica, junção de quatro atos de diferentes obras desse autor. A montagem, experimental, motivou a primeira vinda de Shapiro ao Brasil. O amor à primeira vista pela companhia brasileira foi daqueles de gerar ciúme em grupos europeus que esperavam semelhante oportunidade. Pois o diretor-pedagogo é mestre reconhecido de um conjunto russo de técnicas teatrais que, além de promoverem o jogo cênico eficaz, operam avanços na própria psicologia de cada ator.

 

Aos 73 anos, Shapiro é considerado um dos principais herdeiros de Constantin Stanislávski (1863-1938), que legou ao teatro o seu mais efetivo método de interpretação e consolidou a figura do diretor, antes dele praticamente inexistente. “É uma profissão como a de cosmonauta ou tratorista: própria do século 20”, lembra Shapiro, que tomou contato com os ensinamentos de Stanislávski por meio daquela que foi por décadas sua principal assistente: Maria Knébel (1898-1985).

 

No formol
Nada é tão simples como parece no universo do teatro russo, que o diretor-visitante reputa como “o melhor do mundo, ainda”. Segundo ele, Stanislávski provou a força de seu “sistema” por meio de livros e de sucessores, que continuam a orientar os mais consagrados atores do mundo (veja quadro na pág. 92). Logo, porém, o teórico compreendeu que, como diz Shapiro, “nossas qualidades representam a continuidade de nossas insuficiências”. Stanislávski, então, abandonou os detalhados planos que escrevia para cada peça e voltou-se ao teatro vivo, aberto à improvisação, que une a mão volitiva do diretor às oscilações dos atores.

 

“Há, na verdade, três tipos de diretor”, explica Shapiro. “O organizador, importante para supervisionar a companhia e a montagem; o metteur en scène, que é o criador, capaz de extrair a essência poética das peças; e, por fim, o diretor-pedagogo, como Stanislávski, para o qual o longo laboratório junto aos atores importa mais que o espetáculo.” E qual deles prevalece hoje em dia? “Um tipo de organizador que, como um general, dá ordens sem parar. Muitos se dizem continuadores de Stanislávski. Após sua morte, houve disputas violentas para ver quem seria o principal herdeiro. Mas a essência de seu sistema é viva e, portanto, sujeita a transformações. Se ele visse a maneira ‘formolizada’ como o repetem hoje, morreria pela segunda vez.”

 

Pela detalhada construção psicofísica e pelas especulações em torno da “verdade” de cada personagem, as obras de Turguêniev representaram uma contribuição decisiva na constituição do Teatro de Arte de Moscou, que Stanislávski fundou em 1897 com Vladimir Nemiróvich-Danchenko (1858-1953). Este, porém, afastou-se anos depois para conceber espetáculos de acabamento primoroso, enquanto o colega enveredava pelos estudos sobre a interpretação.

 

A trama sobre o choque de gerações e as visões antagônicas da sociedade na segunda metade do século 18 foi proposta aos brasileiros pelo próprio Shapiro. Pais e Filhos ficou célebre por ter forjado o termo “niilista”. Assim foram caracterizados os jovens que, como Bazárov, o protagonista da peça, negaram o poder aristocrático russo, inclusive com ações terroristas.

 

“Para o Ocidente, a cultura russa se resume a Tchekhov e Dostoiévski, quando há uma plêiade de escritores maravilhosos: Púshkin, Griboédov, Gógol, Turguêniev, Leskóv, Bulgákov… Apesar de todo meu amor por Tchekhov, estudar o sistema Stanislávski sempre com base nesse autor tornou-se um lugar-comum. Turguêniev oferece um terreno igualmente fértil. Acredito, sobretudo, que ele atinge o nervo central da vida contemporânea: no livro, um homem coloca as ideias acima de tudo, mas, no momento em que deve confrontar-se com a vida, a ideia é destruída. Como dizia Dostoiévski, ‘nenhuma ideia vale a lágrima de uma criança’.”

 

Em Pais e Filhos, o “processo” – palavra mais importante que “espetáculo”, segundo a linhagem de Stanislávski – foi iniciado há dois anos. De início, Elena Vássina, professora do departamento de Línguas Orientais da Universidade de São Paulo, serviu de ponte entre Shapiro e a Mundana. Estabelecida no Brasil desde os anos 90, a acadêmica russa prestou consultoria à adaptação de O Idiota. E, no festival de Moscou que comemorou os 150 anos de Tchekhov, em 2010, aproximou Shapiro de Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc e incentivador de longa data da Mundana.

 

Bordado
Interessadas em pedagogia e direção, as atrizes Luah Guimarãez e Lúcia Romano vão anotando as palavras mais significativas do mestre. “Ele evoca uma estrada para cada ator, mas é um percurso interno, que a cada dia se torna mais longo e jamais será finalizado, com avanços e retornos, como num bordado”, diz Luah. Já Lúcia nota que “o grupo está aprofundando a relação iniciada em 2010, mas sem expectativas em excesso. Tão ou mais importante que o espetáculo é a relação entre o diretor e o ator na criação de um teatro vivo, como disse Stanislávski”.

 

Há três décadas, o polonês Jerzy Grotówski (1933-99), considerado por Shapiro “o melhor stanislavskiano do século 20”, constituía uma forte referência sobre o laboratório teatral para pesquisadores brasileiros. Nos últimos seis anos, porém, outros dois russos com perfil de “mestres-pedagogos” iniciaram trabalhos no Brasil. Radicado na Alemanha e ministrando cursos comissionados pela Unesco do Japão às Américas, Iúri Alschitz, 65 anos, assina a direção de Eclipse, mais recente espetáculo dos mineiros do Galpão, baseado em contos de Tchekhov.

 

Em São Paulo, a diretora Maria Thaís, da Cia. Teatro Balagan, estreia neste mês Recusa, espetáculo gestado por três anos e meio. E que ecoa sua longa formação em Moscou junto a Alschitz – cujas visitas ao Brasil ela coordena – e a Anatoli Vassiliev, 70 anos, também ex-aluno de Maria Knébel, tido como um dos mais brilhantes poetas-encenadores da atualidade. Na afamada Escola de Arte Dramática da capital russa, Maria Thaís chegou a assinar coreografia e preparação corporal para uma Ilíada de Vassiliev que exigiu oito anos dos envolvidos. Ou à maneira russa: todo um processo.

 

O pai do teatro naturalista e sua linhagem
Autor de um famoso sistema de interpretação, Constantin Stanislávski tem discípulos no mundo todo.

 

O que une (além da profissão, claro) o milanês Gianfrancesco Guarnieri, a norte-americana Meryl Streep e o elenco do filme Cidade de Deus? De certo modo, todos são herdeiros do russo Constantin Stanislávski (foto), cujo 150º aniversário será celebrado em 2013. Ator, diretor, escritor e pedagogo, Stanislávski criou, entre o final do século 19 e o início do 20, aquele que se tornaria o mais famoso sistema de interpretação do mundo. Ícone do teatro naturalista, o teórico defendia a vivência de emoções autênticas pelos atores, que devem ser seus personagens, e não apenas interpretá-los.

 

Como é impossível controlar o que se deixa de herança, o legado de Stanislávski foi assimilado de maneiras distintas, até porque seu sistema é algo vivo, definido pela mobilidade. Nos Estados Unidos, ele inspirou a escola Actor’s Studio, que estimula o uso da memória afetiva na construção do personagem (recurso visto com cautela por Stanislávski). Eugênio Kúsnet, que nasceu na Rússia em 1898 e migrou para o Brasil em 1926, foi pioneiro na difusão de seus ensinamentos. Preparadora de elenco, Fátima Toledo estudou com Kúsnet e tem Stanislávski entre suas referências.

 

1. ORIGEM. Com Vladimir Nemiróvich-Dânchenko, Stanislávski fundou o Teatro de Arte de Moscou, em 1897. A Gaivota, de Tchekhov foi um dos primeiros sucessos do grupo. Na foto, uma das leituras da peça.

 

2. TRANSMISSÃO. A atriz norte-americana Stella Adler estudou com Stanislávski em Paris nos anos 30. De volta aos Estados Unidos, difundiu os ensinamentos do mestre para seus alunos de teatro.

 

3. INFLUÊNCIA no brasil Stanislávski é uma das referências de Fátima Toledo, principal preparadora de elenco do país. Ela foi aluna do ator Eugênio Kúsnet, que nasceu na Rússia e estudou teatro em Moscou.

 

4. A PRESENÇA EM HOLLYWOOD Vencedora do Oscar de 2012 por seu papel em A Dama de Ferro, Meryl Streep é considerada pelo diretor Adolf Shapiro como “atriz-modelo de Stanislávski”.

 

Recusa.
SP Escola de Teatro (Praça. Roosevelt, 210, SP).
De 5a a sáb., às 21h, dom., às 19h.
De 4/10 a 16/12. R$ 10.

 

*Fonte: http://bravonline.abril.com.br/materia/herdeiros-aplicados#image=adolf-shapiro-pais-e-filhos

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