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2. Projeto “Gepeto”: arte com meninos de rua

 

 

Como parte de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” (projeto de circulação do espetáculo “Agora e na Hora de Nossa Hora” em 18 sessões na capital e 18 apresentações pelo interior paulista), publico, neste blog, 18 posts a cada fase da sua realização. Assim, tanto quanto as sessões do espetáculo, registro o marco histórico dos 18 anos da Chacina da Candelária: atingimos, enfim a maturidade de questões sociais ligadas a infância e juventude brasileiras?

 

Projeto “Gepeto”
A gênese de criação do espetáculo “Agora e na Hora de Nossa Hora” tem princípio no meu envolvimento em um projeto social, em Campinas. Entre 2002 e 2004, eu contribuí para a concepção e desenvolvimento do projeto “Gepeto – Transformando sonhos em realidade” – parceria entre a Ação Artística para Desenvolvimento Comunitário – ACADEC e o Centro de Referência em Atenção Integral à Saúde do Adolescente – CRAISA. O “Gepeto” contribui para a educação de crianças e adolescentes em situação de risco social, especialmente a situação de rua, através de oficinas de arte: música, dança, artes plásticas e circo – esta última coordenada por mim.

 

Aqui, inicialmente procuro recompor princípios de trabalho no “Gepeto”. Para isto, adapto trechos do livro “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense”, de minha autoria e publicado pela Editora Hucitec, em 2007.

 

Brinquedo circense
Não há novidade na utilização do circo como instrumento de arte-educação. Muitos projetos já fizeram isso. Também não há novidade na sua prática entre meninos e meninas em situação de rua. Outros tantos já perceberam as possibilidades educacionais do circo junto a esta população. Entretanto, se não posso aqui apresentar uma proposta inédita, posso partilhar as especificidades que marcaram a minha experiência nas oficinas de circo do projeto “Gepeto”. Assim, abro espaço para a troca de ideias – o que é infinitamente diferente de aconselhar educadores com um manual de atuação junto a meninos de rua.

 

As especificidades do nosso circo começam na organização dos trabalhos. Toma-se para a sua condução não um artista circense, como se espera na realização de um trabalho de circo-educação, mas um ator. Para aquilo que pude realizar no trabalho, bastaram-me as aulas de circo da escola de teatro e os anos de treinamento de acrobacia como ginasta. Para tudo aquilo que eu não pude realizar, faltou-me a sabedoria que só os anos de picadeiro podem conferir.

 

Não bastasse o primeiro atrevimento de aceitar a tarefa, afrontei outro: o de realizar uma oficina de circo sem absolutamente nenhum equipamento circense. Não tínhamos uma lona, colchões, trampolins, claves e bolinhas de malabares. Nem mesmo um espaço amplo e com alto pé direito tínhamos para a realização das atividades.

 

Ainda assim, este atrevimento certamente valeu a pena. Valeu a experimentação de materiais. Valeu a busca por soluções criativas. Valeu, enfim, o trabalho com os brinquedos circenses. Usando materiais poucos – fita crepe, bexiga, cabos de vassoura, latas de extrato de tomate -, construímos o nosso circo. Se o circo não podia se fundar em materiais caros, que fosse de brinquedo. Há um circo que se edifica, sem lona, sem pedras e tijolos. Ele se constrói no corpo dos homens.

 

No corpo, resultados do trabalho
O circo é o espetáculo em que o incrível se apresenta: a mulher barbada, os trapezistas voadores, o mágico, o domador de leões. O circo é a revelação de que o impossível é possível. Realizando uma oficina alicerçada na linguagem circense, era de se esperar resultados tão incríveis quanto os do espetáculo do circo. Não foi assim que aconteceu.

 

Evidentemente, as crianças e os adolescentes aprendiam e desenvolviam suas habilidades circenses – aliás, com facilidade impressionante! Entretanto, não trabalhávamos com a perspectiva do circo propriamente dito, mas com o brinquedo circense. Desenvolvendo atividades simples, estudávamos materiais, improvisávamos soluções, inventávamos um circo que se construía não fora, mas dentro de nós. Assim, ainda que os meninos aprendessem um pouco de técnica de circo, os resultados do trabalho não estavam neste aspecto. Invisível, mas solidamente, ele se construía não aparentemente, mas essencialmente. Sem os limites das construções de pedra, poderíamos construí-lo indefinidamente.

 

A partir de atividades poucas, vi meninos lutarem contra o vício do crack, cuidarem do próprio corpo e de seus companheiros, retomarem o contato com suas famílias, sonharem um futuro.

 

Para impulsos de transformações tão profundas, vi resistências sociais que as tornavam frequentemente impossíveis. Crianças e jovens superando a si mesmos e, às vezes, não podendo superar as imposições histórico-sociais.

 

Uma motivação fundamental para a criação de “Agora e na Hora de Nossa Hora” foi justamente a necessidade de colocar em comunicação esses dois mundos: de excluídos, ávidos por transformação; de incluídos que, a despeito das frequentes queixas a cerca da ordem social, muitas vezes parecem dispostos a defendê-la. O espetáculo tem, assim, pretensões: diálogo; mediação de grupos que normalmente não se comunicam.

 

Do pouco que nós tínhamos, inventamos nosso circo. Sem grandes apresentações, sem alarde, sem ineditismo de atrações, ele se construía. Sutilmente ele se erguia em nossos corpos. O circo é o espetáculo do incrível: o impossível é possível! E do nada que se via, mas do muito que se tinha, adolescentes em situação de rua mostraram que era possível reunir impulso para um incrível salto vital!

 

 

Serviço:
“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia:
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

 

 

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