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27 – Meninos de Rua: apropriações

 

Nesta semana, o espetáculo “Agora e na Hora de Nossa hora” é apresentado em São José dos Campos, como parte da Mostra Joanense de Teatro. As 18 sessões no interior de São Paulo registram, como as 18 postagens que escrevo neste blog, os 18 anos da Chacina da Candelária. Assim é o projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”. Aqui, um texto sobre as múltiplas tentativas de apropriação dos meninos de rua pelo Estado e outras instituições – adaptado de “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense” (Hucitec, 2007).

 

Ao ter considerada a sua sociabialidade incompleta (assim são a infância e a juventude) meninos e meninas de rua facilmente se tornam “sujeitos apropriáveis”. O Estado, as instituições, grupos e pessoas com os quais dialogam sabem o que deve ser feito dos meninos. Meninos de rua são alvo de infindas tentativas de reintegração à sociedade. Estas são tentativas de capturá-los para o cumprimento de um modelo que nem sempre desejam assumir.

 

Justificadas nos seus argumentos que desenham a figura do “menor abandonado” estas ações, no entanto, fracassam. Isto porque não levam em conta que a rua não é só espaço de desconstrução de relações; a rua é também construção de uma nova sociabilidade. Viciadas num olhar preconceituoso sobre a rua e o modo de vida de seus habitantes, estas ações pretendem, não raro, tirar da rua os meninos a qualquer custo, procurando discipliná-los a um modelo de juventude. Repito: nem sempre estes meninos estão dispostos a abraçar estes modelos.

 

Há neste modelo de atuação, uma certa arrogância. O povo brasileiro, “pacífico por natureza”, pode deixar escapar, na sua conduta junto aos meninos de rua, preconceito e intolerância que tanto condena em outros povos. Quando os EUA decidiram, em nome da liberdade do povo do Iraque, praticar o genocídio que até hoje a história testemunha, nossas representações políticas facilmente manifestaram seu repúdio à guerra. Nisto eu estava completamente de acordo. Entretanto, é curioso observar que, no Brasil, crianças e adolescentes, em nome do seu bem, sejam forçados a cumprir um modelo de vida que não desejam para si.

 

Assim, os projetos e programas sociais, as instituições, todos sabem o destino que dariam para a vida destes adolescentes. Poucos sabem ouvir o que os adolescentes pretendem de si mesmos. Os adolescentes não participam da construção de seu próprio projeto de vida.

 

É preciso, agora, considerar que meninos e meninas de rua trazem experiências variadas, diversas daquelas que nós, moradores de casa, trazemos. Isto é aceitar que suas expectativas podem ser diferentes das nossas. Caso contrário, falaremos sozinhos, sem encontrar nos meninos interlocutores.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em São José dos Campos
Mostra Joanense de Teatro
31 de março, às 21h e 01 de abril, às 19h
CET – Centro de Estudos Teatrais
Av. Olivo Gomes, 100 – Parque da Cidade – Santana
Informações: (12) 3924-7358.  

 

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