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Jornal do Comércio: O testemunho do fim. Ou do início.

 

No final de setembro de 2008, alguns jornais noticiaram que funcionários da Funai (Fundação Nacional do Índio) em Rondônia estavam tentando junto ao Ministério Público Federal autorização para proteger uma região de floresta, no Estado do Mato Grosso, onde viviam os  dois últimos índios piripkura. Segundo os jornais, os índios, Tikun e Monde-í, eram nômades, não falavam português e fugiam constantemente dos brancos. Últimos representantes de uma etnia que se acreditava extinta havia mais de 20 anos, os dois índios foram localizados em função do som de suas risadas – enquanto se alimentavam da caça, deixavam que as gargalhadas atravessassem a floresta. “Não sei nem dizer o que senti quando li a notícia”, diz agora o ator Antonio Salvador. “Fiquei assustado, talvez até identificado com uma certa atitude deles. Eles pareciam nos dizer: vocês não testemunharão o nosso fim. Havia algo ali que eu não compreendia, passei uma semana chorando”.

 

Na semana seguinte, Salvador secou as lágrimas e arregaçou as mangas. Juntou-se à diretora Maria Thaís, da Cia. Teatro Balangan, ao dramaturgo Luis Alberto de Abreu e ao ator Eduardo Okamoto para dar início a um rigoroso e multidisciplinar  trabalho de pesquisa que, quatro anos depois, resultou na peça Recusa, que estreia hoje, inaugurando um  espaço cênico na Cidade, o SP Escola de Teatro Sede Roosevelt.

 

Recusa não pretende ser uma simples dramatização ou desdobramento de um fato jornalístico. “O que nos interessou, logo no início, foram os vários pontos de vista que se apresentavam sobre estes povos que recusam o nosso modelo de sociedade”, diz Salvador. “Decidimos estudar outras matérias de jornais, relatos antropológicos, histórias que ouvimos de outras pessoas e a mitologia de alguns povos”. Segundo o ator, o que definiu a linha de trabalho a ser adotada na concepção de Recusa foi a constatação de que, em inúmeras cosmologias ameríndias, o mundo sempre existiu e já acabou diversas vezes. “Para estes índios, toda a criação é obra de uma dupla de gêmeos não idênticos. Se os piripkura são apenas dois, talvez não seja o fim do mundo, pode ser o começo. O mito está aí”.

 

As últimas notícias que Antonio Salvador teve a respeito dos índios Tikun e Monde-í davam conta de que, ao contrário do desejo dos madeireiros e fazendeiros da região, que os queriam bem longe dali, eles estavam vivos e passando bem. E provavelmente rindo alto.

 

Recusa. Estreia nesta sexta (5). SP Escola de Teatro – Sede Roosevelt. Praça Roosevelt, 210. Tel.: 3258-6345. Quinta a sábado às 21h30. Domingo às 19h. R$ 10. 

 

* Fonte: http://www.dcomercio.com.br/index.php/dcultura/sub-menu-dcultura/97263-o-testemunho-do-fim-ou-do-inicio

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