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Folha de SP: “Recusa” retrata cultura indígena com brilho

Cena ameríndia. “Recusa”, espetáculo da Cia. Balagan, propõe um mergulho no caldeirão das culturas indígenas do Brasil.

 

Mais que retratá-las, os artistas envolvidos incorporaram suas línguas, cantos e mitos até o ponto de tornarem-se índios.

 

A encenação de Maria Thaís se ancora no trabalho de dois atores, Antônio Salvador e Eduardo Okamoto, que concretizam esta incorporação e sustentam uma narrativa cênica contundente.

 

A dramaturgia de Luiz Alberto de Abreu, que partiu de lendas recolhidas, quer revelar o que é ser esse outro sem uma dramatização convencional. Contou para isso com os atuantes, fazendo de seus corpos e vozes fundo sonoro e visual com que narram algumas histórias.

 

  Ale Catan/Divulgação  
Cena da peça "Recusa", da Cia. Balagan
Cena da peça “Recusa”, da Cia. Balagan

 

A direção musical de Marluí Miranda propiciou que os intérpretes assimilassem cantos de diversas etnias, sempre apresentados nas línguas originais, o que torna seus desempenhos um recital de musica acústica.

 

A forma do dueto, ou da dupla que interage em uníssono, segue a estrutura das mitologias ameríndias descrita pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss.

 

Ele reparou que na América indígena os pares míticos não se aniquilavam entre si, mas compartilhavam suas diferenças criativamente.

 

Acrescente-se a percepção de outro antropólogo, o brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, sobre a peculiar noção de humanidade daquelas culturas. Ela permite estabelecer um fluxo de mutações em que os seres flutuam por diversas formas de vida.

 

Ali, homens, animais, plantas e rios têm suas almas ou são igualmente pessoas.

 

Os dois intérpretes variam entre serem homem e onça, pássaro e árvore, narrador e coisas narrada. Contam desde cosmogonias primitivas até casos recentes, como o que inspirou a produção, sobre dois índios isolados que se recusaram a receber ajuda quando descobertos.

 

O único estranhamento, neste discurso indígena que se quer não mediado pelo homem branco, é quando a voz de um fazendeiro devorado ainda fala na barriga do índio. O tom ideológico contrasta com o “pensamento selvagem” que vinha sendo cultivado.

 

É pouco para empanar o brilho da realização da Balagan, que arrisca uma nova abordagem teatral da questão indígena.

 

RECUSA
QUANDO de qui. a sáb., às 21h30; dom., às 19h; última semana
ONDE SP Escola de Teatro (pça. Roosevelt, 210; tel. 0/XX/11/3775-8600)
QUANTO R$ 10
CLASSIFICAÇÃO 12 anos
AVALIAÇÃO ótimo

 

* Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1174544-critica-recusa-retrata-cultura-indigena-com-brilho.shtml

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