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Sabores e Saberes de Belém


A maior parte da equipe desta mostra visitou Belém pela primeira vez. Assim, as apresentações tiveram novos gostos: temperos dos alimentos e temperamentos do povo.

 

Belém é uma cidade de fortes sabores. Ali, os sentidos aguçaram-se: alimentamo-nos de sua rica culinária, conhecendo sabores até então inéditos para nós (o Açaí do Norte, o Pato e o Filhote no Tucupi, o Tacacá, sorvetes de castanha do Pará, de Cajá, de frutos inusitados, cervejas com diferenciados ingredientes e fermentação.

 

E espantosa e deliciosamente a experiência do paladar se expandiu em muitos outros sentidos. Um dos objetivos de nossa circulação por diferentes cidades é permitir que os próprios contextos culturais das cidades visitadas nos provocassem; que outras formas de ver as coisas pudessem, de certa forma, nos desestabilizar. Em Belém, pudemos nos alimentar de suas comidas, mas também de outras manifestações de sua cultura: seus cheiros, suas danças, suas águas abundantes dos rios, suas interações sociais na feira popular com suas mandingas e medicinas, seus modos de fazer teatro, suas maneiras de saber o mundo, enfim.

 

Esta percepção de outras formas de conhecimento foi potencializado pelas parcerias que garantiram a realização do evento: o IAP – Instituto de Artes do Pará; o Teatro Cláudio Barradas da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará; os Produtores Criativos que, entre outras características, destacam-se pelo potencial de entendimento da linguagem teatral para além da gestão de um projeto cultural – isso possivelmente porque seus integrantes são, antes de gestores, artistas. Assim, a experiência das ruas – nos restaurantes, feiras e interações – pode ainda reverberar em instituições e agrupamentos que se dedicam ao estudo, formação e pesquisa no campo da cultura.

 

Nestes termos, é espantoso como, no Pará, os artistas e instituições conseguem organicamente conjugar pesquisa de vanguarda (as experimentações de teatro como laboratório, por exemplo) com a tradição cultural regional. O IAP, por exemplo, tanto recebe uma mostra como a nossa, pautada em estudos de teatro contemporâneo, como desenvolve projetos como o “Tocando a Memória”, de registro da produção de rabecas no estado. A Cris, dos Produtores Criativos e também produtora do In Bust – coletivo que se dedica ao teatro com bonecos –, levou-nos para conhecer a sua sede e a sua intrigante experiência: uso de materiais amazônicos na criação de seus bonecos. A Andréia, também Produtores Criativos, acabava de apresentar um espetáculo com dança e cantoria fundado em lendas regionais – uma ópera amazônica! O diretor Marton Maués recebeu-nos em sua casa e falou da experiência de seu grupo que, trabalhando com humor, especialmente a linguagem do palhaço, encena peças clássicas, como Moliére, com referências da cultura regional.

 

A oficina de Dramaturgia do Corpo foi realizada no IAP. Surpreendeu, inicialmente, a grande quantidade de inscritos. Mais: a enorme fila de espera. Oferecida com participação gratuita, o trabalho teve enorme procura. Surpreendeu ainda mais a heterogeneidade do grupo: artistas iniciantes e profissionais, estudantes universitários e de cursos profissionalizantes, interessados em geral (professoras, donas de casa etc.). Foi praticamente unanime, ao final do trabalho, a avaliação de que a diversidade, ela mesma, foi criativa e muitos participantes revelaram que se sentiram muito acolhidos por este contexto.

 

As apresentações todas tiveram expressiva presença de estudantes da UFPA. Apresentando no Teatro Cláudio Barradas, recebemos uma grande quantidade de estudantes interessados não só na obra, mas também em seus processos. Assim, foram especiais as conversas depois das apresentações, as trocas de experiência na Demonstração de Processo de Criação. Recebemos revistas da Universidade, livros e cd de artistas locais.

 

O teatro vale menção: provavelmente o mais moderno teatro universitário do Brasil. Recém inaugurado, está muito bem equipado. E, antes, seu conceito é  importante: um espaço com arquibancadas móveis, com possibilidade de diferentes conformações, do palco italiano à arena. Por fim, ainda o charme de uma plataforma móvel que, atravessando o teatro de uma ponta a outra, facilita sobremaneira a montagem de luz. Merece destaque também o trabalho do técnico Tarek que, num teatro ainda sem funcionário responsável, como bolsista, garante de maneira quase heróica as condições técnicas das apresentações.

 

Antes de terminar, detenho-me um pouco mais na experiência do In Bust. A sua sede, num antigo casarão, tem uma exposição permanente dos bonecos de seus espetáculos. Ali, conhecemos, inclusive, bonecos usados em programas de televisão realizados na TV Cultura de Belém e que são transmitidos até na África! O espaço ainda tem ateliê de criação e anfiteatro ao ar livre para apresentação de espetáculos para a comunidade vizinha. In Bust ainda tem gente boa de papo: conhecemos a sua experiência de apresentações pelo interior do Pará, em comunidades de difícil acesso – muitos são os locais em que se chega de barco! – com paulista, urbano, não consegui deixar de me surpreender com a descrição de dias deste tipo de deslocamento.

 

Belém foi uma cidade a ser saboreada. Conhecemos a cidade com gosto  – no sabor e no gostar!

Calor e Saudade de Natal

A mostra “10 ANOS POR UMA ESCRITA DO CORPO” propõe uma espécie de síntese de estudos desenvolvidos pela sua equipe ao longo dos últimos 10 anos. Como um “inventário itinerante”, apresentamos em 05 cidades de 05 diferentes regiões do Brasil: Natal, Belém, Goiânia, Belo Horizonte e Porto Alegre. Estamos, agora, em Belo Horizonte, onde as duas últimas apresentações do espetáculo “Eldorado” encerram os trabalhos na cidade.

 

Tive, ao longo do tempo de apresentação nas quatro cidades por onde passou o projeto, pouco tempo de escrever textos que partilhassem as minhas impressões do trabalho e da realidade cultural das cidades. Estando envolvido em quase todas as atividades – dois solos, oficina, demonstração etc. – acabei confiando aos atores do Teatro Camaleão o registro das andanças.

 

Aqui, no entanto, procuro deixar, ainda que com umas semanas de atraso, as minhas reflexões a respeito de nosso desenvolvimento e das pessoas que conhecemos ao longo de nosso trajeto. Assim, pretendo publicar 04 textos, cada um dedicado a uma cidade que já nos recebeu.

 

Natal foi a primeira cidade a ser visitada. Entre os dias 20 a 26 de maio, realizamos, conforme havia sido projetado: duas apresentações dos espetáculos “Agora e na Hora de Nossa Hora”, “Eldorado” e “Uma Estória Abensonhada”; uma oficina; uma demonstração de processo de trabalho; um lançamento de livro. Enquanto as apresentações de espetáculo e lançamento de livro  aconteceram na Casa da Ribeira, as atividades formativas aconteceram na sede de um importante grupo de teatro:  o Barracão dos Clowns de Shakespeare.

 

Natal é uma localidade quente! E o calor do clima parece contagiar as pessoas que lá vivem. Fomos recebidos de maneira muitíssimo amorosa. Antes de tudo, a parceria com a  Casa da Ribeira e os produtores Henrique Fontes e Cris Simon garantiu uma excelente estrutura para nos receber: bons restaurantes e hotel; teatro bem localizado e muito aconchegante; excelente trabalho de divulgação, com destaque para a assessoria de imprensa feita pelo Luciano Dantas. Depois, os grupos de teatro da cidade, como o “Atores à Deriva” nos acolheram ainda mais, apoiando-nos em todas as atividades – chegamos, inclusive, a ensaiar na sua nova sede. Os Clowns de Shakespeare igualmente não hesitaram em abrir suas portas para receber parte de nossa programação. Por fim, mesmo em meio ao muito trabalho que envolve uma mostra como esta, a bela cidade de Natal nos possibilitou encantadores passeios, com praias, paisagens, refeições – foi inesquecível a visita à vizinha comunidade de Pipa!

 

Com uma recepção tão quente, a cidade possibilitou intensa troca com os artistas locais – gente boa e talentosa que deixou saudades!

 

Nenhum dos integrantes da equipe já havia estado em Natal. Assim, esta foi a primeira vez que realizamos trabalhos naquela cidade. Impressionou, por isso, o envolvimento dos artistas locais com a programação, sobretudo nas atividades de formação: oficina e demonstração.  Mesmo de longe, já sabíamos que Natal tem uma intensa atividade cultural, especialmente teatral: a fama da Casa da Ribeira, por exemplo, já se espalha como um importante espaço de referência da produção nacional, sobretudo nordestina, e outros grupos, como os Clowns de Shakespeare,  já conseguiram fazer seus bonitos trabalhos ultrapassarem as fronteiras da cidade e do estado. Conhecendo de perto esta realidade, ficamos surpresos com o abundante potencial de troca artística. Realmente eu não esperava a grande quantidade de pessoas interessadas em participar da oficina, com aumento do número de vagas e, ainda assim, estabelecendo uma considerável lista de espera. E, na realização dos trabalhos práticos, aqueles atores demonstraram ânsia em estudar – o que se revelava numa grande quantidade de energia física. Foi surpreendente ver artistas com trabalhos já em desenvolvimento sobre temas correlatos às nossas pesquisas – como as relações entre corpo e cena – muito abertos à nossa experiência.

 

Na demonstração de trabalho, envolvimento semelhante pôde ser sentido. Muitas perguntas e apontamentos que podem contribuir para a construção de nossa trajetória.

 

Na apresentação dos espetáculos,  um público talentoso: disposto não somente a assistir a uma peça de teatro, mas disposto a ajudar a construí-la: imaginando; abrindo-se a linguagem do trabalho; comentando.  Sem dúvida nenhuma a continuidade dos trabalhos da Casa da Ribeira, com enfrentamento diário das dificuldades que envolvem esse tipo de empreitada, contribui sobremaneira para a construção disso.

 

Por fim, em Natal, ainda foi a cidade em que reecontrei os atores do Teatro Camaleão, que participam da mostra com “Uma Estória Abensonhada”, e que eu não via desde que, no início de 2009,  me exonerei da Universidade Federal de Santa Maria – cidade onde vivem.  Em Natal, também reecontrei o amigo Robson Haderchpek, colega de classe nos tempos de formação da UNICAMP e, hoje, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

 

Natal, já disse, é uma cidade quente! Com tantos reencontros e novos amigos, a despedida, não poderia deixar de ser, foi marcada por lágrimas. Nem tínhamos partido e já sentíamos saudades. Começo inesquecível de uma circulação cujo objetivo,  tanto quanto apresentar trabalhos já desenvolvidos, é a abertura para os possíveis encontros e provocações.

Últimos preparativos



A mostra 10 ANOS POR UMA ESCRITA DO CORPO começa na quinta-feira, dia 2o de maio, em Natal. Até o dia 12 de julho, 05 cidades receberão 30 apresentações de 03 espetáculos, 05 demonstrações técnicas, 05 cursos com duração de 12 horas e lançamento de livro.

A equipe da mostra – a produtora Daniele Sampaio, os atores do Grupo Camaleão, e o técnico Eduardo Albergaria – já está em Natal. Hoje e amanhã, montam-se cenografia e iluminação do primeiro espetáculo e se realizam ações de divulgação.  Para conferir a programação em Natal, clique aqui.

Eu ainda estou em São Paulo, ocupado com aulas e finalizando projetos. Chego na madrugada de hoje para amanhã. Pela manhã, a produtora do trabalho enviou uma mensagem: “Natal é um paraíso!”

A ansiedade cresce…