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Teatro: jogo e aprendizado


Convidado a ser o paraninfo da primeira turma de formandos da Escola Superior de Artes Célia Helena, fiz o meu pronunciamento na cerimônia de colação de grau, na noite do dia 22 de março de 2011. O texto a seguir é a transcrição deste discurso.

 

Srs. pais e familiares, professores, ex-alunos – tornados, agora, colegas de trabalho,

 

Hoje, como sociedade, formamos novos profissionais das Artes Cênicas. Essa é uma verdade incontesável. Mas é também uma verdade parcial: junto com esses artistas de palco, forma-se também uma instituição de ensino – a Escola Superior de Artes Célia Helena. Espelhada nos primeiros profissionais que forma, a escola, enfim, reconhece a sua própria cara.

 

Começo por essa constatação porque isso diz muito a respeito de um aprendizado possível no teatro: enquanto ensinamos, nos formamos; enquanto atuamos, procurando revelar mundos, outros tantos mundos nos são revelados. Isso porque o conhecimento gerado na cena não é exclusivamente estudado nos livros. É também um saber empírico que nasce do próprio ato de experienciar as coisas vividas. Um conhecimento tácito que se lê não só no texto escrito, mas também se descobre no próprio corpo, se advinha em si. Sabedoria que nasce do ato: atuação. Assim, quem aprende não é aquele que detém menos conhecimento, mas aquele que se abre para conhecer regras de jogo; e, como escreve Guimarães Rosa, “mestre é aquele que, de repente, aprende”.

 

Como jovem artista e professor, fico tranquilo ao imaginar, sonhar, que para vocês o jogo tenha sido tão intenso quanto foi para mim. Caros ex-alunos, obrigado pelas aulas!

 

Imbuídos deste jogo dos últimos três anos, não nos esqueçamos de que o aprendizado, não raro, é mais potente através da experiência que pelo aconselhamento. Lembremos que aquele que está no palco não sabe mais do que aquele que está na plateia. Que igualmente isso não nos impeça de ter um ponto de vista sobre as coisas – que mesmo não sendo melhor ou pior que qualquer outro, é um ponto de vista possível e, por isso mesmo, fundamental. Que, assim, da experiência da sala espetáculos saiam todos, artistas da cena e espectadores, fortalecidos para as suas lutas cotidianas – as comuns e as pessoais. Possamos juntos conferir sentidos à nossa tarefa humana de fazer algo nós mesmos.

 

Realizar o humano em si não é facil, sabemos que não. Ainda mais quando o contexto que se vê é profundamente desumano: violência e injustiça. Haverá ainda as dificuldades impostas por uma nação que não reconhece o papel insubstituível da arte na construção do imaginário do seu povo.

 

Como artistas, não raro, os tempos que seguirão nos parecerão duros. Mas tenho certo de que não serão mais duros que para médicos e dentistas, professores e advogados, lixeiros e cozinheiros, motoristas e donas de casa na especificidade de seus ofícios. Sobretudo, não serão mais duros que para os mais de 85% dos jovens em idade universitária, entre 18 e 24 anos, e que, segundo dados estatísticos do Ministério da Educação, ainda hoje não têm acesso a um curso superior, no Brasil – e que, antes, não foram atendidos em seu direito de acesso aos ensinos fundamental e médio de qualidade.

 

Lembro isso porque, como jogadores, temos também a responsabilidade da escolha pelos jogos que jogamos. A experiência desta colação de grau também nos revela que um bom jogo propicia aprendizado para si e para muitos outros. Saber ampliar o jogo do teatro em círculos cada vez mais amplos e transformadores é responsabilidade de jogadores formados!

 

Assim, ainda que tiremos “difícil de dificel”, como “peixe vivo no moquém”, saibamos prosseguir jogando, partilhando travessias. No enfrentamento coletivo das dificuldades, assim como na celebração de nossos passos, possamos uma vez mais tomar lições de Guimarães Rosa: “Agora que eu principiei e já andei um caminho tão grande, ninguém não me faz virar e nem andar de-fasto!”

 

Sorte na vida de vocês, atores!


Vida longa e próspera a esta escola!

Aicha Haroun Yacobi

 

O texto abaixo é parte do artigo “‘Ghita’, de Aicha Haroun Yacobi: uma dramaturgia do afeto”, que será públicado na próxima edição da Revista “Olhares,” da Escola Superior de Artes Célia Helena”. Assim que for publicado, uma versão também será disponibilizada neste site, na seção processos.

2008 é o ano da data; julho o mês. Acompanhei a realização do Festival Internacional de Expressão Corporal Teatro e Dança de Agadir, no Marrocos. Dois anos antes, eu conhecera a coordenadora do evento, a diretora e dramaturga Aicha Haroun Yacobi, em um festival de teatro na Espanha. Convidados a apresentar o solo “Agora e na Hora de Nossa Hora” no evento marroquino, ali estávamos, assim, a diretora do espetáculo, Verônica Fabrini, e eu aguardando a abertura do festival..

Horas antes do lançamento do evento, no entanto, um fato alteraria a sua realização: todas as cortinas de veludo que cobriam as grandes janelas de vidro da Sala da Municipalidade, onde aconteceria o evento, foram retiradas. Seriam lavadas, alegou-se à época. Difícil foi entender, num primeiro momento, o porquê da decisão da retirada da panagem na tarde de estreia de um dos principais eventos culturais da cidade. Por quê?

Depois, soube-se que havia mais motivos para a retirada das cortinas que o asseamento da sala: era difícil a aceitação de que um evento pudesse ser coordenado por uma mulher; que sob seu comando estariam muitos homens – técnicos e seus coordenadores, acompanhantes dos grupos convidados, motoristas, porteiros, bilheteiros, atores, diretores, equipes de limpeza, credenciamento e hospedagem e todos estes em diálogos com outros representantes de outras instituições (os patrocinadores e apoiadores, os homens da política, os demais artistas marroquinos).

Isso soubemos não só por conversas com Aicha e seus parceiros, mas também pela nossa própria vivencia em terras marroquinas – a experiência, diga-se, revela um aprendizado nascido do próprio ato de experienciar as coisas vividas e aí está um dos motivos de o teatro ainda se estabelecer como linguagem importante aos homens. Foi curioso perceber, por exemplo, que a diretora do espetáculo que eu apresentava tinha pouca voz entre os técnicos que montavam suas estruturas de luz e cenário e, não raro, foi preciso que eu, sendo um homem, repetisse as mesmas palavras acabadas de serem pronunciadas por ela (as mesmas com pequenas diferenças provocadas pelos erros de meu inglês não fluente) para que as suas decisões como responsável pelo trabalho ganhassem materialidade. Os técnicos pareciam, enfim, pouquíssimo interessados em atender às solicitações de mais uma mulher.

Sendo a sala de espetáculos sem paredes de alvenaria, mas inteiramente cercada por enormes janelas de vidro, a retirada dos panos colocava em risco a realização do evento – ou, pelo menos, a sua qualidade. Ora, estando em julho, pleno verão, o Sol punha-se depois das nove da noite, em Agadir, e, assim, os espetáculos, cujas apresentações estavam marcadas para às 19h, tinham prejudicados todos os seus efeitos de iluminação.

“Nada a fazer”, já lamentava eu, como as personagens de “Esperando Godot”, de Samuel Becket. Restava a aceitação de um fracasso.

Uma solução apresentada surpreendeu-me. Mais: já me revelava com maior profundidade a pessoa que eu aprenderia a admirar ainda mais nos dias (e anos!) seguintes: sem nenhuma discussão com os homens que haviam retirado as cortinas, Aicha propôs que os espetáculos tivessem suas sessões atrasadas em aproximadamente quatro horas! Em princípio, a solução parecia-me descabida: o evento estava divulgado em cartazes e na imprensa. Haveria espectadores pacientes o suficiente para aguardar tamanho atraso? Houve! Todas as sessões tiveram a capacidade total do teatro ocupada, com espectadores, inclusive, assistindo em pé aos trabalhos apresentados, na falta de cadeiras para todos. O atraso pareceu até mesmo criar um ambiente solidário que favorecia a fruição das obras – atores e espectadores imersos em uma dimensão comunitária.

Ali, não só reconheci que os artistas de teatro são fortes o bastante para enfrentar dificuldades. Isso já se sabe há muito. O que se revelava para mim eram as dificuldades e a inteligência de uma mulher marroquina que as vencia (todas elas!). Sem enfrentamentos diretos, aderindo aos obstáculos em vez de resistir a eles, Aicha permite que a própria dificuldade revele a potência da sua superação. Realizou, em Agadir, um lindo festival! E, em nossa partida, já tínhamos, eu Verônica e Aicha, olhos marejados de saudade. O que parece hostilidade, ensina ela em suas ações, pode ser também o princípio do novo: o inesperado.

Tradição e Modernidade: tecnologia e artesanato na criação de “Eldorado”



Este texto é motivado pelo lançamento do layout de nosso novo site e reflete sobre o uso de tecnologias da informação e algumas possíveis influências sobre as Artes Cênicas. Assim, como a postagem anterior, adapta trechos de meu trabalho de doutoramento em Artes Cênicas na UNICAMP. Para acessar a tese na íntegra, clique aqui.

 

A experiência de uso da tecnologia da informação a serviço de relações de troca humanas, sendo estas, diga-se o fundamento da linguagem teatral, eu já havia experimentado antes da publicação deste novo site. No início de minhas pesquisas, quando a equipe do trabalho era pequena e eu mesmo organizava as atividades de produção, uma das minhas primeiras tarefas foi a criação do meu próprio site:<www.eduardookamoto.com>. Eu, que não tenho nenhuma formação em tecnologia (excetuando-se a genética nipônica que, brincam os amigos, me empurra com facilidade para esta área), pude sozinho, com a ajuda do tópico “Ajuda” do próprio software de produção de sites, produzir meu próprio território virtual. A partir deste sítio, acabei por agendar apresentações internacionais (Espanha, Suíça, Marrocos, Kosovo) e estabeleci muitos contatos inesperados. O site que trata de um trabalho brasileiro, que por muito tempo apresentou como único espetáculo um trabalho sobre meninos de rua, chegou a registrar acessos até mesmo na China, no outro lado do mundo.

 

O dramaturgo Santiago Serrano, de “Eldorado”, igualmente se surpreende com a divulgação de sua obra pela web. Sua página, também criada por ele mesmo, contabiliza mais de 80.000 acessos do mundo todo. Isto possibilitou que textos seus fossem montados em lugares distantes da sua residência: EUA, México, Espanha, França, Bulgária, Brasil etc.

 

Diga-se que o processo de criação do espetáculo “Eldorado” valeu-se amplamente da comunicação virtual. Inicialmente, as primeiras fotografias e vídeos de rabequeiros – os artistas populares que inspiraram o trabalho – foram retiradas da Internet. Conheci muitos rabequeiros que efetivamente eu nunca encontrei.

 

Não obstante a possibilidade das viagens inventadas, dos encontros intuídos, das realidades sonhadas, a Internet possibilitou também os encontros de vida a vida, quando, em Iguape e Cananéia, conheci rabequeiros e construtores de rabeca pessoalmente. A pesquisa de campo só foi possível porque consultei, antes mesmo de partir de Campinas, onde moro, o site do Museu Vivo do Fandango. A web revelava-me um circuito de visitação por casas de artistas populares e salões fandangueiros. Isto garantiu sucesso nos encontros com estes artistas numa viagem com recursos próprios – e, portanto, necessariamente rápida, já que eu não poderia me afastar por muito tempo de outros ambientes de trabalho e mesmo não poderia custear uma longa estada naquelas cidades.

 

Vale dizer que, durante a própria pesquisa de campo surpreendi-me com o uso de tecnologia pelos próprios artistas da tradição popular. Não me refiro somente às técnicas que cada um usa para criar a sua própria arte (o conhecimento que cada um gera para tocar ou construir um instrumento da sua própria maneira). Refiro-me também ao uso de expedientes da pós-modernidade.

 

O Seu Benedito Nunes, de Iguape, por exemplo, mostrava-me orgulhoso que a sua rabeca trazia já embutido “um chip” (referia-se a um captador), que permitia uma conexão rápida com mesa e amplificador de som. Além disto, hoje, a busca por vídeos no portal YouTube apresenta uma grande quantidade de rabequeiros e manifestações populares em que a rabeca se insere. Há, inclusive, mestres rabequistas que têm sua própria área no portal MySpace, que prima pelo compartilhamento de trabalhos artísticos, sobretudo de música.

 

A tradição é pós-moderna: antecipou importantes referenciais da produção erudita da cultura (é o caso, por exemplo, de uma das marcas do atuante contemporâneo, cujo trabalho se pauta pela não especialização entre atores, bailarinos e cantores) e não abre mão da tecnologia para criar ondas cada vez maiores e mais intensas de relação humana.

 

Por fim, pela navegação na rede, ainda pude chegar a Buenos Aires, cidade que eu não conheço pessoalmente e estabelecer uma parceria com o dramaturgo argentino. Se eu me deixei levar pelas muitas fabulações possíveis, finalmente, eu convidava alguém que morava longe de minha casa a viajar comigo. Desta maneira, eu não só me permitia atravessar pelas realidades vividas ou inventadas, mas procurava também atravessar um outro, que também fabulava suas próprias jornadas. “Eldorado”, aprendi, é encontro que se vale de recursos diversos para acontecer.


Plataforma para a Liberdade


Este texto é motivado pelo lançamento do layout de nosso novo site e reflete sobre o uso de tecnologias da informação e algumas possíveis influências sobre as Artes Cênicas. Esta postagem, assim como a próxima, adapta trechos de meu trabalho de doutoramento em Artes Cênicas na UNICAMP. Para acessar a tese na íntegra, clique aqui.


Nossas atividades, no teatro, estão além do espetáculo. Incluem pesquisa de linguagem, suas implicações sociais e estéticas, atividades pedagógicas, tentativas múltiplas de teorização das pesquisas na forma de trabalhos acadêmicos, artigos, livro. Ainda que o espetáculo seja o norte do trabalho, sabemos que não se dá menor importância às muitas outras atividades que a ele estão ligadas e até mesmo o fundamentam.

 

Motivado pelo lançamento do nosso novo site – o “nosso”, aqui, não é mera formalidade, mas procura estender os méritos do trabalho à equipe que o desenvolve: diretores, dramaturgos, cenógrafos e figurinistas dos espetáculos, técnicos e produtores, assessores de imprensa etc. – voltei a algumas reflexões que já vinha tecendo sobre a importância da comunicação virtual, via Internet, para o desenvolvimento das nossas pesquisas em Artes Cênicas.

 

Para o geógrafo Milton Santos, a democratização do acesso às ferramentas de comunicação em massa possibilitará profundas transformações sociais. Para ele, a história do homem “vai de par com a história das técnicas”. Ao surgirem novas técnicas as outras não desaparecem: enquanto os atores hegemônicos utilizam o conjunto de técnicas mais atuais, os não hegemônicos continuam usando técnicas menos atuais e poderosas. Vivemos num tempo, no entanto, em que, pela primeira vez na história da humanidade, um conjunto de técnicas, a tecnologia sintetizada no computador, se faz sentir de maneira generalizada no mundo e, assim, o uso das tecnologias propiciará uma organização social mais justa e menos desigual. A técnica, enfim, nos lembra o geógrafo brasileiro, poderá retomar seu sentido de plataforma da liberdade e não mais ser tomada como instrumento de dominação.

 

Milton Santos lembra ainda que a grande parte da produção de mídia do mundo é detida por apenas poucas agências internacionais da informação – 90% da mídia é produzida por apenas 6 empresas! Isto explica o porquê jornais diferentes em diferentes partes do planeta reproduzem imagens, matérias, pontos de vista. As mídias da informação efetivamente realizam uma intermediação entre as pessoas e o mundo; não vivemos o mundo, mas o vemos como nos fazem ver.

 

Assim, quando as ferramentas de comunicação se tornam acessíveis ao cidadão comum, abre-se espaço para a multiplicidade de pontos de vista. Não só: abre uma possibilidade de comunicação entre pessoas. A informação não mais como intermediação, mas como potencial de relação humanista.

 

Para o lançamento deste novo site, escolhemos a plataforma WordPress – para saber mais:<http://br.wordpress.org> . Seu fundamento é justamente o uso gratuito e livre colaboração, tendo código aberto para modificações. Seu uso é tão simplificado que eu mesmo, estudando esta ferramenta a partir de mecanismos de busca da Internet, desenvolvi um site/blog para a “Mostra 10 Anos por uma Escrita do Corpo”.

 

Desejando cuidar um pouco mais do acabamento estético do site – afinal, o cuidado estético é o nosso trabalho – desenvolvemos este novo layout em parceria com o Luorvat Design. O estúdio de São Paulo, com larga experiência em arquitetura da informação, responsabilizou-se pelo registro fotográfico de ensaios e treinamentos, assim como pela a criação de um layout exclusivo.

 

O site contém informações diversas sobre os espetáculos e estudos desenvolvidos até aqui, permitindo que o seu espectador estenda sua experiência para os seus processos geradores. O blog permitirá a publicação não somente dos resultados finais das pesquisas, formalizadas em espetáculos, cursos e textos, mas também a maneira mesmo como vem sendo desenvolvida até aqui. Há textos disponibilizados para download gratuito, para uso não comercial – com o pedido de que gentilmente se cite a fonte de origem. Por fim, o site deverá servir ainda como uma espécie de “central de produção”, organizando e tornando acessíveis as informações necessárias para a realização de apresentações: condições técnicas, reelases e fotos de divulgação etc.

 

Assim, esperamos deste novo site não só a divulgação dos trabalhos, mas, sobretudo, um espaço para a projeção de novos encontros.

Porto Alegre: o teatro e a comunidade

Em Porto Alegre, a mostra “10 Anos por uma Escrita do Corpo” foi realizada como parte da programação do Festival Jogos de Aprendizado, organizado pela Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, de 06 a 11 de julho de 2010.

 

As primeiras apresentações do espetáculo “Agora e na Hora de Nossa Hora”, realizadas na Terreira da Tribo, sede do Ói Nóis, já materializaram a principal característica de nossas apresentações em Porto Alegre: a interação da cena com a comunidade.

 

A Terreira tem como tradição os fortes laços de interação entre o seu espaço e a comunidade que o circunda. Esta é, como já se sabe, uma das especificidades do trabalho do Ói Nóis Aqui Traveiz: a profunda correlação entre política e a criação estética. No Festival Jogos de Aprendizagem, isso se evidenciou mais: primeiro porque boa parte da programação do festival foi constituída por espetáculos realizados por alunos de oficinas oferecidas pelo grupo; depois, porque todos os espetáculos tiveram enorme afluência de espectadores (“Uma Estória Abenssonhada” teve duas sessões com mais de 400 espectadores por apresentação; “Agora e na Hora…” teve média de 120 e “Eldorado” média de 200 espectadores por sessão ), com grande participação de alunos da rede pública de ensino, levados às salas de espetáculo por ônibus da prefeitura.

 

Vale ressaltar que a grande parte dos alunos da rede pública que compareceram às apresentações assistiam a um espetáculo de teatro pela primeira vez. Isso, em si, diga-se constitui atitude politica por meio de uma ação artística: incluir os excluídos em ambientes que não têm o hábito de frequentar; permiti-los conviver com outros atores sociais da cidade; tornar acessíveis os bens simbólicos produzidos socialmente a uma parcela ada população que, normalmente, não têm acesso a isso.

 

A inquietação, no entanto, ainda permanece: isso basta? Foi contrastante a diferença de experiências daqueles que foram levados por ônibus da prefeitura diretamente das salas de aula da escola com aqueles que frequentam as oficinas do Ói Nóis. Não nos referimos a qualidade de fruição da obra – coisa, diga-se, imensurável. Referimo-nos propriamente à capacidade de estender a experiência daquele dia para a vida cotidiana, como hábito. Ou seja, não temos dúvida de que tão importante quanto facilitar um primeiro acesso às obras de arte é criar autonomia no espectador para que ele, por conta própria, torne-se capaz de escolher quando, o que e como quer assistir uma obra teatral. Neste sentido, acreditamos profundamente que a formação de público necessariamente deve extrapolar o espaço da apresentação e desenvolver-se em atividades muitas, como acontece com os alunos-oficinandos do Ói Nóis Aqui Traveiz.

 

O Festival Jogos de Aprendizagem, enfim, constitui um espaço espacial de trocas de experiências e apresentação de bons trabalhos, com convivência entre espetáculos de iniciantes, artistas parceiros (como nós que realizávamos a nossa mostra), grupos convidados de diferentes partes do país, críticos. Ao mesmo tempo, cada um apresentando a sua própria experiência e todos abertos a vivência do outro.


Belo Horizonte: o teatro e a cidade

As atividades da mostra “10 Anos por uma Escrita do Corpo”, em Belo Horizonte, foram realizadas no Galpão Cine Horto, Centro Cultural gerido pelo Grupo Galpão, entre os dias 28 de junho e 04 de julho de 2010.


Belo Horizonte é uma grande cidade e, assim, a realização da mostra foi permeada pelas relações entre o teatro e o espaço urbano: exigindo diferenciadas estratégias de divulgação; envolvendo maior planejamento nos custos de realização do projeto; envolvendo maior exposição de mídia; possibilitando trocas com grupos e artistas cujo trabalho tem grande repercussão em níveis regional e nacional – como o próprio Galpão, que nos recebeu.


Antes mesmo de chegarmos à cidade, recebemos muitos telefonemas de jornalistas interessados em noticiar a estada de nossa equipe em Belo Horizonte. A antecipação de nossa chegada pela mídia, não só facilitou a divulgação da mostra em uma cidade com imensas dimensões territoriais e populacionais, mas também nos preparou para as relações entre a cena e o espaço urbano que caracterizariam as apresentações em Minas Gerais e, mais tarde, em Porto Alegre.


Foi curioso, ao longo de nossa jornada, perceber diferenças de recepção do espetáculo a partir dos diferentes contextos culturais nos quais foram apresentados. Nas regiões Norte e Nordeste, por exemplo, o espetáculo “Eldorado” – que tem como protagonista um cego rabeca, instrumento musical muito presente e manifestações culturais destas localidades – teve recepção mais calorosa que “Agora e na Hora de Nossa Hora”, que trata da situação de rua entre crianças e adolescentes em grande cidades. Por outro lado, em Belo Horizonte, cidade que efetivamente convive largamente com os meninos de rua, recebeu com mais entusiasmo justamente o espetáculo que os retrata.


Neste sentido, a cena de “Agora e na Hora de Nossa Hora” extrapolou o palco do Galpão Cine Horto e , nas ruas da cidades se completava: no contato com a população de rua; no debate sobre os processos de exclusão social etc. Aliás, diga-se, esta dinâmica de interações entre ações artísticas e ações políticas já estavam explicitas no envio de cartão de boas vindas à equipe da mostra assinado pessoalmente pelo prefeito de Belo Horizonte.


Também as atividades formativas puderam ser permeadas pelas relações entre a cena e a urbe. Isso porque boa parte de seus participantes eram atores experientes, muitos com formação universitária em Artes Cênicas, e com amplas referências (com só numa cidade cosmopolita se vê) . Assim, se, antes, os espetáculos foram assistidos por espectadores cujo trabalho tem tido grande repercussão na cena nacional, agora, na oficina, o trabalho pôde ser amplamente experienciado em suas metodologias geradoras e debatido em suas potências e elementos ainda a serem desenvolvidos.


Impressionou também à equipe de realização do projeto as instalações do Galpão Cine Horto, com salas de exposições, apresentações de espetáculo, ensaios, cinema, escritórios de administração e publicações e festivais próprios (como a revista Subtexto e o Festival de Cenas Curtas). Soma-se a isso a exposição, apresentada no momento de nossa estada em Belo Horizonte, em homenagem à Wanda Fernandes, fundadora do Galpão: foi bonito e inspirador aos jovens artistas da mostra “10 Anos por uma Escrita do Corpo” conhecer mais fundamente a história de um dos principais grupos de teatro do Brasil – sua formação, desenvolvimento de poética própria e estruturação administrativa de suas atividades.


Como já acontecera antes, em outras cidades contempladas pela nossa circulação, recebemos e doamos publicações (livros e DVDs) e reconhecemos: aquilo que, hoje, apresenta-se como fundamentos de nosso trabalho (pesquisa de linguagem, pedagogia, reflexão e registro de processos criativos) foi, anos antes, semeados por artistas como os do Grupo Galpão em seus 30 anos de história.


Belo Horizonte é uma cidade grande. E grandiosas foram também as oportunidades de aprendizado e trocas em nossa estada na capital mineira.

Encontro e Reencontros em Goiânia


Em Goiânia, a Mostra 10 ANOS POR UMA ESCRITA DO CORPO foi realizada em parceria com o V ENCONTRO DE ATORES-CRIADORES. Como sugere o nome do evento anual organizado pelo Teatro Ritual, a programação reúne artistas da cena, apresentando e dialogando seus trabalhos.

 

Como não poderia deixar de ser, a força de nossa programação na cidade esteve nos encontros. Antes de tudo, com o público: as apresentações foram quentes, com casa cheia. “Agora e na Hora de Nossa Hora”, que já havia se apresentado naquela cidade, teve espectadores que o reviram nesta nova oportunidade. Também houve relato de muitas pessoas que nos escreveram, depois, dizendo-se surpresos com o trabalho que acabaram de conhecer. “Eldorado” fez suas primeiras apresentações em Goiânia – igualmente com recepção calorosa. Houve ainda, além da sessão regular aberta a o público, uma apresentação especial de “Uma Estória Abensonhada” para alunos da rede pública estadual, com direito a sessão de autógrafos e fotos dos atores. A oficina realizada na Universidade Federal de Goiás contou com a presença de alunos e também de professores do curso de teatro.

 

Os encontros, no entanto, não pararam por aí. Pude rever grandes amigos, hoje trabalhando na região Centro-oeste do Brasil, sobretudo na Universidade: os amigos dos tempos de graduação na UNICAMP Kleber Damaso e Renata Lima; a professora Natássia Garcia; o grande Newton de Souza. As apresentações dos trabalhos, aqui, foram especiais. Porque, na platéia, contamos com a presença de pesquisadores que, além de pensarem continuamente a cena, acompanham meus processos de formação, de estudo e, alguns deles, até mesmo de vida.

 

Neste sentido, registro a especialíssima partilha de caminhos com o professor-mestre Newton de Souza. A atribuição de maestria a ele não é gratuita. Meu aprendizado com ele, aliás, ultrapassa em muito a titulação de Mestre que a academia lhe atribui. Para mim, Newton é mestre no sentido mais tradicional do termo: aquele que, através do oficio do teatro, contribui para que outros artistas menos experientes possam se lançar na direção de si mesmos. Considero que foi ao seu lado que me iniciei na linguagem teatral: primeiro diretor-professor, no Grupo Atrás do Grito de Teatro  – o nome do grupo como referência aos ensaios na região do Ipiranga, onde Dom Pedro II deu o famoso grito de independência do Brasil. Como um Projeto de Extensão da Universidade Paulista, o grupo reunia em seu elenco a comunidade acadêmica e comunidade externa a ela. Ali, eu fundei as bases que, ainda hoje, alicerçam o meu trabalho: o desenvolvimento de estudos teatrais amparados em Universidades Públicas; com amplo diálogo entre os trabalhos acadêmicos e o contexto em que se inserem através de projetos de Extensão Universitária; a certeza de que a dimensão técnica e estética da linguagem artística carrega em si uma outra, sócio-política; a insuperável conexão arte-vida. Reencontrar o mestre Newton (e são muitos que com ele se iniciaram no teatro e o tem neste grau de respeito) foi um grande presente.

 

É preciso reconhecer também que, numa cidade em que nossa mostra primou pelos reencontros, tivemos alguns desencontros. Foram muitas as dificuldades de produção e organização de nossa participação. Inicialmente, esperávamos que a Universidade nos recebesse como anfitriã do evento. Esperávamos inaugurar, com nossas apresentações, um novo Centro Cultural da instituição. Assim, esperava-se abarcar um de nossos objetivos no projeto: dialogar com pesquisadores teatrais de outros contextos, diversos daqueles que nos formaram.

 

Poucos dias antes do início de nossa partida para esta circulação, no entanto, soubemos que, por atrasos nas obras, a Universidade adiaria a inauguração do novo teatro.

 

Desta maneira, ficamos com pouco tempo para organizar uma nova estrutura e estabelecer novas parcerias. O Teatro Ritual que, por sorte, já planejava um evento para o mesmo período em que programávamos nossa passada por Goiânia, aceitou a empreitada de, em intenso ritmo de trabalho, incorporar nossa participação no ENCONTRO DE ATORES-CRIADORES.

 

A principal dificuldade foi a de conseguir pauta em uma sala de espetáculos que recebesse a contento os nossos trabalhos, com respeito às suas necessidades técnicas. Alocados no Teatro Yguá, do Centro Cultural Martim Cererê, pelejamos para adaptar os trabalhos àquela casa. O palco parecia pequeno, o pé-direito do prédio baixo para as necessidades de angulação dos equipamentos de iluminação. Aqui, mereceu destaque a ajuda inestimável da administradora do teatro, Dirce Vieira (poucas vezes vi uma gestora de espaço público tão apaixonada e comprometida com o seu trabalho!), e do técnico Stanley, que acompanhou nossas montagens. Com muita disposição, pulsão de criação, fita crepe e cabo de aço, deixamos tudo pronto para a chegada do público.

 

Goiânia, marcou-nos pelos reencontros! Nossa passagem por lá foi marcante porque, afinal, pudemos rever gente que, muito antes, já nos marcara muito!


Sabores e Saberes de Belém


A maior parte da equipe desta mostra visitou Belém pela primeira vez. Assim, as apresentações tiveram novos gostos: temperos dos alimentos e temperamentos do povo.

 

Belém é uma cidade de fortes sabores. Ali, os sentidos aguçaram-se: alimentamo-nos de sua rica culinária, conhecendo sabores até então inéditos para nós (o Açaí do Norte, o Pato e o Filhote no Tucupi, o Tacacá, sorvetes de castanha do Pará, de Cajá, de frutos inusitados, cervejas com diferenciados ingredientes e fermentação.

 

E espantosa e deliciosamente a experiência do paladar se expandiu em muitos outros sentidos. Um dos objetivos de nossa circulação por diferentes cidades é permitir que os próprios contextos culturais das cidades visitadas nos provocassem; que outras formas de ver as coisas pudessem, de certa forma, nos desestabilizar. Em Belém, pudemos nos alimentar de suas comidas, mas também de outras manifestações de sua cultura: seus cheiros, suas danças, suas águas abundantes dos rios, suas interações sociais na feira popular com suas mandingas e medicinas, seus modos de fazer teatro, suas maneiras de saber o mundo, enfim.

 

Esta percepção de outras formas de conhecimento foi potencializado pelas parcerias que garantiram a realização do evento: o IAP – Instituto de Artes do Pará; o Teatro Cláudio Barradas da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará; os Produtores Criativos que, entre outras características, destacam-se pelo potencial de entendimento da linguagem teatral para além da gestão de um projeto cultural – isso possivelmente porque seus integrantes são, antes de gestores, artistas. Assim, a experiência das ruas – nos restaurantes, feiras e interações – pode ainda reverberar em instituições e agrupamentos que se dedicam ao estudo, formação e pesquisa no campo da cultura.

 

Nestes termos, é espantoso como, no Pará, os artistas e instituições conseguem organicamente conjugar pesquisa de vanguarda (as experimentações de teatro como laboratório, por exemplo) com a tradição cultural regional. O IAP, por exemplo, tanto recebe uma mostra como a nossa, pautada em estudos de teatro contemporâneo, como desenvolve projetos como o “Tocando a Memória”, de registro da produção de rabecas no estado. A Cris, dos Produtores Criativos e também produtora do In Bust – coletivo que se dedica ao teatro com bonecos –, levou-nos para conhecer a sua sede e a sua intrigante experiência: uso de materiais amazônicos na criação de seus bonecos. A Andréia, também Produtores Criativos, acabava de apresentar um espetáculo com dança e cantoria fundado em lendas regionais – uma ópera amazônica! O diretor Marton Maués recebeu-nos em sua casa e falou da experiência de seu grupo que, trabalhando com humor, especialmente a linguagem do palhaço, encena peças clássicas, como Moliére, com referências da cultura regional.

 

A oficina de Dramaturgia do Corpo foi realizada no IAP. Surpreendeu, inicialmente, a grande quantidade de inscritos. Mais: a enorme fila de espera. Oferecida com participação gratuita, o trabalho teve enorme procura. Surpreendeu ainda mais a heterogeneidade do grupo: artistas iniciantes e profissionais, estudantes universitários e de cursos profissionalizantes, interessados em geral (professoras, donas de casa etc.). Foi praticamente unanime, ao final do trabalho, a avaliação de que a diversidade, ela mesma, foi criativa e muitos participantes revelaram que se sentiram muito acolhidos por este contexto.

 

As apresentações todas tiveram expressiva presença de estudantes da UFPA. Apresentando no Teatro Cláudio Barradas, recebemos uma grande quantidade de estudantes interessados não só na obra, mas também em seus processos. Assim, foram especiais as conversas depois das apresentações, as trocas de experiência na Demonstração de Processo de Criação. Recebemos revistas da Universidade, livros e cd de artistas locais.

 

O teatro vale menção: provavelmente o mais moderno teatro universitário do Brasil. Recém inaugurado, está muito bem equipado. E, antes, seu conceito é  importante: um espaço com arquibancadas móveis, com possibilidade de diferentes conformações, do palco italiano à arena. Por fim, ainda o charme de uma plataforma móvel que, atravessando o teatro de uma ponta a outra, facilita sobremaneira a montagem de luz. Merece destaque também o trabalho do técnico Tarek que, num teatro ainda sem funcionário responsável, como bolsista, garante de maneira quase heróica as condições técnicas das apresentações.

 

Antes de terminar, detenho-me um pouco mais na experiência do In Bust. A sua sede, num antigo casarão, tem uma exposição permanente dos bonecos de seus espetáculos. Ali, conhecemos, inclusive, bonecos usados em programas de televisão realizados na TV Cultura de Belém e que são transmitidos até na África! O espaço ainda tem ateliê de criação e anfiteatro ao ar livre para apresentação de espetáculos para a comunidade vizinha. In Bust ainda tem gente boa de papo: conhecemos a sua experiência de apresentações pelo interior do Pará, em comunidades de difícil acesso – muitos são os locais em que se chega de barco! – com paulista, urbano, não consegui deixar de me surpreender com a descrição de dias deste tipo de deslocamento.

 

Belém foi uma cidade a ser saboreada. Conhecemos a cidade com gosto  – no sabor e no gostar!

Calor e Saudade de Natal

A mostra “10 ANOS POR UMA ESCRITA DO CORPO” propõe uma espécie de síntese de estudos desenvolvidos pela sua equipe ao longo dos últimos 10 anos. Como um “inventário itinerante”, apresentamos em 05 cidades de 05 diferentes regiões do Brasil: Natal, Belém, Goiânia, Belo Horizonte e Porto Alegre. Estamos, agora, em Belo Horizonte, onde as duas últimas apresentações do espetáculo “Eldorado” encerram os trabalhos na cidade.

 

Tive, ao longo do tempo de apresentação nas quatro cidades por onde passou o projeto, pouco tempo de escrever textos que partilhassem as minhas impressões do trabalho e da realidade cultural das cidades. Estando envolvido em quase todas as atividades – dois solos, oficina, demonstração etc. – acabei confiando aos atores do Teatro Camaleão o registro das andanças.

 

Aqui, no entanto, procuro deixar, ainda que com umas semanas de atraso, as minhas reflexões a respeito de nosso desenvolvimento e das pessoas que conhecemos ao longo de nosso trajeto. Assim, pretendo publicar 04 textos, cada um dedicado a uma cidade que já nos recebeu.

 

Natal foi a primeira cidade a ser visitada. Entre os dias 20 a 26 de maio, realizamos, conforme havia sido projetado: duas apresentações dos espetáculos “Agora e na Hora de Nossa Hora”, “Eldorado” e “Uma Estória Abensonhada”; uma oficina; uma demonstração de processo de trabalho; um lançamento de livro. Enquanto as apresentações de espetáculo e lançamento de livro  aconteceram na Casa da Ribeira, as atividades formativas aconteceram na sede de um importante grupo de teatro:  o Barracão dos Clowns de Shakespeare.

 

Natal é uma localidade quente! E o calor do clima parece contagiar as pessoas que lá vivem. Fomos recebidos de maneira muitíssimo amorosa. Antes de tudo, a parceria com a  Casa da Ribeira e os produtores Henrique Fontes e Cris Simon garantiu uma excelente estrutura para nos receber: bons restaurantes e hotel; teatro bem localizado e muito aconchegante; excelente trabalho de divulgação, com destaque para a assessoria de imprensa feita pelo Luciano Dantas. Depois, os grupos de teatro da cidade, como o “Atores à Deriva” nos acolheram ainda mais, apoiando-nos em todas as atividades – chegamos, inclusive, a ensaiar na sua nova sede. Os Clowns de Shakespeare igualmente não hesitaram em abrir suas portas para receber parte de nossa programação. Por fim, mesmo em meio ao muito trabalho que envolve uma mostra como esta, a bela cidade de Natal nos possibilitou encantadores passeios, com praias, paisagens, refeições – foi inesquecível a visita à vizinha comunidade de Pipa!

 

Com uma recepção tão quente, a cidade possibilitou intensa troca com os artistas locais – gente boa e talentosa que deixou saudades!

 

Nenhum dos integrantes da equipe já havia estado em Natal. Assim, esta foi a primeira vez que realizamos trabalhos naquela cidade. Impressionou, por isso, o envolvimento dos artistas locais com a programação, sobretudo nas atividades de formação: oficina e demonstração.  Mesmo de longe, já sabíamos que Natal tem uma intensa atividade cultural, especialmente teatral: a fama da Casa da Ribeira, por exemplo, já se espalha como um importante espaço de referência da produção nacional, sobretudo nordestina, e outros grupos, como os Clowns de Shakespeare,  já conseguiram fazer seus bonitos trabalhos ultrapassarem as fronteiras da cidade e do estado. Conhecendo de perto esta realidade, ficamos surpresos com o abundante potencial de troca artística. Realmente eu não esperava a grande quantidade de pessoas interessadas em participar da oficina, com aumento do número de vagas e, ainda assim, estabelecendo uma considerável lista de espera. E, na realização dos trabalhos práticos, aqueles atores demonstraram ânsia em estudar – o que se revelava numa grande quantidade de energia física. Foi surpreendente ver artistas com trabalhos já em desenvolvimento sobre temas correlatos às nossas pesquisas – como as relações entre corpo e cena – muito abertos à nossa experiência.

 

Na demonstração de trabalho, envolvimento semelhante pôde ser sentido. Muitas perguntas e apontamentos que podem contribuir para a construção de nossa trajetória.

 

Na apresentação dos espetáculos,  um público talentoso: disposto não somente a assistir a uma peça de teatro, mas disposto a ajudar a construí-la: imaginando; abrindo-se a linguagem do trabalho; comentando.  Sem dúvida nenhuma a continuidade dos trabalhos da Casa da Ribeira, com enfrentamento diário das dificuldades que envolvem esse tipo de empreitada, contribui sobremaneira para a construção disso.

 

Por fim, em Natal, ainda foi a cidade em que reecontrei os atores do Teatro Camaleão, que participam da mostra com “Uma Estória Abensonhada”, e que eu não via desde que, no início de 2009,  me exonerei da Universidade Federal de Santa Maria – cidade onde vivem.  Em Natal, também reecontrei o amigo Robson Haderchpek, colega de classe nos tempos de formação da UNICAMP e, hoje, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

 

Natal, já disse, é uma cidade quente! Com tantos reencontros e novos amigos, a despedida, não poderia deixar de ser, foi marcada por lágrimas. Nem tínhamos partido e já sentíamos saudades. Começo inesquecível de uma circulação cujo objetivo,  tanto quanto apresentar trabalhos já desenvolvidos, é a abertura para os possíveis encontros e provocações.

Últimos preparativos



A mostra 10 ANOS POR UMA ESCRITA DO CORPO começa na quinta-feira, dia 2o de maio, em Natal. Até o dia 12 de julho, 05 cidades receberão 30 apresentações de 03 espetáculos, 05 demonstrações técnicas, 05 cursos com duração de 12 horas e lançamento de livro.

A equipe da mostra – a produtora Daniele Sampaio, os atores do Grupo Camaleão, e o técnico Eduardo Albergaria – já está em Natal. Hoje e amanhã, montam-se cenografia e iluminação do primeiro espetáculo e se realizam ações de divulgação.  Para conferir a programação em Natal, clique aqui.

Eu ainda estou em São Paulo, ocupado com aulas e finalizando projetos. Chego na madrugada de hoje para amanhã. Pela manhã, a produtora do trabalho enviou uma mensagem: “Natal é um paraíso!”

A ansiedade cresce…