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22 – Basquiat

 

 

 

Seguimos o nosso périplo de 18 apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” e 18 postagens neste blog, registrando os 18 anos da Chacina da Candelária. Assim é o projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”, financiado com recursos do PROAC 2011 – Programa de Ação Cultural do estado de São Paulo. Próxima parada: Assis.  

 

Eu não sei explicar o porquê, mas a obra de Jean Michel Basquiat sempre exerceu em mim um profundo efeito: transtorno, perturbação mesmo. Tudo o que posso dizer é que, aos 16 anos, numa exposição em São Paulo, vi muitos de seus quadros. Um deles me tomou a alma – exatamente este que abre a postagem. Um enorme anjo negro! Nunca mais o esqueci. Nunca mais uma obra pictórica teve efeito semelhante em mim – talvez “O Grito”, de Edvard Munch, tenha se aproximado.    

 

Assim, ainda que eu possa escrever que é notável que um jovem que viveu nas ruas tenha sua obra conhecida mundialmente; ainda que eu diga que é incrível que ele tenha contribuindo substancialmente para o reconhecimento do grafite como arte; ainda que eu possa traçar muitos paralelos entre ele e os muitos artistas que conheci na rua – poetas, pintores, músicos; ainda assim, nada vai poder equivaler a perturbação de senti aos 16 anos de idade – provavelmente um dos meus primeiros contatos com aquilo que chamamos de arte.

 

Em muitas circunstâncias, incluindo no processo que levou a “Agora e na Hora de Nossa Hora”, trabalhei a partir de suas imagens, procurando incorporá-las.  A imagem deste anjo, inclusive, por muito tempo, foi a imagem de programas e cartazes do espetáculo. Não escrevia nenhum texto, apenas se imprimia a imagem no material gráfico e – Oxalá queira assim – na experiência do espectador.

 

E, como diz Hamlet, ao fim da peça, diante da força da obra de arte e da vida, que todo o resto seja silêncio. 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Assis
 Dias 14, 15 e 16 de março, às 20h 
Teatro Municipal padre Enzo Ticinelli
Rua Floriano Peixoto, 757
Ingressos gratuitos
Informações: (18) 3322-2613 e 3322-2677 

 

21 – Teatro e pedagogia

 

Estamos na cidade de Garça, no interior de São Paulo. Aqui, realizamos duas apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, inseridas no projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”.  Assim, se registram os 18 anos da Chacina da Candelária em 18 sessões do espetáculo, exposição, bate-papo, workshop e 18 postagens neste blog. O projeto é financiado pelo PROAC 2011 – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.     

 

Apresentar na cidade de Garça era um desejo cultivado desde 2009, quando inciamos contatos com a Secretaria de Cultura deste município que, naquele ano, levou um ônibus de garcenses ao Filo – Festival Internacional de Tetro de Londrina para assistir a “Eldorado”. Muitas foram as tentativas até a nossa chegada aqui.

 

Aproveitando esta pequena-grande vitória, a Secretaria de Cultura de Garça programou atividades paralelas não previstas no projeto PROAC: a realização das oficinas “Elaboração de Projetos Culturais”, ministrada pela produtora Daniele Sampaio, no dia 08 de março, e “Dramaturgia do Corpo”, ministrada por mim entre 09 e 10 de março. As inscrições, gratuitas, estão encerradas.

 

Toda a minha formação em teatro foi permeada por atividades docentes. Comecei a estudar teatro formalmente, em 1998, aos dezessete anos, na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Aos 18, nem mesmo sabendo o que é o teatro, já dava aulas desta linguagem. Assim, em muitas circunstâncias atuei como docente: para crianças e adolescentes, terceira idade, lideres do orçamento participativo de Campinas, população de rua adulta, meninos e meninas em situação de rua, adolescentes privados de liberdade na Febem, no ensino fundamental, como professor de Educação Artística da rede estadual de ensino paulista, em curso profissionalizante de teatro, em universidade pública, em curso particular do ensino superior, em cursos livres e workshops.

 

Desta maneira, sempre o meu aprendizado da linguagem esteve fortemente atrelado às minhas atividades docentes. Dando aulas, aprendi sobre teatro. Não só. Aprendi também sobre docência. Porque, não tendo domínio da linguagem que ensinava (e este domínio provavelmente eu continuo não tendo), só poderia compartilhar experiências. Assim, reduziam-se os espaços do aconselhamento para se ampliarem os espaços de jogo. O aprendizado do teatro e no teatro se dá fundamentalmente pela experiência da criação.  

 

Entendi, assim, que todo o processo criativo inclui aprendizado pedagógico: sabedoria que se absorve na caminhada. E um bom processo de teatro gera aprendizado em direções muitas e envolvendo muitas pessoas – o que obviamente não significa que o aprendizado é o mesmo para todos. Em diálogo com  a Profa. Dra. Maria Thais, da ECA/USP, aprendi a origem da palavra pedagogo: do grego paidagogos, que sintetiza duas outras palavras – paidós (criança) e agogos (condutor). Assim, pedagogo seria aquele que conduz um outro ao ensino, sabedoria. Ou seja, a pedagogia parece estar mais afeita a tornar o aprendizado possível que ensinar propriamente.          

 

Por fim, ao estudar o trabalho de grandes nomes do teatro, reconheci que grandes pesquisas de linguagem estavam frequentemente associadas às atividades pedagógicas. Assim são os trabalhos de Stanislavski, Meyerhold, Grotowski, Copeau, Lecoq etc. Isto sem falar nos brasileiros, como o notável trabalho de Antunes Filho.  Ensinar, mesmo para o pedagogo, parece, enfim, fortemente articulada à descoberta.  

 

Workshop Dramaturgia do Corpo em Garça
Realização da Secretaria de Cultura de Garça
Dias 09 de março, das 18h30 às 22h30, e 10 de março, das 9h às 13h
Escola Municipal de Cultura Artística
Rua 27 de dezembro-10   -Vila Williams 

 

20 – A rua em exposição

 

As 18 apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no interior de São Paulo registram, tal qual as 18 sessões já realizadas em temporada paulistana, os 18 anos da Chacina da Candelária. Acompanham esta circulação, atividades paralelas diversas: workshop, bate-papo, postagens neste blog, exposição.

 

O processo de criação de “Agora e na Hora de Nossa Hora” incluiu a interação com meninos de rua em um projeto social, em Campinas, a inspiração no conto “Macário”, do mexicano Juan Rulfo, o estudo sobre a Chacina da Candelária – quando, no Rio de Janeiro, oito meninos de rua foram assassinados por policiais. Quando eu inciei as apresentações do espetáculo, eu julgava que a obra deveria sintetizar todas as forças e motivações que a geraram. Assim, eu não quis apresentar o trabalho em um programa. 

 

Porém, a partir das interações com o espectador, revi esta minha escolha. Eram frequentes as perguntas sobre o processo de criação – especialmente sobre a minha interação com os meninos de rua e sobre a Chacina da Candelária. Aí, entendi que o espetáculo é apenas a ponta de um icebergue, porta de entrada para outros entendimentos: uma relação diversa com os problemas sociais do Brasil, com a cidade em que vivemos, com os seus cidadãos. A arte como mediadora de mundos – aquele em que vivemos e aqueles que ainda podem ser sonhados.  Entendi, neste momento, que o espetáculo de teatro era tão importante quanto o processo que o gerou. Ao se revelar aquilo que veio antes, a cena evidencia com maior intensidade a força de vida daqueles que a motivaram: crianças e adolescentes em situação de rua.   

 

A partir deste momento, seguiram-se tentativas muitas de proporcionar uma certa imersão do espectador na situação de rua. Escrevi um livro, “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense”, publicado pela Editora Hucitec, em 2007. Criei programas para a peça, incluindo minha interação com os meninos de rua já na sua sinopse – os fatos da realidade ordinária como fundamento de efabulação da realidade extraordinária do teatro.  Tanto quanto me foi possível, realizei conversas com os espectadores, após as apresentações. Por fim, projetei uma exposição.

 

Em princípio, sem verba alguma, eu mesmo criei com fotos e trechos de diários de trabalho uma pequena amostragem do processo. O resultado tinha muita boa vontade, mas nenhuma elegância – tudo próximo aos trabalhos que realizei na pré-escola, ainda criança.  

 

Agora, contemplados com recursos do PROAC 2011  – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, foi possível realizar um trabalho mais acurado. O trabalho foi realizado pelo Lu Orvat Design – que já cuida da visualidade de nossos trabalhos em site, cartazes, programas etc.  

 

Este “expográfico” procura apresentar, em forma e conteúdo, o processo de criação do espetáculo. Primeiro, toma como fundamento a apresentação do relato das vivências: como um diário de trabalho em 3D, a exposição apresenta trechos do livro escrito por mim, passagens de narrativas e relatos de outros autores que escreveram sobre a população de rua, falas de meninos de rua, comentários de espectadores. Não há imagens pictóricas. Através da palavra, a exposição sugere que o espectador crie as suas próprias imagens.

 

Depois, a exposição usa como suporte aproximadamente 33 peças quadradas de papelão, todas iguais. Assim, procura-se, aqui, o mesmo princípio de montagem que inspirou a criação do espetáculo: peças autônomas, sem hierarquia entre elas e sem a necessidade de uma linha clara de causalidade entre si, apresentam um panorama da rua. O espectador é responsável por interagir com a obra, fazendo associações e ilações.

 

Assim, temos:
– Cada uma das peças, representações de temas constituintes do tema geral: a vida das ruas;
– A exposição tomando diferentes aspectos do objeto representado, em diferentes perspectivas – tal qual o princípio cubista, tomando o mesmo objeto de cima, de baixo etc.   
– O espectador, pela sua experiência de fruição, articula os conteúdos todos, criando, ele mesmo, a sua própria representação do tema. 

 

A exposição estará apresentada em todas as sete cidades em que “Agora e na Hora de Nossa Hora” for apresentada nesta circulação do PROAC. Neste final de semana, as últimas apresentações do espetáculo na Escola Livre de Teatro de Santo André – ELT.   

 

 

 

 

 “Agora e na Hora de Nossa Hora” em Santo André
Praça Rui Barbosa, s/n
26 e 27 de fevereiro e 03 e 04 de março de 2012, às 20h30
Ingressos gratuitos
Telefone: 11 4996.2164
 

 

19. “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” no interior de São Paulo

 

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Voltamos à estrada! “Agora e na Hora de Nossa Hora”, solo sobre meninos de rua dirigido por Verônica Fabrini, apresenta-se em 18 sessões em diversas cidades do interior de São Paulo: Santo André, Garça, Assis, Taboão da Serra, São José dos Campos, Lençóis Paulista e Limeira. As apresentações são financiadas pelo Proac – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo e marcam os 18 anos da Chacina da Candelária.

 

A criação do espetáculo envolveu a realização de oficinas de circo com meninos de rua do projeto “Gepeto – Transformando Sonhos em Realidade”, da ONG ACADEC, de Campinas, a inspiração no conto “Macário”, do mexicano Juan Rulfo, e um estudo sobre a Chacina da Candelária – quando, em 1993, oito meninos de rua foram assassinados por policiais nos arredores da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro.

 

Ao se completar 18 anos deste acontecimento histórico, concebemos uma “circulação performática” do espetáculo, realizando 18 sessões do trabalho na capital paulista e outras 18 no interior do Estado. Assim, registramos o marco histórico e provocamos: atingimos, em 18 anos, a maturidade do debate social? Se o cidadão brasileiro nascido em 1993 já é considerado apto a exercer a sua cidadania, com direitos e obrigações civis, amadurecemos um projeto social diverso daquele que executou crianças e adolescentes na porta da igreja?   

 

As apresentações da primeira etapa desta circulação, na capital, aconteceram no SESC Pompéia, entre outubro e novembro de 2011, e foram acompanhadas de 18 postagens, neste blog, debatendo as situações vividas no processo criativo do espetáculo, a situação de rua, as políticas públicas de atendimento à esta população. 

 

A segunda etapa, que realiza 18 apresentações em 7 cidades do interior, igualmente serão acompanhadas de 18 postagens neste blog. Não só. Ainda haverá a realização de workshop, bate-papos após a primeira sessão do espetáculo em cada cidade, exposição sobre o processo de criação, doação de livro.

 

A primeira cidade a receber esta circulação é Santo André. As apresentações acontecem nos dias 25 e 26 de fevereiro e 03 e 04 de março, às 20h30, na Escola Livre de Teatro (Praça Rui Barbosa, s/n). Os ingressos são gratuitos. 

 

Também na Escola Livre de Teatro, nos dias 03 e 04 de março, das 14h às 18h, ministro o workshop “Dramaturgia do Corpo”. Ali serão abordados na pratica os princípio de criação de dramaturgia de ator utilizados no espetáculo.  As inscrições são também gratuitas e podem ser feitas na secretaria da ELT.

 

Voltamos à estrada! Acompanhem-nos! Celebremos!

 

 “Agora e na Hora de Nossa Hora” em Santo André
Praça Rui Barbosa, s/n
26 e 27 de fevereiro e 03 e 04 de março de 2012, às 20h30
Ingressos gratuitos
Telefone: 11 4996.2164

Falta Feverestival!

Nas últimas semanas, a organização do Feverestival – Festival Internacional de Teatro de Campinas anunciou uma edição-ausência, em 2012: neste ano, não teremos a realização do evento. A justificativa para isto não é nova (o que a torna ainda mais terrível): falta de verbas; nenhum apoio municipal; nenhum reconhecimento em editais estaduais e federal (que ainda que tenham aumentado enormemente em frequência e recursos são ínfimos ante a demanda); falta de interesse da iniciativa privada em patrocinar o festival com aportes financeiros significativos. O resultado é igualmente conhecido: perdemos todos. Assim, a cidade de Campinas fica ainda mais pobre.

 

A nossa miséria, diga-se, não se refere à ausência das inúmeras atividades econômicas anualmente fomentadas pelo festival e que, neste ano, sentirão a sua ausência –  as atividades da chamada indústria criativa, ocupando atores, diretores, cenógrafos, técnicos, bilheteiros, faxineiros, recepcionistas, etc; e as atividades econômicas indiretamente estimuladas (o comércio e prestações de serviços locais, com restaurantes e bares, lojas e hotéis, taxistas, etc.). E perceba-se que este “etcetera” quer dizer muito, muita gente.

 

Empobrecemos, porém, menos no bolso e mais no espírito. E esta miséria é irreparável e desastrosa, estejamos nós, no futuro, em melhor ou pior situação financeira. Quando uma obra de arte deixa de ser fruída pelo público (e no caso de um evento que não se realiza muitas obras deixam de ser partilhadas), um mundo não se realiza. Isso se refere primeiramente, claro, à maior clareza que a obra nos oferece do mundo mesmo em que vivemos, as relações sociais tal qual a conhecemos e experienciamos. Ou seja, a arte nos faz perceber a vida, significá-la, debatê-la. Isso é muito, mas não é tudo: a arte ainda nos faz entrever mundos outros, não como cotidianamente conhecemos a vida, mas como  a sonhamos. Sonhar mundos talvez seja a missão mais nobre da arte. Porque, aí, nossa potência de transformação das coisas. Aí, enfim, a potência das possibilidades.

 

Mais pobres em imaginação, como encontrar forças para se opor à triste realidade que vive Campinas? Como enxergar o potencial da cidade no feio cotidiano que nos circunda? Campinas está no fundo do poço, não fique dúvidas sobre isto. Corrupção, indiferença e distância entre a população e os seus representantes políticos são a tônica dos últimos anos. É sintomático e preocupante, neste estado de coisas, o sucessivo cerceamento aos espaços de convívio como política pública: fechamento de teatros (não há absolutamente nenhum equipamento municipal apto a receber qualquer tipo de espetáculo) e, agora, a impossibilidade de realização de um dos mais importantes eventos das Artes Cênicas no interior de São Paulo. Reduzindo-se os espaços de encontros entre os cidadãos (especialmente o teatro e a sua latente função social), como fortalecer os laços de pertencimento e a sua reinvenção?

 

Campinas, considerando-se a sua importante produção tecnológica, a sua vanguarda de pesquisa em diversas áreas do conhecimento e os interessantes trabalhos de seus artistas (muitos deles referência internacional em suas áreas de atuação) poderia ser a cidade mais inventiva do Brasil. Não é. E um ocupante de cargo público que não seja capaz de reconhecer este “talento” da cidade não merece o posto que ocupa. Talvez não tenha, o dito cidadão, fruído boas obras de arte o suficiente. Resta-lhe uma certa miopia social que, tenho certo, terá a resposta das urnas no próximo pleito.

 

Reconheçamos: a cidade em que vivemos é, atualmente, aquela que ocupa os noticiários nacionais como exportadora de esquemas de lavagem de dinheiro, favorecimento em licitações, mal uso da coisa pública. Sem mais uma edição do Feverestival é mais difícil sonhar para além disto. Estamos, assim, empobrecidos.

 

Por sorte, ainda há mais: o legado das edições anteriores do Feverestival e o impulso para as próximas; os artistas de Barão Geraldo que, a despeito de tudo, ainda produzem seus próprios trabalhos e os apresentam em seus próprios eventos – o LUME, a Boa Companhia, o Barracão Teatro etc. Aí, outras sementes de imaginação e sonho na sua mais alta potência subversiva!

 

A organização do Feveresitval acertadamente marcou 2012 como a edição da “Falta” do evento. Resta-nos não assimilar esta ausência. Esta falta, enfim, precisa nos mobilizar.

Show do Carcoarco me restituiu a cidade!

Não escrevo crítica de teatro – ainda que boa parte de minha energia cotidiana esteja canalizada para o estudo desta arte. E, obviamente, não escrevo sobre música. Assim, este breve comentário sobre o show de lançamento do CD “Tem Carrêgo” (com reapresentação, hoje, às 20h, no SESC Campinas) não é leitura crítica: é elogio rasgado mesmo!

 

A mistura de referências é o que há de melhor nas rabecas brasileiras – instrumento caro ao Carcoarco. E é o que há de melhor no som do grupo. Há a versão repleta de dramaticidade de “Tico-Tico no Fubá” – um tango tupiniquim? Há o tema de Bach adaptado para as rabecas – “rabequianas” brasileiras? Há a delicadíssima versão de “Carinhosa”, de José Eduardo Gramani, “miscigenando” sons de instrumentos muitos sobre o palco… 

 

Às vezes, tenho dificuldade de apreender sentimento patriótico: ações da PM paulista, construção da Usina de Belo Monte, corrupção e indiferença, por exemplo, turvam em demasia a visão. Mas, no show de ontem, especialmente na execução de “Ouvirudum”, fantasia de Esdras Rodrigues sobre o hino nacional,  um tímido orgulho nasceu no peito. Ali, entendi que, possivelmente, a beleza da nação seja, à semelhança das rabecas, imperfeita mesmo.  E o comentário musical da canção popular em meio ao hino lembrou que o país que queremos nos escapa por uma certa distração de meninos. Ou ainda que a sociedade brasileira, a despeito das muitas tentativas canalhas do seu aprisionamento, encontra inexoravelmente a sua liberdade.     

 

 

 

Claro, sendo o lançamento de trabalho novo, há acertos a se fazer. O repertório musical e a sua execução ainda é melhor que o show como um todo. Sobretudo porque as falas dos músicos se alongam em demasia em longos intervalos entres as músicas, rompendo o ritmo da apresentação. E a pesquisa bem fundamentada do grupo pode ser ainda mais revelada ao espectador, com a exposição, por exemplo, com maior ênfase dos instrumentos pelo palco – o universo da rabeca, nesta mistura tradição/contemporaneidade gera sempre muita curiosidade. Meros detalhes. As rabecas ensinam, afinal, a intuir o belo no imperfeito.

 

O show me lembrou do grande prazer em fruir uma obra de arte, em Campinas – a última, se a minha memória não estiver sendo injusta  com outros companheiros artistas da cidade, foi na apresentação de Ivan Vilela Trio, na Cia Sarau. Ontem, assim, o show me restituiu o prazer da escolha de morar aqui.    

 

Frequentemente a cidade é deixada por importantes artistas, obrigados a procurar melhores oportunidades de trabalho em outras paragens. É o preço que se paga pelas sucessivas más gestões públicas da vida cultural de Campinas – às últimas gestões não podemos sequer dirigir críticas porque não existiram! Por isto, não raro, temos a sensação melancólica de tudo aquilo que a cidade poderia ser e não é.  Ontem, no entanto, o som foi pleno. Pudemos ser plenamente! Viva!                      

 

Serviço:
Carcoarco em Campinas
Quando: Sexta-feira (3), às 20h
Onde: Sesc Campinas 
Rua Dom José I, 270/333, Bonfim
Preços: De R$ 1 a R$ 4
Informações: (19) 3737-1500      

Sobre a Hidrelétrica de Belo Monte

 

Na semana passada, um grupo de estudantes da UNICAMP divulgou vídeo manifestando posição favorável à construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Depois, a imprensa ecoou a opinião dos universitários. Como sou um ex-estudante da mesma Universidade, acho por bem expressar opinião diversa: a UNICAMP, como o mundo, felizmente é múltipla.

 

Sou contrário à construção da usina por um motivo simples: a obra é planejada em nome de necessidades que não são as das populações banhadas pelas águas do Rio Xingu, que deverá movimentar as turbinas da hidrelétrica. Aí, a recorrência de equívocos históricos: o desprezo a populações indígenas (índios e seus descendentes) justificado em necessidades de consumo de grandes centros populacionais e comerciais. Os índios não querem a construção de qualquer usina em seu território ou nos seus arredores – aí, incluem-se aqueles que vivem distantes do local projetado para a instalação imediata das barragens, mas que se veem ameaçados diretamente pela obra, como os habitantes do Parque Nacional do Xingu. Vale dizer que a Revista Scientific American no. 44, de Portugal, traça um aterrador retrato desse parque: ainda que se mantenham intactos os territórios da reserva, como se projeta na construção de Belo Monte, implantada a muitos quilômetros dali, são grandes as ameaças que já a estrangulam, como a expansão do agronegócio, o crescimento das cidades, a violência contra seus líderes. Assim, penso que se nós, habitantes dos grandes centros urbanos, insistimos em uma determinada classe de necessidade, podemos buscar soluções para elas nos quintais de nossas próprias casas. E se outras alternativas energéticas são menos vantajosas do ponto de vista econômico, como apontam os estudantes em discutível discurso, isso só confirma aquilo que já disse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro: cedo ou tarde a insaciabilidade do desejo humano tem de ver-se com a finitude objetiva do ambiente – a escassez de recursos. A tempestade pode parecer derramada em copo d’água, têm razão alguns estudantes da UNICAMP; sobretudo, quando o copo ou o que ele representa é dos outros.

 

 

Agora, o que me interessa reconhecer, nesse texto, são os termos econômicos com os quais se debatem os rumos da nação em geral e a construção de Belo Monte em especial. Perdoem-me os bons economistas, mas, no mundo contemporâneo, é ao jargão das Ciências Econômicas que os arrogantes apelam quando já não há argumento possível para o ataque à vida – humana e não humana.

 

Vejamos isso. A construção da Usina é necessária porque o crescimento econômico do Brasil forma milhares de pessoas como consumidores, exigindo, dessa maneira, maior capacidade energética. Esse é o projeto da nação: esmero e orgulho na formação de consumidores – o que é substancialmente diverso de formar cidadãos. Isso, no mínimo, pressupõe investimento efetivo e competente em áreas outras, como a cultura, cujo Ministério que deveria fomentá-la tem o seu orçamento, inclusive o do próximo ano, frequentemente assaltado em nome das necessidades… econômicas. Mas isso é outro longo assunto, eu sei. Espanta, no entanto, que o crescimento econômico justifique as ações que impulsionarão o crescimento econômico – cobra comendo o próprio rabo! Não se questiona se a economia que se tem é a mais adequada ao desenvolvimento humano (cultural, educacional, entre outros). Há tão somente uma certeza: é preciso fazer a economia crescer! Sempre!

 

Nesse sentido, não é injustificado o temor dos líderes indígenas, especialmente os do Parque Nacional do Xingu, como o Raoni, de que Belo Monte seja apenas a primeira de uma série de obras hidrelétricas ao longo do Rio Xingu. Ora, se a urgência do crescimento econômico justifica, agora, a obra em Belo Monte, por que as urgências futuras não justificarão novas necessidades energéticas e, consequentemente, novas obras – inclusive dentro da reserva indígena, onde já se projetaram outras usinas?    

 

Esse projeto de Belo Monte, sabemos, não é do atual governo que assume a tarefa do início das obras. E inquieta justamente isso: é curioso que a Presidenta da República, outrora literalmente entrincheirada em lado oposto, lidere a consolidação de um plano de usina articulado ainda nos tempos do governo militar. Não projeto na pessoa da Presidenta essa responsabilidade – mulher cuja biografia é respeitável e admirável; ela atende, sei, a pressões sociais e econômicas. Espanto-me, porém, em verificar que a nossa líder, à imagem e semelhança de seu povo, toque adiante um plano de um governo que, antes, combatia. Estranhamente a necessidade do crescimento econômico aproxima discursos ideológicos inconciliáveis.

 

A Usina de Belo Monte, enfim, pode revelar o que está além da sua construção; é a alegoria de um modelo de desenvolvimento que se propaga como única alternativa possível. Os tempos são diversos daqueles em que militares governavam o país. Faz pouco sentido falar em ditadura. Vivemos uma democracia. Mas eu não consigo responder a mim mesmo quando foi, afinal, que nos tornamos tão pragmáticos e tão pouco sonhadores. Quando foi, enfim, que a nossa democracia tornou-se capaz de abraçar um projeto da ditadura.

 

E isso, diga-se, acontece no momento mesmo em que Europa e Estados Unidos, modelares do tipo de desenvolvimento que ora rastreamos – fundado, insisto, na formação de consumidores e não na formação de cidadãos -, estão, como se sabe, à beira do colapso. Já sonhamos ser o país do futuro. Não estava claro que o nosso futuro era o passado dos outros.

 

Talvez para alguns dos estudantes da UNICAMP não haja vida possível fora disso em que estamos: o mercado consumidor. Não os responsabilizo por isso também. Eles estão somente de acordo com o mundo e o país que os forma: são o futuro (ou o passado, dependendo da perspectiva)  e mostram que aprenderam com o seu professor o vocabulário técnico e econômico exato para perpetuar a exclusão da opinião de determinados sujeitos históricos – os índios, por exemplo. Eles sabem que as populações afetadas diretamente pela construção de hidrelétricas podem ser financeiramente recompensadas por eventuais transtornos. O que talvez não lhes tenha ocorrido é que há coisas que não se pode comprar e consumir e que algumas dessas coisas frequentemente estão fortemente associadas à terra em que se vive – ou às águas que as banham: os saberes locais, as identidades culturais; aquilo, enfim, que nos faz reconhecer que nós somos nós mesmos, não outras pessoas; que aqui, é aqui mesmo, não os Estados Unidos ou a Europa ou a Austrália ou o Canadá, como parece lamentar o professor ao fim do vídeo.

 

Quanto ao humorista que igualmente fez um vídeo satirizando a opinião alheia sobre a construção da Usina, não tenho nada a dizer. Deixo-o com a sua própria consciência. Os consumidores desse tipo de humor (e a palavra consumo é escolhida, aqui) rirão essa piada até o final.

18. “Um Homem na Estrada”

 

Encerramos com essa postagem e com a apresentação de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, hoje , no SESC Pompéia, a primeira fase do projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”. Em 18 sessões do espetáculo e em 18 postagens neste blog registramos os 18 anos da Chacina da Candelária – o trágico episódio quando, no Rio de Janeiro, policiais assassinaram oito meninos de rua nos arredores da Igreja da Candelária.   

 

A partir de fevereiro de 2012, o projeto será estendido ao interior do estado de São Paulo, em outras 18 sessões do trabalho em 7 cidades. Estas apresentações serão realizadas com recursos do PROAC – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo e serão acompanhadas de atividades outras: exposição sobre o processo de criação do espetáculo, bate-papo após a primeira sessão em cada cidade, uma oficina sobre dramaturgia de ator e outras 18 postagens neste blog com reflexões sobre a situação de rua.

 

Assim, colocamos os pés na estrada. E para celebrar os próximos passos, postamos “Um Homem na Estrada”, dos Racionais Mc’s. Nem é preciso dizer que a música deste coletivo fala fundamente aos meninos de rua de Campinas e São Paulo: tanto quanto o Realidade Cruel, os meninos ouvem muito as suas músicas, conhecem de cor as suas letras e as têm como uma espécie de trilha sonora de suas vidas.  

 

Neste sentido, notável e comovente foi o dia em que um dos meninos participantes da oficina de circo do projeto “Gepeto – Transformando Sonhos em Realidade”, da Ong ACADEC e do CRAISA, pretendeu jogar malabares ao som de “Um Homem na e Estrada”. Havia semanas, este menino deixava o uso de crack, apresentava-se como monitor-assistente da oficina de circo e retomava o contato com a família. Assim, os malabares acompanhados da música em que um homem, saído da prisão, descreve a sua mudança de vida realmente era um sinal das suas próprias transformações. 

 

Obviamente não podemos dizer que em 18 anos amadurecemos um projeto social distinto daquele que assassinou crianças e adolescentes, na Candelária. Mas, nas apresentações do espetáculo, recebemos inúmeros espectadores igualmente insatisfeitos com a ordem atual da sociedade brasileira. Os descontentes, tenho certo, ainda ajudarão a construir um mundo mais feliz.  

 

Não sei dizer o real alcance das apresentações de um espetáculo e da redação de textos para a transformação social. Mas isso, no mínimo, nos coloca em movimento e, dessa maneira, alguma relevância deve ter.  Encerramos, enfim, a primeira fase de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18”. Celebremos! Celebremos! 

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

17. Teatro Ilimitado

 

Uma verdade óbvia: “Agora e na Hora de Nossa Hora”, em cartaz no SESC Pompéia, é um solo. E, sendo assim, uma série de limitações lhe são impostas. Por vezes perguntaram-me se o assunto da peça – a Chacina da Candelária, a vida de meninos de rua -, não estaria melhor representada com a participação de outros atores, com o desenvolvimento de diferentes conflitos dramatúrgicos, com outra cenografia etc.  Não tenho uma resposta efetiva para isso. Ora, é claro que o trabalho seria outro, fosse ele criado em contexto diverso do que foi. Ainda assim, reconheço que há, no trabalho, um enfrentamento: um único homem, em cena, procurando dar conta de uma injustiça do mundo e, dessa maneira, procurando dar voz a muitas vozes. Assim, um ator coloca-se em movimento na tentativa de vencer uma limitação, a solidão em cena.    

 

Felizmente, as apresentações do espetáculo também me colocaram em contato com muitos outros trabalhos que, ao seu modo, procuram vencer situações que, num primeiro olhar, representariam uma limitação para a criação artística. Artistas que criam em situações de pobreza, de preconceitos etc. Ou ainda, artistas que precisam vencer dificuldades pessoais grandes para realizar as suas obras. Conhecer esses trabalhos, deu-me coragem para seguir investindo no meu próprio estudo. 

 

Ramesh Meyyappan é um ator surdo e mudo. Aquilo que aparentemente é limitação, em sua atuação, transforma-se em mote para poesia. Sem usar a palavra, constrói seu trabalho sobre a Mímica Moderna. Em “Snails and Katchup” apresenta  versão de “O Barão nas Árvores”, de Ítalo Calvino, encarnando a literatura em aproximadamente 1 hora de espetáculo. Não bastasse a superação de uma primeira limitação física, a poesia vencendo os “nãos” da vida, Meyyappan ainda realiza o espetáculo acompanhado de linda trilha sonora, executada ao piano, ao vivo. Assim, primeiro vence a si mesmo, expressando no corpo aquilo que não pode dizer em palavras; depois, generosamente oferece ao espectador um aspecto do espetáculo que lhe é inacessível, a música (pelo menos aos seus ouvidos). A arte é muito maior do que cada um de nós, parece ele nos dizer. O espetáculo é maior do que aquilo que o artista dá conta de conscientizar; é, enfim, aquilo que acontece não só entre artista e espectador, mas, a partir dessa relação, aquilo que se dá entre pessoa (ator, audiência) e a obra.

 

 

Nassim Soleimanpour é diretor e dramaturgo. Aos 29 anos é impedido pelo governo de deixar seu país. Nem mesmo a trabalho pode viajar para fora do Irã. Uma limitação para uma arte como o teatro, que exige presença viva de artistas diante de seu público. O dramaturgo, porém, não sucumbe ante a dificuldade. Escreve uma peça que não exige ensaios, não exige diretor, não exige cenário, nem preparo anterior dos atores: “White Rabbit, Red Rabbit”.  A cada dia, um performer recebe, no momento mesmo da apresentação, o texto que será lido. Ali, a fábula de um coelho que vai assistir a uma peça de teatro e é inadequado para o ambiente: suas orelhas são grande demais e atrapalham a visão dos demais espectadores – haverá debate mais claro sobre a exclusão? No texto, o dramaturgo envolve performer e audiência numa série de tarefas e decisões. E nos lembra: não posso estar aí com vocês que, então, são meu futuro. Temos, assim, a responsabilidade sobre nossas escolhas e, sobretudo, uma missão: fazer chegar a arte onde o artista não pôde. Por fim, o trabalho ainda abarca uma certa discussão sobre o suicídio, envolvendo decisões dos espectadores. Em, nós, a responsabilidade: somos mesmo o futuro do dramaturgo?   

 

Em “King Lear”, o ator taiwanês Wu Hsing-kuo desafia-se: sozinho pretende representar todos os personagens de “Rei Lear”, de Shakespeare. Quem conhece a tragédia shakespereana sabe que montá-la como solo é, em princípio, aceitar um fracasso: a impossibilidade de abarcar sozinho tantos aspectos humanos abordados na obra. Se não pode vencer a peça, Wu Hsing-kuo vence a si: dilata-se enormemente, encontra em si mulher, homem, velho, jovem, cego, floresta, mar. Não sei dizer o que ele fez com Shakespeare, mas posso dizer que Shakespeare o tornou grande – em momento marcante da encenação, tira figurinos e maquiagem e grita: “Eu sou Rei Lear! Eu! Eu!” E nós o acompanhamos: grandes, como todo homem; pequenos, como qualquer homem. 

 

O ator, célebre intérprete da Ópera de Pequim, ainda encontra, no seu corpo,  intersecções entre Oriente e Ocidente. Somos, assim, muito ocidentais, como Shakespeare. Somos, assim, muito orientais, como Wu Hsing-kuo.   

 

 

Arte é exercício de liberdade: revelação de sentidos que cotidianamente estão obscuros; a possibilidade de ressignificá-los; a mudança da rotina, transformação. Por vezes, no entanto, a vida que se apresenta é muitíssimo pouco afeita à libertação, envolta em circunstâncias hostis: a miséria, a polícia, as nossas muitas deficiências, a solidão.

 

As participações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” em muitos eventos possibilitaram-me um intercâmbio com muitos artistas. Aí, oportunidades incríveis de aprendizado com a experiência alheia: vencer os “nãos” da vida com os “ainda há muita coisa possível” da poesia. Vencendo circunstâncias, vencemos a nós mesmos e, no limite, vencemos, como escreve o grande Ariano Suassuna, a própria morte:     

 

Abertura sob pele de ovelha

Falso Profeta, insone, Extraviado,
Vivo, Cego, a sondar o Indecifrável:
e, jaguar da Sibila – inevitável,
meu Sangue traça a rota desse Fado.

 

Eu, forçado a ascender, eu, Mutilado,
busco a Estrela que chama, inapelável.
E a pulsação do Ser, fera indomável,
arde ao Sol do meu Pasto – incendiado.

 

Por sobre a Dor, Sarça do Espinheiro
que acende o estranho Sol, sangue do ser,
transforma o sangue em Candelabro e Veiro.

 

Por isso, não vou nunca envelhecer:
com meu Cantar, supero o Desespero,
sou contra a Morte e nunca hei de morrer.

 

Ariano Suassuna

 

Uma das minhas pelejas com a arte apresenta-se somente até amanhã no SESC Pompéia: “Agora e na Hora de Nossa Hora” encerra temporada de 18 sessões, amanhã, dia 27 de novembro. Todos são convidados! 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

 

16.A Música dos Meninos de Rua de Campinas: Realidade Cruel

 

Estamos já na décima sexta postagem de “Agora  e na Hora de Nossa Hora_18!”. Em 18 postagens nesse blog e 18 sessões de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia marcamos os 18 anos da Chacina da Candelária – quando, no Rio de Janeiro, oito meninos de rua foram assassinados por policiais. 

 

Nessa publicação, revelo uma influência essencial para o espetáculo: Realidade Cruel. O grupo de rap foi formado em 1992, na Região Metropolitana de Campinas. São célebres as músicas do coletivo criadas a partir de outras canções da MPB ou mesmo da música pop internacional.  

 

Trabalhei com meninos de rua  e com adolescentes do Internato Jequitibá, antiga FEBEM, em Campinas.  E posso dizer com absoluta certeza: poucos artistas conseguem falar tão fundamente com esses meninos como os rappers dessa banda. 

 

Assim, a música do Realidade Cruel acompanhou-me em muitos ensaios de “Agora e na Hora de Nossa Hora”. E uma delas, “Depoimento de um Viciado”, é cantarolada por Pedrinha, personagem do espetáculo. 

 

 

15. Culturas no Atravessamento de Teatros

 

É recorrente, no teatro contemporâneo, a realização de encontros entre culturas (interculturalidade) como procedimento de criação da cena. De maneira análoga, ainda que norteada por princípios diversos, muitas vezes opostos, em meus processos criativos frequentemente me vali de estudos intraculturais (o estudo da cultura mesmo em que vivo, a brasileira, como mote da criação). Saiba mais sobre isso aqui.

 

Pouco se fala de situações em que diferentes contextos socioculturais transformam o espetáculo de teatro, durante as suas apresentações, preenchendo-o de sentidos inesperados. Com  “Agora e na Hora de Nossa Hora” pude experienciar isso, em sessões no exterior e no Brasil. Aqui, apresento algumas dessas curiosas situações.

 

Foi inesquecível, por exemplo, apresentar no Kosovo, país que, em 2008, ainda procurava se reconstruir de uma das mais sangrentas guerras civis do século XX. Nunca a cena em que o menino de rua se rebela e ameaça com pedras os espectadores foi tão violenta.

 

Lá, inusitado foi também o ensaio técnico para o espetáculo. Como viajávamos somente eu e a diretora do trabalho, Verônica Fabrini, era necessário treinar o técnico que faria a operação da iluminação. Assim, eu dizia à Verônica as indicações de movimentos de luz, que as traduzia para o inglês para uma moça que nos acompanhava em nossa estada nos Bálcãs que, por sua vez, as traduzia para o albanês para o técnico que operaria a luz. Por vezes, o técnico tinha uma dúvida, refazendo o caminho das traduções inversamente.

 

Na Espanha, enrolei-me profundamente ao tentar explicar o porquê de policiais matarem crianças em situação de rua, no Brasil.

 

Em Juazeiro do Norte (Ceará), a apresentação no Teatro Patativa do Assaré, em frente à Basílica de Nossa Senhora das Dores, tradicional reduto de romeiros, preencheu o trabalho com uma religiosidade profunda.

 

Em Atibaia, interior de São Paulo, uma mágica: durante toda a sessão, barulhos de ratos no antigo cinema tornado teatro e, ao pronunciar um texto fundamental da peça (“Os ratos já não fazem barulho”), o espaço foi tomado por um indescritível silêncio.

 

Em Várzea Paulista, cidade muita próxima a São Paulo e, como quase todas as cidades próximas a São Paulo, pobre, fui congratulado por uma linda estudante secundarista que, ao final do espetáculo, disse “nunca ter presenciado uma atuação tão intensa”. Quando lhe perguntei se ia frequentemente ao teatro, a resposta foi tão sincera quanto o elogio: “Não, é a primeira vez”.

 

No Marrocos, na primeira cena em que tiro a camisa, mulheres com lindos lenços cobrindo-lhes a cabeça, segundo a tradição islâmica, deixaram a sala de espetáculos, horrorizadas com uma seminudez pública.

 

Em Campinas, ao saber da apresentação de um espetáculo de teatro, um menino de rua entra na sala. A minha atuação é ansiosa, eu quero saber a sua opinião. Porém, quase no final da peça, eu digo: “O que eu tenho mais vontade de fazer é agora!”. E o menino deixa a sala de apresentação sem que eu nunca soubesse se gostou do trabalho.

 

E houve ainda muitas experiências – infinitas: o público “profissional” dos festivais de teatro; os muitos espectadores que assistiam a uma encenação pela primeira vez; os espectadores que, em mais de uma circunstância, levaram consigo pedras que compõem o cenário, como recordação; a linda crítica no jornal de grande circulação que apresentava o espetáculo como capacitado para “mudar o mundo”, abrindo muitas portas para futuras apresentações; outra, na Suíça, que declarava que, a despeito dos muitos obstáculos (monólogo em português, sem tradução, sobre meninos de rua do Brasil, apresentado para um público estrangeiro), comunicava uma “emoção muito profunda”; um espectador que, na minha primeira temporada em São Paulo, apareceu com um ônibus na porta do teatro, levando outros 40 espectadores para a apresentação; Fernando Villar, professor da Universidade de Brasília, com uma pergunta simples – “Você chega ao seu limite com esse espetáculo?” – transformou-o para sempre; a produtora polonesa que, numa primeira apresentação criticou duramente a minha performance e, dando-me outra oportunidade, voltou ao espetáculo e se emocionou ao ver que eu incorporava várias de suas indicações; assim como a produtora coreana que, nas minhas primeiras ações, sentenciou que o ator é “muito tímido, por isso emprega energia demais” e, assim, igualmente modificou significativamente o meu trabalho…

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” fez de mim um homem afortunado. Com o trabalho recebi aquele tipo de fortuna que nenhuma crise econômica poderá subtrair: vivência plena das coisas. Eu estou vivo! Vivo!

 

Tomara que um pouco dessa vida que me alimenta em cena possa ser levada também aos espectadores. Tomara!

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

14. O Mundo é Muitos: AfoReggae

 

 

Esta é já a décima quarta postagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” – num total de 18 publicações que, tais quais as 18 sessões de “Agora e na Hora de Nossa hora” no SESC Pompéia, marcam os 18 anos da Chacina da Candelária.

 

Aqui, apresento banda e projeto social que, em verdade, dispensam apresentações: AfroReggae. O projeto social e a banda musical nele fundada já são célebres em todo o território nacional e fora dele.

 

Assim, evidentemente, não pretendo introduzir o leitor a uma realidade há muito conhecida por ele. Minha pretensão é simples: fazê-lo vislumbrar um pouco de meu processo criativo em “Agora e na Hora de Nossa Hora”.  

 

O processo de criação, em sala de ensaio, antes da estréia,  durou aproximadamente 1 ano e meio. Neste período, permaneci solitário por aproximadamente 1 ano e 4 meses e, nos últimos dois meses, fui acompanhado dos demais artistas que compõem a ficha técnica – diretora, musicista etc.

 

No período solitário, trabalhei muitas vezes ouvindo o som dos meninos do AfroReggae. Assim, celebrando a banda, o projeto e os muitos mundos que ambos nos abrem (ainda há muitas possibilidades de transformação da ordem das coisas), posto o seu videoclipe “Me Espere”:

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

  

 

13. Cinema e Situação de Rua: “Ônibus 174”

 

Esta é já a décima terceira postagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”. Aproximamo-nos, assim, do fim das 18 publicações e das 18 sessões de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia – ambas as ações marcando so 18 anos da Chacina da Candelária.

 

Tenho apresentado as muitas influências que marcaram o processo criativo do espetáculo: filmes, textos, pensadores, discos. Aqui, apresento uma fundamental: o documentário “Ônibus 174”, de José Padilha.

 

O documento cinematográfico apresenta o célebre caso de Sandro do Nacimento, sequestrador de um ônibus no Rio de Janeiro e, anos antes, em 1993, sobrevivente da Chacina da Candelária. Assim, constitui um perturbador retrato da invisibilidade social a que a sociedade brasileira submete os meninos de rua e as circunstâncias em que esses mesmos meninos assumem o protagonismo da ação. 
 

Além de excepcionaol obra arte, o documentáio, depois, fundamentou a criação do primeiro longa de ficção de Padilha – “Tropa de Elite”. Foi na realização de “Ônibus 174” que o diretor entendeu que, se quisesse abordar o tema da violência urbana no Brasil, teria de estudá-la também do ponto de vista dos policiais. É aterrorizante, diga-se, como o documentário apresenta a polícia especializada em operações especiais: mal preparada, mal paga, mal equipada.  

 

Infelizmente não encontrei o trailer do filme em português.  Por isso, posto-o em sua versão em inglês:

 

 

 

É interessante também contrastar a obra de Padilha com a obra de ficção sobre o mesmo tema realizado por Bruno Barreto: “Última Parada 174”.  A propaganda do filme de Barreto sintetiza o ponto de vista da sua realização: “Quem não tem nada a perder, não sabe quando parar”. Para os realizadores do filme, os pobres são pobres de tudo – de dinheiro, de carinho, de afeto, de dignidade, de amor à vida. Sendo pobres, não têm nada a perder, sentencia a obra. Simplificando dessa maneira a complexa situação de rua, penso, perdemos nós.

 

 

12. A PM que Eu Não Quero

  

A semana passada foi marcara pelo polêmico debate acerca da presença da Polícia Militar no campus da USP. Muita gente se posicionou favorável ou contrariamente a estudantes e militares. Poucas foram as vozes que conseguiram se pronunciar para além dos esquematismos: esquerda, direita, maconheiros, vagabundos, filhinhos de papai…

 

Até mesmo senhores costumeiramente respeitosos e respeitáveis derraparam em seus comentários. Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, para defender seu ponto de vista (o movimento estudantil é autoritário), homogeneizou contextos muito distintos – a Primavera Árabe, maio de 1968, a invasão da Reitoria da USP.

 

O Ministro da Educação, Fernando Haddad, chamado a se pronunciar, igualmente confundiu – a si e à opinião pública: “Não se pode tratar o campus da USP como se fosse uma ‘Cracolândia’ e não se pode tratar a ‘Cracolândia’ como se fosse um campus da USP”. Aí, espanto-me: e a Cracolândia merece ser tratada como usualmente se trata a Cracolândia? Depois, procurando explicar a declaração anterior, disse ao Estado de São Paulo: o aluno da USP não pode ser tratado como “cidadão de segunda classe”. Aí, meu espanto é renovado: “cidadão” não é substantivo que procure adjetivo. Cidadão é cidadão, só! Outro sinônimo para cidadania é humanidade; cidadão é, enfim, o homem!

 

Frequentes foram também as tentativas de minimizar o debate, restringindo um amplo movimento ao direito de uso da maconha. Assim, confundindo e pasteurizando conceitos e contextos diversos, perdemos todos.

 

De meu ponto de vista, para além do movimento estudantil e da comunidade da USP, o episódio suscita uma percepção: na universidade ou fora dela, o cidadão (ou seja, brasileiros, universitários ou não) mantém forte desconfiança de que a polícia não está preparada para garantir a sua segurança. Ou, no mínimo, desconfia que a polícia sozinha não tem poder de nos trazer paz. Não pertenço à comunidade da USP, não sei quais são suas necessidades e desejos. Mas conheço a PM, em muitas interações sociais, e é sobre isso que me interessa refletir.

 

E o faço, dialeticamente, referindo-me a uma interação com a polícia de outro contexto: a escocesa, durante o Edinburgh Festival Fringe de 2011. Ali, é hábito que atores de diferentes espetáculos divulguem seus trabalhos apresentando as suas cenas nas ruas da cidade. Como estratégia para buscar algum destaque em uma efervescência de representações, apresentei, na principal avenida de Edimburgo, a cena de “Agora e na Hora de Nossa Hora” em que o menino de rua usa crack. A estratégia deu certo: em menos de 40 minutos, a cena foi vista por cetenas de pessoas e fui abordado por quatro policiais em diferentes momentos, assim como por dois membros da organização do festival. Todos, um pouco atônitos, acreditaram que eu realmente usava crack, sendo eu não um ator, mas um morador de rua mesmo.

 

A história é uma boa crônica acerca de atritos de culturas: para os paulistanos, por exemplo, o uso do crack nas calçadas do centro da cidade há muito tempo não se destaca na paisagem urbana. O choque também me fez rever uma certa acomodação que temos com situações de opressão, no Brasil. Porque os policiais que me abordaram, acreditando que eu usava drogas à luz do dia, em nenhum momento foram violentos. Ao contrário, abaixavam-se ao meu lado e gentilmente me perguntavam: “Você está bem? Precisa de ajuda” Depois da minha resposta – “Fique tranquilo, eu estou atuando” -, riam de sua própria ingenuidade. É possível tratar a Cracolândia como USP!

 

O episódio me fez entender uma das dificuldades do público do Reino Unido em compreender uma situação fundamental da Chacina da Candelária e de “Agora e na Hora de Nossa Hora” (que a encena): “Por que os policiais matam crianças?”  Para eles, a opressão policial parecia tão absurda que houve um espectador que entendeu como ficção o verídico fato histórico brasileiro – quando policiais mataram oito meninos de rua nos arredores da Igreja da Candelária. Assim, entendi, era necessário incluir no espetáculo situações em que se evidenciasse algo que para nós, latino-americanos, é dado corriqueiro: atitude de policial, o cidadão intimidado pela mão armada do Estado.

 

Insisto, tenho muito poucas opiniões sobre o que acontece na USP. Tenho pouca informação e, aquela que me chega, é, como se viu, confusa. Por isso, não sei dizer se a PM deve ou não estar no campus. Mas um desconforto me persegue: será que ainda queremos essa policia, destreinada e mal paga? Porque, parece-me, enquanto o Estado restringir a sua política de paz (prefiro essa expressão à “política de segurança”) à distribuição de opressão armada, certamente haverá cidadãos de primeira, segunda, terceira, quarta, quinta, infinitas classes – distinguindo-se uma das outras somente pelo tamanho e frequência dos atentados à sua liberdade como pessoa. Há, parafraseando a música do Rappa , uma PM que eu não quero seguir admitindo – na cidade inteira e não só na cidade universitária.

 

Para me opor aos atentados cotidianos da sociedade brasileira contra suas crianças (contra o seu próprio futuro, portanto), não invadi a Reitoria da USP. Fiz um espetáculo de teatro: “Agora e na Hora de Nossa Hora”, que está em cartaz no SESC Pompéia. Assim, espero – ou sonho: indigno-me sem deixar de celebrar a vida! Pode ser ingenuidade, sei disso. Para mim, ainda é algum movimento e, assim, tem alguma relevância.

 

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

 

11. “Agora e na Hora de Nossa Hora” no Kosovo

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora”, já escrevi aqui, realiza temporada que marca os 18 anos da Chacina da Candelária: triste e célebre acontecimento histórico quando, no Rio de Janeiro, oito meninos de rua foram assassinados por policiais. A temporada constitui uma primeira fase do projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” e é acompanhada de 18 postagens, neste blog, sobre minha interação com os meninos de rua.

 

Aqui, relembro fundamental momento para a minha trajetória como ator (o que significa dizer também como cidadão e como pessoa): a viagem a Pristina, capital do Kosovo, para apresentar o espetáculo.

 

postagem sobre a Aicha Haroun Yacobi inaugurou pensamentos sobre o “Interculturalismo”, neste blog – assim como o texto anterior que apresenta seu último filme. Acompanhando este primeiro texto, posto vídeo da entrevista dada à Carlota Cafiero, então repórter do Correio Popular, e registrada em imagens por Artur Araujo. Como considero os vídeos bem editados, gravados no “calor” de nosso retorno, considerei que a postagem das imagens interessariam mais que a redação de texto novo. Assim, segue a reportagem em várias partes:

 

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700