animação

Show do Carcoarco me restituiu a cidade!

Não escrevo crítica de teatro – ainda que boa parte de minha energia cotidiana esteja canalizada para o estudo desta arte. E, obviamente, não escrevo sobre música. Assim, este breve comentário sobre o show de lançamento do CD “Tem Carrêgo” (com reapresentação, hoje, às 20h, no SESC Campinas) não é leitura crítica: é elogio rasgado mesmo!

 

A mistura de referências é o que há de melhor nas rabecas brasileiras – instrumento caro ao Carcoarco. E é o que há de melhor no som do grupo. Há a versão repleta de dramaticidade de “Tico-Tico no Fubá” – um tango tupiniquim? Há o tema de Bach adaptado para as rabecas – “rabequianas” brasileiras? Há a delicadíssima versão de “Carinhosa”, de José Eduardo Gramani, “miscigenando” sons de instrumentos muitos sobre o palco… 

 

Às vezes, tenho dificuldade de apreender sentimento patriótico: ações da PM paulista, construção da Usina de Belo Monte, corrupção e indiferença, por exemplo, turvam em demasia a visão. Mas, no show de ontem, especialmente na execução de “Ouvirudum”, fantasia de Esdras Rodrigues sobre o hino nacional,  um tímido orgulho nasceu no peito. Ali, entendi que, possivelmente, a beleza da nação seja, à semelhança das rabecas, imperfeita mesmo.  E o comentário musical da canção popular em meio ao hino lembrou que o país que queremos nos escapa por uma certa distração de meninos. Ou ainda que a sociedade brasileira, a despeito das muitas tentativas canalhas do seu aprisionamento, encontra inexoravelmente a sua liberdade.     

 

 

 

Claro, sendo o lançamento de trabalho novo, há acertos a se fazer. O repertório musical e a sua execução ainda é melhor que o show como um todo. Sobretudo porque as falas dos músicos se alongam em demasia em longos intervalos entres as músicas, rompendo o ritmo da apresentação. E a pesquisa bem fundamentada do grupo pode ser ainda mais revelada ao espectador, com a exposição, por exemplo, com maior ênfase dos instrumentos pelo palco – o universo da rabeca, nesta mistura tradição/contemporaneidade gera sempre muita curiosidade. Meros detalhes. As rabecas ensinam, afinal, a intuir o belo no imperfeito.

 

O show me lembrou do grande prazer em fruir uma obra de arte, em Campinas – a última, se a minha memória não estiver sendo injusta  com outros companheiros artistas da cidade, foi na apresentação de Ivan Vilela Trio, na Cia Sarau. Ontem, assim, o show me restituiu o prazer da escolha de morar aqui.    

 

Frequentemente a cidade é deixada por importantes artistas, obrigados a procurar melhores oportunidades de trabalho em outras paragens. É o preço que se paga pelas sucessivas más gestões públicas da vida cultural de Campinas – às últimas gestões não podemos sequer dirigir críticas porque não existiram! Por isto, não raro, temos a sensação melancólica de tudo aquilo que a cidade poderia ser e não é.  Ontem, no entanto, o som foi pleno. Pudemos ser plenamente! Viva!                      

 

Serviço:
Carcoarco em Campinas
Quando: Sexta-feira (3), às 20h
Onde: Sesc Campinas 
Rua Dom José I, 270/333, Bonfim
Preços: De R$ 1 a R$ 4
Informações: (19) 3737-1500      

Sobre a Hidrelétrica de Belo Monte

 

Na semana passada, um grupo de estudantes da UNICAMP divulgou vídeo manifestando posição favorável à construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Depois, a imprensa ecoou a opinião dos universitários. Como sou um ex-estudante da mesma Universidade, acho por bem expressar opinião diversa: a UNICAMP, como o mundo, felizmente é múltipla.

 

Sou contrário à construção da usina por um motivo simples: a obra é planejada em nome de necessidades que não são as das populações banhadas pelas águas do Rio Xingu, que deverá movimentar as turbinas da hidrelétrica. Aí, a recorrência de equívocos históricos: o desprezo a populações indígenas (índios e seus descendentes) justificado em necessidades de consumo de grandes centros populacionais e comerciais. Os índios não querem a construção de qualquer usina em seu território ou nos seus arredores – aí, incluem-se aqueles que vivem distantes do local projetado para a instalação imediata das barragens, mas que se veem ameaçados diretamente pela obra, como os habitantes do Parque Nacional do Xingu. Vale dizer que a Revista Scientific American no. 44, de Portugal, traça um aterrador retrato desse parque: ainda que se mantenham intactos os territórios da reserva, como se projeta na construção de Belo Monte, implantada a muitos quilômetros dali, são grandes as ameaças que já a estrangulam, como a expansão do agronegócio, o crescimento das cidades, a violência contra seus líderes. Assim, penso que se nós, habitantes dos grandes centros urbanos, insistimos em uma determinada classe de necessidade, podemos buscar soluções para elas nos quintais de nossas próprias casas. E se outras alternativas energéticas são menos vantajosas do ponto de vista econômico, como apontam os estudantes em discutível discurso, isso só confirma aquilo que já disse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro: cedo ou tarde a insaciabilidade do desejo humano tem de ver-se com a finitude objetiva do ambiente – a escassez de recursos. A tempestade pode parecer derramada em copo d’água, têm razão alguns estudantes da UNICAMP; sobretudo, quando o copo ou o que ele representa é dos outros.

 

 

Agora, o que me interessa reconhecer, nesse texto, são os termos econômicos com os quais se debatem os rumos da nação em geral e a construção de Belo Monte em especial. Perdoem-me os bons economistas, mas, no mundo contemporâneo, é ao jargão das Ciências Econômicas que os arrogantes apelam quando já não há argumento possível para o ataque à vida – humana e não humana.

 

Vejamos isso. A construção da Usina é necessária porque o crescimento econômico do Brasil forma milhares de pessoas como consumidores, exigindo, dessa maneira, maior capacidade energética. Esse é o projeto da nação: esmero e orgulho na formação de consumidores – o que é substancialmente diverso de formar cidadãos. Isso, no mínimo, pressupõe investimento efetivo e competente em áreas outras, como a cultura, cujo Ministério que deveria fomentá-la tem o seu orçamento, inclusive o do próximo ano, frequentemente assaltado em nome das necessidades… econômicas. Mas isso é outro longo assunto, eu sei. Espanta, no entanto, que o crescimento econômico justifique as ações que impulsionarão o crescimento econômico – cobra comendo o próprio rabo! Não se questiona se a economia que se tem é a mais adequada ao desenvolvimento humano (cultural, educacional, entre outros). Há tão somente uma certeza: é preciso fazer a economia crescer! Sempre!

 

Nesse sentido, não é injustificado o temor dos líderes indígenas, especialmente os do Parque Nacional do Xingu, como o Raoni, de que Belo Monte seja apenas a primeira de uma série de obras hidrelétricas ao longo do Rio Xingu. Ora, se a urgência do crescimento econômico justifica, agora, a obra em Belo Monte, por que as urgências futuras não justificarão novas necessidades energéticas e, consequentemente, novas obras – inclusive dentro da reserva indígena, onde já se projetaram outras usinas?    

 

Esse projeto de Belo Monte, sabemos, não é do atual governo que assume a tarefa do início das obras. E inquieta justamente isso: é curioso que a Presidenta da República, outrora literalmente entrincheirada em lado oposto, lidere a consolidação de um plano de usina articulado ainda nos tempos do governo militar. Não projeto na pessoa da Presidenta essa responsabilidade – mulher cuja biografia é respeitável e admirável; ela atende, sei, a pressões sociais e econômicas. Espanto-me, porém, em verificar que a nossa líder, à imagem e semelhança de seu povo, toque adiante um plano de um governo que, antes, combatia. Estranhamente a necessidade do crescimento econômico aproxima discursos ideológicos inconciliáveis.

 

A Usina de Belo Monte, enfim, pode revelar o que está além da sua construção; é a alegoria de um modelo de desenvolvimento que se propaga como única alternativa possível. Os tempos são diversos daqueles em que militares governavam o país. Faz pouco sentido falar em ditadura. Vivemos uma democracia. Mas eu não consigo responder a mim mesmo quando foi, afinal, que nos tornamos tão pragmáticos e tão pouco sonhadores. Quando foi, enfim, que a nossa democracia tornou-se capaz de abraçar um projeto da ditadura.

 

E isso, diga-se, acontece no momento mesmo em que Europa e Estados Unidos, modelares do tipo de desenvolvimento que ora rastreamos – fundado, insisto, na formação de consumidores e não na formação de cidadãos -, estão, como se sabe, à beira do colapso. Já sonhamos ser o país do futuro. Não estava claro que o nosso futuro era o passado dos outros.

 

Talvez para alguns dos estudantes da UNICAMP não haja vida possível fora disso em que estamos: o mercado consumidor. Não os responsabilizo por isso também. Eles estão somente de acordo com o mundo e o país que os forma: são o futuro (ou o passado, dependendo da perspectiva)  e mostram que aprenderam com o seu professor o vocabulário técnico e econômico exato para perpetuar a exclusão da opinião de determinados sujeitos históricos – os índios, por exemplo. Eles sabem que as populações afetadas diretamente pela construção de hidrelétricas podem ser financeiramente recompensadas por eventuais transtornos. O que talvez não lhes tenha ocorrido é que há coisas que não se pode comprar e consumir e que algumas dessas coisas frequentemente estão fortemente associadas à terra em que se vive – ou às águas que as banham: os saberes locais, as identidades culturais; aquilo, enfim, que nos faz reconhecer que nós somos nós mesmos, não outras pessoas; que aqui, é aqui mesmo, não os Estados Unidos ou a Europa ou a Austrália ou o Canadá, como parece lamentar o professor ao fim do vídeo.

 

Quanto ao humorista que igualmente fez um vídeo satirizando a opinião alheia sobre a construção da Usina, não tenho nada a dizer. Deixo-o com a sua própria consciência. Os consumidores desse tipo de humor (e a palavra consumo é escolhida, aqui) rirão essa piada até o final.

18. “Um Homem na Estrada”

 

Encerramos com essa postagem e com a apresentação de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, hoje , no SESC Pompéia, a primeira fase do projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”. Em 18 sessões do espetáculo e em 18 postagens neste blog registramos os 18 anos da Chacina da Candelária – o trágico episódio quando, no Rio de Janeiro, policiais assassinaram oito meninos de rua nos arredores da Igreja da Candelária.   

 

A partir de fevereiro de 2012, o projeto será estendido ao interior do estado de São Paulo, em outras 18 sessões do trabalho em 7 cidades. Estas apresentações serão realizadas com recursos do PROAC – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo e serão acompanhadas de atividades outras: exposição sobre o processo de criação do espetáculo, bate-papo após a primeira sessão em cada cidade, uma oficina sobre dramaturgia de ator e outras 18 postagens neste blog com reflexões sobre a situação de rua.

 

Assim, colocamos os pés na estrada. E para celebrar os próximos passos, postamos “Um Homem na Estrada”, dos Racionais Mc’s. Nem é preciso dizer que a música deste coletivo fala fundamente aos meninos de rua de Campinas e São Paulo: tanto quanto o Realidade Cruel, os meninos ouvem muito as suas músicas, conhecem de cor as suas letras e as têm como uma espécie de trilha sonora de suas vidas.  

 

Neste sentido, notável e comovente foi o dia em que um dos meninos participantes da oficina de circo do projeto “Gepeto – Transformando Sonhos em Realidade”, da Ong ACADEC e do CRAISA, pretendeu jogar malabares ao som de “Um Homem na e Estrada”. Havia semanas, este menino deixava o uso de crack, apresentava-se como monitor-assistente da oficina de circo e retomava o contato com a família. Assim, os malabares acompanhados da música em que um homem, saído da prisão, descreve a sua mudança de vida realmente era um sinal das suas próprias transformações. 

 

Obviamente não podemos dizer que em 18 anos amadurecemos um projeto social distinto daquele que assassinou crianças e adolescentes, na Candelária. Mas, nas apresentações do espetáculo, recebemos inúmeros espectadores igualmente insatisfeitos com a ordem atual da sociedade brasileira. Os descontentes, tenho certo, ainda ajudarão a construir um mundo mais feliz.  

 

Não sei dizer o real alcance das apresentações de um espetáculo e da redação de textos para a transformação social. Mas isso, no mínimo, nos coloca em movimento e, dessa maneira, alguma relevância deve ter.  Encerramos, enfim, a primeira fase de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18”. Celebremos! Celebremos! 

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

17. Teatro Ilimitado

 

Uma verdade óbvia: “Agora e na Hora de Nossa Hora”, em cartaz no SESC Pompéia, é um solo. E, sendo assim, uma série de limitações lhe são impostas. Por vezes perguntaram-me se o assunto da peça – a Chacina da Candelária, a vida de meninos de rua -, não estaria melhor representada com a participação de outros atores, com o desenvolvimento de diferentes conflitos dramatúrgicos, com outra cenografia etc.  Não tenho uma resposta efetiva para isso. Ora, é claro que o trabalho seria outro, fosse ele criado em contexto diverso do que foi. Ainda assim, reconheço que há, no trabalho, um enfrentamento: um único homem, em cena, procurando dar conta de uma injustiça do mundo e, dessa maneira, procurando dar voz a muitas vozes. Assim, um ator coloca-se em movimento na tentativa de vencer uma limitação, a solidão em cena.    

 

Felizmente, as apresentações do espetáculo também me colocaram em contato com muitos outros trabalhos que, ao seu modo, procuram vencer situações que, num primeiro olhar, representariam uma limitação para a criação artística. Artistas que criam em situações de pobreza, de preconceitos etc. Ou ainda, artistas que precisam vencer dificuldades pessoais grandes para realizar as suas obras. Conhecer esses trabalhos, deu-me coragem para seguir investindo no meu próprio estudo. 

 

Ramesh Meyyappan é um ator surdo e mudo. Aquilo que aparentemente é limitação, em sua atuação, transforma-se em mote para poesia. Sem usar a palavra, constrói seu trabalho sobre a Mímica Moderna. Em “Snails and Katchup” apresenta  versão de “O Barão nas Árvores”, de Ítalo Calvino, encarnando a literatura em aproximadamente 1 hora de espetáculo. Não bastasse a superação de uma primeira limitação física, a poesia vencendo os “nãos” da vida, Meyyappan ainda realiza o espetáculo acompanhado de linda trilha sonora, executada ao piano, ao vivo. Assim, primeiro vence a si mesmo, expressando no corpo aquilo que não pode dizer em palavras; depois, generosamente oferece ao espectador um aspecto do espetáculo que lhe é inacessível, a música (pelo menos aos seus ouvidos). A arte é muito maior do que cada um de nós, parece ele nos dizer. O espetáculo é maior do que aquilo que o artista dá conta de conscientizar; é, enfim, aquilo que acontece não só entre artista e espectador, mas, a partir dessa relação, aquilo que se dá entre pessoa (ator, audiência) e a obra.

 

 

Nassim Soleimanpour é diretor e dramaturgo. Aos 29 anos é impedido pelo governo de deixar seu país. Nem mesmo a trabalho pode viajar para fora do Irã. Uma limitação para uma arte como o teatro, que exige presença viva de artistas diante de seu público. O dramaturgo, porém, não sucumbe ante a dificuldade. Escreve uma peça que não exige ensaios, não exige diretor, não exige cenário, nem preparo anterior dos atores: “White Rabbit, Red Rabbit”.  A cada dia, um performer recebe, no momento mesmo da apresentação, o texto que será lido. Ali, a fábula de um coelho que vai assistir a uma peça de teatro e é inadequado para o ambiente: suas orelhas são grande demais e atrapalham a visão dos demais espectadores – haverá debate mais claro sobre a exclusão? No texto, o dramaturgo envolve performer e audiência numa série de tarefas e decisões. E nos lembra: não posso estar aí com vocês que, então, são meu futuro. Temos, assim, a responsabilidade sobre nossas escolhas e, sobretudo, uma missão: fazer chegar a arte onde o artista não pôde. Por fim, o trabalho ainda abarca uma certa discussão sobre o suicídio, envolvendo decisões dos espectadores. Em, nós, a responsabilidade: somos mesmo o futuro do dramaturgo?   

 

Em “King Lear”, o ator taiwanês Wu Hsing-kuo desafia-se: sozinho pretende representar todos os personagens de “Rei Lear”, de Shakespeare. Quem conhece a tragédia shakespereana sabe que montá-la como solo é, em princípio, aceitar um fracasso: a impossibilidade de abarcar sozinho tantos aspectos humanos abordados na obra. Se não pode vencer a peça, Wu Hsing-kuo vence a si: dilata-se enormemente, encontra em si mulher, homem, velho, jovem, cego, floresta, mar. Não sei dizer o que ele fez com Shakespeare, mas posso dizer que Shakespeare o tornou grande – em momento marcante da encenação, tira figurinos e maquiagem e grita: “Eu sou Rei Lear! Eu! Eu!” E nós o acompanhamos: grandes, como todo homem; pequenos, como qualquer homem. 

 

O ator, célebre intérprete da Ópera de Pequim, ainda encontra, no seu corpo,  intersecções entre Oriente e Ocidente. Somos, assim, muito ocidentais, como Shakespeare. Somos, assim, muito orientais, como Wu Hsing-kuo.   

 

 

Arte é exercício de liberdade: revelação de sentidos que cotidianamente estão obscuros; a possibilidade de ressignificá-los; a mudança da rotina, transformação. Por vezes, no entanto, a vida que se apresenta é muitíssimo pouco afeita à libertação, envolta em circunstâncias hostis: a miséria, a polícia, as nossas muitas deficiências, a solidão.

 

As participações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” em muitos eventos possibilitaram-me um intercâmbio com muitos artistas. Aí, oportunidades incríveis de aprendizado com a experiência alheia: vencer os “nãos” da vida com os “ainda há muita coisa possível” da poesia. Vencendo circunstâncias, vencemos a nós mesmos e, no limite, vencemos, como escreve o grande Ariano Suassuna, a própria morte:     

 

Abertura sob pele de ovelha

Falso Profeta, insone, Extraviado,
Vivo, Cego, a sondar o Indecifrável:
e, jaguar da Sibila – inevitável,
meu Sangue traça a rota desse Fado.

 

Eu, forçado a ascender, eu, Mutilado,
busco a Estrela que chama, inapelável.
E a pulsação do Ser, fera indomável,
arde ao Sol do meu Pasto – incendiado.

 

Por sobre a Dor, Sarça do Espinheiro
que acende o estranho Sol, sangue do ser,
transforma o sangue em Candelabro e Veiro.

 

Por isso, não vou nunca envelhecer:
com meu Cantar, supero o Desespero,
sou contra a Morte e nunca hei de morrer.

 

Ariano Suassuna

 

Uma das minhas pelejas com a arte apresenta-se somente até amanhã no SESC Pompéia: “Agora e na Hora de Nossa Hora” encerra temporada de 18 sessões, amanhã, dia 27 de novembro. Todos são convidados! 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

 

16.A Música dos Meninos de Rua de Campinas: Realidade Cruel

 

Estamos já na décima sexta postagem de “Agora  e na Hora de Nossa Hora_18!”. Em 18 postagens nesse blog e 18 sessões de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia marcamos os 18 anos da Chacina da Candelária – quando, no Rio de Janeiro, oito meninos de rua foram assassinados por policiais. 

 

Nessa publicação, revelo uma influência essencial para o espetáculo: Realidade Cruel. O grupo de rap foi formado em 1992, na Região Metropolitana de Campinas. São célebres as músicas do coletivo criadas a partir de outras canções da MPB ou mesmo da música pop internacional.  

 

Trabalhei com meninos de rua  e com adolescentes do Internato Jequitibá, antiga FEBEM, em Campinas.  E posso dizer com absoluta certeza: poucos artistas conseguem falar tão fundamente com esses meninos como os rappers dessa banda. 

 

Assim, a música do Realidade Cruel acompanhou-me em muitos ensaios de “Agora e na Hora de Nossa Hora”. E uma delas, “Depoimento de um Viciado”, é cantarolada por Pedrinha, personagem do espetáculo. 

 

 

15. Culturas no Atravessamento de Teatros

 

É recorrente, no teatro contemporâneo, a realização de encontros entre culturas (interculturalidade) como procedimento de criação da cena. De maneira análoga, ainda que norteada por princípios diversos, muitas vezes opostos, em meus processos criativos frequentemente me vali de estudos intraculturais (o estudo da cultura mesmo em que vivo, a brasileira, como mote da criação). Saiba mais sobre isso aqui.

 

Pouco se fala de situações em que diferentes contextos socioculturais transformam o espetáculo de teatro, durante as suas apresentações, preenchendo-o de sentidos inesperados. Com  “Agora e na Hora de Nossa Hora” pude experienciar isso, em sessões no exterior e no Brasil. Aqui, apresento algumas dessas curiosas situações.

 

Foi inesquecível, por exemplo, apresentar no Kosovo, país que, em 2008, ainda procurava se reconstruir de uma das mais sangrentas guerras civis do século XX. Nunca a cena em que o menino de rua se rebela e ameaça com pedras os espectadores foi tão violenta.

 

Lá, inusitado foi também o ensaio técnico para o espetáculo. Como viajávamos somente eu e a diretora do trabalho, Verônica Fabrini, era necessário treinar o técnico que faria a operação da iluminação. Assim, eu dizia à Verônica as indicações de movimentos de luz, que as traduzia para o inglês para uma moça que nos acompanhava em nossa estada nos Bálcãs que, por sua vez, as traduzia para o albanês para o técnico que operaria a luz. Por vezes, o técnico tinha uma dúvida, refazendo o caminho das traduções inversamente.

 

Na Espanha, enrolei-me profundamente ao tentar explicar o porquê de policiais matarem crianças em situação de rua, no Brasil.

 

Em Juazeiro do Norte (Ceará), a apresentação no Teatro Patativa do Assaré, em frente à Basílica de Nossa Senhora das Dores, tradicional reduto de romeiros, preencheu o trabalho com uma religiosidade profunda.

 

Em Atibaia, interior de São Paulo, uma mágica: durante toda a sessão, barulhos de ratos no antigo cinema tornado teatro e, ao pronunciar um texto fundamental da peça (“Os ratos já não fazem barulho”), o espaço foi tomado por um indescritível silêncio.

 

Em Várzea Paulista, cidade muita próxima a São Paulo e, como quase todas as cidades próximas a São Paulo, pobre, fui congratulado por uma linda estudante secundarista que, ao final do espetáculo, disse “nunca ter presenciado uma atuação tão intensa”. Quando lhe perguntei se ia frequentemente ao teatro, a resposta foi tão sincera quanto o elogio: “Não, é a primeira vez”.

 

No Marrocos, na primeira cena em que tiro a camisa, mulheres com lindos lenços cobrindo-lhes a cabeça, segundo a tradição islâmica, deixaram a sala de espetáculos, horrorizadas com uma seminudez pública.

 

Em Campinas, ao saber da apresentação de um espetáculo de teatro, um menino de rua entra na sala. A minha atuação é ansiosa, eu quero saber a sua opinião. Porém, quase no final da peça, eu digo: “O que eu tenho mais vontade de fazer é agora!”. E o menino deixa a sala de apresentação sem que eu nunca soubesse se gostou do trabalho.

 

E houve ainda muitas experiências – infinitas: o público “profissional” dos festivais de teatro; os muitos espectadores que assistiam a uma encenação pela primeira vez; os espectadores que, em mais de uma circunstância, levaram consigo pedras que compõem o cenário, como recordação; a linda crítica no jornal de grande circulação que apresentava o espetáculo como capacitado para “mudar o mundo”, abrindo muitas portas para futuras apresentações; outra, na Suíça, que declarava que, a despeito dos muitos obstáculos (monólogo em português, sem tradução, sobre meninos de rua do Brasil, apresentado para um público estrangeiro), comunicava uma “emoção muito profunda”; um espectador que, na minha primeira temporada em São Paulo, apareceu com um ônibus na porta do teatro, levando outros 40 espectadores para a apresentação; Fernando Villar, professor da Universidade de Brasília, com uma pergunta simples – “Você chega ao seu limite com esse espetáculo?” – transformou-o para sempre; a produtora polonesa que, numa primeira apresentação criticou duramente a minha performance e, dando-me outra oportunidade, voltou ao espetáculo e se emocionou ao ver que eu incorporava várias de suas indicações; assim como a produtora coreana que, nas minhas primeiras ações, sentenciou que o ator é “muito tímido, por isso emprega energia demais” e, assim, igualmente modificou significativamente o meu trabalho…

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” fez de mim um homem afortunado. Com o trabalho recebi aquele tipo de fortuna que nenhuma crise econômica poderá subtrair: vivência plena das coisas. Eu estou vivo! Vivo!

 

Tomara que um pouco dessa vida que me alimenta em cena possa ser levada também aos espectadores. Tomara!

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

14. O Mundo é Muitos: AfoReggae

 

 

Esta é já a décima quarta postagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” – num total de 18 publicações que, tais quais as 18 sessões de “Agora e na Hora de Nossa hora” no SESC Pompéia, marcam os 18 anos da Chacina da Candelária.

 

Aqui, apresento banda e projeto social que, em verdade, dispensam apresentações: AfroReggae. O projeto social e a banda musical nele fundada já são célebres em todo o território nacional e fora dele.

 

Assim, evidentemente, não pretendo introduzir o leitor a uma realidade há muito conhecida por ele. Minha pretensão é simples: fazê-lo vislumbrar um pouco de meu processo criativo em “Agora e na Hora de Nossa Hora”.  

 

O processo de criação, em sala de ensaio, antes da estréia,  durou aproximadamente 1 ano e meio. Neste período, permaneci solitário por aproximadamente 1 ano e 4 meses e, nos últimos dois meses, fui acompanhado dos demais artistas que compõem a ficha técnica – diretora, musicista etc.

 

No período solitário, trabalhei muitas vezes ouvindo o som dos meninos do AfroReggae. Assim, celebrando a banda, o projeto e os muitos mundos que ambos nos abrem (ainda há muitas possibilidades de transformação da ordem das coisas), posto o seu videoclipe “Me Espere”:

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

  

 

13. Cinema e Situação de Rua: “Ônibus 174”

 

Esta é já a décima terceira postagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”. Aproximamo-nos, assim, do fim das 18 publicações e das 18 sessões de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia – ambas as ações marcando so 18 anos da Chacina da Candelária.

 

Tenho apresentado as muitas influências que marcaram o processo criativo do espetáculo: filmes, textos, pensadores, discos. Aqui, apresento uma fundamental: o documentário “Ônibus 174”, de José Padilha.

 

O documento cinematográfico apresenta o célebre caso de Sandro do Nacimento, sequestrador de um ônibus no Rio de Janeiro e, anos antes, em 1993, sobrevivente da Chacina da Candelária. Assim, constitui um perturbador retrato da invisibilidade social a que a sociedade brasileira submete os meninos de rua e as circunstâncias em que esses mesmos meninos assumem o protagonismo da ação. 
 

Além de excepcionaol obra arte, o documentáio, depois, fundamentou a criação do primeiro longa de ficção de Padilha – “Tropa de Elite”. Foi na realização de “Ônibus 174” que o diretor entendeu que, se quisesse abordar o tema da violência urbana no Brasil, teria de estudá-la também do ponto de vista dos policiais. É aterrorizante, diga-se, como o documentário apresenta a polícia especializada em operações especiais: mal preparada, mal paga, mal equipada.  

 

Infelizmente não encontrei o trailer do filme em português.  Por isso, posto-o em sua versão em inglês:

 

 

 

É interessante também contrastar a obra de Padilha com a obra de ficção sobre o mesmo tema realizado por Bruno Barreto: “Última Parada 174”.  A propaganda do filme de Barreto sintetiza o ponto de vista da sua realização: “Quem não tem nada a perder, não sabe quando parar”. Para os realizadores do filme, os pobres são pobres de tudo – de dinheiro, de carinho, de afeto, de dignidade, de amor à vida. Sendo pobres, não têm nada a perder, sentencia a obra. Simplificando dessa maneira a complexa situação de rua, penso, perdemos nós.

 

 

12. A PM que Eu Não Quero

  

A semana passada foi marcara pelo polêmico debate acerca da presença da Polícia Militar no campus da USP. Muita gente se posicionou favorável ou contrariamente a estudantes e militares. Poucas foram as vozes que conseguiram se pronunciar para além dos esquematismos: esquerda, direita, maconheiros, vagabundos, filhinhos de papai…

 

Até mesmo senhores costumeiramente respeitosos e respeitáveis derraparam em seus comentários. Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, para defender seu ponto de vista (o movimento estudantil é autoritário), homogeneizou contextos muito distintos – a Primavera Árabe, maio de 1968, a invasão da Reitoria da USP.

 

O Ministro da Educação, Fernando Haddad, chamado a se pronunciar, igualmente confundiu – a si e à opinião pública: “Não se pode tratar o campus da USP como se fosse uma ‘Cracolândia’ e não se pode tratar a ‘Cracolândia’ como se fosse um campus da USP”. Aí, espanto-me: e a Cracolândia merece ser tratada como usualmente se trata a Cracolândia? Depois, procurando explicar a declaração anterior, disse ao Estado de São Paulo: o aluno da USP não pode ser tratado como “cidadão de segunda classe”. Aí, meu espanto é renovado: “cidadão” não é substantivo que procure adjetivo. Cidadão é cidadão, só! Outro sinônimo para cidadania é humanidade; cidadão é, enfim, o homem!

 

Frequentes foram também as tentativas de minimizar o debate, restringindo um amplo movimento ao direito de uso da maconha. Assim, confundindo e pasteurizando conceitos e contextos diversos, perdemos todos.

 

De meu ponto de vista, para além do movimento estudantil e da comunidade da USP, o episódio suscita uma percepção: na universidade ou fora dela, o cidadão (ou seja, brasileiros, universitários ou não) mantém forte desconfiança de que a polícia não está preparada para garantir a sua segurança. Ou, no mínimo, desconfia que a polícia sozinha não tem poder de nos trazer paz. Não pertenço à comunidade da USP, não sei quais são suas necessidades e desejos. Mas conheço a PM, em muitas interações sociais, e é sobre isso que me interessa refletir.

 

E o faço, dialeticamente, referindo-me a uma interação com a polícia de outro contexto: a escocesa, durante o Edinburgh Festival Fringe de 2011. Ali, é hábito que atores de diferentes espetáculos divulguem seus trabalhos apresentando as suas cenas nas ruas da cidade. Como estratégia para buscar algum destaque em uma efervescência de representações, apresentei, na principal avenida de Edimburgo, a cena de “Agora e na Hora de Nossa Hora” em que o menino de rua usa crack. A estratégia deu certo: em menos de 40 minutos, a cena foi vista por cetenas de pessoas e fui abordado por quatro policiais em diferentes momentos, assim como por dois membros da organização do festival. Todos, um pouco atônitos, acreditaram que eu realmente usava crack, sendo eu não um ator, mas um morador de rua mesmo.

 

A história é uma boa crônica acerca de atritos de culturas: para os paulistanos, por exemplo, o uso do crack nas calçadas do centro da cidade há muito tempo não se destaca na paisagem urbana. O choque também me fez rever uma certa acomodação que temos com situações de opressão, no Brasil. Porque os policiais que me abordaram, acreditando que eu usava drogas à luz do dia, em nenhum momento foram violentos. Ao contrário, abaixavam-se ao meu lado e gentilmente me perguntavam: “Você está bem? Precisa de ajuda” Depois da minha resposta – “Fique tranquilo, eu estou atuando” -, riam de sua própria ingenuidade. É possível tratar a Cracolândia como USP!

 

O episódio me fez entender uma das dificuldades do público do Reino Unido em compreender uma situação fundamental da Chacina da Candelária e de “Agora e na Hora de Nossa Hora” (que a encena): “Por que os policiais matam crianças?”  Para eles, a opressão policial parecia tão absurda que houve um espectador que entendeu como ficção o verídico fato histórico brasileiro – quando policiais mataram oito meninos de rua nos arredores da Igreja da Candelária. Assim, entendi, era necessário incluir no espetáculo situações em que se evidenciasse algo que para nós, latino-americanos, é dado corriqueiro: atitude de policial, o cidadão intimidado pela mão armada do Estado.

 

Insisto, tenho muito poucas opiniões sobre o que acontece na USP. Tenho pouca informação e, aquela que me chega, é, como se viu, confusa. Por isso, não sei dizer se a PM deve ou não estar no campus. Mas um desconforto me persegue: será que ainda queremos essa policia, destreinada e mal paga? Porque, parece-me, enquanto o Estado restringir a sua política de paz (prefiro essa expressão à “política de segurança”) à distribuição de opressão armada, certamente haverá cidadãos de primeira, segunda, terceira, quarta, quinta, infinitas classes – distinguindo-se uma das outras somente pelo tamanho e frequência dos atentados à sua liberdade como pessoa. Há, parafraseando a música do Rappa , uma PM que eu não quero seguir admitindo – na cidade inteira e não só na cidade universitária.

 

Para me opor aos atentados cotidianos da sociedade brasileira contra suas crianças (contra o seu próprio futuro, portanto), não invadi a Reitoria da USP. Fiz um espetáculo de teatro: “Agora e na Hora de Nossa Hora”, que está em cartaz no SESC Pompéia. Assim, espero – ou sonho: indigno-me sem deixar de celebrar a vida! Pode ser ingenuidade, sei disso. Para mim, ainda é algum movimento e, assim, tem alguma relevância.

 

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

 

11. “Agora e na Hora de Nossa Hora” no Kosovo

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora”, já escrevi aqui, realiza temporada que marca os 18 anos da Chacina da Candelária: triste e célebre acontecimento histórico quando, no Rio de Janeiro, oito meninos de rua foram assassinados por policiais. A temporada constitui uma primeira fase do projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” e é acompanhada de 18 postagens, neste blog, sobre minha interação com os meninos de rua.

 

Aqui, relembro fundamental momento para a minha trajetória como ator (o que significa dizer também como cidadão e como pessoa): a viagem a Pristina, capital do Kosovo, para apresentar o espetáculo.

 

postagem sobre a Aicha Haroun Yacobi inaugurou pensamentos sobre o “Interculturalismo”, neste blog – assim como o texto anterior que apresenta seu último filme. Acompanhando este primeiro texto, posto vídeo da entrevista dada à Carlota Cafiero, então repórter do Correio Popular, e registrada em imagens por Artur Araujo. Como considero os vídeos bem editados, gravados no “calor” de nosso retorno, considerei que a postagem das imagens interessariam mais que a redação de texto novo. Assim, segue a reportagem em várias partes:

 

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

 

10. Teatro e Celebração de Amizades

 

Estamos nas duas últimas semanas de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” no SESC Pompéia. Esta é décima postagem do projeto  – num total de 18 que,  junto de 18 sessões do espetáculo, marcam os 18 anos da Chacina da Candelária.  

 

As apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” proporcionaram experiências muitas, em todo o Brasil e também no exterior. Possibilitaram também muitas amizades. Aqui, celebro uma uma delas.

 

Em 2007, no Marrocos, na cidade de Agadir, conheci Aicha Haroun Yacobi – diretora de teatro, dramaturga e roteirista de cinema. Já escrevi sobre ela na edição número 2 da Revista Olhares e parte do artigo já foi publicada neste blog.

 

Há muito sonhamos em uma co-produção Brasil/Marrocos. Enquanto buscamos os meios de viabilizar esse desejo, mantemos uma intensa correspondência. Na última semana, ela me enviou um link para um curta seu, finalizado recentemente:  “As They Say”. Aqui, compartilho o vídeo e celebro a nova criação:

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

9. Teatro no Atravessamento de Culturas

 

Chegamos à nona postagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” – projeto que, tal qual as 18  apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia e em cidades diversas no interior de São Paulo, marca os 18 anos da Chacina da Candelária.  Aqui, inicio uma breve reflexão acerca das apresentações do trabalho em solo estrangeiro. 

 

Quando da criação do espetáculo, entre 2003 e 2004, eu não concebia apresentá-lo a espectadores não brasileiros – ou, pelo menos, não latino-americanos. Tratando de um problema histórico-social próprio dessas terras e com um tratamento igualmente peculiar à essa zona da América (com forte referência à tradição católico-cristã, por exemplo), parecia-me que o trabalho dificilmente alcançaria comunicação com uma platéia que não partilhasse de um determinado universo histórico-social e até religioso. Assim, “Agora e na Hora de Nossa Hora” atendia a uma urgência: abrir o debate sobre a situação da infância e da juventude do Brasil – um brasileiro dirigindo-se diretamente a seus pares de nação.

 

Curiosamente, no entanto, sem qualquer tipo de agenciamento internacional, o trabalho começou a desenvolver uma certa carreira fora do Brasil: Espanha, Suíça, Marrocos, Kosovo, Escócia. Foi assim: um grupo de teatro suíço o assistiu no Festival de Londrina e o indicou a um evento em seu país; depois, um curador de festival do Kosovo o assistiu na Suíça e o indicou para se apresentar em seu evento… Estabeleceu-se, assim, quase que casualmente, uma certa rede de amizades que levou o trabalho a distintos países.  

 

Essas interações em apresentações no exterior, me animam a retomar um debate já suscitado em outra postagem: as relações entre cena e trocas culturais.

 

A interculturalidade é uma das marcas de um teatro contemporâneo. A partir do confronto de diferentes manifestações teatrais, artistas e teóricos esforçam-se na busca de seu elementos comuns. Ou seja, ultrapassando as diferenças, esses trabalhos tendem à valorização de um certo território humano universal.

 

Sob determinado ponto de vista, até aqui, os trabalhos desenvolvidos por mim em cooperação com outros artistas, partem de um ponto de vista diverso (possivelmente complementar) a esse: a valorização da singularidade. A premissa básica é a de que, ainda que possamos nos encontrar num território das estruturas humanas comuns (universais, arquetípicas etc.), o mundo se nos abre como experiência de singularidades. Ou seja, é a partir da vivência plena das situações não-universais que acessamos as estruturas humanas comuns. Assim, damos ênfase, no início dos trabalhos, àquilo que nos faz e nos define: a particularidade.

 

Isso se vê em suas diversas variáveis: o ponto de vista particular sobre o mundo de ator, diretor, dramaturgo, cenógrafo etc; os diferentes pontos de vista dos espectadores (resistindo sempre à tentação de fechar sentidos, mas trabalhando para ampliá-los sempre mais); as infinitas possibilidades de experiência dos muitos atores sociais apresentados pela cena (meninos de rua; rabequeiros etc.).

 

Esse foi o ponto de partida de “Agora e na Hora de Nossa Hora”. A partir de meu contato com meninos e meninas de rua em oficinas de circo do “Projeto Gepeto” (parceria entre a ONG ACADEC e o CRAISA, de Campinas), fui provocado a novos mundos, inusitados até ali para mim. Provocado por essas interações, precisei, depois, conferir expressão artística a essas impressões. Desta maneira, a experiência dos meninos, em atrito com a minha própria vivência das coisas, resultou na abertura de um novo jogo de experimentações: cena de teatro.

 

Considerando a “cultura das ruas” uma das incontáveis influências que constituem a cultura que me forma (a brasileira), digo que meu trabalho, como princípio, pauta-se em experiências INTRAculturaisem oposição à afirmação de experiências INTERculturais por artistas norteeuropeus. Eles afirmam as estruturas comuns à diversidade de manifestações culturais. A pesquisa intracultural pressupõe o inverso: a revelação da multiplicidade que compõe cada cultura.

 

O trabalho começa quando o ator é atravessado por uma experiência desestabilizadora. Ali, estranho a si mesmo, estrangeiro em sua própria terra e corpo, começa a revelar os muitos que ele é. Depois, sintetizando essa experiência como cena, ele a partilha como jogo com o espectador. A cena, como escreve Eugenio Barba, “experiência de uma experiência”. Finalmente, a experiência mesmo do espectador volta a atravessar artistas da cena que, então, revisitam a sua obra, reiniciando o ciclo de vivências.

 

O famoso teórico francês Patrice Pavis, escreve sobre um teatro no cruzamento de culturas para se referir ao modelo intercultural. Aqui, prefiro falar de um certo atravessamento de culturas. Ali, onde o teatro não se sustenta entre culturas, como ele sugere, mas onde os diversos homens que criam a cena são atravessados por uma experiência: camadas infinitas de singularidades compartilhadas.

 

 

 Serviço:
“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia:
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone:  11 3871-7700      

8. Meninos de rua do Marrocos: “Ali Zaoua”

 

O processo de criação de “Agora e na Hora de Nossa Hora” foi acompanhado de um levantamento filmográfico de obras que debatem a situação da infância e da juventude no Brasil e no mundo. Como parte das postagens do projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” – projeto de circulação do espetáculo em 18 sessões na capital e 18 apresentações pelo interior paulista, acompanhada de atividades paralelas,  como 18 postagens neste blog a cada fase do projeto  – apresento trechos de filmes que nortearam a montagem dramatúrgica do espetáculo em que atuo.

 

Aqui, apresento uma referência fundamental: “Alia Zoua”. Na versão em inglês, o filme ganhou o subtítulo “Prince of the Street”. No Brasil, o subtítulo é “Ruas de Casablanca”.

 

O filme evidenciou-me uma abordagem pouco usual da situação de rua: o lirismo. Com diversas cenas de devaneio, a obra contrasta a crueza da situação social com a capacidade humana infinita do sonho. Não me refiro ao sonho como abstração, tal qual ele nos é apresentado em determinados filmes estadunidenses: “não deixe de buscar seus sonhos”. Refiro-me mesmo à concretude do sonho: as muitas realidades que podem conviver na vida comum dos homens.

 

Lembro-me sempre: crianças de rua são, antes de tudo, crianças. Como nos parece difícil, às vezes, enxergar o óbvio!

 


 
“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia:
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

7. A Dramaturgia de “Agora e na Hora de Nossa Hora”

 

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Como sétima postagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”, apresento o processo de síntese, como criação dramatúrgica, do longo processo de estudo que levou ao espetáculo (mais de 1 ano e 4 meses solitários em sala de ensaio, aproximadamente dois meses acompanhado de outros artistas, além de um período anterior em oficinas de circo para crianças e adolescentes em situação de rua do projeto “Gepeto”). 

 

O texto a seguir adapta trechos de minha dissertação de Mestrado em Artes, na UNICAMP: “O Ator-montador”.  

 

 

Coleta de materiais  
Passados os primeiros meses de atuação na coordenação das oficinas de circo, e decidido a criar um espetáculo teatral sobre meninos de rua, eu comecei a imitá-los, coletando relatos, ações, gestos, vozes etc.

 

Este trabalho de coleta de materiais foi orientado pelo LUME – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da UNICAMP que, desde a sua fundação, desenvolve a metodologia da Mimese Corpórea: observação e imitação do cotidiano (pessoas, animais, pinturas etc) como base da atuação.

 

Aos poucos, esta interação foi estendida aos meninos das ruas de Campinas, de São Paulo e do Rio de Janeiro, incluindo uma pesquisa sobre a Chacina da Candelária – o célebre episódio em que, no Rio, oito meninos de rua foram assassinados na porta da Igreja da Candelária.

 

A dramaturgia de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, assim, é resultado da montagem de diferentes materiais que, articulados, ajudam a contar a fábula de Pedrinha, um sobrevivente.   

 

Fábula a partir do fato histórico
Havia, em “Agora e na Hora de Nossa Hora”, uma pretensão: contar a História. Nisso se abria um problema. Como, num espetáculo solo, eu poderia representar os muitos atores que estiveram envolvidos na Candelária? Era preciso incluir a representação de 72 meninos de rua que naquela noite dormiam ali e os policiais assassinos (ainda que o julgamento tenha levado ao júri apenas 8 policiais, os meninos relatam que, naquela noite, havia pelo menos 12 deles na Candelária). Isso sem considerar os atores do jogo político e social: o Prefeito e seus Secretários, o Governador, o Presidente da República, a representante da elite carioca, os educadores sociais, as ONGs, os muitos oportunistas que naquele momento decidiram se manifestar (chegou-se a projetar a realização de um filme de Hollywood, com elenco de atores estadunidenses, para retratar o acontecimento brasileiro!). Como um ator sozinho pode representar tantos personagens?

 

Antes de tudo, foi preciso reconhecer a impossibilidade de uma apreensão total da Chacina da Candelária num espetáculo. Nem mesmo o processo de investigação deu conta da sua totalidade, havendo ainda hoje, mesmo depois de abertos dois processos (o Candelária I e o Candelária II) brechas e situações mal explicadas no inquérito (por que, por exemplo, naquela noite, nenhum dos vigias dos Centros Culturais e bancos que ficam na Candelária estavam em seus postos?). Se nem mesmo uma investigação de anos deu conta da barbárie como apresentá-la em sua totalidade em aproximadamente 1 hora de espetáculo?

 

Seleção de materiais 
Depois de coletados os materiais (mais de uma dezena de meninos in-corporados pela imitação, mais de 250 artigos jornalísticos a cerca da matança), foi necessário selecionar o que, de tudo quanto foi pesquisado, era mais revelador do que eu pretendia apresentar: uma sociedade que gera e nega meninos de rua. 

 

Aí, é sempre bom reforçar, há uma leitura de mundo.  Não interessava, por exemplo, a apresentação de detalhes do processo de identificação de acusados da Chacina da Candelária (o que foi bastante tumultuado e um dos argumentos chave para defesa e acusação durante os julgamentos). A intenção não era apresentar como responsáveis pela Chacina os policiais que apertaram o gatilho das armas, mas a sociedade que gerou contexto para que os assassinatos acontecessem. Concentrei-me, nessa seleção, na apresentação da causa essencial da matança: o modo de vida dos meninos de rua conflita com o modo de vida dos outros habitantes da cidade. Assim, por exemplo, é incluído o texto, noticiado pelos jornais do Rio, em que meninos de rua se dirigem a turistas: “Hey, gringo! Have money para mangiare?” Um dos precedentes da Candelária, o episódio envolvendo turistas sul africanos, meses antes da Chacina, já dava indícios do desconforto que os meninos representavam para a cidade. Meninos pedindo esmolas para turistas viram notícia de jornal e caso de polícia.

 

Criação de personagem: Pedrinha 
Ainda assim, selecionadas as informações fundamentais sobre a Chacina, era necessário encontrar uma maneira de levar à cena a História. A primeira solução dramatúrgica foi a criação de um personagem que pudesse contar para os espectadores o que aconteceu na madrugada de 23 de julho de 1993. Aqui também é claro o meu posicionamento como artista: a matança contada do ponto de vista dos meninos.

 

Isso reforçado ainda por uma escolha. Dentre os muitos meninos que observei, não escolhi ao acaso aquele que narraria os acontecimentos da madrugada, mas aquele cuja ingenuidade era mais evidente. O único dos meninos com alguma deficiência mental que observei, com elevado grau de docilidade, foi eleito narrador. Nisso, evidencia-se ainda mais a barbárie: são, antes de tudo, crianças e adolescentes e, como disse Herbert de Souza, o Betinho, na época dos crimes, “Quando uma sociedade deixa matar crianças, é porque começou o seu suicídio como sociedade”.

 

Começava, assim, a se desenhar a montagem dramatúrgica do espetáculo. Um menino de rua narra para os espectadores a Chacina da Candelária – ele sobreviveu ao massacre porque dormia em cima da banca de jornais (era comum que meninos dormissem assim porque, na época, já havia quem jogasse paralelepípedos na cabeça dos habitantes das ruas).

 

Situação dramatúrgica: Juan Rulfo 
Até aqui, delimitava-se um personagem. Para a finalização de situações dramatúrgicas, faltavam outras informações, como a delimitação de espaço e tempo. Isso foi recolhido no conto “Macário”, do mexicano Juan Rulfo.

 

O encontro com a literatura de Rulfo parecia já óbvia. Isso porque, durante o processo de criação, eu descobri que as pesquisas sobre a Mimese Corpórea foram iniciadas por Luís Otávio Burnier, o fundador do LUME, a partir da imitação de crianças marginalizadas de grandes cidades. Com a mimese dessas crianças, Burnier esperava reunir material para adaptar para o teatro o conto de Rulfo. Curioso sobre o trabalho já desenvolvido por Burnier, procurei registros em vídeo do espetáculo “Macário”. Como não os encontrei, contentei-me com a leitura do conto que foi logo incorporado à montagem do espetáculo. Já que eu falava de meninos cujos pais são ausentes, o espetáculo serviu ainda para que eu me aproximasse do mestre que eu não conheci.

 

Em “Macário”, um menino (que não é morador de rua) está junto de uma cisterna esperando saírem as rãs. Durante toda a noite, fizeram muito barulho e, por isso, não deixaram dormir a sua madrinha. Com um pedaço de pau na mão, ele espera matar uma a uma todas as rãs.

  

Em “Agora e na hora de nossa hora”, um menino de rua, o Pedrinha, está junto de um bueiro esperando os ratos saírem. Para ele, o barulho dos ratos não deixou os policiais dormirem. Por isso a matança. Ao ouvirem os tiros, todos os meninos saíram correndo, menos ele, que ficara quieto sobre a banca de jornais. Com algumas pedras nas mãos, ele espera matar os ratos para que todos possam dormir em paz.

  

Resolviam-se, assim, os problemas fundamentais da dramaturgia do espetáculo. Já não era necessário representar todos os meninos que naquela noite estavam na Candelária, mas apenas um. O espetáculo acontece no momento em que todos fugiram. Com a rua deserta, o menino procura se entender com os ratos, os responsáveis pelo ódio dos polícias. Pouco a pouco chegam os espectadores, recebidos, agora, como as primeiras pessoas que se aproximam do local da Chacina.

 

 Serviço:
“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia:
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700      


6. Poesia e sociedade: Eduardo Galeano

 

Os estudos para a criação de “Agora e na Hora de Nossa Hora” envolveram o leitura de muitas obras, assim como o levantamento de filmografia e discografia sobre a violência contra a infância e a juventude.  Como parte das postagens do projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” – projeto de circulação do espetáculo em 18 sessões na capital e 18 apresentações pelo interior paulista, acompanhada de atividades paralelas, como 18 postagens neste blog a cada fase do projeto – tenho apresentado algumas destas referências.

 

O escritor uruguaio Eduardo Galeano foi uma delas. Primeiro de maneira mais óbvia: o documento “As Veias Abertas da América Latina” perturbou-me a alma por incontáveis dias! Depois, aprendi com Galeano a possibilidade de encontrar motivo de poesia em pequenos, minúsculos acontecimentos da vida: mesmo as situações sociais adversas podem ser tomadas como motivo e alimento para a utopia.

 

Aqui, um vídeo em que o escritor lê texto seu sobre a utopia:

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia:
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700