animação

27 – Meninos de Rua: apropriações

 

Nesta semana, o espetáculo “Agora e na Hora de Nossa hora” é apresentado em São José dos Campos, como parte da Mostra Joanense de Teatro. As 18 sessões no interior de São Paulo registram, como as 18 postagens que escrevo neste blog, os 18 anos da Chacina da Candelária. Assim é o projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”. Aqui, um texto sobre as múltiplas tentativas de apropriação dos meninos de rua pelo Estado e outras instituições – adaptado de “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense” (Hucitec, 2007).

 

Ao ter considerada a sua sociabialidade incompleta (assim são a infância e a juventude) meninos e meninas de rua facilmente se tornam “sujeitos apropriáveis”. O Estado, as instituições, grupos e pessoas com os quais dialogam sabem o que deve ser feito dos meninos. Meninos de rua são alvo de infindas tentativas de reintegração à sociedade. Estas são tentativas de capturá-los para o cumprimento de um modelo que nem sempre desejam assumir.

 

Justificadas nos seus argumentos que desenham a figura do “menor abandonado” estas ações, no entanto, fracassam. Isto porque não levam em conta que a rua não é só espaço de desconstrução de relações; a rua é também construção de uma nova sociabilidade. Viciadas num olhar preconceituoso sobre a rua e o modo de vida de seus habitantes, estas ações pretendem, não raro, tirar da rua os meninos a qualquer custo, procurando discipliná-los a um modelo de juventude. Repito: nem sempre estes meninos estão dispostos a abraçar estes modelos.

 

Há neste modelo de atuação, uma certa arrogância. O povo brasileiro, “pacífico por natureza”, pode deixar escapar, na sua conduta junto aos meninos de rua, preconceito e intolerância que tanto condena em outros povos. Quando os EUA decidiram, em nome da liberdade do povo do Iraque, praticar o genocídio que até hoje a história testemunha, nossas representações políticas facilmente manifestaram seu repúdio à guerra. Nisto eu estava completamente de acordo. Entretanto, é curioso observar que, no Brasil, crianças e adolescentes, em nome do seu bem, sejam forçados a cumprir um modelo de vida que não desejam para si.

 

Assim, os projetos e programas sociais, as instituições, todos sabem o destino que dariam para a vida destes adolescentes. Poucos sabem ouvir o que os adolescentes pretendem de si mesmos. Os adolescentes não participam da construção de seu próprio projeto de vida.

 

É preciso, agora, considerar que meninos e meninas de rua trazem experiências variadas, diversas daquelas que nós, moradores de casa, trazemos. Isto é aceitar que suas expectativas podem ser diferentes das nossas. Caso contrário, falaremos sozinhos, sem encontrar nos meninos interlocutores.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em São José dos Campos
Mostra Joanense de Teatro
31 de março, às 21h e 01 de abril, às 19h
CET – Centro de Estudos Teatrais
Av. Olivo Gomes, 100 – Parque da Cidade – Santana
Informações: (12) 3924-7358.  

 

26 – Identidade: transitoriedade

 

Na última semana, apresentamos “Agora e na Hora de Nossa Hora” no Espaço Clariô – sede do grupo de teatro homônimo. Ali, um grupo – apaixonado e apaixonante! – muitíssimo afeito ao debate sobre as relações teatro/sociedade. O Clariô lembra-nos que as artes em geral – e o teatro em especial – fortalecem nossos laços comunitários: identidade, pertencimento. Isto motivou uma reflexão acerca da construção de uma certa visão de mundo pela população de rua. Neste texto, adaptado de meu livro “Hora de Nossa hora: o menino de rua e o brinquedo circense (Hucitec, 2007), breve pensamento sobre os deslocamentos da população de rua.

 

Desde a origem das cidades, há registros de pessoas que fazem da rua morada. Diversos olhares foram lançados já sobre os habitantes da rua. Da compaixão ao escárnio; do medo (que leva, não raro, às ações de enclausuramento, afastamento destas pessoas do cotidiano das cidades) ao preconceito. O olhar sobre estas pessoas corresponde a um olhar sociocultural e histórico – mutável, portanto.

 

Em nossos tempos, já escrevi em outra postagem, um pensamento urbanístico é norma: ordenação da circulação de pessoas e mercadorias. Os habitantes da rua, neste contexto, permanentemente se deslocam como os demais indivíduos da cidade. Entretanto, o fazem de maneira diferenciada. Se outros habitantes da cidade transitam com a finalidade de sair de um lugar para chegar em outro, os habitantes da rua não desenham um deslocamento objetivo; não há ponto de chegada. Ora se deslocam motivados pela ordem dominante que os expulsa (assim é a ação da polícia, por exemplo), ora se deslocam atrás de outras oportunidades de sobrevivência. Gente que faz da vida movimento.

 

Neste deslocamento contínuo, a população de rua constrói sua identidade. A rua adquire sentidos diferenciados para estas pessoas. O nomadismo implica numa série de referências de sociabilidade para a população de rua, como o desenvolvimento de relações efêmeras e fragmentadas e a sensação de liberdade. Ao se deslocar, o habitante das ruas se constrói, faz-se andando.

 

Ao ocupar a rua de maneira diferenciada, a população de rua é facilmente destacada na paisagem urbana. Seu modo de vida subverte a lógica e a expectativa de ocupação de espaços que os outros habitantes da cidade aprenderam a incorporar. Os habitantes da rua são, para outros cidadãos, um pouco fora do lugar.

 

A transitoriedade dos adolescentes em situação de rua e a itinerância própria do circo podem, em parte, explicar a facilidade com que meninos e meninas de rua se entregam às atividades circenses – o que acontece não só no projeto “Gepeto”, da ONG ACADEC, em que atuei ao lado de meninos de rua de Campinas, mas em diversos outros projetos que fazem do circo sua principal forma de atuação, como o projeto “Se essa rua fosse minha”, no Rio de Janeiro – RJ. É como se o circo trouxesse no bojo de suas técnicas uma qualidade arquetípica do deslocamento contínuo. Como ferramenta para dialogarmos com a transitoriedade, a linguagem da transitoriedade.

 

Próxima parada dos deslocamentos de “Agora e na Hora de Nossa Hora” pelo interior de São Paulo: São José dos Campos.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em São José dos Campos
Mostra Joanense de Teatro
31 de março, às 21h e 01 de abril, às 19h
CET – Centro de Estudos Teatrais
Av. Olivo Gomes, 100 – Parque da Cidade – Santana
Informações: (12) 3924-7358. 

 
  

25 – A Música dos Meninos de Rua: “Dia de Visita”, do Realidade Cruel

 

Ao contrário do que se pensa, meninos e meninas em situação de rua, não raro, são ligados fortemente às suas origens, sobretudo, às suas famílias. Ainda que dolorosamente nem sempre mencionem isto, impressiona o quanto o tema os mobiliza. Curiosamente, diga-se, os meninos tendem a reproduzir nas ruas as estruturas familiares que conheciam em casa. Assim, andam em grupos e alguém considerado um pouco mais maduro (menino ou menina mais velha, um morador de rua adulto, uma prostitua) acabam assumindo a postura de pai ou mãe da rua, responsabilizando-se pelos demais.

 

Nesta postagem, um vídeo do grupo Realidade Cruel, de Hortolândia, região de Campinas. Já disse, em outro texto, que o grupo fala fundo aos meninos de rua. Aqui, uma música em que tratam justamente de um dia de visita (um detento recebendo a visita da mãe, no presídio). Muitas vezes a ouvi na Febem. Outras tanta ouvi meninos cantando-a nas ruas.

 

 

Nesta semana, o espetáculo “Agora e na Hora de Nossa Hora” apresenta-se em São José dos Campos, como parte da Mostra Joanense de Teatro.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em São José dos Campos
Mostra Joanense de Teatro
31 de março, às 21h e 01 de abril, às 19h
CET – Centro de Estudos Teatrais
Av. Olivo Gomes, 100 – Parque da Cidade – Santana
Informações: (12) 3924-7358.  

 

 

24 – Rua: encontros

 

As 18 sessões de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no interior de São Paulo registram os 18 anos da Chacina da Candelária. As apresentações são acompanhadas de bate-papos, exposição, doação e divulgação de livro, 18 postagens, neste blog, sobre a situação de risco social. Neste texto, adapto trecho do livro “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense”, de minha autoria (Editora Hucitec, 2007).

 

A rua é espaço múltiplo. É espaço de circulação de pessoas com diferentes origens, situações socioculturais e econômicas, com diversidade de opções políticas, ideológicas e religiosas. Ao passar ou ocupar a rua, cada um dos habitantes da cidade imprime um pouco de si no seu espaço. A rua, assim, ganha significações tão diversas quanto é possível à diversidade de pessoas que por ela passam. A população de rua, incluídos crianças e adolescentes, é parte desta diversidade.

 

Ao longo da história, variam as concepções sobre a rua. Antes, espaço de encontro e de interações entre os habitantes das cidades, progressivamente a rua torna-se local de passagem. Seu espaço não é mais local de concentração de pessoas e organização da vida social. A rua é destinada exclusivamente ao deslocamento. É neste progressivo esvaziamento da rua que se constrói e se consolida o discurso de limpeza e ordenação do espaço urbano – a cidade virou urbe. A rua passou a ser projetada de maneira a facilitar deslocamentos, sem superfícies rugosas, sem possibilidade de aglomerações. A rua é puramente espaço da transitoriedade.

 

A disciplina urbanística, entretanto, pode planejar espaços, mas não as pessoas. A rua continua a congregar a multiplicidade de cidadãos. Se as intervenções urbanísticas tendem ao desejo da dispersão popular (o que, arrisco-me a afirmar, corresponde a interesses de classe das elites no poder), a multiplicidade de pessoas que ocupam a rua tende a imprimi-la com outros sentidos. Diversidade é resistência. Assim, persistem em tomar a rua como espaço do encontro, os vendedores ambulantes, os pregadores religiosos, os artistas populares. As ações destas pessoas tendem às aglomerações, a um uso do espaço da cidade que a funcionalidade do pensamento urbanístico excluía.

 

A despeito disto, em nossos tempos, o pensamento urbanístico justifica políticas públicas que pretendem facilitar o deslocamento de pessoas (com trajetos programados, sempre utilitários, como o de casa para o trabalho, por exemplo) e a circulação de mercadorias. A força deste pensamento nas cidades tende a conflitar com o modo de vida daqueles que procuram ocupar a rua com outra finalidade que não o puro deslocamento. A rua é reafirmada como lugar perigoso, indefinido, violento. A rua não é lugar de criança.

 

Neste contexto, os trabalhos sociais com jovens em situação de rua requerem que se exercite um outro olhar para a urbe. Porque não se trata somente de discutir o que fazer dos meninos que vivem nas ruas. Trata-se de discutir um projeto de cidade. Lugar de criança não é na violência da rua, dizem. Entretanto, a rua pode ser violenta justamente porque não tem criança. O crime não se instala nas ruas onde as crianças brincam, onde os vizinhos se conhecem e sentam no meio fio para jogar conversa fora. Ao contrário, os bandidos escolhem mesmo são as ruas desertas, onde os vizinhos não fazem ideia do que acontece na casa ao lado.

 

A rua é lugar de criança. É também lugar de adultos, de adolescentes, de casais de namorados, de idosos, de toda gente. É preciso transformar a rua: exigir de volta as nossas praças, os bancos para o namoro dos casais, as áreas verdes, as cadeiras nas calçadas. O espaço público, enfim, tomado novamente como público.

 

É evidente que isto não significa que se deva aceitar com passividade que crianças, adolescentes ou quaisquer outros cidadãos estejam abandonados à violência das ruas. Aqui, um entendimento simples: se temos o que ensinar a este jovens, temos também o que com eles aprender – a cidade de volta!

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” apresenta-se, nesta semana, no Espaço Clariô, em Taboão da Serra. As apresentações são financiadas pelo PROAC 2011 – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e, nesta cidade, contam com o apoio do Grupo Clariô e do Hotel 155.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no Espaço Clariô
Rua Santa Luzia, 96 – Vila Sta. Luzia – Taboão da Serra – SP
dias 23 e 24 de março, às 20h 
Informações: (11) 4701.8401 /(11) 9621.6892    
Entrada gratuita    

 

 

23 – Crack se vence com alegria e esperança!

 

Na semana passada, no dia 12 de março, suspendemos brevemente as apresentações de “Agora  e na Hora de Nossa Hora” pelo interior de São Paulo. A pausa tinha fim: apresentar o espetáculo para gestores de unidades socioeducativas do Estado do Rio de Janeiro.

 

Depois, já no dia 13, viajamos para Assis, em São Paulo, onde entre os dias 14 e 16, voltamos à turnê que registra os 18 anos da Chacina da Candelária.

 

Tanto em Assis quanto no Rio de Janeiro, houve bate-papos com os espectadores sobre o processo de criação do trabalho e sobre a infância e juventude em situação de rua.  Em Assis, uma espectadora perguntou, referindo-se à triste e ineficaz ação policial na  região conhecida como Cracolândia, na cidade de São Paulo, como o cidadão comum poderia contribuir para um debate mais produtivo sobre a situação de rua. Outros espectadores demonstraram igual preocupação com o uso de crack entre crianças e adolescentes. 

 

A reposta para inquietações tão maiúsculas, claro, não é simples – ainda que sob um ponto de vista o seja: não se elejam políticos afeitos a tomar a polícia como única política social! Porém, uma resposta, menos direta  e mais conectada com a mina experiência seguiu: com alegria e esperança. Parece piegas, eu sei e o reconheci nas duas cidades. 

 

A primeira impressão de ingenuidade se desfaz quando se relatam casos por mim testemunhados em que meninos de rua deixaram o consumo de substâncias psicoativas e até mesmo retomaram o contato com as suas famílias. Um deles, que no livro “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense” (Editora Hucitec, 2007) nomeio como João, se reinventou jogando malabares com pedras da antiga estação ferroviária de Campinas. Sendo aquela estação o lugar que se procurava para o consumo do crack, logo o adolescente reconheceu que, treinando malabares, poderia evitar o uso da droga. O menino, depois, torna-se monitor-auxiliar da oficina de circo que eu ministrava e os demais participantes do trabalho assim o reconheciam. Se acaso me atraso, ele inicia a condução do treino. Além disto, muda de aparência (sempre banhado!) e começa a tomar conta de um menino mais novo, evitando que o pequeno (e, portanto, ele mesmo!) use drogas. Por fim, surpreendentemente se ausenta e deixa um bilhete: sabe que é importante para a oficina, mas quer ver a família, não quer mais viver na rua. O recado é assinado como “o monitor João” e, junto dele, recebo uma corrente como presente. 

 

Só se vence o crack com alegria e esperança. Aprendi de uma vez por todas! Há conflito, há dor, há perdas, claro que há. Só se ultrapassam estas dificuldades quando se projeta um futuro melhor, para além do presente enfrentamento com as drogas (e consigo mesmo). João não tinha nada – nem mesmo bolinhas para treinar malabares. Mas tinha a si mesmo – o que não é pouca coisa! 

 

Em casa, infelizmente, retornam antigos problemas. O menino, que decidira mudar, decide outra coisa. E volta para as ruas. Nunca soube os reais motivos para a nova decisão: problemas com o padrasto, o Conselho Tutelar que vigia todos os seus passos (não pode dançar no Forró porque é menor de idade; não pode conversar com moradores de rua porque são más influências), dificuldade de adaptação à vida de poucas aventuras na casa. Nunca João mesmo me explicou suas motivações.

 

Uma coisa eu conclui, porém: é difícil que o mundo acompanhe as decisões de mudanças de cada um de nós. Mudar é bom e é difícil: exige empenho, luta. Exige! Não foram poucas as vezes que vi meninos de rua procurando mudar de vida enquanto rígidas estruturas sociais o empurravam de volta – inclusive identificadas por um dos braços armados do Estado: a polícia. A manutenção da ordem (esta palavra é escolhida: ordem!) vence com força e sisudez.    

 

Na apresentação do Rio de Janeiro, no bate-papo com os gestores das unidades socioeducativas estávamos descarados. Acrescentamos a palavra amor ao debate. Assim, a nossa plataforma de futuro: alegria, esperança, amor. Pode parecer piegas. Que o pareça! Havendo felizes transformações, possamos nós dizermos como ao fim da oração cristã: que assim seja! Seja! 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” apresenta-se nos dias 23 e 24 de março, às 20h, no Espaço Clariô, em Taboão da Serra. As sessões são apoiadas pelo Grupo Clariô de Teatro e pelo Hotel 155.    

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no Espaço Clariô
Rua Santa Luzia, 96 – Vila Sta. Luzia – Taboão da Serra – SP
dias 23 e 24 de março, às 20h
Informações: (11) 4701.8401 /(11) 9621.6892    
Entrada gratuita    

 

 

22 – Basquiat

 

 

 

Seguimos o nosso périplo de 18 apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” e 18 postagens neste blog, registrando os 18 anos da Chacina da Candelária. Assim é o projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”, financiado com recursos do PROAC 2011 – Programa de Ação Cultural do estado de São Paulo. Próxima parada: Assis.  

 

Eu não sei explicar o porquê, mas a obra de Jean Michel Basquiat sempre exerceu em mim um profundo efeito: transtorno, perturbação mesmo. Tudo o que posso dizer é que, aos 16 anos, numa exposição em São Paulo, vi muitos de seus quadros. Um deles me tomou a alma – exatamente este que abre a postagem. Um enorme anjo negro! Nunca mais o esqueci. Nunca mais uma obra pictórica teve efeito semelhante em mim – talvez “O Grito”, de Edvard Munch, tenha se aproximado.    

 

Assim, ainda que eu possa escrever que é notável que um jovem que viveu nas ruas tenha sua obra conhecida mundialmente; ainda que eu diga que é incrível que ele tenha contribuindo substancialmente para o reconhecimento do grafite como arte; ainda que eu possa traçar muitos paralelos entre ele e os muitos artistas que conheci na rua – poetas, pintores, músicos; ainda assim, nada vai poder equivaler a perturbação de senti aos 16 anos de idade – provavelmente um dos meus primeiros contatos com aquilo que chamamos de arte.

 

Em muitas circunstâncias, incluindo no processo que levou a “Agora e na Hora de Nossa Hora”, trabalhei a partir de suas imagens, procurando incorporá-las.  A imagem deste anjo, inclusive, por muito tempo, foi a imagem de programas e cartazes do espetáculo. Não escrevia nenhum texto, apenas se imprimia a imagem no material gráfico e – Oxalá queira assim – na experiência do espectador.

 

E, como diz Hamlet, ao fim da peça, diante da força da obra de arte e da vida, que todo o resto seja silêncio. 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Assis
 Dias 14, 15 e 16 de março, às 20h 
Teatro Municipal padre Enzo Ticinelli
Rua Floriano Peixoto, 757
Ingressos gratuitos
Informações: (18) 3322-2613 e 3322-2677 

 

21 – Teatro e pedagogia

 

Estamos na cidade de Garça, no interior de São Paulo. Aqui, realizamos duas apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, inseridas no projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”.  Assim, se registram os 18 anos da Chacina da Candelária em 18 sessões do espetáculo, exposição, bate-papo, workshop e 18 postagens neste blog. O projeto é financiado pelo PROAC 2011 – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.     

 

Apresentar na cidade de Garça era um desejo cultivado desde 2009, quando inciamos contatos com a Secretaria de Cultura deste município que, naquele ano, levou um ônibus de garcenses ao Filo – Festival Internacional de Tetro de Londrina para assistir a “Eldorado”. Muitas foram as tentativas até a nossa chegada aqui.

 

Aproveitando esta pequena-grande vitória, a Secretaria de Cultura de Garça programou atividades paralelas não previstas no projeto PROAC: a realização das oficinas “Elaboração de Projetos Culturais”, ministrada pela produtora Daniele Sampaio, no dia 08 de março, e “Dramaturgia do Corpo”, ministrada por mim entre 09 e 10 de março. As inscrições, gratuitas, estão encerradas.

 

Toda a minha formação em teatro foi permeada por atividades docentes. Comecei a estudar teatro formalmente, em 1998, aos dezessete anos, na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Aos 18, nem mesmo sabendo o que é o teatro, já dava aulas desta linguagem. Assim, em muitas circunstâncias atuei como docente: para crianças e adolescentes, terceira idade, lideres do orçamento participativo de Campinas, população de rua adulta, meninos e meninas em situação de rua, adolescentes privados de liberdade na Febem, no ensino fundamental, como professor de Educação Artística da rede estadual de ensino paulista, em curso profissionalizante de teatro, em universidade pública, em curso particular do ensino superior, em cursos livres e workshops.

 

Desta maneira, sempre o meu aprendizado da linguagem esteve fortemente atrelado às minhas atividades docentes. Dando aulas, aprendi sobre teatro. Não só. Aprendi também sobre docência. Porque, não tendo domínio da linguagem que ensinava (e este domínio provavelmente eu continuo não tendo), só poderia compartilhar experiências. Assim, reduziam-se os espaços do aconselhamento para se ampliarem os espaços de jogo. O aprendizado do teatro e no teatro se dá fundamentalmente pela experiência da criação.  

 

Entendi, assim, que todo o processo criativo inclui aprendizado pedagógico: sabedoria que se absorve na caminhada. E um bom processo de teatro gera aprendizado em direções muitas e envolvendo muitas pessoas – o que obviamente não significa que o aprendizado é o mesmo para todos. Em diálogo com  a Profa. Dra. Maria Thais, da ECA/USP, aprendi a origem da palavra pedagogo: do grego paidagogos, que sintetiza duas outras palavras – paidós (criança) e agogos (condutor). Assim, pedagogo seria aquele que conduz um outro ao ensino, sabedoria. Ou seja, a pedagogia parece estar mais afeita a tornar o aprendizado possível que ensinar propriamente.          

 

Por fim, ao estudar o trabalho de grandes nomes do teatro, reconheci que grandes pesquisas de linguagem estavam frequentemente associadas às atividades pedagógicas. Assim são os trabalhos de Stanislavski, Meyerhold, Grotowski, Copeau, Lecoq etc. Isto sem falar nos brasileiros, como o notável trabalho de Antunes Filho.  Ensinar, mesmo para o pedagogo, parece, enfim, fortemente articulada à descoberta.  

 

Workshop Dramaturgia do Corpo em Garça
Realização da Secretaria de Cultura de Garça
Dias 09 de março, das 18h30 às 22h30, e 10 de março, das 9h às 13h
Escola Municipal de Cultura Artística
Rua 27 de dezembro-10   -Vila Williams 

 

20 – A rua em exposição

 

As 18 apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no interior de São Paulo registram, tal qual as 18 sessões já realizadas em temporada paulistana, os 18 anos da Chacina da Candelária. Acompanham esta circulação, atividades paralelas diversas: workshop, bate-papo, postagens neste blog, exposição.

 

O processo de criação de “Agora e na Hora de Nossa Hora” incluiu a interação com meninos de rua em um projeto social, em Campinas, a inspiração no conto “Macário”, do mexicano Juan Rulfo, o estudo sobre a Chacina da Candelária – quando, no Rio de Janeiro, oito meninos de rua foram assassinados por policiais. Quando eu inciei as apresentações do espetáculo, eu julgava que a obra deveria sintetizar todas as forças e motivações que a geraram. Assim, eu não quis apresentar o trabalho em um programa. 

 

Porém, a partir das interações com o espectador, revi esta minha escolha. Eram frequentes as perguntas sobre o processo de criação – especialmente sobre a minha interação com os meninos de rua e sobre a Chacina da Candelária. Aí, entendi que o espetáculo é apenas a ponta de um icebergue, porta de entrada para outros entendimentos: uma relação diversa com os problemas sociais do Brasil, com a cidade em que vivemos, com os seus cidadãos. A arte como mediadora de mundos – aquele em que vivemos e aqueles que ainda podem ser sonhados.  Entendi, neste momento, que o espetáculo de teatro era tão importante quanto o processo que o gerou. Ao se revelar aquilo que veio antes, a cena evidencia com maior intensidade a força de vida daqueles que a motivaram: crianças e adolescentes em situação de rua.   

 

A partir deste momento, seguiram-se tentativas muitas de proporcionar uma certa imersão do espectador na situação de rua. Escrevi um livro, “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense”, publicado pela Editora Hucitec, em 2007. Criei programas para a peça, incluindo minha interação com os meninos de rua já na sua sinopse – os fatos da realidade ordinária como fundamento de efabulação da realidade extraordinária do teatro.  Tanto quanto me foi possível, realizei conversas com os espectadores, após as apresentações. Por fim, projetei uma exposição.

 

Em princípio, sem verba alguma, eu mesmo criei com fotos e trechos de diários de trabalho uma pequena amostragem do processo. O resultado tinha muita boa vontade, mas nenhuma elegância – tudo próximo aos trabalhos que realizei na pré-escola, ainda criança.  

 

Agora, contemplados com recursos do PROAC 2011  – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, foi possível realizar um trabalho mais acurado. O trabalho foi realizado pelo Lu Orvat Design – que já cuida da visualidade de nossos trabalhos em site, cartazes, programas etc.  

 

Este “expográfico” procura apresentar, em forma e conteúdo, o processo de criação do espetáculo. Primeiro, toma como fundamento a apresentação do relato das vivências: como um diário de trabalho em 3D, a exposição apresenta trechos do livro escrito por mim, passagens de narrativas e relatos de outros autores que escreveram sobre a população de rua, falas de meninos de rua, comentários de espectadores. Não há imagens pictóricas. Através da palavra, a exposição sugere que o espectador crie as suas próprias imagens.

 

Depois, a exposição usa como suporte aproximadamente 33 peças quadradas de papelão, todas iguais. Assim, procura-se, aqui, o mesmo princípio de montagem que inspirou a criação do espetáculo: peças autônomas, sem hierarquia entre elas e sem a necessidade de uma linha clara de causalidade entre si, apresentam um panorama da rua. O espectador é responsável por interagir com a obra, fazendo associações e ilações.

 

Assim, temos:
– Cada uma das peças, representações de temas constituintes do tema geral: a vida das ruas;
– A exposição tomando diferentes aspectos do objeto representado, em diferentes perspectivas – tal qual o princípio cubista, tomando o mesmo objeto de cima, de baixo etc.   
– O espectador, pela sua experiência de fruição, articula os conteúdos todos, criando, ele mesmo, a sua própria representação do tema. 

 

A exposição estará apresentada em todas as sete cidades em que “Agora e na Hora de Nossa Hora” for apresentada nesta circulação do PROAC. Neste final de semana, as últimas apresentações do espetáculo na Escola Livre de Teatro de Santo André – ELT.   

 

 

 

 

 “Agora e na Hora de Nossa Hora” em Santo André
Praça Rui Barbosa, s/n
26 e 27 de fevereiro e 03 e 04 de março de 2012, às 20h30
Ingressos gratuitos
Telefone: 11 4996.2164
 

 

19. “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” no interior de São Paulo

 

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Voltamos à estrada! “Agora e na Hora de Nossa Hora”, solo sobre meninos de rua dirigido por Verônica Fabrini, apresenta-se em 18 sessões em diversas cidades do interior de São Paulo: Santo André, Garça, Assis, Taboão da Serra, São José dos Campos, Lençóis Paulista e Limeira. As apresentações são financiadas pelo Proac – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo e marcam os 18 anos da Chacina da Candelária.

 

A criação do espetáculo envolveu a realização de oficinas de circo com meninos de rua do projeto “Gepeto – Transformando Sonhos em Realidade”, da ONG ACADEC, de Campinas, a inspiração no conto “Macário”, do mexicano Juan Rulfo, e um estudo sobre a Chacina da Candelária – quando, em 1993, oito meninos de rua foram assassinados por policiais nos arredores da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro.

 

Ao se completar 18 anos deste acontecimento histórico, concebemos uma “circulação performática” do espetáculo, realizando 18 sessões do trabalho na capital paulista e outras 18 no interior do Estado. Assim, registramos o marco histórico e provocamos: atingimos, em 18 anos, a maturidade do debate social? Se o cidadão brasileiro nascido em 1993 já é considerado apto a exercer a sua cidadania, com direitos e obrigações civis, amadurecemos um projeto social diverso daquele que executou crianças e adolescentes na porta da igreja?   

 

As apresentações da primeira etapa desta circulação, na capital, aconteceram no SESC Pompéia, entre outubro e novembro de 2011, e foram acompanhadas de 18 postagens, neste blog, debatendo as situações vividas no processo criativo do espetáculo, a situação de rua, as políticas públicas de atendimento à esta população. 

 

A segunda etapa, que realiza 18 apresentações em 7 cidades do interior, igualmente serão acompanhadas de 18 postagens neste blog. Não só. Ainda haverá a realização de workshop, bate-papos após a primeira sessão do espetáculo em cada cidade, exposição sobre o processo de criação, doação de livro.

 

A primeira cidade a receber esta circulação é Santo André. As apresentações acontecem nos dias 25 e 26 de fevereiro e 03 e 04 de março, às 20h30, na Escola Livre de Teatro (Praça Rui Barbosa, s/n). Os ingressos são gratuitos. 

 

Também na Escola Livre de Teatro, nos dias 03 e 04 de março, das 14h às 18h, ministro o workshop “Dramaturgia do Corpo”. Ali serão abordados na pratica os princípio de criação de dramaturgia de ator utilizados no espetáculo.  As inscrições são também gratuitas e podem ser feitas na secretaria da ELT.

 

Voltamos à estrada! Acompanhem-nos! Celebremos!

 

 “Agora e na Hora de Nossa Hora” em Santo André
Praça Rui Barbosa, s/n
26 e 27 de fevereiro e 03 e 04 de março de 2012, às 20h30
Ingressos gratuitos
Telefone: 11 4996.2164

Falta Feverestival!

Nas últimas semanas, a organização do Feverestival – Festival Internacional de Teatro de Campinas anunciou uma edição-ausência, em 2012: neste ano, não teremos a realização do evento. A justificativa para isto não é nova (o que a torna ainda mais terrível): falta de verbas; nenhum apoio municipal; nenhum reconhecimento em editais estaduais e federal (que ainda que tenham aumentado enormemente em frequência e recursos são ínfimos ante a demanda); falta de interesse da iniciativa privada em patrocinar o festival com aportes financeiros significativos. O resultado é igualmente conhecido: perdemos todos. Assim, a cidade de Campinas fica ainda mais pobre.

 

A nossa miséria, diga-se, não se refere à ausência das inúmeras atividades econômicas anualmente fomentadas pelo festival e que, neste ano, sentirão a sua ausência –  as atividades da chamada indústria criativa, ocupando atores, diretores, cenógrafos, técnicos, bilheteiros, faxineiros, recepcionistas, etc; e as atividades econômicas indiretamente estimuladas (o comércio e prestações de serviços locais, com restaurantes e bares, lojas e hotéis, taxistas, etc.). E perceba-se que este “etcetera” quer dizer muito, muita gente.

 

Empobrecemos, porém, menos no bolso e mais no espírito. E esta miséria é irreparável e desastrosa, estejamos nós, no futuro, em melhor ou pior situação financeira. Quando uma obra de arte deixa de ser fruída pelo público (e no caso de um evento que não se realiza muitas obras deixam de ser partilhadas), um mundo não se realiza. Isso se refere primeiramente, claro, à maior clareza que a obra nos oferece do mundo mesmo em que vivemos, as relações sociais tal qual a conhecemos e experienciamos. Ou seja, a arte nos faz perceber a vida, significá-la, debatê-la. Isso é muito, mas não é tudo: a arte ainda nos faz entrever mundos outros, não como cotidianamente conhecemos a vida, mas como  a sonhamos. Sonhar mundos talvez seja a missão mais nobre da arte. Porque, aí, nossa potência de transformação das coisas. Aí, enfim, a potência das possibilidades.

 

Mais pobres em imaginação, como encontrar forças para se opor à triste realidade que vive Campinas? Como enxergar o potencial da cidade no feio cotidiano que nos circunda? Campinas está no fundo do poço, não fique dúvidas sobre isto. Corrupção, indiferença e distância entre a população e os seus representantes políticos são a tônica dos últimos anos. É sintomático e preocupante, neste estado de coisas, o sucessivo cerceamento aos espaços de convívio como política pública: fechamento de teatros (não há absolutamente nenhum equipamento municipal apto a receber qualquer tipo de espetáculo) e, agora, a impossibilidade de realização de um dos mais importantes eventos das Artes Cênicas no interior de São Paulo. Reduzindo-se os espaços de encontros entre os cidadãos (especialmente o teatro e a sua latente função social), como fortalecer os laços de pertencimento e a sua reinvenção?

 

Campinas, considerando-se a sua importante produção tecnológica, a sua vanguarda de pesquisa em diversas áreas do conhecimento e os interessantes trabalhos de seus artistas (muitos deles referência internacional em suas áreas de atuação) poderia ser a cidade mais inventiva do Brasil. Não é. E um ocupante de cargo público que não seja capaz de reconhecer este “talento” da cidade não merece o posto que ocupa. Talvez não tenha, o dito cidadão, fruído boas obras de arte o suficiente. Resta-lhe uma certa miopia social que, tenho certo, terá a resposta das urnas no próximo pleito.

 

Reconheçamos: a cidade em que vivemos é, atualmente, aquela que ocupa os noticiários nacionais como exportadora de esquemas de lavagem de dinheiro, favorecimento em licitações, mal uso da coisa pública. Sem mais uma edição do Feverestival é mais difícil sonhar para além disto. Estamos, assim, empobrecidos.

 

Por sorte, ainda há mais: o legado das edições anteriores do Feverestival e o impulso para as próximas; os artistas de Barão Geraldo que, a despeito de tudo, ainda produzem seus próprios trabalhos e os apresentam em seus próprios eventos – o LUME, a Boa Companhia, o Barracão Teatro etc. Aí, outras sementes de imaginação e sonho na sua mais alta potência subversiva!

 

A organização do Feveresitval acertadamente marcou 2012 como a edição da “Falta” do evento. Resta-nos não assimilar esta ausência. Esta falta, enfim, precisa nos mobilizar.

Show do Carcoarco me restituiu a cidade!

Não escrevo crítica de teatro – ainda que boa parte de minha energia cotidiana esteja canalizada para o estudo desta arte. E, obviamente, não escrevo sobre música. Assim, este breve comentário sobre o show de lançamento do CD “Tem Carrêgo” (com reapresentação, hoje, às 20h, no SESC Campinas) não é leitura crítica: é elogio rasgado mesmo!

 

A mistura de referências é o que há de melhor nas rabecas brasileiras – instrumento caro ao Carcoarco. E é o que há de melhor no som do grupo. Há a versão repleta de dramaticidade de “Tico-Tico no Fubá” – um tango tupiniquim? Há o tema de Bach adaptado para as rabecas – “rabequianas” brasileiras? Há a delicadíssima versão de “Carinhosa”, de José Eduardo Gramani, “miscigenando” sons de instrumentos muitos sobre o palco… 

 

Às vezes, tenho dificuldade de apreender sentimento patriótico: ações da PM paulista, construção da Usina de Belo Monte, corrupção e indiferença, por exemplo, turvam em demasia a visão. Mas, no show de ontem, especialmente na execução de “Ouvirudum”, fantasia de Esdras Rodrigues sobre o hino nacional,  um tímido orgulho nasceu no peito. Ali, entendi que, possivelmente, a beleza da nação seja, à semelhança das rabecas, imperfeita mesmo.  E o comentário musical da canção popular em meio ao hino lembrou que o país que queremos nos escapa por uma certa distração de meninos. Ou ainda que a sociedade brasileira, a despeito das muitas tentativas canalhas do seu aprisionamento, encontra inexoravelmente a sua liberdade.     

 

 

 

Claro, sendo o lançamento de trabalho novo, há acertos a se fazer. O repertório musical e a sua execução ainda é melhor que o show como um todo. Sobretudo porque as falas dos músicos se alongam em demasia em longos intervalos entres as músicas, rompendo o ritmo da apresentação. E a pesquisa bem fundamentada do grupo pode ser ainda mais revelada ao espectador, com a exposição, por exemplo, com maior ênfase dos instrumentos pelo palco – o universo da rabeca, nesta mistura tradição/contemporaneidade gera sempre muita curiosidade. Meros detalhes. As rabecas ensinam, afinal, a intuir o belo no imperfeito.

 

O show me lembrou do grande prazer em fruir uma obra de arte, em Campinas – a última, se a minha memória não estiver sendo injusta  com outros companheiros artistas da cidade, foi na apresentação de Ivan Vilela Trio, na Cia Sarau. Ontem, assim, o show me restituiu o prazer da escolha de morar aqui.    

 

Frequentemente a cidade é deixada por importantes artistas, obrigados a procurar melhores oportunidades de trabalho em outras paragens. É o preço que se paga pelas sucessivas más gestões públicas da vida cultural de Campinas – às últimas gestões não podemos sequer dirigir críticas porque não existiram! Por isto, não raro, temos a sensação melancólica de tudo aquilo que a cidade poderia ser e não é.  Ontem, no entanto, o som foi pleno. Pudemos ser plenamente! Viva!                      

 

Serviço:
Carcoarco em Campinas
Quando: Sexta-feira (3), às 20h
Onde: Sesc Campinas 
Rua Dom José I, 270/333, Bonfim
Preços: De R$ 1 a R$ 4
Informações: (19) 3737-1500      

Sobre a Hidrelétrica de Belo Monte

 

Na semana passada, um grupo de estudantes da UNICAMP divulgou vídeo manifestando posição favorável à construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Depois, a imprensa ecoou a opinião dos universitários. Como sou um ex-estudante da mesma Universidade, acho por bem expressar opinião diversa: a UNICAMP, como o mundo, felizmente é múltipla.

 

Sou contrário à construção da usina por um motivo simples: a obra é planejada em nome de necessidades que não são as das populações banhadas pelas águas do Rio Xingu, que deverá movimentar as turbinas da hidrelétrica. Aí, a recorrência de equívocos históricos: o desprezo a populações indígenas (índios e seus descendentes) justificado em necessidades de consumo de grandes centros populacionais e comerciais. Os índios não querem a construção de qualquer usina em seu território ou nos seus arredores – aí, incluem-se aqueles que vivem distantes do local projetado para a instalação imediata das barragens, mas que se veem ameaçados diretamente pela obra, como os habitantes do Parque Nacional do Xingu. Vale dizer que a Revista Scientific American no. 44, de Portugal, traça um aterrador retrato desse parque: ainda que se mantenham intactos os territórios da reserva, como se projeta na construção de Belo Monte, implantada a muitos quilômetros dali, são grandes as ameaças que já a estrangulam, como a expansão do agronegócio, o crescimento das cidades, a violência contra seus líderes. Assim, penso que se nós, habitantes dos grandes centros urbanos, insistimos em uma determinada classe de necessidade, podemos buscar soluções para elas nos quintais de nossas próprias casas. E se outras alternativas energéticas são menos vantajosas do ponto de vista econômico, como apontam os estudantes em discutível discurso, isso só confirma aquilo que já disse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro: cedo ou tarde a insaciabilidade do desejo humano tem de ver-se com a finitude objetiva do ambiente – a escassez de recursos. A tempestade pode parecer derramada em copo d’água, têm razão alguns estudantes da UNICAMP; sobretudo, quando o copo ou o que ele representa é dos outros.

 

 

Agora, o que me interessa reconhecer, nesse texto, são os termos econômicos com os quais se debatem os rumos da nação em geral e a construção de Belo Monte em especial. Perdoem-me os bons economistas, mas, no mundo contemporâneo, é ao jargão das Ciências Econômicas que os arrogantes apelam quando já não há argumento possível para o ataque à vida – humana e não humana.

 

Vejamos isso. A construção da Usina é necessária porque o crescimento econômico do Brasil forma milhares de pessoas como consumidores, exigindo, dessa maneira, maior capacidade energética. Esse é o projeto da nação: esmero e orgulho na formação de consumidores – o que é substancialmente diverso de formar cidadãos. Isso, no mínimo, pressupõe investimento efetivo e competente em áreas outras, como a cultura, cujo Ministério que deveria fomentá-la tem o seu orçamento, inclusive o do próximo ano, frequentemente assaltado em nome das necessidades… econômicas. Mas isso é outro longo assunto, eu sei. Espanta, no entanto, que o crescimento econômico justifique as ações que impulsionarão o crescimento econômico – cobra comendo o próprio rabo! Não se questiona se a economia que se tem é a mais adequada ao desenvolvimento humano (cultural, educacional, entre outros). Há tão somente uma certeza: é preciso fazer a economia crescer! Sempre!

 

Nesse sentido, não é injustificado o temor dos líderes indígenas, especialmente os do Parque Nacional do Xingu, como o Raoni, de que Belo Monte seja apenas a primeira de uma série de obras hidrelétricas ao longo do Rio Xingu. Ora, se a urgência do crescimento econômico justifica, agora, a obra em Belo Monte, por que as urgências futuras não justificarão novas necessidades energéticas e, consequentemente, novas obras – inclusive dentro da reserva indígena, onde já se projetaram outras usinas?    

 

Esse projeto de Belo Monte, sabemos, não é do atual governo que assume a tarefa do início das obras. E inquieta justamente isso: é curioso que a Presidenta da República, outrora literalmente entrincheirada em lado oposto, lidere a consolidação de um plano de usina articulado ainda nos tempos do governo militar. Não projeto na pessoa da Presidenta essa responsabilidade – mulher cuja biografia é respeitável e admirável; ela atende, sei, a pressões sociais e econômicas. Espanto-me, porém, em verificar que a nossa líder, à imagem e semelhança de seu povo, toque adiante um plano de um governo que, antes, combatia. Estranhamente a necessidade do crescimento econômico aproxima discursos ideológicos inconciliáveis.

 

A Usina de Belo Monte, enfim, pode revelar o que está além da sua construção; é a alegoria de um modelo de desenvolvimento que se propaga como única alternativa possível. Os tempos são diversos daqueles em que militares governavam o país. Faz pouco sentido falar em ditadura. Vivemos uma democracia. Mas eu não consigo responder a mim mesmo quando foi, afinal, que nos tornamos tão pragmáticos e tão pouco sonhadores. Quando foi, enfim, que a nossa democracia tornou-se capaz de abraçar um projeto da ditadura.

 

E isso, diga-se, acontece no momento mesmo em que Europa e Estados Unidos, modelares do tipo de desenvolvimento que ora rastreamos – fundado, insisto, na formação de consumidores e não na formação de cidadãos -, estão, como se sabe, à beira do colapso. Já sonhamos ser o país do futuro. Não estava claro que o nosso futuro era o passado dos outros.

 

Talvez para alguns dos estudantes da UNICAMP não haja vida possível fora disso em que estamos: o mercado consumidor. Não os responsabilizo por isso também. Eles estão somente de acordo com o mundo e o país que os forma: são o futuro (ou o passado, dependendo da perspectiva)  e mostram que aprenderam com o seu professor o vocabulário técnico e econômico exato para perpetuar a exclusão da opinião de determinados sujeitos históricos – os índios, por exemplo. Eles sabem que as populações afetadas diretamente pela construção de hidrelétricas podem ser financeiramente recompensadas por eventuais transtornos. O que talvez não lhes tenha ocorrido é que há coisas que não se pode comprar e consumir e que algumas dessas coisas frequentemente estão fortemente associadas à terra em que se vive – ou às águas que as banham: os saberes locais, as identidades culturais; aquilo, enfim, que nos faz reconhecer que nós somos nós mesmos, não outras pessoas; que aqui, é aqui mesmo, não os Estados Unidos ou a Europa ou a Austrália ou o Canadá, como parece lamentar o professor ao fim do vídeo.

 

Quanto ao humorista que igualmente fez um vídeo satirizando a opinião alheia sobre a construção da Usina, não tenho nada a dizer. Deixo-o com a sua própria consciência. Os consumidores desse tipo de humor (e a palavra consumo é escolhida, aqui) rirão essa piada até o final.

18. “Um Homem na Estrada”

 

Encerramos com essa postagem e com a apresentação de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, hoje , no SESC Pompéia, a primeira fase do projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”. Em 18 sessões do espetáculo e em 18 postagens neste blog registramos os 18 anos da Chacina da Candelária – o trágico episódio quando, no Rio de Janeiro, policiais assassinaram oito meninos de rua nos arredores da Igreja da Candelária.   

 

A partir de fevereiro de 2012, o projeto será estendido ao interior do estado de São Paulo, em outras 18 sessões do trabalho em 7 cidades. Estas apresentações serão realizadas com recursos do PROAC – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo e serão acompanhadas de atividades outras: exposição sobre o processo de criação do espetáculo, bate-papo após a primeira sessão em cada cidade, uma oficina sobre dramaturgia de ator e outras 18 postagens neste blog com reflexões sobre a situação de rua.

 

Assim, colocamos os pés na estrada. E para celebrar os próximos passos, postamos “Um Homem na Estrada”, dos Racionais Mc’s. Nem é preciso dizer que a música deste coletivo fala fundamente aos meninos de rua de Campinas e São Paulo: tanto quanto o Realidade Cruel, os meninos ouvem muito as suas músicas, conhecem de cor as suas letras e as têm como uma espécie de trilha sonora de suas vidas.  

 

Neste sentido, notável e comovente foi o dia em que um dos meninos participantes da oficina de circo do projeto “Gepeto – Transformando Sonhos em Realidade”, da Ong ACADEC e do CRAISA, pretendeu jogar malabares ao som de “Um Homem na e Estrada”. Havia semanas, este menino deixava o uso de crack, apresentava-se como monitor-assistente da oficina de circo e retomava o contato com a família. Assim, os malabares acompanhados da música em que um homem, saído da prisão, descreve a sua mudança de vida realmente era um sinal das suas próprias transformações. 

 

Obviamente não podemos dizer que em 18 anos amadurecemos um projeto social distinto daquele que assassinou crianças e adolescentes, na Candelária. Mas, nas apresentações do espetáculo, recebemos inúmeros espectadores igualmente insatisfeitos com a ordem atual da sociedade brasileira. Os descontentes, tenho certo, ainda ajudarão a construir um mundo mais feliz.  

 

Não sei dizer o real alcance das apresentações de um espetáculo e da redação de textos para a transformação social. Mas isso, no mínimo, nos coloca em movimento e, dessa maneira, alguma relevância deve ter.  Encerramos, enfim, a primeira fase de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18”. Celebremos! Celebremos! 

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

17. Teatro Ilimitado

 

Uma verdade óbvia: “Agora e na Hora de Nossa Hora”, em cartaz no SESC Pompéia, é um solo. E, sendo assim, uma série de limitações lhe são impostas. Por vezes perguntaram-me se o assunto da peça – a Chacina da Candelária, a vida de meninos de rua -, não estaria melhor representada com a participação de outros atores, com o desenvolvimento de diferentes conflitos dramatúrgicos, com outra cenografia etc.  Não tenho uma resposta efetiva para isso. Ora, é claro que o trabalho seria outro, fosse ele criado em contexto diverso do que foi. Ainda assim, reconheço que há, no trabalho, um enfrentamento: um único homem, em cena, procurando dar conta de uma injustiça do mundo e, dessa maneira, procurando dar voz a muitas vozes. Assim, um ator coloca-se em movimento na tentativa de vencer uma limitação, a solidão em cena.    

 

Felizmente, as apresentações do espetáculo também me colocaram em contato com muitos outros trabalhos que, ao seu modo, procuram vencer situações que, num primeiro olhar, representariam uma limitação para a criação artística. Artistas que criam em situações de pobreza, de preconceitos etc. Ou ainda, artistas que precisam vencer dificuldades pessoais grandes para realizar as suas obras. Conhecer esses trabalhos, deu-me coragem para seguir investindo no meu próprio estudo. 

 

Ramesh Meyyappan é um ator surdo e mudo. Aquilo que aparentemente é limitação, em sua atuação, transforma-se em mote para poesia. Sem usar a palavra, constrói seu trabalho sobre a Mímica Moderna. Em “Snails and Katchup” apresenta  versão de “O Barão nas Árvores”, de Ítalo Calvino, encarnando a literatura em aproximadamente 1 hora de espetáculo. Não bastasse a superação de uma primeira limitação física, a poesia vencendo os “nãos” da vida, Meyyappan ainda realiza o espetáculo acompanhado de linda trilha sonora, executada ao piano, ao vivo. Assim, primeiro vence a si mesmo, expressando no corpo aquilo que não pode dizer em palavras; depois, generosamente oferece ao espectador um aspecto do espetáculo que lhe é inacessível, a música (pelo menos aos seus ouvidos). A arte é muito maior do que cada um de nós, parece ele nos dizer. O espetáculo é maior do que aquilo que o artista dá conta de conscientizar; é, enfim, aquilo que acontece não só entre artista e espectador, mas, a partir dessa relação, aquilo que se dá entre pessoa (ator, audiência) e a obra.

 

 

Nassim Soleimanpour é diretor e dramaturgo. Aos 29 anos é impedido pelo governo de deixar seu país. Nem mesmo a trabalho pode viajar para fora do Irã. Uma limitação para uma arte como o teatro, que exige presença viva de artistas diante de seu público. O dramaturgo, porém, não sucumbe ante a dificuldade. Escreve uma peça que não exige ensaios, não exige diretor, não exige cenário, nem preparo anterior dos atores: “White Rabbit, Red Rabbit”.  A cada dia, um performer recebe, no momento mesmo da apresentação, o texto que será lido. Ali, a fábula de um coelho que vai assistir a uma peça de teatro e é inadequado para o ambiente: suas orelhas são grande demais e atrapalham a visão dos demais espectadores – haverá debate mais claro sobre a exclusão? No texto, o dramaturgo envolve performer e audiência numa série de tarefas e decisões. E nos lembra: não posso estar aí com vocês que, então, são meu futuro. Temos, assim, a responsabilidade sobre nossas escolhas e, sobretudo, uma missão: fazer chegar a arte onde o artista não pôde. Por fim, o trabalho ainda abarca uma certa discussão sobre o suicídio, envolvendo decisões dos espectadores. Em, nós, a responsabilidade: somos mesmo o futuro do dramaturgo?   

 

Em “King Lear”, o ator taiwanês Wu Hsing-kuo desafia-se: sozinho pretende representar todos os personagens de “Rei Lear”, de Shakespeare. Quem conhece a tragédia shakespereana sabe que montá-la como solo é, em princípio, aceitar um fracasso: a impossibilidade de abarcar sozinho tantos aspectos humanos abordados na obra. Se não pode vencer a peça, Wu Hsing-kuo vence a si: dilata-se enormemente, encontra em si mulher, homem, velho, jovem, cego, floresta, mar. Não sei dizer o que ele fez com Shakespeare, mas posso dizer que Shakespeare o tornou grande – em momento marcante da encenação, tira figurinos e maquiagem e grita: “Eu sou Rei Lear! Eu! Eu!” E nós o acompanhamos: grandes, como todo homem; pequenos, como qualquer homem. 

 

O ator, célebre intérprete da Ópera de Pequim, ainda encontra, no seu corpo,  intersecções entre Oriente e Ocidente. Somos, assim, muito ocidentais, como Shakespeare. Somos, assim, muito orientais, como Wu Hsing-kuo.   

 

 

Arte é exercício de liberdade: revelação de sentidos que cotidianamente estão obscuros; a possibilidade de ressignificá-los; a mudança da rotina, transformação. Por vezes, no entanto, a vida que se apresenta é muitíssimo pouco afeita à libertação, envolta em circunstâncias hostis: a miséria, a polícia, as nossas muitas deficiências, a solidão.

 

As participações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” em muitos eventos possibilitaram-me um intercâmbio com muitos artistas. Aí, oportunidades incríveis de aprendizado com a experiência alheia: vencer os “nãos” da vida com os “ainda há muita coisa possível” da poesia. Vencendo circunstâncias, vencemos a nós mesmos e, no limite, vencemos, como escreve o grande Ariano Suassuna, a própria morte:     

 

Abertura sob pele de ovelha

Falso Profeta, insone, Extraviado,
Vivo, Cego, a sondar o Indecifrável:
e, jaguar da Sibila – inevitável,
meu Sangue traça a rota desse Fado.

 

Eu, forçado a ascender, eu, Mutilado,
busco a Estrela que chama, inapelável.
E a pulsação do Ser, fera indomável,
arde ao Sol do meu Pasto – incendiado.

 

Por sobre a Dor, Sarça do Espinheiro
que acende o estranho Sol, sangue do ser,
transforma o sangue em Candelabro e Veiro.

 

Por isso, não vou nunca envelhecer:
com meu Cantar, supero o Desespero,
sou contra a Morte e nunca hei de morrer.

 

Ariano Suassuna

 

Uma das minhas pelejas com a arte apresenta-se somente até amanhã no SESC Pompéia: “Agora e na Hora de Nossa Hora” encerra temporada de 18 sessões, amanhã, dia 27 de novembro. Todos são convidados! 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

 

16.A Música dos Meninos de Rua de Campinas: Realidade Cruel

 

Estamos já na décima sexta postagem de “Agora  e na Hora de Nossa Hora_18!”. Em 18 postagens nesse blog e 18 sessões de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia marcamos os 18 anos da Chacina da Candelária – quando, no Rio de Janeiro, oito meninos de rua foram assassinados por policiais. 

 

Nessa publicação, revelo uma influência essencial para o espetáculo: Realidade Cruel. O grupo de rap foi formado em 1992, na Região Metropolitana de Campinas. São célebres as músicas do coletivo criadas a partir de outras canções da MPB ou mesmo da música pop internacional.  

 

Trabalhei com meninos de rua  e com adolescentes do Internato Jequitibá, antiga FEBEM, em Campinas.  E posso dizer com absoluta certeza: poucos artistas conseguem falar tão fundamente com esses meninos como os rappers dessa banda. 

 

Assim, a música do Realidade Cruel acompanhou-me em muitos ensaios de “Agora e na Hora de Nossa Hora”. E uma delas, “Depoimento de um Viciado”, é cantarolada por Pedrinha, personagem do espetáculo.