animação

Não é crítica: “Nós”, do Galpão

Quero dizer, com espanto, que um grupo de teatro existe há quase 34 anos, no Brasi! O Galpão é um rasgo de “possível” num mundo de inviáveis. Goste-se ou não de um trabalho, há alento em saber que houve outros antes e que, oxalá, haverá outros depois. Existir, neste contexto, já não é um feito notável?

 

Quero dizer, com festa, que um povo que tem Teuda Bara deveria ser feliz sempre. Mas, no fundo, aquela liberdade toda não busca felicidade apenas, mas a intensidade inteira da vida – e nisso, sabemos, há perigos, desvios muitos.

 

Quero dizer, como quem ora, que a beleza desta mulher é admirável, assustadora, quase insuportável. Só algo do tamanho do teatro poderia acolhe-la.

 

Quero dizer, como quem medita, que não se trata de gostar ou não do novo espetáculo do Galpão – nem sei se é possível gostar sempre e inteiramente de uma obra. Não se trata de gostar ou não do teatro. Trata- se de gostar da vida. E a celebrarmos na vida desta mulher.

Polícia Mata Menino de Dez anos e Morremos Todos!

Há alguns meses, gerou comoção a imagem de um menino refugiado, Aylan Kurdi, morto quando sua família se arriscava para chegar à Europa pelo mar. Hoje, porém, a morte do menino de 10 anos, assassinado pela PM paulista passa quase despercebida. Fico espantado com o pouco espanto: a imagem do menino brasileiro parece-me igualmente icônica.

No Brasil, crianças em situação de risco social – e, no caso, pode-se dizer em situação de rua – tendem a uma certa invisibilidade. Estão fora dos limites do território daqueles que “valem a pena”. Assim, não se poderia esperar outra coisa senão a negação desta morte como acontecimento revelador de nossa conduta como sociedade.

É verdade houve manifestações contrárias à PM, como se fosse ela, e somente ela, a responsável pela barbárie. Faço coro no manifesto contra a truculência da PM de São Paulo que, capitaneada pelo governador Geraldo Alckmin, dá espetáculos de horror: criminalizando movimentos sociais e estudantis, matando gente pobre na periferia, apresentando-se como o braço armado do Estado que garante esta linha divisória entre os que “valem” e o que “não valem a pena”.

No entanto, no caso de crianças e adolescentes em situação de rua, pode-se dizer que isso não é tudo. A polícia, aceita a tarefa social de apertar o gatilho, mas é preciso reconhecer que há uma sociedade conivente e que de certa maneira pressiona aquele que dispara o tiro. Não há política pública para lidar com esses meninos e meninas. No contato com eles, vamos nos revelando como nação: o país do futuro nega aqueles que são justamente o futuro. A única política pública, aqui, é a polícia. Assim, o Brasil vai construindo a sua própria Faixa de Gaza, onde a solução possível parece ser a bala ou a bomba.

Não reconhecer a nossa parte neste quinhão de violência, atribuindo toda a responsabilidade à decisão do policial que dispara o tiro, é o mesmo que tentar salvar o menino refugiado depois que o barco já virou. Seria imensamente mais fácil e efetivo conhecê-lo antes de sua família decidir pela travessia arriscada do mar.

Se o país se levasse a sério, todos estaríamos parados, hoje. Assim, veríamos a nós mesmos refletidos neste espelho que é a imagem de um menino de dez anos morto num automóvel. Se desejamos algum futuro, nada é mais urgente que garantir o direito à infância. Nada.

Saudades

Terminamos, hoje, em Pereira Barreto, um roteiro de apresentações do espetáculo “OE” por cidades com grande influência de comunidade nipo-brasileiras: Marília, São Paulo, Mirandópolis, Registro, Araçatuba, Campinas, Pereira Barreto. A circulação foi viável graças ao financiamento do Proac – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo e a parcerias diversas (secretarias municipais de cultura, grupos de teatro, comunidades, SESC Campinas etc).

 

Em cada cidade, senti que apresentava para amigos do meu avô. Sensação análoga àquela que vivi no Japão: temos raízes que nos empurram para futuros.

 

Nunca me reconheci como japonês: não falo o idioma, não tenho hábitos, não convivo com a cultura. No Japão, porém, ao pisar no Aeroporto de Narita, chorei copiosamente. “Que saudades eu sentia de um lugar que eu não conhecia”, pensava. E concluí: “o Japão é do outro lado do mundo. O Japão é dentro da gente.”

 

Nesta circulação, realizei o tamanho da importância da cultura nipônica para a cultura brasileira e para a cultura paulista, em especial. Assim, entendi: o Japão também está sempre do lado da gente!

A Volta para Casa

Hoje, apresentamos “OE” em Campinas, cidade onde resido. A peça de Cássio Pires é dirigida por Marcio Aurelio e é inspirada na obra de Kenzaburo Oe. A apresentação, hoje, tem gosto de aconchego: o retorno ao lar.

 

Espantosamente, durante o processo de criação do espetáculo, experimentei algo semelhante, durante o estágio que realizei no Kazuo Ohno Dance Studio, no Japão. Nunca antes eu havia me reconhecido como japonês. Ao contrário dos nipônicos, ansioso, sempre acreditei que precisava meditar muito para que meu espírito assentasse no corpo. Do outro lado do mundo, senti uma calma inesperada e vi as coisas do avesso: o corpo alcançava um espírito que habitava terras distantes.

 

Estamos voltando para casa. E, como diz a letra da música pop japonesa, a casa está sempre chamando.

Silêncio

Não escrevo neste blog há muitos meses. Ocupava-me das criações: do teatro e da vida.

 

Neste tempo, estreamos e apresentamos em oportunidades muitas “OE”, peça de Cássio Pires, com direção de Marcio Aurelio. O espetáculo foi criado a partir da obra de Kenzaburo Oe: o escritor japonês que, em diversos momentos da sua obra, trata da sua relação com um filho nascido com deficiência intelectual.

 

Neste tempo, estive no Kazuo Ohno Dance Studio, em Yokohama, no Japão, para aprender com Yoshito Ohno de que maneira seu pai, Kazuo Ohno, um dos criadores da dança butô, continua vivo.

 

Neste tempo, eu mesmo tornei-me pai.

 

Tempos intensos, tempos felizes. Ali, onde as palavras faltaram e sobraram experiências. Silêncio: a vida está nos fazendo.

Comentários: Comentários desativados em Silêncio

Butô é a vida!

 

Eu sempre pensei que Butô fosse uma forma japonesa de dança. Hoje, porém, no Kazuo Ohno Dance Studio, entendi: Butô é a vida. E como dança bonito a vida! 

“OE”: a viagem de fundação de um espetáculo

 

“OE” é um processo de estudo que, em breve, deverá levar à criação de um novo espetáculo com minha atuação, direção de Márcio Aurélio, dramaturgia de Cássio Pires, orientação corporal de Ciça Ohno e Toshi Tanaka, produção de Daniele Sampaio e apoio teórico de Suzi Frankl Sperber.  

 

 

O trabalho é inspirado na obra do escritor japonês Kenzaburo Oe – laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1994 -, especialmente nas interações entre o autor e seu filho mais velho, nascido com hérnia cerebral, Hikari Oe. 

 

“OE” é também um estudo empreendido por mim acerca das relações entre trocas culturais e a criação cênica. Em alguns de meus trabalhos, toma-se um mergulho na mestiça cultura brasileira (“intraculturalidade”) como um equivalente, ainda que diverso em princípios, de abordagens norte-européias da “interculturalidade” no teatro. Se os artistas do chamado Mundo do Norte com frequência procuram, na aproximação de culturas diversas, elementos comuns, nas criações em que participei vê-se o inverso: a revelação da pluralidade que há na aparente unidade identitária de um povo.

 

“OE” provoca-me num novo mergulho, ao mesmo tempo intracultural e intercultural: como neto de japoneses converso com a minha própria história; como brasileiro, viajo para o Oeste do Globo terrestre, no Japão. Embarco para uma primeira prospecção de pesquisa em terras nipônicas, lá permanecendo de 08 a 23 de fevereiro de 2014. Ali, entre muitas atividades de estudo e intercâmbio, participo de sessões de trabalho com Yoshito Ohno, no Kazuo Ohno Dance Studio.  

 

O Japão é do outro lado do mundo. Porém, como o sertão roseano, “é dentro da gente”.  

 

Contra o crack é preciso mais que balas

Ontem, a mais nova ação da polícia de Alckmin, na Cracolândia paulistana, quase põe a perder a única política pública decente dos últimos anos na região – a Operação de Braços Abertos, da Prefeitura de São Paulo.

 

O que dirá o governador sobre a sua desastrosa polícia? Caso afirme que a ordem para a atuação da Polícia Civil partiu de seu gabinete, entenderemos de uma vez por todas que a sua política social se faz na base da bala – e só! Caso a polícia tenha atuado sem o seu conhecimento, entenderemos, enfim, que o governador não tem controle algum dos homens armados que comanda – o que é igualmente assustador. Em ambos os casos, o governo Alckmin, que no ano passado capitaneou uma ineficaz e violenta ação na Cracolândia, deixa bem claro que a mão armada tem amplos poderes na sua gestão. Jamais nos esqueçamos disso. A minha avó, se estivesse viva, sabiamente diria: “Ajuda muito quem não atrapalha!”

 

Para ver a matéria sobre a ação da P´licia na Cracolândia, veja o link: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/01/1402155-confronto-na-regiao-da-cracolandia-deixa-usuarios-de-drogas-feridos.shtml

Pelo Amor de Deus!

 

Amigos evangélicos (e eu tenho muitos e queridos), por amor a Deus, expressem o mais veemente repúdio a atuação do deputado Marcos Feliciano à frente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Gritem o tamanho da vergonha que é (ou que, no mínimo, deveria ser) para os evangélicos este projeto de lei da “cura gay”.

 

Este importante momento para o país é oportunidade para que os evangélicos façam também história, concretizando em ação a palavra do Cristo. O Verbo encarnado. Afinal, “amar o próximo como a si mesmo” não significa amá-lo porque (e somente porque) o outro é um igual a mim. Significa que ambos são iguais diante de Deus, Sua imagem e semelhança. Digo, a dignidade humana, orientada pelas mais diversas opções de vida, atrás de si tem respaldo da Dignidade Divina. Ver Deus na diferença, onde menos se espera encontrá-Lo, é prova inconteste da fé no Seu amor (onipresente, onipotente). Respeitar escolhas é aposta absoluta na fundamental faculdade conferida por Ele ao homem: o livre arbítrio.

 

Não aceitar o absurdo desta lei, que torna doença o exercício das opções de cada homem (insisto: potência conferida por Deus), é ser mais cristão que nunca. Não esperemos que sejam necessárias leis de cura evangélica, budista, católica, islâmica, judia para que, enfim, não se projetem sobre um Estado Laico os fundamentalismos de pequenos grupos que não representam os ensinamentos dos grandes líderes espirituais da humanidade.

 

E, sendo budista, digo: não terá os meus voto e apoio alguém que por ventura pretenda criar leis constitucionais baseadas nos ensinamentos do Buda. Porque, enquanto que as primeiras servem para o convívio dos homens e as suas diferenças, sendo, portanto, históricas e mutáveis, as palavras que aprendo do Buda são eternas (porque simplesmente falam de um respeito ao humano, como nos ensinos de Cristo, que não se questiona jamais!). Converter uma coisa na outra não é só perigoso do ponto de vista político. É também reduzir a fé e, portanto, traição.

Lei de Fomento às Artes da Cena de Campinas

Um respiro no dia em que a PM foi mais PM do que nunca, em São Paulo: na cidade de Campinas, a noite de 13 de junho de 2013 foi histórica! Oposição e situação, poderes executivo e legislativo, poder público e sociedade civil debateram a necessidade da criação de uma Lei de Fomento às Artes da Cena, na cidade. O Plenário da Câmara dos Vereadores esteve cheio! A luta ainda é grande, mas a noite foi de esperança!

Não são R$0,20!

Um senhor vai a um dos telejornais de maior audiência no país para protestar contra um protesto: aquele que se opõe ao aumento da tarifa do transporte público de São Paulo. Segundo ele, trata-se de um movimento de classe média – e não de trabalhadores, como se poderia supor – , que se apóia num discurso “caricato” de “velha esquerda” para recusar o aumento de apenas R$0,20 (por matemática simples e considerando-se 30 dias no mês sabe-se que o aumento não é de centavos). Assim, ele acaba defendendo a ação do prefeito no aumento da passagem: um intelectual filiado a um partido de esquerda! O atabalhoamento do raciocínio (que só não é mais absurdo que a ação do prefeito que deu origem a tudo isso e, sendo de esquerda, deveria defender e não atentar contra os interesses dos trabalhadores) só revela uma coisa: a organização popular tira o sono de muita gente!

 

Em apenas uma coisa estamos de acordo: ninguém, nem nas ruas e nem no telejornal, vale R$0,20. A vida humana, digo, a sua dignidade, não se mede em valores monetários, sejam eles quais forem.

Eldorado em Vigo

 

Estamos na Espanha, onde apresentamos “Agora e na Hora de Nossa Hora” (com minha dramaturgia e direção Verônica Fabrini) e “Eldorado” (com direção de Marcelo Lazzaratto e dramaturgia de Santiago Serrano) na Mostra Internacional de Tetro Universitário de Ourense – MITEU. A mostra é anual e, além de trabalhos de estudantes do ensino superior, apresenta trabalhos profissionais convidados – onde estamos incluídos. Enquanto que o primeiro trabalho será levado à cena hoje, às 23h no Auditório Municipal de Ourense, o outro foi apresentado em Vigo, também no seu Auditório Municipal, no dia 17, às 21h.

 

A apresentação de “Eldorado”, dois dias atrás, foi um pequeno milagre. Não me refiro à qualidade da minha atuação ou do espetáculo como um todo – que, diga-se, foi bastante favorecido pelo bonito teatro. Refiro-me aos pequenos encontros possíveis à vida e ao teatro. Depois de atravessarmos o Atlântico para as apresentações, aqui, encontramos o dramaturgo de “Eldorado”, Santiago Serrano. Ele estava, antes, em Grenoble, na França, onde participava de colóquio sobre dramaturgia. Depois, a passeio, estava em Lisboa. Dali, veio assistir à primeira estreia internacional do espetáculo.

 

A casualidade já seria grande – encontrar tão distante e de maneira não planejada um parceiro fundamental do trabalho. Mas não foi tudo. Nesta cidade, Serrano esteve, há quatro anos, acompanhado do ator argentino Jorge Rodriguez. O ator, falecido há exato um ano, foi companheiro de vida e de criações de Serrano. Os dois estiveram em Vigo justamente porque gostariam de conhecer a terra dos pais de Jorge, sua história de vida, suas raízes – sua família emigrara de um pequeno povoado próximo a Ourense para a Argentina, onde Jorge nasceu.

 

 

A magia da vida preencheu de significados o texto de Santiago: “Você está pensando o mesmo que eu?”, pergunta o personagem cego da peça. “Sim, é minha terra, a terra de minha mãe! Mas por que é que eu volto aqui? Sempre acontece a mesma coisa! Eu tenho que deixar o passado para trás, mas ele está sempre na minha frente!”, completa.

 

Às vezes, o teatro insinua à vida a sua própria face. Outras, é a vida mesmo que nos ensina a estar no palco.    

 

Aicha Haroun Yacoubi na UNICAMP

Eduardo Okamoto e Verônica Fabrini organizam leitura encenada da peça “Ghita”, de Aicha Haroun Yacoubi, seguida de palestra da autora marroquina acerca da “Dramaturgia Feminina no Magreb”.  O evento realizar-se-á no Departamento de Artes Cênicas da UNICAMP, na sala AC03, no dia 14 de novembro de 2012, às 18h30. A entrada é franca.

 

Aicha Haroun Yacoubi é professora em Agadir (Marrocos), dramaturga, cineasta e, ocasionalmente, atriz. É também a primeira marroquina a trabalhar com o teatro de expressão espanhola. Desenvolve seu trabalho em um ambiente pessoal e profissional repleto de dificuldades, provavelmente inimagináveis para os brasileiros. Isso não a impediu de idealizar, realizar e presidir júris de Festivais Internacionais e de ter conseguido conquistar, com suas obras, o público da Europa, e de alguns países da América Latina. Aborda, em seu trabalho, identidades fronteiriças, complexas (marginalidade, infâncias traumáticas etc.). Seus trabalhos costumam ter um evidente caráter experimental, tanto em termos dramatúrgicos quanto em termos cênicos.

 

Eduardo Okamoto e Verônica Fabrini e conheceram Aicha Haroun Yacoubi, em 2007, quando apresentaram “Agora e na Hora de Nossa Hora”, solo de Okamoto com direção de Fabrini, em um festival em Agadir. Depois, em 2010, Okamoto dirigiu seu texto, “Ghita”, com atuação dos alunos da Escola Superior de Arte Célia Helena. Algumas das alunas envolvidas nesta montagem, atrizes d’As Bárbaras Multeatro, decidiram retomar o trabalho profissionalmente e Eduardo Okamoto as orientou a convidar a própria Aicha para dirigir o texto. O projeto, enfim, foi contemplado com recursos do Prêmio Myriam Muniz, do Ministério da Cultura .

 

Programação:
Leitura de “Ghita”, de Aicha Haroun Yacoubi
Uma mulher num hospital psiquiátrico. Algo em sua monótona rotina de clausura desencadeia um processo frenético e irreversível em que o labirinto da memória a conduz por descobertas aterradoras sobre si própria, a mãe, a irmã caçula, os avós, o pai e um misterioso militar aleijado.

 

Palestra de Aicha Haroun Yacoubi: “Dramaturgia Feminina no Magreb”
Estudos sobre a presença feminina no teatro de Marrocos, Argélia e Tunísia. Em sua tese de doutorado, desenvolvida na Universidade de Granada, a autora contabiliza menos de uma dezena de mulheres a escrever para teatro nestes países. Em anexo, um e-flyer de divulgação.

 

Serviço: Aicha Haroun Yacoubi na UNICAMP
Dia: 14 de novembro de 2012
Hora: 18h30
Local: Departamento de Artes Cênicas da UNICAMP/ Sala AC03
Endereço: Rua Pitágoras, 500. Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP
Informações: (19) 3521-2444
Entrada franca

Apresentação de “Chuva Pasmada” no Lume Teatro Tem Gosto de Volta para Casa

 

Chuva Pasmadacom Eduardo Okamoto e Alice PossaniTexto original: Mia CoutoDramaturgia: Cássio PiresDireção e Iluminação: Marcelo LazzarattoFigurinos e Cenografia: Warner ReisTrilha Sonora: Michael GalassoArte Gráfica: Alexandre CaetanoFotografia: Fernando StankunsProdução: Daniele Sampaio e Grupo Matula Teatro

 

“Chuva Pasmada”, parceria entre mim e Alice Possani, atriz do Grupo Matula Teatro, é dirigido por Marcello Lazzarato, professor do Depto. de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Nós dois nos formamos neste departamento, onde também desenvolvemos trabalhos de pós-graduação, e ainda hoje residimos em Barão Geraldo – distrito onde se localiza a UNICAMP. Por fim, ainda passamos longos períodos de treinamentos e estudos da atuação com o LUME – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da UNICAMP. Por tudo isso, apresentar na sede do Lume Teatro tem gosto especial: o aconchego do retorno às origens.

 

Espantosamente, a despeito da grande quantidade de importantes trabalhos cênicos criados na cidade de Campinas, com frequência os seus cidadãos têm pouco acesso à esta produção. Isso, claro, é fundamentalmente explicado pelo grande e descabido descaso dos gestores públicos da vida cultural da cidade que, nos últimos anos, nem mesmo tiveram competência para manter abertos os seus teatros públicos. Atualmente, Campinas, cidade que tem mais de 1 milhão de habitantes, não possui uma única sala pública em condições de receber adequadamente um espetáculo teatral. Este contexto, no limite, obriga artistas de Campinas a procurar espaços e melhores condições de apresentação em outra paragens. Não raro, importantes artistas e coletivos de artistas formados e radicados na cidade optam por viver em outra localidade mesmo.

 

O resultado de tamanho absurdo é que o cidadão campineiro não pode fruir os bens simbólicos produzidos no próprio local onde vive. O cidadão, enfim, não vê representado como ficção (como realidade extraordinária) a sua própria vida cotidiana (a realidade ordinária). Muitos estudioso (entre eles a importante Profa. Dra. Suzi Frankl Sperber, também da UNICAMP) apontam que é o ato mesmo de produzir ficção que atribui sentido ao vivido. Ou, como nos diz o personagem de “Mar Me Quer”, de Mia Couto, “homem que não sabe contar história nem chega a ser pessoa”. A vida permanece, assim, em suspensão, como aquela água suspensa que, em “Chuva Pasmada”, também do escritor moçambicano, não se realiza em sua potência de chuva, permanecendo promessa.

 

Por tudo isso, a apresentação de “Chuva Pasmada” em Campinas é celebração! É um espetáculo voltando para casa. São os seus criadores apresentado no solo que escolheram como morada. É a partilha de uma obra com espectadores que compreendem o contexto em que ela foi gerada. Que essa chuva abra ainda mais movimento. Que, ao final da peça, possamos fazer como os seus personagens: agradecer!

 

Serviço: “Chuva Pasmada” no Lume Teatr0
Com Eduardo Okamoto e Matula Teatro
Dias 19 e 20/09 às 20h
Endereço: Rua Carlos Diniz Leitão, 150 Vila Santa Isabel – Barão Geraldo
Telefone:19 3289 9869
R$ 10,00 e R$ 5,00

O que vemos na Polônia: “Nieskończona Historia”

 

A última apresentação que vimos no 14. Międzynarodowy Festiwal TEATROMANIA – onde, no dia 25 de maio, apresentamos “Agora e na Hora de Nossa Hora” – foi „Nieskończona Historia.” – em português remete a algo como “História Infinita”. O espetáculo é dirigido por Piotr Cieplak (que, segundo me disseram, é um dos mais respeitados diretores poloneses da atualidade), à frente da companhia estatal do Teatr Powszechny im, de Varvósvia.

 

A fábula do espetáculo é simples: residentes de um mesmo conjunto habitacional, depois da morte de uma antiga moradora, reúne-se numa área comum (espécie de salão comunitário) e indagam-se sobre limites de vida e morte. O que interessa, parece, é menos o que se conta e mais o como se conta. Um conjunto afinado de atores, em incrível coro, não apenas “encarnam” personagens, mas ajudam, a narrar a fábula em composições diversas, com bonitas partituras corporais e vocais.

 

Por muitos aspectos o trabalho me remeteu às criações do célebre diretor polonês Tadeusz Kantor – especialmente à sua “Classe Morta”: a movimentação dos atores, próxima a de marionetes; a composição atoral mais afeita ao coro que a criação de sujeitos como indivíduos; um ator-personagem por diversas vezes atuando com uma espécie de regente em cena.   

   

 

Depois do espetáculo, arrumamos nossas malas e, enfim, voltamos ao Brasil. Foram seis dias entre preparativos para uma apresentação “Agora e na Hora de Nossa Hora”, intercâmbio com outros artistas, muita conversa. Vimos seis performances de espetáculos poloneses. E, claro, já sentimos muita, muita saudade!  Dias intensos, inesquecíveis.