animação

32 – Rua com Saída: Mano a Mano

 

Em outras postagens, já afirmei a rua como construtora de uma sociabilidade outra – o que é diverso de considerá-la somente como desconstrutora de sociabilidades. A rua, em trânsitos e aventuras, ajuda a moldar uma visão de mundo daqueles que nela habitam. Por isto, as ações que se dirijam a esta população, devem levar em conta outras formas de viver para além do modelo de quem mora em casa – construindo, assim, a coerência das suas relações. Caso contrário, já sabemos, limitamo-nos a atividades ineficientes e à violência – as ações que restringem o Estado ao seu poder de polícia são exemplares neste sentido.     

 

O diálogo identidade/alteridade, diga-se, nunca é tarefa simples: pressupõe que se considere que não há modelo único para o humano; pressupõe abertura para a trocas de afeto; pressupõe partilha de visões de mundo. Não por acaso, um dos projetos sociais mais interessantes que conheci, em Campinas, o Mano a Mano, tem origens no trabalho de uma antropóloga: Simone Frangella. 

 

O grupo Mano a Mano usa elementos de arte-educação – leitura, desenho, expressões corporais e música – para estabelecer um diálogo com crianças e adolescentes moradores de rua, visando conduzi-los à reflexão sobre si mesmos e o mundo, seu espaço e suas potencialidades. As atividades são organizadas por voluntários, sendo grande parte deles estudantes da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP.  

 

Realizada no centro da cidade de Campinas, esta “pedagogia das calçadas” pressupões mais que a ação educacional com meninos e meninas de rua. Inclui uma certa visibilidade destes meninos para a população que frequentemente não os vê – ou finge que não os vê. Inclui uma certa mediação entre o cidadão que mora em casa e o cidadão que mora na rua. Inclui uma certa mediação entre o Estado e as suas instituições (como a polícia) e a população de rua. Inclui, enfim, a percepção de que a rua é local de encontro dos muitos modos de viver que a cidade abriga, sendo potencialmente, assim, espaço de exercício pleno da alteridade.    

 

Para saber mais, a linda dissertação de mestrado de Simone Frangella sobre meninos e meninas de rua de Campinas (“Capitães do Asfalto”) está disponível para download aqui. Seu trabalho de doutoramento, sobre a população de rua adulta de São Paulo pode ser acessada aqui.    

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675  

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Bytom (Polônia)
Teatromania 2012
Mais informações: http://www.teatromaniafestiwal.pl/ 


 

31 – Rua com Saída: SER

 

Estamos próximos de um fim: no dia 18, em Limeira, encerramos o projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”, registrando com apresentação de espetáculo, postagens neste blog, exposição e debates, os 18 anos da Chacina da Candelária. Assim, aproveito, as últimas inserções neste espaço virtual (18 postagens paralelas às 18 apresentações na capital e outras 18 paralelas às 18 sessões no interior) para divulgar ações de diálogo com meninos e meninas em situação de rua.

 

Começo pelo projeto “Se Essa Rua Fosse Minha” – SER. O projeto surgiu na década de 1990, mobilizando o poder público e sociedade como um todo para os direitos de meninos e meninas moradores de rua. Justamente após a Chacina da Candelária, o projeto tem ampla divulgação, com o sociólogo Hebert de Souza liderando um grupo de artistas que, gravando um disco, arrecada fundos para uma ação sistemática junto a esta população de rua.      

 

O SER foi pioneiro no uso do circo como instrumento de transformação social – o Circo Social. Os princípios do trabalho repousam numa busca de potencializar a linguagem corporal (em dimensões física e simbólica- psicofísicas, portanto) de meninos e meninas em situação de rua. A partir de parcerias com importantes coletivos cênicos cariocas (a Intrépida Trupe e o Teatro de Anônimo), o projeto deu os primeiros passos na sistematização destas ações. Depois, estas ações fundamentaram a criação do programa Cirque du Monde –  parceria do SER com o Cirque du Soleil e a ONG Jeunesse du Monde. Este programa, assim, permitiu que uma tecnologia social pudesse ser partilhada em diversas cidades do brasil e mesmo nos cinco continentes.

 

Quando de minha visita ao Rio de Janeiro (estada que fundamentou a criação de “Agora e na Hora de Nossa Hora”), fui recebido pelos atores do Teatro de Anônimo e pelo SER. Ali, conheci e me encantei com o projeto. A capacidade de partilha da experiência acumulada na educação não-formal de meninos de rua com outros projetos já seria motivo o bastante para o encanto. Não bastasse isto, foi lindo constatar que muitos meninos, saídos das ruas, atuam como multiplicadores do trabalho, sabendo muito de circo, muito de rua, mais ainda de vida!

 

Hoje, as atividades do projeto são muitas – todas complementares umas às outras. Há ações que se dão nas ruas, com a aproximação de meninos e meninas moradores de rua. Há oficinas de linguagens artísticas diversas em diferentes casas-sede do projeto. Há atividades junto à instituições e autoridades políticas na luta pela garantia de direitos da população de rua. Há a partilha de saberes.

 

Para saber mais: <http://www.seessarua.org.br/>.          

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675  

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Bytom (Polônia)
Teatromania 2012
Mais informações: http://www.teatromaniafestiwal.pl/ 


 

30 – Lençóis Paulista: a cidade do livro

 

Estamos na linda cidade de Lençóis Paulista. Localizada na região Centro Oeste do Estado de São Paulo, o município tem uma população de aproximadamente 60.000 habitantes e ocupa uma área territorial de 808 Km2. Encanta, aqui, a ênfase dada por seguidas gestões públicas às atividades culturais e educacionais. 

 

Lençóis Paulista é cognominada “A Cidade do Livro”, possuindo uma das maiores bibliotecas do interior de São Paulo, a Biblioteca Municipal Orígenes Lessa. Há ainda outras duas bibliotecas em bairros afastados do centro e a Biblioteca Infantil Monteiro Lobato. Um dos orgulhos dos profissionais que trabalham nestas bibliotecas é apresentar uma linda estatística: as bibliotecas públicas possuem mais de cem mil livros. Isto significa que a relação livro por habitante é uma das maiores do Estado, já estando a cidade bem próxima da meta recomendada pela UNESCO (dois livros por habitante). Para se ter uma ideia do que isto significa, a rica capital paulista tem a média de 0,22 livros em bibliotecas públicas por habitante.    

 

Ainda há mais: o Espaço Cultural Cidade do Livro – onde, ontem e hoje, apresentamos “Agora  e na Hora de Nossa Hora” – tem espaço específico para a recuperação de volumes raros e preservação de documentos históricos. Além disto, um festival literário anual reúne em cada uma das suas edições mais de 20 mil pessoas, envolvidas em atividades diversas, incluindo a aquisição de livros a partir de R$0,50 e trocas de encadernações.   

 

Seria muito já, considerando-se o contexto brasileiro, que uma cidade desenvolvesse tantas atividades de formação de leitores (os índices de analfabetismo, aqui, são próximos de zero). Isto, porém, não é tudo. São muitas atividades de teatro, dança, artes plásticas, cinema etc. O Diretor  de Cultura Nilceu Bernardo já prevê a realização diária de eventos culturais até novembro de 2012.

 

No campo do teatro especificamente, em março, realizou-se uma mostra com grupos vindos de diferentes localidades paulistas. Além disto, ao longo do ano, são acolhidos muitos espetáculos contemplados pelos editais do PROAC e o Circuito Cultural Paulista tem trabalhos programados aqui também. As apresentações, por ora, acontecem na Casa de Cultura Profª. Maria Bove Coneglian e no Espaço Cultural Cidade do Livro. Porém, um Teatro Municipal já tem obas em andamento, com conclusão prevista para o fim deste ano ou início do próximo.

 

Assim, não poderia ser diferente, encontramos em Lençóis um público talentoso, que sabe jogar o jogo do teatro. Em muitas localidades já fizemos apresentações com públicos formados majoritariamente por grupos escolares. Estas apresentações, não raro, são ansiosas, com muita excitação de estudantes que nunca ou ainda muito poucas vezes assistiram a uma obra teatral. Ontem, tivemos experiência oposta: um grupo de estudantes compareceu a apresentação e fruiu o espetáculo, ajudando-nos a construí-lo passo a passo. Isto, claro, é resultado de trabalho.       

 

Estamos felizes! A pequena cidade de Lençóis Paulista acolheu-nos calorosamente. A “Cidade do Livro”, em pouco tempo, poderá ser a “Cidade da Cultura”.

 

Seguimos o nosso périplo: hoje, mais uma apresentação em Lençóis; na próxima sexta-feira, estaremos em Limeira.  Depois, já sabemos todos, seguimos para a Polônia, na cidade de Bytom!    

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Lençóis Paulista 
11 e 12 de maio, às 20h 
Espaço Cultural Cidade do Livro
Rua Pedro Natálio Lorenzetti, 286
Informações: (14) 3263.3123

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675  

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Bytom (Polônia)
Teatromania 2012
Mais informações: http://www.teatromaniafestiwal.pl/ 

 

29 – “Agora e na Hora de Nossa Hora” na Polônia

 

 

 

Em 18 de maio, encerramos as apresentações de “Agora e na Hora Nossa Hora” inseridas no projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”: em 18 sessões do espetáculo na capital  e em 18 sessões em 07 cidades do interior paulista, teremos registrado os 18 anos da Chacina da Candelária. Aproximadamente dois dias depois, a equipe do espetáculo embarca para a Polônia, onde o trabalho será apresentado, dia 25 de maio, no 14. Miedzynarodowy Festiwal Teatromania, evento internacional de Artes Cênicas, realizado na cidade de Bytom.

 

O convite para a apresentação no festival é fruto de outra participação em evento internacional: em agosto de 2011, “Agora e na Hora de Nossa Hora” foi apresentado no Edinburgh Festival Fringe, na Escócia. Nossa temporada escocesa compreendeu 15 apresentações no Remarkable Arts e foi organizada em parceria com o produtor Pedro de Freitas, da Périplo Produções.  Ali, recebemos críticas, tivemos experiências marcantes, conhecemos trabalhos e pessoas. Uma delas foi justamente a curadora do festival que, agora, nos faz atravessar o Atlântico mais uma vez.   

 

Teatromania é organizado pelo Bytomskie Centrum Kultury – BECEK, uma das mais importantes instituições culturais do sul da Polônia. Em sua décima quarta edição, o festival acontece de 17 a 27 de maio e tem programados espetáculos de Hong Kong, Brasil, Alemanha, Espanha, Ucrânia e Polônia. Nas edições anteriores, o festival recebeu importantes artistas do teatro mundial, como Familie Flőz (Alemanha), Derevo (Rússia) e Claire Cunningham (Reino Unido). 

 

Além de constituir um espaço de apresentação de obras artísticas, o festival abre-se como possibilidade de intercâmbio, incluindo atividades formativas, como debates. Por fim, o festival também recebe produtores de diferentes partes do mundo, aproximando-os de artistas com origens igualmente diversas.

 

Como em outras experiências do espetáculo no exterior (Espanha, Marrocos, Kosovo, Suíça, Escócia), estamos relendo-o, visando maior potencial de diálogo com o público polonês. Assim, incluir-se-ão palavras e frases em inglês e também em polonês. Além disto, pela primeira vez, pretende-se legendar o espetáculo. Ainda que em outras apresentações internacionais tenhamos apostado fundamentalmente na capacidade expressiva do corpo, principal suporte de criação desta obra, os organizadores do evento sugeriram a sua legendagem. Para eles, a despeito do corpo bem retratar o universo das crianças de rua do Brasil, a legenda em polonês poderá ajudar que se aprofundem debates importantes sobre o espetáculo – especialmente aqueles sobre os fatos históricos da Chacina da Candelária.

 

As malas, assim, estão prontas. Próximas paradas: Lençóis Paulista, Limeira e Bytom!    

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Lençóis Paulista 
11 e 12 de maio, às 20h 
Espaço Cultural Cidade do Livro
Rua Pedro Natálio Lorenzetti, 286
Informações: (14) 3263.3123

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675  

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Bytom (Polônia)
Teatromania 2012
Mais informações: http://www.teatromaniafestiwal.pl/ 

 

28 – Teatro, efemeridade e desespero

 

Depois de uma breve pausa nas andanças do projeto “Agora e na Hora de Nosa Hora_18!”(18 sessões do espetáculo “Agora e na Hora de Nossa Hora” em 07 cidades do interior paulista, registrando os 18 anos da Chacina da Candelária), voltamos à estrada. Assim, nos dias 11 e 12 de maio, às 20h, o trabalho será apresentado em Lençóis Paulista, no Espaço Cultural Cidade do Livro. E no dia 18 de maio, o espetáculo tem duas sessões em Limeira, às 19h e 21h, no Teatro Vitória.

 

Neste período de pausa, aproveitamos para preparar as próximas apresentações, sonhar e ensaiar novas produções, descansar – ninguém, afinal, é de ferro! Em momento de descanso, em show do músico Marcelo Jeneci, inesperadamente pensei em trabalho. A música, canta ele, “Não é sua nem de ninguém / Te invade, te assalta e te faz refém”. Ao ouvir isto, fui mobilizado por uma certa inveja dos artistas músicos: porque diferentemente deles, a minha obra jamais poderá ser inteiramente apartada de meu corpo.

 

A música é partilha de vida; é borboleta, como escreve Jeneci. Uma nota se entoa aqui, e logo se espalha pelo mundo. O público pode conviver com a obra: preenche-la de significados infinitos e, depois, indefinidamente significar mais e mais. Um homem que ouviu a canção e lembrou do amor da vida perdido para sempre. O outro que, no instante exato que voltou a ter a mulher amada nos braços, lembrou de uma melodia. Um terceiro que, dançando o corpo embalou os pensamentos: aquilo, afinal, não era amor. E a moça bonita que ensaiou poses em frente ao espelho, antes do baile. A criança que, confundindo versos, inesperadamente tornou a música de morte a maior alegria da face da Terra. A senhora que faxinava a casa e, ouvindo rádio, lembrou saudades do filho, esperou seu retorno, sonhou futuros, reinventou passados. A música pode, enfim, sendo uma, ser muitas: caleidoscópio.

 

Como ator, e atuando em teatro sobretudo, jamais poderei ver o que produzo. Ajo e fantasio: que as ações no palco possam dar o pontapé inicial para uma imaginação coletiva. Aí uma potência: todos juntos podemos o impossível. Depois, nostalgia: acaba a peça e não se pode levar nada para casa. É possível, sei, levar o DVD com o registro da peça, o cd com as canções entoadas pelos atores, o livro que fala de seu processo de criação.  Nada disto, no entanto, é teatro. Tudo é somente lembrança daquele instante fugidio (um “instante já”, como escreve Clarice Lispector) em que todos juntos imaginamos. Ao ator, não sendo possível multiplicar-se nas vidas muitas das pessoas, acompanhando-as, restará multiplicar vidas em si, “caleidoscopiando” a si mesmo. Integração e multiplicidade.

 

Este certo desespero silencioso (aquele de construir o que é feito para imediatamente acabar) me leva a procurar outras formas de reflexão: os trabalhos acadêmicos, a escrita de livro, postagens neste blog, cursos, palestra. A tentativa de estender contato.

 

Neste “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” isto é ainda mais evidente. As apresentações todas são acompanhadas de atividades paralelas: bate-papo, exposição, divulgação de livro sobre minha interação com os meninos de rua, 18 textos que, aqui, refletem sobre a situação de rua e as próprias apresentações do espetáculo.

 

O convite é para todos: “Agora e na Hora de Nossa Hora” segue as suas andanças. Partilhemos momentos juntos. O teatro, como a vida, acaba – e recomeça sempre!    

           

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Lençóis Paulista 
11 e 12 de maio, às 20h 
Espaço Cultural Cidade do Livro
Rua Pedro Natálio Lorenzetti, 286
Informações: (14) 3263.3123

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675  

 

27 – Meninos de Rua: apropriações

 

Nesta semana, o espetáculo “Agora e na Hora de Nossa hora” é apresentado em São José dos Campos, como parte da Mostra Joanense de Teatro. As 18 sessões no interior de São Paulo registram, como as 18 postagens que escrevo neste blog, os 18 anos da Chacina da Candelária. Assim é o projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”. Aqui, um texto sobre as múltiplas tentativas de apropriação dos meninos de rua pelo Estado e outras instituições – adaptado de “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense” (Hucitec, 2007).

 

Ao ter considerada a sua sociabialidade incompleta (assim são a infância e a juventude) meninos e meninas de rua facilmente se tornam “sujeitos apropriáveis”. O Estado, as instituições, grupos e pessoas com os quais dialogam sabem o que deve ser feito dos meninos. Meninos de rua são alvo de infindas tentativas de reintegração à sociedade. Estas são tentativas de capturá-los para o cumprimento de um modelo que nem sempre desejam assumir.

 

Justificadas nos seus argumentos que desenham a figura do “menor abandonado” estas ações, no entanto, fracassam. Isto porque não levam em conta que a rua não é só espaço de desconstrução de relações; a rua é também construção de uma nova sociabilidade. Viciadas num olhar preconceituoso sobre a rua e o modo de vida de seus habitantes, estas ações pretendem, não raro, tirar da rua os meninos a qualquer custo, procurando discipliná-los a um modelo de juventude. Repito: nem sempre estes meninos estão dispostos a abraçar estes modelos.

 

Há neste modelo de atuação, uma certa arrogância. O povo brasileiro, “pacífico por natureza”, pode deixar escapar, na sua conduta junto aos meninos de rua, preconceito e intolerância que tanto condena em outros povos. Quando os EUA decidiram, em nome da liberdade do povo do Iraque, praticar o genocídio que até hoje a história testemunha, nossas representações políticas facilmente manifestaram seu repúdio à guerra. Nisto eu estava completamente de acordo. Entretanto, é curioso observar que, no Brasil, crianças e adolescentes, em nome do seu bem, sejam forçados a cumprir um modelo de vida que não desejam para si.

 

Assim, os projetos e programas sociais, as instituições, todos sabem o destino que dariam para a vida destes adolescentes. Poucos sabem ouvir o que os adolescentes pretendem de si mesmos. Os adolescentes não participam da construção de seu próprio projeto de vida.

 

É preciso, agora, considerar que meninos e meninas de rua trazem experiências variadas, diversas daquelas que nós, moradores de casa, trazemos. Isto é aceitar que suas expectativas podem ser diferentes das nossas. Caso contrário, falaremos sozinhos, sem encontrar nos meninos interlocutores.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em São José dos Campos
Mostra Joanense de Teatro
31 de março, às 21h e 01 de abril, às 19h
CET – Centro de Estudos Teatrais
Av. Olivo Gomes, 100 – Parque da Cidade – Santana
Informações: (12) 3924-7358.  

 

26 – Identidade: transitoriedade

 

Na última semana, apresentamos “Agora e na Hora de Nossa Hora” no Espaço Clariô – sede do grupo de teatro homônimo. Ali, um grupo – apaixonado e apaixonante! – muitíssimo afeito ao debate sobre as relações teatro/sociedade. O Clariô lembra-nos que as artes em geral – e o teatro em especial – fortalecem nossos laços comunitários: identidade, pertencimento. Isto motivou uma reflexão acerca da construção de uma certa visão de mundo pela população de rua. Neste texto, adaptado de meu livro “Hora de Nossa hora: o menino de rua e o brinquedo circense (Hucitec, 2007), breve pensamento sobre os deslocamentos da população de rua.

 

Desde a origem das cidades, há registros de pessoas que fazem da rua morada. Diversos olhares foram lançados já sobre os habitantes da rua. Da compaixão ao escárnio; do medo (que leva, não raro, às ações de enclausuramento, afastamento destas pessoas do cotidiano das cidades) ao preconceito. O olhar sobre estas pessoas corresponde a um olhar sociocultural e histórico – mutável, portanto.

 

Em nossos tempos, já escrevi em outra postagem, um pensamento urbanístico é norma: ordenação da circulação de pessoas e mercadorias. Os habitantes da rua, neste contexto, permanentemente se deslocam como os demais indivíduos da cidade. Entretanto, o fazem de maneira diferenciada. Se outros habitantes da cidade transitam com a finalidade de sair de um lugar para chegar em outro, os habitantes da rua não desenham um deslocamento objetivo; não há ponto de chegada. Ora se deslocam motivados pela ordem dominante que os expulsa (assim é a ação da polícia, por exemplo), ora se deslocam atrás de outras oportunidades de sobrevivência. Gente que faz da vida movimento.

 

Neste deslocamento contínuo, a população de rua constrói sua identidade. A rua adquire sentidos diferenciados para estas pessoas. O nomadismo implica numa série de referências de sociabilidade para a população de rua, como o desenvolvimento de relações efêmeras e fragmentadas e a sensação de liberdade. Ao se deslocar, o habitante das ruas se constrói, faz-se andando.

 

Ao ocupar a rua de maneira diferenciada, a população de rua é facilmente destacada na paisagem urbana. Seu modo de vida subverte a lógica e a expectativa de ocupação de espaços que os outros habitantes da cidade aprenderam a incorporar. Os habitantes da rua são, para outros cidadãos, um pouco fora do lugar.

 

A transitoriedade dos adolescentes em situação de rua e a itinerância própria do circo podem, em parte, explicar a facilidade com que meninos e meninas de rua se entregam às atividades circenses – o que acontece não só no projeto “Gepeto”, da ONG ACADEC, em que atuei ao lado de meninos de rua de Campinas, mas em diversos outros projetos que fazem do circo sua principal forma de atuação, como o projeto “Se essa rua fosse minha”, no Rio de Janeiro – RJ. É como se o circo trouxesse no bojo de suas técnicas uma qualidade arquetípica do deslocamento contínuo. Como ferramenta para dialogarmos com a transitoriedade, a linguagem da transitoriedade.

 

Próxima parada dos deslocamentos de “Agora e na Hora de Nossa Hora” pelo interior de São Paulo: São José dos Campos.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em São José dos Campos
Mostra Joanense de Teatro
31 de março, às 21h e 01 de abril, às 19h
CET – Centro de Estudos Teatrais
Av. Olivo Gomes, 100 – Parque da Cidade – Santana
Informações: (12) 3924-7358. 

 
  

25 – A Música dos Meninos de Rua: “Dia de Visita”, do Realidade Cruel

 

Ao contrário do que se pensa, meninos e meninas em situação de rua, não raro, são ligados fortemente às suas origens, sobretudo, às suas famílias. Ainda que dolorosamente nem sempre mencionem isto, impressiona o quanto o tema os mobiliza. Curiosamente, diga-se, os meninos tendem a reproduzir nas ruas as estruturas familiares que conheciam em casa. Assim, andam em grupos e alguém considerado um pouco mais maduro (menino ou menina mais velha, um morador de rua adulto, uma prostitua) acabam assumindo a postura de pai ou mãe da rua, responsabilizando-se pelos demais.

 

Nesta postagem, um vídeo do grupo Realidade Cruel, de Hortolândia, região de Campinas. Já disse, em outro texto, que o grupo fala fundo aos meninos de rua. Aqui, uma música em que tratam justamente de um dia de visita (um detento recebendo a visita da mãe, no presídio). Muitas vezes a ouvi na Febem. Outras tanta ouvi meninos cantando-a nas ruas.

 

 

Nesta semana, o espetáculo “Agora e na Hora de Nossa Hora” apresenta-se em São José dos Campos, como parte da Mostra Joanense de Teatro.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em São José dos Campos
Mostra Joanense de Teatro
31 de março, às 21h e 01 de abril, às 19h
CET – Centro de Estudos Teatrais
Av. Olivo Gomes, 100 – Parque da Cidade – Santana
Informações: (12) 3924-7358.  

 

 

24 – Rua: encontros

 

As 18 sessões de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no interior de São Paulo registram os 18 anos da Chacina da Candelária. As apresentações são acompanhadas de bate-papos, exposição, doação e divulgação de livro, 18 postagens, neste blog, sobre a situação de risco social. Neste texto, adapto trecho do livro “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense”, de minha autoria (Editora Hucitec, 2007).

 

A rua é espaço múltiplo. É espaço de circulação de pessoas com diferentes origens, situações socioculturais e econômicas, com diversidade de opções políticas, ideológicas e religiosas. Ao passar ou ocupar a rua, cada um dos habitantes da cidade imprime um pouco de si no seu espaço. A rua, assim, ganha significações tão diversas quanto é possível à diversidade de pessoas que por ela passam. A população de rua, incluídos crianças e adolescentes, é parte desta diversidade.

 

Ao longo da história, variam as concepções sobre a rua. Antes, espaço de encontro e de interações entre os habitantes das cidades, progressivamente a rua torna-se local de passagem. Seu espaço não é mais local de concentração de pessoas e organização da vida social. A rua é destinada exclusivamente ao deslocamento. É neste progressivo esvaziamento da rua que se constrói e se consolida o discurso de limpeza e ordenação do espaço urbano – a cidade virou urbe. A rua passou a ser projetada de maneira a facilitar deslocamentos, sem superfícies rugosas, sem possibilidade de aglomerações. A rua é puramente espaço da transitoriedade.

 

A disciplina urbanística, entretanto, pode planejar espaços, mas não as pessoas. A rua continua a congregar a multiplicidade de cidadãos. Se as intervenções urbanísticas tendem ao desejo da dispersão popular (o que, arrisco-me a afirmar, corresponde a interesses de classe das elites no poder), a multiplicidade de pessoas que ocupam a rua tende a imprimi-la com outros sentidos. Diversidade é resistência. Assim, persistem em tomar a rua como espaço do encontro, os vendedores ambulantes, os pregadores religiosos, os artistas populares. As ações destas pessoas tendem às aglomerações, a um uso do espaço da cidade que a funcionalidade do pensamento urbanístico excluía.

 

A despeito disto, em nossos tempos, o pensamento urbanístico justifica políticas públicas que pretendem facilitar o deslocamento de pessoas (com trajetos programados, sempre utilitários, como o de casa para o trabalho, por exemplo) e a circulação de mercadorias. A força deste pensamento nas cidades tende a conflitar com o modo de vida daqueles que procuram ocupar a rua com outra finalidade que não o puro deslocamento. A rua é reafirmada como lugar perigoso, indefinido, violento. A rua não é lugar de criança.

 

Neste contexto, os trabalhos sociais com jovens em situação de rua requerem que se exercite um outro olhar para a urbe. Porque não se trata somente de discutir o que fazer dos meninos que vivem nas ruas. Trata-se de discutir um projeto de cidade. Lugar de criança não é na violência da rua, dizem. Entretanto, a rua pode ser violenta justamente porque não tem criança. O crime não se instala nas ruas onde as crianças brincam, onde os vizinhos se conhecem e sentam no meio fio para jogar conversa fora. Ao contrário, os bandidos escolhem mesmo são as ruas desertas, onde os vizinhos não fazem ideia do que acontece na casa ao lado.

 

A rua é lugar de criança. É também lugar de adultos, de adolescentes, de casais de namorados, de idosos, de toda gente. É preciso transformar a rua: exigir de volta as nossas praças, os bancos para o namoro dos casais, as áreas verdes, as cadeiras nas calçadas. O espaço público, enfim, tomado novamente como público.

 

É evidente que isto não significa que se deva aceitar com passividade que crianças, adolescentes ou quaisquer outros cidadãos estejam abandonados à violência das ruas. Aqui, um entendimento simples: se temos o que ensinar a este jovens, temos também o que com eles aprender – a cidade de volta!

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” apresenta-se, nesta semana, no Espaço Clariô, em Taboão da Serra. As apresentações são financiadas pelo PROAC 2011 – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e, nesta cidade, contam com o apoio do Grupo Clariô e do Hotel 155.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no Espaço Clariô
Rua Santa Luzia, 96 – Vila Sta. Luzia – Taboão da Serra – SP
dias 23 e 24 de março, às 20h 
Informações: (11) 4701.8401 /(11) 9621.6892    
Entrada gratuita    

 

 

23 – Crack se vence com alegria e esperança!

 

Na semana passada, no dia 12 de março, suspendemos brevemente as apresentações de “Agora  e na Hora de Nossa Hora” pelo interior de São Paulo. A pausa tinha fim: apresentar o espetáculo para gestores de unidades socioeducativas do Estado do Rio de Janeiro.

 

Depois, já no dia 13, viajamos para Assis, em São Paulo, onde entre os dias 14 e 16, voltamos à turnê que registra os 18 anos da Chacina da Candelária.

 

Tanto em Assis quanto no Rio de Janeiro, houve bate-papos com os espectadores sobre o processo de criação do trabalho e sobre a infância e juventude em situação de rua.  Em Assis, uma espectadora perguntou, referindo-se à triste e ineficaz ação policial na  região conhecida como Cracolândia, na cidade de São Paulo, como o cidadão comum poderia contribuir para um debate mais produtivo sobre a situação de rua. Outros espectadores demonstraram igual preocupação com o uso de crack entre crianças e adolescentes. 

 

A reposta para inquietações tão maiúsculas, claro, não é simples – ainda que sob um ponto de vista o seja: não se elejam políticos afeitos a tomar a polícia como única política social! Porém, uma resposta, menos direta  e mais conectada com a mina experiência seguiu: com alegria e esperança. Parece piegas, eu sei e o reconheci nas duas cidades. 

 

A primeira impressão de ingenuidade se desfaz quando se relatam casos por mim testemunhados em que meninos de rua deixaram o consumo de substâncias psicoativas e até mesmo retomaram o contato com as suas famílias. Um deles, que no livro “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense” (Editora Hucitec, 2007) nomeio como João, se reinventou jogando malabares com pedras da antiga estação ferroviária de Campinas. Sendo aquela estação o lugar que se procurava para o consumo do crack, logo o adolescente reconheceu que, treinando malabares, poderia evitar o uso da droga. O menino, depois, torna-se monitor-auxiliar da oficina de circo que eu ministrava e os demais participantes do trabalho assim o reconheciam. Se acaso me atraso, ele inicia a condução do treino. Além disto, muda de aparência (sempre banhado!) e começa a tomar conta de um menino mais novo, evitando que o pequeno (e, portanto, ele mesmo!) use drogas. Por fim, surpreendentemente se ausenta e deixa um bilhete: sabe que é importante para a oficina, mas quer ver a família, não quer mais viver na rua. O recado é assinado como “o monitor João” e, junto dele, recebo uma corrente como presente. 

 

Só se vence o crack com alegria e esperança. Aprendi de uma vez por todas! Há conflito, há dor, há perdas, claro que há. Só se ultrapassam estas dificuldades quando se projeta um futuro melhor, para além do presente enfrentamento com as drogas (e consigo mesmo). João não tinha nada – nem mesmo bolinhas para treinar malabares. Mas tinha a si mesmo – o que não é pouca coisa! 

 

Em casa, infelizmente, retornam antigos problemas. O menino, que decidira mudar, decide outra coisa. E volta para as ruas. Nunca soube os reais motivos para a nova decisão: problemas com o padrasto, o Conselho Tutelar que vigia todos os seus passos (não pode dançar no Forró porque é menor de idade; não pode conversar com moradores de rua porque são más influências), dificuldade de adaptação à vida de poucas aventuras na casa. Nunca João mesmo me explicou suas motivações.

 

Uma coisa eu conclui, porém: é difícil que o mundo acompanhe as decisões de mudanças de cada um de nós. Mudar é bom e é difícil: exige empenho, luta. Exige! Não foram poucas as vezes que vi meninos de rua procurando mudar de vida enquanto rígidas estruturas sociais o empurravam de volta – inclusive identificadas por um dos braços armados do Estado: a polícia. A manutenção da ordem (esta palavra é escolhida: ordem!) vence com força e sisudez.    

 

Na apresentação do Rio de Janeiro, no bate-papo com os gestores das unidades socioeducativas estávamos descarados. Acrescentamos a palavra amor ao debate. Assim, a nossa plataforma de futuro: alegria, esperança, amor. Pode parecer piegas. Que o pareça! Havendo felizes transformações, possamos nós dizermos como ao fim da oração cristã: que assim seja! Seja! 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” apresenta-se nos dias 23 e 24 de março, às 20h, no Espaço Clariô, em Taboão da Serra. As sessões são apoiadas pelo Grupo Clariô de Teatro e pelo Hotel 155.    

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no Espaço Clariô
Rua Santa Luzia, 96 – Vila Sta. Luzia – Taboão da Serra – SP
dias 23 e 24 de março, às 20h
Informações: (11) 4701.8401 /(11) 9621.6892    
Entrada gratuita    

 

 

22 – Basquiat

 

 

 

Seguimos o nosso périplo de 18 apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” e 18 postagens neste blog, registrando os 18 anos da Chacina da Candelária. Assim é o projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”, financiado com recursos do PROAC 2011 – Programa de Ação Cultural do estado de São Paulo. Próxima parada: Assis.  

 

Eu não sei explicar o porquê, mas a obra de Jean Michel Basquiat sempre exerceu em mim um profundo efeito: transtorno, perturbação mesmo. Tudo o que posso dizer é que, aos 16 anos, numa exposição em São Paulo, vi muitos de seus quadros. Um deles me tomou a alma – exatamente este que abre a postagem. Um enorme anjo negro! Nunca mais o esqueci. Nunca mais uma obra pictórica teve efeito semelhante em mim – talvez “O Grito”, de Edvard Munch, tenha se aproximado.    

 

Assim, ainda que eu possa escrever que é notável que um jovem que viveu nas ruas tenha sua obra conhecida mundialmente; ainda que eu diga que é incrível que ele tenha contribuindo substancialmente para o reconhecimento do grafite como arte; ainda que eu possa traçar muitos paralelos entre ele e os muitos artistas que conheci na rua – poetas, pintores, músicos; ainda assim, nada vai poder equivaler a perturbação de senti aos 16 anos de idade – provavelmente um dos meus primeiros contatos com aquilo que chamamos de arte.

 

Em muitas circunstâncias, incluindo no processo que levou a “Agora e na Hora de Nossa Hora”, trabalhei a partir de suas imagens, procurando incorporá-las.  A imagem deste anjo, inclusive, por muito tempo, foi a imagem de programas e cartazes do espetáculo. Não escrevia nenhum texto, apenas se imprimia a imagem no material gráfico e – Oxalá queira assim – na experiência do espectador.

 

E, como diz Hamlet, ao fim da peça, diante da força da obra de arte e da vida, que todo o resto seja silêncio. 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Assis
 Dias 14, 15 e 16 de março, às 20h 
Teatro Municipal padre Enzo Ticinelli
Rua Floriano Peixoto, 757
Ingressos gratuitos
Informações: (18) 3322-2613 e 3322-2677 

 

21 – Teatro e pedagogia

 

Estamos na cidade de Garça, no interior de São Paulo. Aqui, realizamos duas apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, inseridas no projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”.  Assim, se registram os 18 anos da Chacina da Candelária em 18 sessões do espetáculo, exposição, bate-papo, workshop e 18 postagens neste blog. O projeto é financiado pelo PROAC 2011 – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.     

 

Apresentar na cidade de Garça era um desejo cultivado desde 2009, quando inciamos contatos com a Secretaria de Cultura deste município que, naquele ano, levou um ônibus de garcenses ao Filo – Festival Internacional de Tetro de Londrina para assistir a “Eldorado”. Muitas foram as tentativas até a nossa chegada aqui.

 

Aproveitando esta pequena-grande vitória, a Secretaria de Cultura de Garça programou atividades paralelas não previstas no projeto PROAC: a realização das oficinas “Elaboração de Projetos Culturais”, ministrada pela produtora Daniele Sampaio, no dia 08 de março, e “Dramaturgia do Corpo”, ministrada por mim entre 09 e 10 de março. As inscrições, gratuitas, estão encerradas.

 

Toda a minha formação em teatro foi permeada por atividades docentes. Comecei a estudar teatro formalmente, em 1998, aos dezessete anos, na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Aos 18, nem mesmo sabendo o que é o teatro, já dava aulas desta linguagem. Assim, em muitas circunstâncias atuei como docente: para crianças e adolescentes, terceira idade, lideres do orçamento participativo de Campinas, população de rua adulta, meninos e meninas em situação de rua, adolescentes privados de liberdade na Febem, no ensino fundamental, como professor de Educação Artística da rede estadual de ensino paulista, em curso profissionalizante de teatro, em universidade pública, em curso particular do ensino superior, em cursos livres e workshops.

 

Desta maneira, sempre o meu aprendizado da linguagem esteve fortemente atrelado às minhas atividades docentes. Dando aulas, aprendi sobre teatro. Não só. Aprendi também sobre docência. Porque, não tendo domínio da linguagem que ensinava (e este domínio provavelmente eu continuo não tendo), só poderia compartilhar experiências. Assim, reduziam-se os espaços do aconselhamento para se ampliarem os espaços de jogo. O aprendizado do teatro e no teatro se dá fundamentalmente pela experiência da criação.  

 

Entendi, assim, que todo o processo criativo inclui aprendizado pedagógico: sabedoria que se absorve na caminhada. E um bom processo de teatro gera aprendizado em direções muitas e envolvendo muitas pessoas – o que obviamente não significa que o aprendizado é o mesmo para todos. Em diálogo com  a Profa. Dra. Maria Thais, da ECA/USP, aprendi a origem da palavra pedagogo: do grego paidagogos, que sintetiza duas outras palavras – paidós (criança) e agogos (condutor). Assim, pedagogo seria aquele que conduz um outro ao ensino, sabedoria. Ou seja, a pedagogia parece estar mais afeita a tornar o aprendizado possível que ensinar propriamente.          

 

Por fim, ao estudar o trabalho de grandes nomes do teatro, reconheci que grandes pesquisas de linguagem estavam frequentemente associadas às atividades pedagógicas. Assim são os trabalhos de Stanislavski, Meyerhold, Grotowski, Copeau, Lecoq etc. Isto sem falar nos brasileiros, como o notável trabalho de Antunes Filho.  Ensinar, mesmo para o pedagogo, parece, enfim, fortemente articulada à descoberta.  

 

Workshop Dramaturgia do Corpo em Garça
Realização da Secretaria de Cultura de Garça
Dias 09 de março, das 18h30 às 22h30, e 10 de março, das 9h às 13h
Escola Municipal de Cultura Artística
Rua 27 de dezembro-10   -Vila Williams 

 

20 – A rua em exposição

 

As 18 apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no interior de São Paulo registram, tal qual as 18 sessões já realizadas em temporada paulistana, os 18 anos da Chacina da Candelária. Acompanham esta circulação, atividades paralelas diversas: workshop, bate-papo, postagens neste blog, exposição.

 

O processo de criação de “Agora e na Hora de Nossa Hora” incluiu a interação com meninos de rua em um projeto social, em Campinas, a inspiração no conto “Macário”, do mexicano Juan Rulfo, o estudo sobre a Chacina da Candelária – quando, no Rio de Janeiro, oito meninos de rua foram assassinados por policiais. Quando eu inciei as apresentações do espetáculo, eu julgava que a obra deveria sintetizar todas as forças e motivações que a geraram. Assim, eu não quis apresentar o trabalho em um programa. 

 

Porém, a partir das interações com o espectador, revi esta minha escolha. Eram frequentes as perguntas sobre o processo de criação – especialmente sobre a minha interação com os meninos de rua e sobre a Chacina da Candelária. Aí, entendi que o espetáculo é apenas a ponta de um icebergue, porta de entrada para outros entendimentos: uma relação diversa com os problemas sociais do Brasil, com a cidade em que vivemos, com os seus cidadãos. A arte como mediadora de mundos – aquele em que vivemos e aqueles que ainda podem ser sonhados.  Entendi, neste momento, que o espetáculo de teatro era tão importante quanto o processo que o gerou. Ao se revelar aquilo que veio antes, a cena evidencia com maior intensidade a força de vida daqueles que a motivaram: crianças e adolescentes em situação de rua.   

 

A partir deste momento, seguiram-se tentativas muitas de proporcionar uma certa imersão do espectador na situação de rua. Escrevi um livro, “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense”, publicado pela Editora Hucitec, em 2007. Criei programas para a peça, incluindo minha interação com os meninos de rua já na sua sinopse – os fatos da realidade ordinária como fundamento de efabulação da realidade extraordinária do teatro.  Tanto quanto me foi possível, realizei conversas com os espectadores, após as apresentações. Por fim, projetei uma exposição.

 

Em princípio, sem verba alguma, eu mesmo criei com fotos e trechos de diários de trabalho uma pequena amostragem do processo. O resultado tinha muita boa vontade, mas nenhuma elegância – tudo próximo aos trabalhos que realizei na pré-escola, ainda criança.  

 

Agora, contemplados com recursos do PROAC 2011  – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, foi possível realizar um trabalho mais acurado. O trabalho foi realizado pelo Lu Orvat Design – que já cuida da visualidade de nossos trabalhos em site, cartazes, programas etc.  

 

Este “expográfico” procura apresentar, em forma e conteúdo, o processo de criação do espetáculo. Primeiro, toma como fundamento a apresentação do relato das vivências: como um diário de trabalho em 3D, a exposição apresenta trechos do livro escrito por mim, passagens de narrativas e relatos de outros autores que escreveram sobre a população de rua, falas de meninos de rua, comentários de espectadores. Não há imagens pictóricas. Através da palavra, a exposição sugere que o espectador crie as suas próprias imagens.

 

Depois, a exposição usa como suporte aproximadamente 33 peças quadradas de papelão, todas iguais. Assim, procura-se, aqui, o mesmo princípio de montagem que inspirou a criação do espetáculo: peças autônomas, sem hierarquia entre elas e sem a necessidade de uma linha clara de causalidade entre si, apresentam um panorama da rua. O espectador é responsável por interagir com a obra, fazendo associações e ilações.

 

Assim, temos:
– Cada uma das peças, representações de temas constituintes do tema geral: a vida das ruas;
– A exposição tomando diferentes aspectos do objeto representado, em diferentes perspectivas – tal qual o princípio cubista, tomando o mesmo objeto de cima, de baixo etc.   
– O espectador, pela sua experiência de fruição, articula os conteúdos todos, criando, ele mesmo, a sua própria representação do tema. 

 

A exposição estará apresentada em todas as sete cidades em que “Agora e na Hora de Nossa Hora” for apresentada nesta circulação do PROAC. Neste final de semana, as últimas apresentações do espetáculo na Escola Livre de Teatro de Santo André – ELT.   

 

 

 

 

 “Agora e na Hora de Nossa Hora” em Santo André
Praça Rui Barbosa, s/n
26 e 27 de fevereiro e 03 e 04 de março de 2012, às 20h30
Ingressos gratuitos
Telefone: 11 4996.2164
 

 

19. “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” no interior de São Paulo

 

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Voltamos à estrada! “Agora e na Hora de Nossa Hora”, solo sobre meninos de rua dirigido por Verônica Fabrini, apresenta-se em 18 sessões em diversas cidades do interior de São Paulo: Santo André, Garça, Assis, Taboão da Serra, São José dos Campos, Lençóis Paulista e Limeira. As apresentações são financiadas pelo Proac – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo e marcam os 18 anos da Chacina da Candelária.

 

A criação do espetáculo envolveu a realização de oficinas de circo com meninos de rua do projeto “Gepeto – Transformando Sonhos em Realidade”, da ONG ACADEC, de Campinas, a inspiração no conto “Macário”, do mexicano Juan Rulfo, e um estudo sobre a Chacina da Candelária – quando, em 1993, oito meninos de rua foram assassinados por policiais nos arredores da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro.

 

Ao se completar 18 anos deste acontecimento histórico, concebemos uma “circulação performática” do espetáculo, realizando 18 sessões do trabalho na capital paulista e outras 18 no interior do Estado. Assim, registramos o marco histórico e provocamos: atingimos, em 18 anos, a maturidade do debate social? Se o cidadão brasileiro nascido em 1993 já é considerado apto a exercer a sua cidadania, com direitos e obrigações civis, amadurecemos um projeto social diverso daquele que executou crianças e adolescentes na porta da igreja?   

 

As apresentações da primeira etapa desta circulação, na capital, aconteceram no SESC Pompéia, entre outubro e novembro de 2011, e foram acompanhadas de 18 postagens, neste blog, debatendo as situações vividas no processo criativo do espetáculo, a situação de rua, as políticas públicas de atendimento à esta população. 

 

A segunda etapa, que realiza 18 apresentações em 7 cidades do interior, igualmente serão acompanhadas de 18 postagens neste blog. Não só. Ainda haverá a realização de workshop, bate-papos após a primeira sessão do espetáculo em cada cidade, exposição sobre o processo de criação, doação de livro.

 

A primeira cidade a receber esta circulação é Santo André. As apresentações acontecem nos dias 25 e 26 de fevereiro e 03 e 04 de março, às 20h30, na Escola Livre de Teatro (Praça Rui Barbosa, s/n). Os ingressos são gratuitos. 

 

Também na Escola Livre de Teatro, nos dias 03 e 04 de março, das 14h às 18h, ministro o workshop “Dramaturgia do Corpo”. Ali serão abordados na pratica os princípio de criação de dramaturgia de ator utilizados no espetáculo.  As inscrições são também gratuitas e podem ser feitas na secretaria da ELT.

 

Voltamos à estrada! Acompanhem-nos! Celebremos!

 

 “Agora e na Hora de Nossa Hora” em Santo André
Praça Rui Barbosa, s/n
26 e 27 de fevereiro e 03 e 04 de março de 2012, às 20h30
Ingressos gratuitos
Telefone: 11 4996.2164

Falta Feverestival!

Nas últimas semanas, a organização do Feverestival – Festival Internacional de Teatro de Campinas anunciou uma edição-ausência, em 2012: neste ano, não teremos a realização do evento. A justificativa para isto não é nova (o que a torna ainda mais terrível): falta de verbas; nenhum apoio municipal; nenhum reconhecimento em editais estaduais e federal (que ainda que tenham aumentado enormemente em frequência e recursos são ínfimos ante a demanda); falta de interesse da iniciativa privada em patrocinar o festival com aportes financeiros significativos. O resultado é igualmente conhecido: perdemos todos. Assim, a cidade de Campinas fica ainda mais pobre.

 

A nossa miséria, diga-se, não se refere à ausência das inúmeras atividades econômicas anualmente fomentadas pelo festival e que, neste ano, sentirão a sua ausência –  as atividades da chamada indústria criativa, ocupando atores, diretores, cenógrafos, técnicos, bilheteiros, faxineiros, recepcionistas, etc; e as atividades econômicas indiretamente estimuladas (o comércio e prestações de serviços locais, com restaurantes e bares, lojas e hotéis, taxistas, etc.). E perceba-se que este “etcetera” quer dizer muito, muita gente.

 

Empobrecemos, porém, menos no bolso e mais no espírito. E esta miséria é irreparável e desastrosa, estejamos nós, no futuro, em melhor ou pior situação financeira. Quando uma obra de arte deixa de ser fruída pelo público (e no caso de um evento que não se realiza muitas obras deixam de ser partilhadas), um mundo não se realiza. Isso se refere primeiramente, claro, à maior clareza que a obra nos oferece do mundo mesmo em que vivemos, as relações sociais tal qual a conhecemos e experienciamos. Ou seja, a arte nos faz perceber a vida, significá-la, debatê-la. Isso é muito, mas não é tudo: a arte ainda nos faz entrever mundos outros, não como cotidianamente conhecemos a vida, mas como  a sonhamos. Sonhar mundos talvez seja a missão mais nobre da arte. Porque, aí, nossa potência de transformação das coisas. Aí, enfim, a potência das possibilidades.

 

Mais pobres em imaginação, como encontrar forças para se opor à triste realidade que vive Campinas? Como enxergar o potencial da cidade no feio cotidiano que nos circunda? Campinas está no fundo do poço, não fique dúvidas sobre isto. Corrupção, indiferença e distância entre a população e os seus representantes políticos são a tônica dos últimos anos. É sintomático e preocupante, neste estado de coisas, o sucessivo cerceamento aos espaços de convívio como política pública: fechamento de teatros (não há absolutamente nenhum equipamento municipal apto a receber qualquer tipo de espetáculo) e, agora, a impossibilidade de realização de um dos mais importantes eventos das Artes Cênicas no interior de São Paulo. Reduzindo-se os espaços de encontros entre os cidadãos (especialmente o teatro e a sua latente função social), como fortalecer os laços de pertencimento e a sua reinvenção?

 

Campinas, considerando-se a sua importante produção tecnológica, a sua vanguarda de pesquisa em diversas áreas do conhecimento e os interessantes trabalhos de seus artistas (muitos deles referência internacional em suas áreas de atuação) poderia ser a cidade mais inventiva do Brasil. Não é. E um ocupante de cargo público que não seja capaz de reconhecer este “talento” da cidade não merece o posto que ocupa. Talvez não tenha, o dito cidadão, fruído boas obras de arte o suficiente. Resta-lhe uma certa miopia social que, tenho certo, terá a resposta das urnas no próximo pleito.

 

Reconheçamos: a cidade em que vivemos é, atualmente, aquela que ocupa os noticiários nacionais como exportadora de esquemas de lavagem de dinheiro, favorecimento em licitações, mal uso da coisa pública. Sem mais uma edição do Feverestival é mais difícil sonhar para além disto. Estamos, assim, empobrecidos.

 

Por sorte, ainda há mais: o legado das edições anteriores do Feverestival e o impulso para as próximas; os artistas de Barão Geraldo que, a despeito de tudo, ainda produzem seus próprios trabalhos e os apresentam em seus próprios eventos – o LUME, a Boa Companhia, o Barracão Teatro etc. Aí, outras sementes de imaginação e sonho na sua mais alta potência subversiva!

 

A organização do Feveresitval acertadamente marcou 2012 como a edição da “Falta” do evento. Resta-nos não assimilar esta ausência. Esta falta, enfim, precisa nos mobilizar.