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Apresentação de “Chuva Pasmada” no Lume Teatro Tem Gosto de Volta para Casa

 

Chuva Pasmadacom Eduardo Okamoto e Alice PossaniTexto original: Mia CoutoDramaturgia: Cássio PiresDireção e Iluminação: Marcelo LazzarattoFigurinos e Cenografia: Warner ReisTrilha Sonora: Michael GalassoArte Gráfica: Alexandre CaetanoFotografia: Fernando StankunsProdução: Daniele Sampaio e Grupo Matula Teatro

 

“Chuva Pasmada”, parceria entre mim e Alice Possani, atriz do Grupo Matula Teatro, é dirigido por Marcello Lazzarato, professor do Depto. de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Nós dois nos formamos neste departamento, onde também desenvolvemos trabalhos de pós-graduação, e ainda hoje residimos em Barão Geraldo – distrito onde se localiza a UNICAMP. Por fim, ainda passamos longos períodos de treinamentos e estudos da atuação com o LUME – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da UNICAMP. Por tudo isso, apresentar na sede do Lume Teatro tem gosto especial: o aconchego do retorno às origens.

 

Espantosamente, a despeito da grande quantidade de importantes trabalhos cênicos criados na cidade de Campinas, com frequência os seus cidadãos têm pouco acesso à esta produção. Isso, claro, é fundamentalmente explicado pelo grande e descabido descaso dos gestores públicos da vida cultural da cidade que, nos últimos anos, nem mesmo tiveram competência para manter abertos os seus teatros públicos. Atualmente, Campinas, cidade que tem mais de 1 milhão de habitantes, não possui uma única sala pública em condições de receber adequadamente um espetáculo teatral. Este contexto, no limite, obriga artistas de Campinas a procurar espaços e melhores condições de apresentação em outra paragens. Não raro, importantes artistas e coletivos de artistas formados e radicados na cidade optam por viver em outra localidade mesmo.

 

O resultado de tamanho absurdo é que o cidadão campineiro não pode fruir os bens simbólicos produzidos no próprio local onde vive. O cidadão, enfim, não vê representado como ficção (como realidade extraordinária) a sua própria vida cotidiana (a realidade ordinária). Muitos estudioso (entre eles a importante Profa. Dra. Suzi Frankl Sperber, também da UNICAMP) apontam que é o ato mesmo de produzir ficção que atribui sentido ao vivido. Ou, como nos diz o personagem de “Mar Me Quer”, de Mia Couto, “homem que não sabe contar história nem chega a ser pessoa”. A vida permanece, assim, em suspensão, como aquela água suspensa que, em “Chuva Pasmada”, também do escritor moçambicano, não se realiza em sua potência de chuva, permanecendo promessa.

 

Por tudo isso, a apresentação de “Chuva Pasmada” em Campinas é celebração! É um espetáculo voltando para casa. São os seus criadores apresentado no solo que escolheram como morada. É a partilha de uma obra com espectadores que compreendem o contexto em que ela foi gerada. Que essa chuva abra ainda mais movimento. Que, ao final da peça, possamos fazer como os seus personagens: agradecer!

 

Serviço: “Chuva Pasmada” no Lume Teatr0
Com Eduardo Okamoto e Matula Teatro
Dias 19 e 20/09 às 20h
Endereço: Rua Carlos Diniz Leitão, 150 Vila Santa Isabel – Barão Geraldo
Telefone:19 3289 9869
R$ 10,00 e R$ 5,00

O que vemos na Polônia: “Nieskończona Historia”

 

A última apresentação que vimos no 14. Międzynarodowy Festiwal TEATROMANIA – onde, no dia 25 de maio, apresentamos “Agora e na Hora de Nossa Hora” – foi „Nieskończona Historia.” – em português remete a algo como “História Infinita”. O espetáculo é dirigido por Piotr Cieplak (que, segundo me disseram, é um dos mais respeitados diretores poloneses da atualidade), à frente da companhia estatal do Teatr Powszechny im, de Varvósvia.

 

A fábula do espetáculo é simples: residentes de um mesmo conjunto habitacional, depois da morte de uma antiga moradora, reúne-se numa área comum (espécie de salão comunitário) e indagam-se sobre limites de vida e morte. O que interessa, parece, é menos o que se conta e mais o como se conta. Um conjunto afinado de atores, em incrível coro, não apenas “encarnam” personagens, mas ajudam, a narrar a fábula em composições diversas, com bonitas partituras corporais e vocais.

 

Por muitos aspectos o trabalho me remeteu às criações do célebre diretor polonês Tadeusz Kantor – especialmente à sua “Classe Morta”: a movimentação dos atores, próxima a de marionetes; a composição atoral mais afeita ao coro que a criação de sujeitos como indivíduos; um ator-personagem por diversas vezes atuando com uma espécie de regente em cena.   

   

 

Depois do espetáculo, arrumamos nossas malas e, enfim, voltamos ao Brasil. Foram seis dias entre preparativos para uma apresentação “Agora e na Hora de Nossa Hora”, intercâmbio com outros artistas, muita conversa. Vimos seis performances de espetáculos poloneses. E, claro, já sentimos muita, muita saudade!  Dias intensos, inesquecíveis.  

  

 

O que nós vemos na Polônia: Auschwitz e Cracóvia

 

Auschwitz: o retrato do horror. 

 

Depois da apresentação de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no 14. Międzynarodowy Festiwal TEATROMANIA, na Polônia, tivemos um dia livre. Nesta ocasião, além de continuar acompanhando as atividades do festival, aproveitamos para conhecer duas localidades: o campo de concentração de Auschwitz e a cidade de Cracóvia – ambos localizados a poucos quilômetros de Bytom, onde acontece o evento.   

 

Auschwitz mantém quase intacto o local que, anos atrás, serviu como um dos instrumentos de um dos maiores horrores da história da humanidade –  o Holocausto. O complexo Auschwitz-Birkenau foi um dos maiores campos de concentração criados por nazistas para a seleção de judeus para trabalhos forçados e seu extermínio.

 

Hoje, o local é mantido como um museu com visitas guiadas. O ingresso é gratuito para aqueles que não desejarem o acompanhamento de guias. Porém, não acho que a visita sem o acompanhamento valha tanto a pena: os guias são muitíssimo bem instruídos, sabedores não só de dados e histórias espantosas dos campos de concentração, mas também bem informados acerca da História mesmo. Os visitantes são divididos em grupos de acordo com o idioma que escolhem para a visitação.

 

Nossa estada, ali, durou cerca de 3h30. Uma experiência para não esquecer nunca mais. O lugar dá vertigens (quando vemos a imensidão do campo, por exemplo). Mais de uma vez tive vontade de chorar (quando vi sapatos de crianças pequenas deportadas para o campo) ou enjoos (quando vi um amontoado de cabelos, retirados de judeus recém mortos em câmaras de gás, que serviriam à industria têxtil alemã). Impossível descrever a sensação de entrar numa câmara de gás ou nos locais para dormitórios ou cuidados íntimos com latrinas e lavatórios      

 

Cracóvia: o antigo e o novo. 

 

Na Cracóvia, experiência oposta: uma das mais belas cidades da Europa. Uma cidade medieval, datada do século VIII. Ali, um lindo centro histórico, tombado pela UNESCO como patrimônio mundial, onde há até mesmo um grande castelo. Incrível!    

O que nós vemos na Polônia: “O dobru”

 

 

Aproveitamos nossa estada em Bytom, na Polônia, onde participamos do 14. Międzynarodowy Festiwal TEATROMANIA, para assistir a trabalhos de diferentes partes do mundo. 

 

“O dobru, cujo título poderia ser traduzido por algo como “Do Bem” é dirigido pela dupla Monika Strzepka e Paweł Demirski. Segundo os organizadores do festival, estes são dois dos mais destacados jovens diretores poloneses da atualidade – e, de fato, a plateia estava absolutamente lotada, comprovando a sua fama.  O espetáculo tem argumento simples: tratar de “fracassados” célebres. Assim, vemos fracassos que, na Polônia, são conhecidos de todos: um rapaz em luta vã contra um câncer; um jornalista que tentou fazer algo importante e não pôde; os próprios atores que anunciam, no início da peça, que mesmo não podendo ensaiar a contento farão o seu melhor.

 

Especialmente uma cena dói: uma atriz canta como Amy Winehouse e letreiros, ao fundo da cena, indicam diversos shows da cantora e, portanto, a passagem do tempo. A atriz começa cantando afinada, em ritmo correto e, no entanto, a cada compasso, desafina, perde o tempo.

 

Depois, mais adiante, já quase ao fim da peça, cena semelhante. Um letreiro anuncia: show de Amy Winehouse em Belgrado – o famoso show em que a cantora foi vaiada, depois de errar letras e cambalear no palco. A despeito de todo o seu esforço em cantar – visivelmente sem condições de fazê-lo -, procura de todas as maneiras prosseguir com o show – que, afinal, não pode parar – e manter uma certa simpatia “pop”: “Hello, Belgrade!” Ao fundo, outra atriz, como diretora de gravadora, dá socos na parede e impede que a atriz/cantora deixe o palco. Aí, entendemos: fracassamos todos. Não porque desafinamos as canções, mas, sobretudo, porque nos equivocamos nos valores que nos levam a cantar.      

 

Apresentação de “Agora e na Hora de Nossa Hora” na Polônia

 

Hoje, passada a adrenalina dos preparativos todos, posso dizer: tudo correu bem na apresentação de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no 14. Międzynarodowy Festiwal TEATROMANIA, em Bytom, na Polônia. Felicidade!

 

Tivemos, aqui, uma linda equipe, afinada e apaixonada por teatro. Fomos carinhosamente bem recebidos! 

 


Teste de legendas minutos antes de “Agora e na Hora de Nossa Hora”

 

Pela primeira vez, usamos legenda na peça. Havia tensão a este respeito, dois dias antes. Nenhum de nós, brasileiros, poderia checar se havia sincronia entre a fala e o texto projetado em painéis. Mais uma vez, porém, fomos acariciados pela vida: encontrou-se uma tradutora, Agata, que, a despeito de ter apenas 25 anos, fala fluentemente polonês, inglês, espanhol e português! E português do Brasil! Por um ano ela morou em Curitiba e conhecia até mesmo gírias dos meninos de rua.  Assim, tudo funcionou, com os técnicos projetando em duas diferentes direções  os letreiros (uma necessidade pois o espetáculo é concebido como arena, com público em diferentes direções).       

 

Sendo a organização tão carinhosa, a recepção da peça pelo público não poderia ser diferente. Público atento. Havia, disseram-me os organizadores, grande excitação para ver uma produção brasileira. Isto ainda era potencializado por uma certa quebra de expectativa. Assim que se dizia que haveria, na programação, um trabalho do Brasil, logo se pensava nas imagens típicas do país: alegria, samba, carnaval, futebol e lindas mulheres. “Agora e na Hora de Nossa Hora”, porém, trata de uma de nossos maiores problemas sociais – a infância abandonada. “Foi bom conhecer um outro Brasil”, comentou uma espectadora.

 

Felicidade! Estamos realmente felizes por nossa participação no 14. Międzynarodowy Festiwal TEATROMANIA.     

 

 

O que vemos na Polônia: “Dźwiękowiązałka”

 

Estamos na Polônia, onde, na sexta-feira, dia 25, apresentamos “Agora e na Hora de Nossa Hora” no 14. Międzynarodowy Festiwal TEATROMANIA. 

 

Aproveitamos nossa estada para conferir o trabalho de artistas de outros cantos.  Hoje, a curiosa apresentação de Sambor Dudziński, músico e performer polonês que apresentou o espetáculo “Dźwiękowiązałka”. O mult-instrumentista toca, canta e se move pelas ruas do centro da cidade num grande veículo, misto de carroça e bicicleta. Faz mais: improvisa, pedindo que o público sugira textos a serem cantados. Assim, compõe novas obras, misturando referências, textos, canções.

 

 

 

A produtora de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, Daniele Sampaio, entrou no jogo e sugeriu a tradicional canção brasileira: “Cai, Cai, Balão”. E Sambor Dudziński improvisou o texto da canção tradicional tendo “Ave Maria”, de Gound, como base. 

  

Hoje, iniciamos os preparativos para a apresentação de “Agora e na Hora de Nossa Hora”: montagem de luz e cenografia. O trabalho deve entrar madrugada adentro.

 

 “Agora e na Hora de Nossa Hora” em Bytom (Polônia)
Teatromania 2012
Mais informações: http://www.teatromaniafestiwal.pl/ 

36 – A Polônia é nóis!

 

Pés na estrada. Em 27 de novembro de 2011, encerramos a primeira fase do projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18″, realizando, no SESC Pompéia, 18 sessões  de “Agora e na Hora de Nossa Hora” na capital paulista. Ali, eu postava, neste blog, “Um Homem na Estrada”. Assim, emprestava a música dos Racionais Mc´s para indicar que, fechado um ciclo, um novo se abria: a segunda fase do projeto com iguais 18 sessões do trabalho em 07 cidades do interior paulista.  

Em 18 de maio de 2012, concluímos, enfim, os trabalhos do projeto, registrando em andanças os 18 anos da Chacina da Candelária. E, claro, novo ciclo se abre: a participação de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no XIV Międzynarodowego Festiwalu Teatromania 2012, na Polônia. Na abertura de tudo, sabemos, movimento; no seu encerramento, igualmente, pés na estrada. Seguimos, caminhando e nos fazendo em nossos caminhos.

 

Na Polônia, a imprensa tem noticiado assim a nossa apresentação: “(…) możemy być pewni, że ten spektakl zapadnie nam na długo w pamięci.” Isto quer dizer mais ou menos o seguinte: “Podemos ficar confiantes de que esse desempenho ficará gravado na nossa memória.” Frio na barriga. Se a minha expectativa é grande, pelo jeito, a responsabilidade também não é pequena.   

 

Que os deuses do teatro estejam conosco! Os poloneses, ao que parece, já estão do nosso lado!  

35 – “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”

 

Em 18 de maio de 2012, encerramos o projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18”. A partir de apresentações do espetáculo “Agora e na Hora de Nossa Hora”, registramos os 18 anos da Chacina da Candelária.  Circulação como ato performático. 

 

Esta turnê desenvolveu-se em dois ciclos. O primeiro deles, com 18 apresentações, aconteceu entre outubro e novembro de 2011, no SESC Pompéia, na capital paulista. As sessões foram acompanhadas de 18 postagens, neste blog, debatendo a situação de rua. 

 

O segundo ciclo de 18 sessões, realizado de fevereiro a maio de 2012 com recursos do PROAC – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, percorreu 07 cidades do interior paulista. Outras atividades acompanharam a circulação: expográfico sobre o processo criativo; workshops; bate-papo após da primeira sessão em cada cidade; doação de exemplares do livro “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense ” (Editora Hucitec, 2007), de minha autoria; outras 18 postagens neste blog.

 

Findo o trabalho, já se sente saudades das muitas interações nos caminhos percorridos. Na Escola Livre de Teatro, em Santo André, partilha de modos de pensar/agir no teatro. Além das apresentações, workshop sobre Dramaturgia do Corpo. Lindo começo: impulso alegre!

 

Em Garça, muitos educadores nas apresentações. E, com realização da Secretaria de Cultura de Garça, dois workshops: “Dramaturgia do Corpo”, ministrado por mim; e “Produção Cultural”, ministrado por Daniele Sampaio – produtora do espetáculo.

 

Em Assis, muitos estudantes universitário na platéia. Jovens envolvidos no debate sobre a situação da infância e juventude brasileiras.

 

Em Taboão da Serra, espíritos alimentados pela comovente maneira de viver o teatro do Grupo Clariô, nossos anfitriões. Apresentações e debate para não esquecer da utopia: mudar o mundo, começando por nós mesmos.                    

 

Em São José dos Campos, inseridos na Mostra Joseense de Teatro, um público sabedor de como fruir uma obra. Debate altamente qualificado, troca infinita de experiências!

 

Em Lençóis Paulista, a grata surpresa! Uma cidade que, sendo numericamente pequena (60 mil habitantes), é grande na ambição cultural: mais livros em bibliotecas que moradores no município. Impressionante trabalho da Secretaria de Cultura em fazer do município um lugar fundamental para seus habitantes: espaço de interação e significação do humano. 

 

Em Limeira, a alegria de apresentar na Região Metropolitana de Campinas. Como tem sido raro e difícil apresentar em casa! Em Campinas, por exemplo, não há nenhum teatro público aberto em boas condições. Daí a importância do Teatro Vitória e da sua empenhada equipe na manutenção de uma sala pública na região.

 

Fim. E recomeço. Partimos com uma inquietação: depois de 18 anos da Chacina da Candelária, atingimos a maioridade do debate social? Infelizmente concluímos que não. Ainda abundam casos de violência contra a infância e a juventude. Vivemos uma contradição: apostamos e esperamos o futuro, mas maltratamos aqueles que podem construí-lo.

 

Porém, se não podemos comemorar, depois de tantos caminhos pisados (mais 3.150km!), nosso amadurecimento como povo, podemos celebrar novas amizades. São muito os inquietos. Uma rede deles, cedo ou tarde, há de celebrar o novo!

 

34 – Pixote, a lei do mas fraco

 

Hoje, às 19h e às 21h, no Teatro Vitória, em Limeira, encerramos as 18 apresentações da segunda fase do projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18”. Financiados pelo PROAC – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, teremos registrado os 18 anos da Chacina da Candelária em 18 apresentações do espetáculo “Agora e na Hora de Nossa Hora” pelo interior paulista – o mesmo trabalho teve 18 sessões na capital paulista, no SESC Pompéia, em 2011, como primeira fase do projeto. Mais: teremos realizado, bate-papos, exposição, doações de livro e eu, a cada fase do projeto, publiquei 18 postagens sobre a minha interação com os meninos de rua e os materiais que estimularam a criação do espetáculo.

 

Depois de encerradas as apresentações, publicarei ainda dois textos mais, avaliando as nossas andanças e procurando problematizar a inquietação primordial do projeto:  se é esperado que o cidadão brasileiro, aos 18 anos, responda legalmente por suas ações, demos conta como sociedade de amadurecer um projeto social diverso daquele que assassinou crianças, em 1993?

 

Por ora, uma última influência para a criação da peça: o filme “Pixote, a lei do mais fraco”. Possivelmente este foi um dos meus primeiros contatos com o tema da infância abandonada e com a sua representação poética. O filme literalmente me atormentou e produziu pesadelos, na infância e na adolescência. A cena em que Marília Pêra, como Sueli, amamenta Pixote é indiscutivelmente uma imagem importante para a narração de Pedrinha, personagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, sobre a sua interação com Felipa, sua “mãe da rua”.  Poesia e crueldade.    

    

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675   

 

33 – Rua com Saída: “A Magia dos Invencíveis”

 

Se, nas últimas postagens, escrevi sobre projetos sociais com meninos e meninas em situação de rua, hoje, apresento brevemente um lindo livro sobre esta população: “A Magia dos Invencíveis”, de Ligia Costa Leite (Editora Vozes, 1991). O trabalho trata da experiência da autora numa ação educacional com estes meninos, numa aventura de implementação de escola especialmente dedicada a eles. 

 

Durante o primeiro mandato de Leonel Brizola como governador do Rio de Janeiro (1983-1987), Darcy Ribeiro planejou e dirigiu a implantação dos Centros Integrados de Ensino Público (CIEP): um projeto pedagógico de assistência em tempo integral a crianças, incluindo atividades recreativas e culturais para além do ensino formal. Um destes CIEPs foi instalado no recém-construído Sambódromo. Durante o ano todo, uma escola funciona onde, nas cinco noites de Carnaval, o Rei Momo faz a sua festa. Ali, as primeiras ações direcionadas aos meninos e meninas de rua.

 

Muitos foram os esforços de implementação do projeto.  Porém, o convívio entre adolescentes que viviam na rua e os aqueles que moravam em casa, frequentando a mesma escola, não foi fácil. Os problemas de instalação do projeto eram muitos, inclusive, com casos de envolvimento sexual de policiais com meninos e meninas de rua.  Assim, o projeto acabou por ganhar a instalação de uma sede própria, criando-se a Escola Tia Ciata.

 

A nova escola chegou a abrigar 500 crianças e adolescentes. Um espaço de aprendizado de todos: dos meninos-aprendizes, claro, mas também de todos os profissionais que ali trabalharam (professores, faxineiros, merendeiros etc.) e do próprio Estado. Uma escola dedicada ao convívio e crescimento coletivo – “uma das coisas mais bonitas deste mundo”, nos dizeres de Darcy Ribeiro.

 

A ação, obviamente, incomodou muito ante o contexto de marasmo do sistema educacional brasileiro. Tal como o conhecemos, afinal, o sistema escolar dedica-se mais a uma certa inserção nos padrões de convívio social já estabelecidos que ao crescimento pessoal do aluno e da sociedade como um todo. Crescimento, não raro, leva à inquietação, ao questionamento, ao rompimento de padrões de conduta que possivelmente interessem a poucos. A transformação deveria ser o pressuposto básico de um país que se pretende um dos grande do mundo – e infelizmente nem sempre é assim. Por fim, Ligia Costa Leite, liderança fundamental na implementação da escola, e a sua equipe acabam afastados do projeto que, enfim, morre.

 

A comovente experiência está descrita em “A Magia dos Invencíveis”, da própria Ligia. Ali, é bonito acompanhar o relato de utopia e ação e os seus embates com uma sociedade conservadora e a politicagem – a mediocridade, enfim.

 

Para saber mais: <http://www.invenciveis.com/>.         

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675  

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Bytom (Polônia)
Teatromania 2012
Mais informações: http://www.teatromaniafestiwal.pl/ 

32 – Rua com Saída: Mano a Mano

 

Em outras postagens, já afirmei a rua como construtora de uma sociabilidade outra – o que é diverso de considerá-la somente como desconstrutora de sociabilidades. A rua, em trânsitos e aventuras, ajuda a moldar uma visão de mundo daqueles que nela habitam. Por isto, as ações que se dirijam a esta população, devem levar em conta outras formas de viver para além do modelo de quem mora em casa – construindo, assim, a coerência das suas relações. Caso contrário, já sabemos, limitamo-nos a atividades ineficientes e à violência – as ações que restringem o Estado ao seu poder de polícia são exemplares neste sentido.     

 

O diálogo identidade/alteridade, diga-se, nunca é tarefa simples: pressupõe que se considere que não há modelo único para o humano; pressupõe abertura para a trocas de afeto; pressupõe partilha de visões de mundo. Não por acaso, um dos projetos sociais mais interessantes que conheci, em Campinas, o Mano a Mano, tem origens no trabalho de uma antropóloga: Simone Frangella. 

 

O grupo Mano a Mano usa elementos de arte-educação – leitura, desenho, expressões corporais e música – para estabelecer um diálogo com crianças e adolescentes moradores de rua, visando conduzi-los à reflexão sobre si mesmos e o mundo, seu espaço e suas potencialidades. As atividades são organizadas por voluntários, sendo grande parte deles estudantes da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP.  

 

Realizada no centro da cidade de Campinas, esta “pedagogia das calçadas” pressupões mais que a ação educacional com meninos e meninas de rua. Inclui uma certa visibilidade destes meninos para a população que frequentemente não os vê – ou finge que não os vê. Inclui uma certa mediação entre o cidadão que mora em casa e o cidadão que mora na rua. Inclui uma certa mediação entre o Estado e as suas instituições (como a polícia) e a população de rua. Inclui, enfim, a percepção de que a rua é local de encontro dos muitos modos de viver que a cidade abriga, sendo potencialmente, assim, espaço de exercício pleno da alteridade.    

 

Para saber mais, a linda dissertação de mestrado de Simone Frangella sobre meninos e meninas de rua de Campinas (“Capitães do Asfalto”) está disponível para download aqui. Seu trabalho de doutoramento, sobre a população de rua adulta de São Paulo pode ser acessada aqui.    

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675  

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Bytom (Polônia)
Teatromania 2012
Mais informações: http://www.teatromaniafestiwal.pl/ 


 

31 – Rua com Saída: SER

 

Estamos próximos de um fim: no dia 18, em Limeira, encerramos o projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”, registrando com apresentação de espetáculo, postagens neste blog, exposição e debates, os 18 anos da Chacina da Candelária. Assim, aproveito, as últimas inserções neste espaço virtual (18 postagens paralelas às 18 apresentações na capital e outras 18 paralelas às 18 sessões no interior) para divulgar ações de diálogo com meninos e meninas em situação de rua.

 

Começo pelo projeto “Se Essa Rua Fosse Minha” – SER. O projeto surgiu na década de 1990, mobilizando o poder público e sociedade como um todo para os direitos de meninos e meninas moradores de rua. Justamente após a Chacina da Candelária, o projeto tem ampla divulgação, com o sociólogo Hebert de Souza liderando um grupo de artistas que, gravando um disco, arrecada fundos para uma ação sistemática junto a esta população de rua.      

 

O SER foi pioneiro no uso do circo como instrumento de transformação social – o Circo Social. Os princípios do trabalho repousam numa busca de potencializar a linguagem corporal (em dimensões física e simbólica- psicofísicas, portanto) de meninos e meninas em situação de rua. A partir de parcerias com importantes coletivos cênicos cariocas (a Intrépida Trupe e o Teatro de Anônimo), o projeto deu os primeiros passos na sistematização destas ações. Depois, estas ações fundamentaram a criação do programa Cirque du Monde –  parceria do SER com o Cirque du Soleil e a ONG Jeunesse du Monde. Este programa, assim, permitiu que uma tecnologia social pudesse ser partilhada em diversas cidades do brasil e mesmo nos cinco continentes.

 

Quando de minha visita ao Rio de Janeiro (estada que fundamentou a criação de “Agora e na Hora de Nossa Hora”), fui recebido pelos atores do Teatro de Anônimo e pelo SER. Ali, conheci e me encantei com o projeto. A capacidade de partilha da experiência acumulada na educação não-formal de meninos de rua com outros projetos já seria motivo o bastante para o encanto. Não bastasse isto, foi lindo constatar que muitos meninos, saídos das ruas, atuam como multiplicadores do trabalho, sabendo muito de circo, muito de rua, mais ainda de vida!

 

Hoje, as atividades do projeto são muitas – todas complementares umas às outras. Há ações que se dão nas ruas, com a aproximação de meninos e meninas moradores de rua. Há oficinas de linguagens artísticas diversas em diferentes casas-sede do projeto. Há atividades junto à instituições e autoridades políticas na luta pela garantia de direitos da população de rua. Há a partilha de saberes.

 

Para saber mais: <http://www.seessarua.org.br/>.          

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675  

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Bytom (Polônia)
Teatromania 2012
Mais informações: http://www.teatromaniafestiwal.pl/ 


 

30 – Lençóis Paulista: a cidade do livro

 

Estamos na linda cidade de Lençóis Paulista. Localizada na região Centro Oeste do Estado de São Paulo, o município tem uma população de aproximadamente 60.000 habitantes e ocupa uma área territorial de 808 Km2. Encanta, aqui, a ênfase dada por seguidas gestões públicas às atividades culturais e educacionais. 

 

Lençóis Paulista é cognominada “A Cidade do Livro”, possuindo uma das maiores bibliotecas do interior de São Paulo, a Biblioteca Municipal Orígenes Lessa. Há ainda outras duas bibliotecas em bairros afastados do centro e a Biblioteca Infantil Monteiro Lobato. Um dos orgulhos dos profissionais que trabalham nestas bibliotecas é apresentar uma linda estatística: as bibliotecas públicas possuem mais de cem mil livros. Isto significa que a relação livro por habitante é uma das maiores do Estado, já estando a cidade bem próxima da meta recomendada pela UNESCO (dois livros por habitante). Para se ter uma ideia do que isto significa, a rica capital paulista tem a média de 0,22 livros em bibliotecas públicas por habitante.    

 

Ainda há mais: o Espaço Cultural Cidade do Livro – onde, ontem e hoje, apresentamos “Agora  e na Hora de Nossa Hora” – tem espaço específico para a recuperação de volumes raros e preservação de documentos históricos. Além disto, um festival literário anual reúne em cada uma das suas edições mais de 20 mil pessoas, envolvidas em atividades diversas, incluindo a aquisição de livros a partir de R$0,50 e trocas de encadernações.   

 

Seria muito já, considerando-se o contexto brasileiro, que uma cidade desenvolvesse tantas atividades de formação de leitores (os índices de analfabetismo, aqui, são próximos de zero). Isto, porém, não é tudo. São muitas atividades de teatro, dança, artes plásticas, cinema etc. O Diretor  de Cultura Nilceu Bernardo já prevê a realização diária de eventos culturais até novembro de 2012.

 

No campo do teatro especificamente, em março, realizou-se uma mostra com grupos vindos de diferentes localidades paulistas. Além disto, ao longo do ano, são acolhidos muitos espetáculos contemplados pelos editais do PROAC e o Circuito Cultural Paulista tem trabalhos programados aqui também. As apresentações, por ora, acontecem na Casa de Cultura Profª. Maria Bove Coneglian e no Espaço Cultural Cidade do Livro. Porém, um Teatro Municipal já tem obas em andamento, com conclusão prevista para o fim deste ano ou início do próximo.

 

Assim, não poderia ser diferente, encontramos em Lençóis um público talentoso, que sabe jogar o jogo do teatro. Em muitas localidades já fizemos apresentações com públicos formados majoritariamente por grupos escolares. Estas apresentações, não raro, são ansiosas, com muita excitação de estudantes que nunca ou ainda muito poucas vezes assistiram a uma obra teatral. Ontem, tivemos experiência oposta: um grupo de estudantes compareceu a apresentação e fruiu o espetáculo, ajudando-nos a construí-lo passo a passo. Isto, claro, é resultado de trabalho.       

 

Estamos felizes! A pequena cidade de Lençóis Paulista acolheu-nos calorosamente. A “Cidade do Livro”, em pouco tempo, poderá ser a “Cidade da Cultura”.

 

Seguimos o nosso périplo: hoje, mais uma apresentação em Lençóis; na próxima sexta-feira, estaremos em Limeira.  Depois, já sabemos todos, seguimos para a Polônia, na cidade de Bytom!    

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Lençóis Paulista 
11 e 12 de maio, às 20h 
Espaço Cultural Cidade do Livro
Rua Pedro Natálio Lorenzetti, 286
Informações: (14) 3263.3123

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675  

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Bytom (Polônia)
Teatromania 2012
Mais informações: http://www.teatromaniafestiwal.pl/ 

 

29 – “Agora e na Hora de Nossa Hora” na Polônia

 

 

 

Em 18 de maio, encerramos as apresentações de “Agora e na Hora Nossa Hora” inseridas no projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”: em 18 sessões do espetáculo na capital  e em 18 sessões em 07 cidades do interior paulista, teremos registrado os 18 anos da Chacina da Candelária. Aproximadamente dois dias depois, a equipe do espetáculo embarca para a Polônia, onde o trabalho será apresentado, dia 25 de maio, no 14. Miedzynarodowy Festiwal Teatromania, evento internacional de Artes Cênicas, realizado na cidade de Bytom.

 

O convite para a apresentação no festival é fruto de outra participação em evento internacional: em agosto de 2011, “Agora e na Hora de Nossa Hora” foi apresentado no Edinburgh Festival Fringe, na Escócia. Nossa temporada escocesa compreendeu 15 apresentações no Remarkable Arts e foi organizada em parceria com o produtor Pedro de Freitas, da Périplo Produções.  Ali, recebemos críticas, tivemos experiências marcantes, conhecemos trabalhos e pessoas. Uma delas foi justamente a curadora do festival que, agora, nos faz atravessar o Atlântico mais uma vez.   

 

Teatromania é organizado pelo Bytomskie Centrum Kultury – BECEK, uma das mais importantes instituições culturais do sul da Polônia. Em sua décima quarta edição, o festival acontece de 17 a 27 de maio e tem programados espetáculos de Hong Kong, Brasil, Alemanha, Espanha, Ucrânia e Polônia. Nas edições anteriores, o festival recebeu importantes artistas do teatro mundial, como Familie Flőz (Alemanha), Derevo (Rússia) e Claire Cunningham (Reino Unido). 

 

Além de constituir um espaço de apresentação de obras artísticas, o festival abre-se como possibilidade de intercâmbio, incluindo atividades formativas, como debates. Por fim, o festival também recebe produtores de diferentes partes do mundo, aproximando-os de artistas com origens igualmente diversas.

 

Como em outras experiências do espetáculo no exterior (Espanha, Marrocos, Kosovo, Suíça, Escócia), estamos relendo-o, visando maior potencial de diálogo com o público polonês. Assim, incluir-se-ão palavras e frases em inglês e também em polonês. Além disto, pela primeira vez, pretende-se legendar o espetáculo. Ainda que em outras apresentações internacionais tenhamos apostado fundamentalmente na capacidade expressiva do corpo, principal suporte de criação desta obra, os organizadores do evento sugeriram a sua legendagem. Para eles, a despeito do corpo bem retratar o universo das crianças de rua do Brasil, a legenda em polonês poderá ajudar que se aprofundem debates importantes sobre o espetáculo – especialmente aqueles sobre os fatos históricos da Chacina da Candelária.

 

As malas, assim, estão prontas. Próximas paradas: Lençóis Paulista, Limeira e Bytom!    

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Lençóis Paulista 
11 e 12 de maio, às 20h 
Espaço Cultural Cidade do Livro
Rua Pedro Natálio Lorenzetti, 286
Informações: (14) 3263.3123

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675  

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Bytom (Polônia)
Teatromania 2012
Mais informações: http://www.teatromaniafestiwal.pl/ 

 

28 – Teatro, efemeridade e desespero

 

Depois de uma breve pausa nas andanças do projeto “Agora e na Hora de Nosa Hora_18!”(18 sessões do espetáculo “Agora e na Hora de Nossa Hora” em 07 cidades do interior paulista, registrando os 18 anos da Chacina da Candelária), voltamos à estrada. Assim, nos dias 11 e 12 de maio, às 20h, o trabalho será apresentado em Lençóis Paulista, no Espaço Cultural Cidade do Livro. E no dia 18 de maio, o espetáculo tem duas sessões em Limeira, às 19h e 21h, no Teatro Vitória.

 

Neste período de pausa, aproveitamos para preparar as próximas apresentações, sonhar e ensaiar novas produções, descansar – ninguém, afinal, é de ferro! Em momento de descanso, em show do músico Marcelo Jeneci, inesperadamente pensei em trabalho. A música, canta ele, “Não é sua nem de ninguém / Te invade, te assalta e te faz refém”. Ao ouvir isto, fui mobilizado por uma certa inveja dos artistas músicos: porque diferentemente deles, a minha obra jamais poderá ser inteiramente apartada de meu corpo.

 

A música é partilha de vida; é borboleta, como escreve Jeneci. Uma nota se entoa aqui, e logo se espalha pelo mundo. O público pode conviver com a obra: preenche-la de significados infinitos e, depois, indefinidamente significar mais e mais. Um homem que ouviu a canção e lembrou do amor da vida perdido para sempre. O outro que, no instante exato que voltou a ter a mulher amada nos braços, lembrou de uma melodia. Um terceiro que, dançando o corpo embalou os pensamentos: aquilo, afinal, não era amor. E a moça bonita que ensaiou poses em frente ao espelho, antes do baile. A criança que, confundindo versos, inesperadamente tornou a música de morte a maior alegria da face da Terra. A senhora que faxinava a casa e, ouvindo rádio, lembrou saudades do filho, esperou seu retorno, sonhou futuros, reinventou passados. A música pode, enfim, sendo uma, ser muitas: caleidoscópio.

 

Como ator, e atuando em teatro sobretudo, jamais poderei ver o que produzo. Ajo e fantasio: que as ações no palco possam dar o pontapé inicial para uma imaginação coletiva. Aí uma potência: todos juntos podemos o impossível. Depois, nostalgia: acaba a peça e não se pode levar nada para casa. É possível, sei, levar o DVD com o registro da peça, o cd com as canções entoadas pelos atores, o livro que fala de seu processo de criação.  Nada disto, no entanto, é teatro. Tudo é somente lembrança daquele instante fugidio (um “instante já”, como escreve Clarice Lispector) em que todos juntos imaginamos. Ao ator, não sendo possível multiplicar-se nas vidas muitas das pessoas, acompanhando-as, restará multiplicar vidas em si, “caleidoscopiando” a si mesmo. Integração e multiplicidade.

 

Este certo desespero silencioso (aquele de construir o que é feito para imediatamente acabar) me leva a procurar outras formas de reflexão: os trabalhos acadêmicos, a escrita de livro, postagens neste blog, cursos, palestra. A tentativa de estender contato.

 

Neste “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” isto é ainda mais evidente. As apresentações todas são acompanhadas de atividades paralelas: bate-papo, exposição, divulgação de livro sobre minha interação com os meninos de rua, 18 textos que, aqui, refletem sobre a situação de rua e as próprias apresentações do espetáculo.

 

O convite é para todos: “Agora e na Hora de Nossa Hora” segue as suas andanças. Partilhemos momentos juntos. O teatro, como a vida, acaba – e recomeça sempre!    

           

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Lençóis Paulista 
11 e 12 de maio, às 20h 
Espaço Cultural Cidade do Livro
Rua Pedro Natálio Lorenzetti, 286
Informações: (14) 3263.3123

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675