animação

O que vemos na Polônia: “Dźwiękowiązałka”

 

Estamos na Polônia, onde, na sexta-feira, dia 25, apresentamos “Agora e na Hora de Nossa Hora” no 14. Międzynarodowy Festiwal TEATROMANIA. 

 

Aproveitamos nossa estada para conferir o trabalho de artistas de outros cantos.  Hoje, a curiosa apresentação de Sambor Dudziński, músico e performer polonês que apresentou o espetáculo “Dźwiękowiązałka”. O mult-instrumentista toca, canta e se move pelas ruas do centro da cidade num grande veículo, misto de carroça e bicicleta. Faz mais: improvisa, pedindo que o público sugira textos a serem cantados. Assim, compõe novas obras, misturando referências, textos, canções.

 

 

 

A produtora de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, Daniele Sampaio, entrou no jogo e sugeriu a tradicional canção brasileira: “Cai, Cai, Balão”. E Sambor Dudziński improvisou o texto da canção tradicional tendo “Ave Maria”, de Gound, como base. 

  

Hoje, iniciamos os preparativos para a apresentação de “Agora e na Hora de Nossa Hora”: montagem de luz e cenografia. O trabalho deve entrar madrugada adentro.

 

 “Agora e na Hora de Nossa Hora” em Bytom (Polônia)
Teatromania 2012
Mais informações: http://www.teatromaniafestiwal.pl/ 

36 – A Polônia é nóis!

 

Pés na estrada. Em 27 de novembro de 2011, encerramos a primeira fase do projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18″, realizando, no SESC Pompéia, 18 sessões  de “Agora e na Hora de Nossa Hora” na capital paulista. Ali, eu postava, neste blog, “Um Homem na Estrada”. Assim, emprestava a música dos Racionais Mc´s para indicar que, fechado um ciclo, um novo se abria: a segunda fase do projeto com iguais 18 sessões do trabalho em 07 cidades do interior paulista.  

Em 18 de maio de 2012, concluímos, enfim, os trabalhos do projeto, registrando em andanças os 18 anos da Chacina da Candelária. E, claro, novo ciclo se abre: a participação de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no XIV Międzynarodowego Festiwalu Teatromania 2012, na Polônia. Na abertura de tudo, sabemos, movimento; no seu encerramento, igualmente, pés na estrada. Seguimos, caminhando e nos fazendo em nossos caminhos.

 

Na Polônia, a imprensa tem noticiado assim a nossa apresentação: “(…) możemy być pewni, że ten spektakl zapadnie nam na długo w pamięci.” Isto quer dizer mais ou menos o seguinte: “Podemos ficar confiantes de que esse desempenho ficará gravado na nossa memória.” Frio na barriga. Se a minha expectativa é grande, pelo jeito, a responsabilidade também não é pequena.   

 

Que os deuses do teatro estejam conosco! Os poloneses, ao que parece, já estão do nosso lado!  

35 – “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”

 

Em 18 de maio de 2012, encerramos o projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18”. A partir de apresentações do espetáculo “Agora e na Hora de Nossa Hora”, registramos os 18 anos da Chacina da Candelária.  Circulação como ato performático. 

 

Esta turnê desenvolveu-se em dois ciclos. O primeiro deles, com 18 apresentações, aconteceu entre outubro e novembro de 2011, no SESC Pompéia, na capital paulista. As sessões foram acompanhadas de 18 postagens, neste blog, debatendo a situação de rua. 

 

O segundo ciclo de 18 sessões, realizado de fevereiro a maio de 2012 com recursos do PROAC – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, percorreu 07 cidades do interior paulista. Outras atividades acompanharam a circulação: expográfico sobre o processo criativo; workshops; bate-papo após da primeira sessão em cada cidade; doação de exemplares do livro “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense ” (Editora Hucitec, 2007), de minha autoria; outras 18 postagens neste blog.

 

Findo o trabalho, já se sente saudades das muitas interações nos caminhos percorridos. Na Escola Livre de Teatro, em Santo André, partilha de modos de pensar/agir no teatro. Além das apresentações, workshop sobre Dramaturgia do Corpo. Lindo começo: impulso alegre!

 

Em Garça, muitos educadores nas apresentações. E, com realização da Secretaria de Cultura de Garça, dois workshops: “Dramaturgia do Corpo”, ministrado por mim; e “Produção Cultural”, ministrado por Daniele Sampaio – produtora do espetáculo.

 

Em Assis, muitos estudantes universitário na platéia. Jovens envolvidos no debate sobre a situação da infância e juventude brasileiras.

 

Em Taboão da Serra, espíritos alimentados pela comovente maneira de viver o teatro do Grupo Clariô, nossos anfitriões. Apresentações e debate para não esquecer da utopia: mudar o mundo, começando por nós mesmos.                    

 

Em São José dos Campos, inseridos na Mostra Joseense de Teatro, um público sabedor de como fruir uma obra. Debate altamente qualificado, troca infinita de experiências!

 

Em Lençóis Paulista, a grata surpresa! Uma cidade que, sendo numericamente pequena (60 mil habitantes), é grande na ambição cultural: mais livros em bibliotecas que moradores no município. Impressionante trabalho da Secretaria de Cultura em fazer do município um lugar fundamental para seus habitantes: espaço de interação e significação do humano. 

 

Em Limeira, a alegria de apresentar na Região Metropolitana de Campinas. Como tem sido raro e difícil apresentar em casa! Em Campinas, por exemplo, não há nenhum teatro público aberto em boas condições. Daí a importância do Teatro Vitória e da sua empenhada equipe na manutenção de uma sala pública na região.

 

Fim. E recomeço. Partimos com uma inquietação: depois de 18 anos da Chacina da Candelária, atingimos a maioridade do debate social? Infelizmente concluímos que não. Ainda abundam casos de violência contra a infância e a juventude. Vivemos uma contradição: apostamos e esperamos o futuro, mas maltratamos aqueles que podem construí-lo.

 

Porém, se não podemos comemorar, depois de tantos caminhos pisados (mais 3.150km!), nosso amadurecimento como povo, podemos celebrar novas amizades. São muito os inquietos. Uma rede deles, cedo ou tarde, há de celebrar o novo!

 

34 – Pixote, a lei do mas fraco

 

Hoje, às 19h e às 21h, no Teatro Vitória, em Limeira, encerramos as 18 apresentações da segunda fase do projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18”. Financiados pelo PROAC – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, teremos registrado os 18 anos da Chacina da Candelária em 18 apresentações do espetáculo “Agora e na Hora de Nossa Hora” pelo interior paulista – o mesmo trabalho teve 18 sessões na capital paulista, no SESC Pompéia, em 2011, como primeira fase do projeto. Mais: teremos realizado, bate-papos, exposição, doações de livro e eu, a cada fase do projeto, publiquei 18 postagens sobre a minha interação com os meninos de rua e os materiais que estimularam a criação do espetáculo.

 

Depois de encerradas as apresentações, publicarei ainda dois textos mais, avaliando as nossas andanças e procurando problematizar a inquietação primordial do projeto:  se é esperado que o cidadão brasileiro, aos 18 anos, responda legalmente por suas ações, demos conta como sociedade de amadurecer um projeto social diverso daquele que assassinou crianças, em 1993?

 

Por ora, uma última influência para a criação da peça: o filme “Pixote, a lei do mais fraco”. Possivelmente este foi um dos meus primeiros contatos com o tema da infância abandonada e com a sua representação poética. O filme literalmente me atormentou e produziu pesadelos, na infância e na adolescência. A cena em que Marília Pêra, como Sueli, amamenta Pixote é indiscutivelmente uma imagem importante para a narração de Pedrinha, personagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, sobre a sua interação com Felipa, sua “mãe da rua”.  Poesia e crueldade.    

    

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675   

 

33 – Rua com Saída: “A Magia dos Invencíveis”

 

Se, nas últimas postagens, escrevi sobre projetos sociais com meninos e meninas em situação de rua, hoje, apresento brevemente um lindo livro sobre esta população: “A Magia dos Invencíveis”, de Ligia Costa Leite (Editora Vozes, 1991). O trabalho trata da experiência da autora numa ação educacional com estes meninos, numa aventura de implementação de escola especialmente dedicada a eles. 

 

Durante o primeiro mandato de Leonel Brizola como governador do Rio de Janeiro (1983-1987), Darcy Ribeiro planejou e dirigiu a implantação dos Centros Integrados de Ensino Público (CIEP): um projeto pedagógico de assistência em tempo integral a crianças, incluindo atividades recreativas e culturais para além do ensino formal. Um destes CIEPs foi instalado no recém-construído Sambódromo. Durante o ano todo, uma escola funciona onde, nas cinco noites de Carnaval, o Rei Momo faz a sua festa. Ali, as primeiras ações direcionadas aos meninos e meninas de rua.

 

Muitos foram os esforços de implementação do projeto.  Porém, o convívio entre adolescentes que viviam na rua e os aqueles que moravam em casa, frequentando a mesma escola, não foi fácil. Os problemas de instalação do projeto eram muitos, inclusive, com casos de envolvimento sexual de policiais com meninos e meninas de rua.  Assim, o projeto acabou por ganhar a instalação de uma sede própria, criando-se a Escola Tia Ciata.

 

A nova escola chegou a abrigar 500 crianças e adolescentes. Um espaço de aprendizado de todos: dos meninos-aprendizes, claro, mas também de todos os profissionais que ali trabalharam (professores, faxineiros, merendeiros etc.) e do próprio Estado. Uma escola dedicada ao convívio e crescimento coletivo – “uma das coisas mais bonitas deste mundo”, nos dizeres de Darcy Ribeiro.

 

A ação, obviamente, incomodou muito ante o contexto de marasmo do sistema educacional brasileiro. Tal como o conhecemos, afinal, o sistema escolar dedica-se mais a uma certa inserção nos padrões de convívio social já estabelecidos que ao crescimento pessoal do aluno e da sociedade como um todo. Crescimento, não raro, leva à inquietação, ao questionamento, ao rompimento de padrões de conduta que possivelmente interessem a poucos. A transformação deveria ser o pressuposto básico de um país que se pretende um dos grande do mundo – e infelizmente nem sempre é assim. Por fim, Ligia Costa Leite, liderança fundamental na implementação da escola, e a sua equipe acabam afastados do projeto que, enfim, morre.

 

A comovente experiência está descrita em “A Magia dos Invencíveis”, da própria Ligia. Ali, é bonito acompanhar o relato de utopia e ação e os seus embates com uma sociedade conservadora e a politicagem – a mediocridade, enfim.

 

Para saber mais: <http://www.invenciveis.com/>.         

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675  

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Bytom (Polônia)
Teatromania 2012
Mais informações: http://www.teatromaniafestiwal.pl/ 

32 – Rua com Saída: Mano a Mano

 

Em outras postagens, já afirmei a rua como construtora de uma sociabilidade outra – o que é diverso de considerá-la somente como desconstrutora de sociabilidades. A rua, em trânsitos e aventuras, ajuda a moldar uma visão de mundo daqueles que nela habitam. Por isto, as ações que se dirijam a esta população, devem levar em conta outras formas de viver para além do modelo de quem mora em casa – construindo, assim, a coerência das suas relações. Caso contrário, já sabemos, limitamo-nos a atividades ineficientes e à violência – as ações que restringem o Estado ao seu poder de polícia são exemplares neste sentido.     

 

O diálogo identidade/alteridade, diga-se, nunca é tarefa simples: pressupõe que se considere que não há modelo único para o humano; pressupõe abertura para a trocas de afeto; pressupõe partilha de visões de mundo. Não por acaso, um dos projetos sociais mais interessantes que conheci, em Campinas, o Mano a Mano, tem origens no trabalho de uma antropóloga: Simone Frangella. 

 

O grupo Mano a Mano usa elementos de arte-educação – leitura, desenho, expressões corporais e música – para estabelecer um diálogo com crianças e adolescentes moradores de rua, visando conduzi-los à reflexão sobre si mesmos e o mundo, seu espaço e suas potencialidades. As atividades são organizadas por voluntários, sendo grande parte deles estudantes da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP.  

 

Realizada no centro da cidade de Campinas, esta “pedagogia das calçadas” pressupões mais que a ação educacional com meninos e meninas de rua. Inclui uma certa visibilidade destes meninos para a população que frequentemente não os vê – ou finge que não os vê. Inclui uma certa mediação entre o cidadão que mora em casa e o cidadão que mora na rua. Inclui uma certa mediação entre o Estado e as suas instituições (como a polícia) e a população de rua. Inclui, enfim, a percepção de que a rua é local de encontro dos muitos modos de viver que a cidade abriga, sendo potencialmente, assim, espaço de exercício pleno da alteridade.    

 

Para saber mais, a linda dissertação de mestrado de Simone Frangella sobre meninos e meninas de rua de Campinas (“Capitães do Asfalto”) está disponível para download aqui. Seu trabalho de doutoramento, sobre a população de rua adulta de São Paulo pode ser acessada aqui.    

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675  

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Bytom (Polônia)
Teatromania 2012
Mais informações: http://www.teatromaniafestiwal.pl/ 


 

31 – Rua com Saída: SER

 

Estamos próximos de um fim: no dia 18, em Limeira, encerramos o projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”, registrando com apresentação de espetáculo, postagens neste blog, exposição e debates, os 18 anos da Chacina da Candelária. Assim, aproveito, as últimas inserções neste espaço virtual (18 postagens paralelas às 18 apresentações na capital e outras 18 paralelas às 18 sessões no interior) para divulgar ações de diálogo com meninos e meninas em situação de rua.

 

Começo pelo projeto “Se Essa Rua Fosse Minha” – SER. O projeto surgiu na década de 1990, mobilizando o poder público e sociedade como um todo para os direitos de meninos e meninas moradores de rua. Justamente após a Chacina da Candelária, o projeto tem ampla divulgação, com o sociólogo Hebert de Souza liderando um grupo de artistas que, gravando um disco, arrecada fundos para uma ação sistemática junto a esta população de rua.      

 

O SER foi pioneiro no uso do circo como instrumento de transformação social – o Circo Social. Os princípios do trabalho repousam numa busca de potencializar a linguagem corporal (em dimensões física e simbólica- psicofísicas, portanto) de meninos e meninas em situação de rua. A partir de parcerias com importantes coletivos cênicos cariocas (a Intrépida Trupe e o Teatro de Anônimo), o projeto deu os primeiros passos na sistematização destas ações. Depois, estas ações fundamentaram a criação do programa Cirque du Monde –  parceria do SER com o Cirque du Soleil e a ONG Jeunesse du Monde. Este programa, assim, permitiu que uma tecnologia social pudesse ser partilhada em diversas cidades do brasil e mesmo nos cinco continentes.

 

Quando de minha visita ao Rio de Janeiro (estada que fundamentou a criação de “Agora e na Hora de Nossa Hora”), fui recebido pelos atores do Teatro de Anônimo e pelo SER. Ali, conheci e me encantei com o projeto. A capacidade de partilha da experiência acumulada na educação não-formal de meninos de rua com outros projetos já seria motivo o bastante para o encanto. Não bastasse isto, foi lindo constatar que muitos meninos, saídos das ruas, atuam como multiplicadores do trabalho, sabendo muito de circo, muito de rua, mais ainda de vida!

 

Hoje, as atividades do projeto são muitas – todas complementares umas às outras. Há ações que se dão nas ruas, com a aproximação de meninos e meninas moradores de rua. Há oficinas de linguagens artísticas diversas em diferentes casas-sede do projeto. Há atividades junto à instituições e autoridades políticas na luta pela garantia de direitos da população de rua. Há a partilha de saberes.

 

Para saber mais: <http://www.seessarua.org.br/>.          

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675  

 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Bytom (Polônia)
Teatromania 2012
Mais informações: http://www.teatromaniafestiwal.pl/ 


 

30 – Lençóis Paulista: a cidade do livro

 

Estamos na linda cidade de Lençóis Paulista. Localizada na região Centro Oeste do Estado de São Paulo, o município tem uma população de aproximadamente 60.000 habitantes e ocupa uma área territorial de 808 Km2. Encanta, aqui, a ênfase dada por seguidas gestões públicas às atividades culturais e educacionais. 

 

Lençóis Paulista é cognominada “A Cidade do Livro”, possuindo uma das maiores bibliotecas do interior de São Paulo, a Biblioteca Municipal Orígenes Lessa. Há ainda outras duas bibliotecas em bairros afastados do centro e a Biblioteca Infantil Monteiro Lobato. Um dos orgulhos dos profissionais que trabalham nestas bibliotecas é apresentar uma linda estatística: as bibliotecas públicas possuem mais de cem mil livros. Isto significa que a relação livro por habitante é uma das maiores do Estado, já estando a cidade bem próxima da meta recomendada pela UNESCO (dois livros por habitante). Para se ter uma ideia do que isto significa, a rica capital paulista tem a média de 0,22 livros em bibliotecas públicas por habitante.    

 

Ainda há mais: o Espaço Cultural Cidade do Livro – onde, ontem e hoje, apresentamos “Agora  e na Hora de Nossa Hora” – tem espaço específico para a recuperação de volumes raros e preservação de documentos históricos. Além disto, um festival literário anual reúne em cada uma das suas edições mais de 20 mil pessoas, envolvidas em atividades diversas, incluindo a aquisição de livros a partir de R$0,50 e trocas de encadernações.   

 

Seria muito já, considerando-se o contexto brasileiro, que uma cidade desenvolvesse tantas atividades de formação de leitores (os índices de analfabetismo, aqui, são próximos de zero). Isto, porém, não é tudo. São muitas atividades de teatro, dança, artes plásticas, cinema etc. O Diretor  de Cultura Nilceu Bernardo já prevê a realização diária de eventos culturais até novembro de 2012.

 

No campo do teatro especificamente, em março, realizou-se uma mostra com grupos vindos de diferentes localidades paulistas. Além disto, ao longo do ano, são acolhidos muitos espetáculos contemplados pelos editais do PROAC e o Circuito Cultural Paulista tem trabalhos programados aqui também. As apresentações, por ora, acontecem na Casa de Cultura Profª. Maria Bove Coneglian e no Espaço Cultural Cidade do Livro. Porém, um Teatro Municipal já tem obas em andamento, com conclusão prevista para o fim deste ano ou início do próximo.

 

Assim, não poderia ser diferente, encontramos em Lençóis um público talentoso, que sabe jogar o jogo do teatro. Em muitas localidades já fizemos apresentações com públicos formados majoritariamente por grupos escolares. Estas apresentações, não raro, são ansiosas, com muita excitação de estudantes que nunca ou ainda muito poucas vezes assistiram a uma obra teatral. Ontem, tivemos experiência oposta: um grupo de estudantes compareceu a apresentação e fruiu o espetáculo, ajudando-nos a construí-lo passo a passo. Isto, claro, é resultado de trabalho.       

 

Estamos felizes! A pequena cidade de Lençóis Paulista acolheu-nos calorosamente. A “Cidade do Livro”, em pouco tempo, poderá ser a “Cidade da Cultura”.

 

Seguimos o nosso périplo: hoje, mais uma apresentação em Lençóis; na próxima sexta-feira, estaremos em Limeira.  Depois, já sabemos todos, seguimos para a Polônia, na cidade de Bytom!    

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Lençóis Paulista 
11 e 12 de maio, às 20h 
Espaço Cultural Cidade do Livro
Rua Pedro Natálio Lorenzetti, 286
Informações: (14) 3263.3123

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675  

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Bytom (Polônia)
Teatromania 2012
Mais informações: http://www.teatromaniafestiwal.pl/ 

 

29 – “Agora e na Hora de Nossa Hora” na Polônia

 

 

 

Em 18 de maio, encerramos as apresentações de “Agora e na Hora Nossa Hora” inseridas no projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”: em 18 sessões do espetáculo na capital  e em 18 sessões em 07 cidades do interior paulista, teremos registrado os 18 anos da Chacina da Candelária. Aproximadamente dois dias depois, a equipe do espetáculo embarca para a Polônia, onde o trabalho será apresentado, dia 25 de maio, no 14. Miedzynarodowy Festiwal Teatromania, evento internacional de Artes Cênicas, realizado na cidade de Bytom.

 

O convite para a apresentação no festival é fruto de outra participação em evento internacional: em agosto de 2011, “Agora e na Hora de Nossa Hora” foi apresentado no Edinburgh Festival Fringe, na Escócia. Nossa temporada escocesa compreendeu 15 apresentações no Remarkable Arts e foi organizada em parceria com o produtor Pedro de Freitas, da Périplo Produções.  Ali, recebemos críticas, tivemos experiências marcantes, conhecemos trabalhos e pessoas. Uma delas foi justamente a curadora do festival que, agora, nos faz atravessar o Atlântico mais uma vez.   

 

Teatromania é organizado pelo Bytomskie Centrum Kultury – BECEK, uma das mais importantes instituições culturais do sul da Polônia. Em sua décima quarta edição, o festival acontece de 17 a 27 de maio e tem programados espetáculos de Hong Kong, Brasil, Alemanha, Espanha, Ucrânia e Polônia. Nas edições anteriores, o festival recebeu importantes artistas do teatro mundial, como Familie Flőz (Alemanha), Derevo (Rússia) e Claire Cunningham (Reino Unido). 

 

Além de constituir um espaço de apresentação de obras artísticas, o festival abre-se como possibilidade de intercâmbio, incluindo atividades formativas, como debates. Por fim, o festival também recebe produtores de diferentes partes do mundo, aproximando-os de artistas com origens igualmente diversas.

 

Como em outras experiências do espetáculo no exterior (Espanha, Marrocos, Kosovo, Suíça, Escócia), estamos relendo-o, visando maior potencial de diálogo com o público polonês. Assim, incluir-se-ão palavras e frases em inglês e também em polonês. Além disto, pela primeira vez, pretende-se legendar o espetáculo. Ainda que em outras apresentações internacionais tenhamos apostado fundamentalmente na capacidade expressiva do corpo, principal suporte de criação desta obra, os organizadores do evento sugeriram a sua legendagem. Para eles, a despeito do corpo bem retratar o universo das crianças de rua do Brasil, a legenda em polonês poderá ajudar que se aprofundem debates importantes sobre o espetáculo – especialmente aqueles sobre os fatos históricos da Chacina da Candelária.

 

As malas, assim, estão prontas. Próximas paradas: Lençóis Paulista, Limeira e Bytom!    

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Lençóis Paulista 
11 e 12 de maio, às 20h 
Espaço Cultural Cidade do Livro
Rua Pedro Natálio Lorenzetti, 286
Informações: (14) 3263.3123

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675  

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Bytom (Polônia)
Teatromania 2012
Mais informações: http://www.teatromaniafestiwal.pl/ 

 

28 – Teatro, efemeridade e desespero

 

Depois de uma breve pausa nas andanças do projeto “Agora e na Hora de Nosa Hora_18!”(18 sessões do espetáculo “Agora e na Hora de Nossa Hora” em 07 cidades do interior paulista, registrando os 18 anos da Chacina da Candelária), voltamos à estrada. Assim, nos dias 11 e 12 de maio, às 20h, o trabalho será apresentado em Lençóis Paulista, no Espaço Cultural Cidade do Livro. E no dia 18 de maio, o espetáculo tem duas sessões em Limeira, às 19h e 21h, no Teatro Vitória.

 

Neste período de pausa, aproveitamos para preparar as próximas apresentações, sonhar e ensaiar novas produções, descansar – ninguém, afinal, é de ferro! Em momento de descanso, em show do músico Marcelo Jeneci, inesperadamente pensei em trabalho. A música, canta ele, “Não é sua nem de ninguém / Te invade, te assalta e te faz refém”. Ao ouvir isto, fui mobilizado por uma certa inveja dos artistas músicos: porque diferentemente deles, a minha obra jamais poderá ser inteiramente apartada de meu corpo.

 

A música é partilha de vida; é borboleta, como escreve Jeneci. Uma nota se entoa aqui, e logo se espalha pelo mundo. O público pode conviver com a obra: preenche-la de significados infinitos e, depois, indefinidamente significar mais e mais. Um homem que ouviu a canção e lembrou do amor da vida perdido para sempre. O outro que, no instante exato que voltou a ter a mulher amada nos braços, lembrou de uma melodia. Um terceiro que, dançando o corpo embalou os pensamentos: aquilo, afinal, não era amor. E a moça bonita que ensaiou poses em frente ao espelho, antes do baile. A criança que, confundindo versos, inesperadamente tornou a música de morte a maior alegria da face da Terra. A senhora que faxinava a casa e, ouvindo rádio, lembrou saudades do filho, esperou seu retorno, sonhou futuros, reinventou passados. A música pode, enfim, sendo uma, ser muitas: caleidoscópio.

 

Como ator, e atuando em teatro sobretudo, jamais poderei ver o que produzo. Ajo e fantasio: que as ações no palco possam dar o pontapé inicial para uma imaginação coletiva. Aí uma potência: todos juntos podemos o impossível. Depois, nostalgia: acaba a peça e não se pode levar nada para casa. É possível, sei, levar o DVD com o registro da peça, o cd com as canções entoadas pelos atores, o livro que fala de seu processo de criação.  Nada disto, no entanto, é teatro. Tudo é somente lembrança daquele instante fugidio (um “instante já”, como escreve Clarice Lispector) em que todos juntos imaginamos. Ao ator, não sendo possível multiplicar-se nas vidas muitas das pessoas, acompanhando-as, restará multiplicar vidas em si, “caleidoscopiando” a si mesmo. Integração e multiplicidade.

 

Este certo desespero silencioso (aquele de construir o que é feito para imediatamente acabar) me leva a procurar outras formas de reflexão: os trabalhos acadêmicos, a escrita de livro, postagens neste blog, cursos, palestra. A tentativa de estender contato.

 

Neste “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” isto é ainda mais evidente. As apresentações todas são acompanhadas de atividades paralelas: bate-papo, exposição, divulgação de livro sobre minha interação com os meninos de rua, 18 textos que, aqui, refletem sobre a situação de rua e as próprias apresentações do espetáculo.

 

O convite é para todos: “Agora e na Hora de Nossa Hora” segue as suas andanças. Partilhemos momentos juntos. O teatro, como a vida, acaba – e recomeça sempre!    

           

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Lençóis Paulista 
11 e 12 de maio, às 20h 
Espaço Cultural Cidade do Livro
Rua Pedro Natálio Lorenzetti, 286
Informações: (14) 3263.3123

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Limeira
Teatro Vitória
18 de maio, às 19h e às 21h
Praça Toledo de Barros, s/n  
Informações: (19) 3451.6679 / 3451.2675  

 

27 – Meninos de Rua: apropriações

 

Nesta semana, o espetáculo “Agora e na Hora de Nossa hora” é apresentado em São José dos Campos, como parte da Mostra Joanense de Teatro. As 18 sessões no interior de São Paulo registram, como as 18 postagens que escrevo neste blog, os 18 anos da Chacina da Candelária. Assim é o projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”. Aqui, um texto sobre as múltiplas tentativas de apropriação dos meninos de rua pelo Estado e outras instituições – adaptado de “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense” (Hucitec, 2007).

 

Ao ter considerada a sua sociabialidade incompleta (assim são a infância e a juventude) meninos e meninas de rua facilmente se tornam “sujeitos apropriáveis”. O Estado, as instituições, grupos e pessoas com os quais dialogam sabem o que deve ser feito dos meninos. Meninos de rua são alvo de infindas tentativas de reintegração à sociedade. Estas são tentativas de capturá-los para o cumprimento de um modelo que nem sempre desejam assumir.

 

Justificadas nos seus argumentos que desenham a figura do “menor abandonado” estas ações, no entanto, fracassam. Isto porque não levam em conta que a rua não é só espaço de desconstrução de relações; a rua é também construção de uma nova sociabilidade. Viciadas num olhar preconceituoso sobre a rua e o modo de vida de seus habitantes, estas ações pretendem, não raro, tirar da rua os meninos a qualquer custo, procurando discipliná-los a um modelo de juventude. Repito: nem sempre estes meninos estão dispostos a abraçar estes modelos.

 

Há neste modelo de atuação, uma certa arrogância. O povo brasileiro, “pacífico por natureza”, pode deixar escapar, na sua conduta junto aos meninos de rua, preconceito e intolerância que tanto condena em outros povos. Quando os EUA decidiram, em nome da liberdade do povo do Iraque, praticar o genocídio que até hoje a história testemunha, nossas representações políticas facilmente manifestaram seu repúdio à guerra. Nisto eu estava completamente de acordo. Entretanto, é curioso observar que, no Brasil, crianças e adolescentes, em nome do seu bem, sejam forçados a cumprir um modelo de vida que não desejam para si.

 

Assim, os projetos e programas sociais, as instituições, todos sabem o destino que dariam para a vida destes adolescentes. Poucos sabem ouvir o que os adolescentes pretendem de si mesmos. Os adolescentes não participam da construção de seu próprio projeto de vida.

 

É preciso, agora, considerar que meninos e meninas de rua trazem experiências variadas, diversas daquelas que nós, moradores de casa, trazemos. Isto é aceitar que suas expectativas podem ser diferentes das nossas. Caso contrário, falaremos sozinhos, sem encontrar nos meninos interlocutores.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em São José dos Campos
Mostra Joanense de Teatro
31 de março, às 21h e 01 de abril, às 19h
CET – Centro de Estudos Teatrais
Av. Olivo Gomes, 100 – Parque da Cidade – Santana
Informações: (12) 3924-7358.  

 

26 – Identidade: transitoriedade

 

Na última semana, apresentamos “Agora e na Hora de Nossa Hora” no Espaço Clariô – sede do grupo de teatro homônimo. Ali, um grupo – apaixonado e apaixonante! – muitíssimo afeito ao debate sobre as relações teatro/sociedade. O Clariô lembra-nos que as artes em geral – e o teatro em especial – fortalecem nossos laços comunitários: identidade, pertencimento. Isto motivou uma reflexão acerca da construção de uma certa visão de mundo pela população de rua. Neste texto, adaptado de meu livro “Hora de Nossa hora: o menino de rua e o brinquedo circense (Hucitec, 2007), breve pensamento sobre os deslocamentos da população de rua.

 

Desde a origem das cidades, há registros de pessoas que fazem da rua morada. Diversos olhares foram lançados já sobre os habitantes da rua. Da compaixão ao escárnio; do medo (que leva, não raro, às ações de enclausuramento, afastamento destas pessoas do cotidiano das cidades) ao preconceito. O olhar sobre estas pessoas corresponde a um olhar sociocultural e histórico – mutável, portanto.

 

Em nossos tempos, já escrevi em outra postagem, um pensamento urbanístico é norma: ordenação da circulação de pessoas e mercadorias. Os habitantes da rua, neste contexto, permanentemente se deslocam como os demais indivíduos da cidade. Entretanto, o fazem de maneira diferenciada. Se outros habitantes da cidade transitam com a finalidade de sair de um lugar para chegar em outro, os habitantes da rua não desenham um deslocamento objetivo; não há ponto de chegada. Ora se deslocam motivados pela ordem dominante que os expulsa (assim é a ação da polícia, por exemplo), ora se deslocam atrás de outras oportunidades de sobrevivência. Gente que faz da vida movimento.

 

Neste deslocamento contínuo, a população de rua constrói sua identidade. A rua adquire sentidos diferenciados para estas pessoas. O nomadismo implica numa série de referências de sociabilidade para a população de rua, como o desenvolvimento de relações efêmeras e fragmentadas e a sensação de liberdade. Ao se deslocar, o habitante das ruas se constrói, faz-se andando.

 

Ao ocupar a rua de maneira diferenciada, a população de rua é facilmente destacada na paisagem urbana. Seu modo de vida subverte a lógica e a expectativa de ocupação de espaços que os outros habitantes da cidade aprenderam a incorporar. Os habitantes da rua são, para outros cidadãos, um pouco fora do lugar.

 

A transitoriedade dos adolescentes em situação de rua e a itinerância própria do circo podem, em parte, explicar a facilidade com que meninos e meninas de rua se entregam às atividades circenses – o que acontece não só no projeto “Gepeto”, da ONG ACADEC, em que atuei ao lado de meninos de rua de Campinas, mas em diversos outros projetos que fazem do circo sua principal forma de atuação, como o projeto “Se essa rua fosse minha”, no Rio de Janeiro – RJ. É como se o circo trouxesse no bojo de suas técnicas uma qualidade arquetípica do deslocamento contínuo. Como ferramenta para dialogarmos com a transitoriedade, a linguagem da transitoriedade.

 

Próxima parada dos deslocamentos de “Agora e na Hora de Nossa Hora” pelo interior de São Paulo: São José dos Campos.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em São José dos Campos
Mostra Joanense de Teatro
31 de março, às 21h e 01 de abril, às 19h
CET – Centro de Estudos Teatrais
Av. Olivo Gomes, 100 – Parque da Cidade – Santana
Informações: (12) 3924-7358. 

 
  

25 – A Música dos Meninos de Rua: “Dia de Visita”, do Realidade Cruel

 

Ao contrário do que se pensa, meninos e meninas em situação de rua, não raro, são ligados fortemente às suas origens, sobretudo, às suas famílias. Ainda que dolorosamente nem sempre mencionem isto, impressiona o quanto o tema os mobiliza. Curiosamente, diga-se, os meninos tendem a reproduzir nas ruas as estruturas familiares que conheciam em casa. Assim, andam em grupos e alguém considerado um pouco mais maduro (menino ou menina mais velha, um morador de rua adulto, uma prostitua) acabam assumindo a postura de pai ou mãe da rua, responsabilizando-se pelos demais.

 

Nesta postagem, um vídeo do grupo Realidade Cruel, de Hortolândia, região de Campinas. Já disse, em outro texto, que o grupo fala fundo aos meninos de rua. Aqui, uma música em que tratam justamente de um dia de visita (um detento recebendo a visita da mãe, no presídio). Muitas vezes a ouvi na Febem. Outras tanta ouvi meninos cantando-a nas ruas.

 

 

Nesta semana, o espetáculo “Agora e na Hora de Nossa Hora” apresenta-se em São José dos Campos, como parte da Mostra Joanense de Teatro.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em São José dos Campos
Mostra Joanense de Teatro
31 de março, às 21h e 01 de abril, às 19h
CET – Centro de Estudos Teatrais
Av. Olivo Gomes, 100 – Parque da Cidade – Santana
Informações: (12) 3924-7358.  

 

 

24 – Rua: encontros

 

As 18 sessões de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no interior de São Paulo registram os 18 anos da Chacina da Candelária. As apresentações são acompanhadas de bate-papos, exposição, doação e divulgação de livro, 18 postagens, neste blog, sobre a situação de risco social. Neste texto, adapto trecho do livro “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense”, de minha autoria (Editora Hucitec, 2007).

 

A rua é espaço múltiplo. É espaço de circulação de pessoas com diferentes origens, situações socioculturais e econômicas, com diversidade de opções políticas, ideológicas e religiosas. Ao passar ou ocupar a rua, cada um dos habitantes da cidade imprime um pouco de si no seu espaço. A rua, assim, ganha significações tão diversas quanto é possível à diversidade de pessoas que por ela passam. A população de rua, incluídos crianças e adolescentes, é parte desta diversidade.

 

Ao longo da história, variam as concepções sobre a rua. Antes, espaço de encontro e de interações entre os habitantes das cidades, progressivamente a rua torna-se local de passagem. Seu espaço não é mais local de concentração de pessoas e organização da vida social. A rua é destinada exclusivamente ao deslocamento. É neste progressivo esvaziamento da rua que se constrói e se consolida o discurso de limpeza e ordenação do espaço urbano – a cidade virou urbe. A rua passou a ser projetada de maneira a facilitar deslocamentos, sem superfícies rugosas, sem possibilidade de aglomerações. A rua é puramente espaço da transitoriedade.

 

A disciplina urbanística, entretanto, pode planejar espaços, mas não as pessoas. A rua continua a congregar a multiplicidade de cidadãos. Se as intervenções urbanísticas tendem ao desejo da dispersão popular (o que, arrisco-me a afirmar, corresponde a interesses de classe das elites no poder), a multiplicidade de pessoas que ocupam a rua tende a imprimi-la com outros sentidos. Diversidade é resistência. Assim, persistem em tomar a rua como espaço do encontro, os vendedores ambulantes, os pregadores religiosos, os artistas populares. As ações destas pessoas tendem às aglomerações, a um uso do espaço da cidade que a funcionalidade do pensamento urbanístico excluía.

 

A despeito disto, em nossos tempos, o pensamento urbanístico justifica políticas públicas que pretendem facilitar o deslocamento de pessoas (com trajetos programados, sempre utilitários, como o de casa para o trabalho, por exemplo) e a circulação de mercadorias. A força deste pensamento nas cidades tende a conflitar com o modo de vida daqueles que procuram ocupar a rua com outra finalidade que não o puro deslocamento. A rua é reafirmada como lugar perigoso, indefinido, violento. A rua não é lugar de criança.

 

Neste contexto, os trabalhos sociais com jovens em situação de rua requerem que se exercite um outro olhar para a urbe. Porque não se trata somente de discutir o que fazer dos meninos que vivem nas ruas. Trata-se de discutir um projeto de cidade. Lugar de criança não é na violência da rua, dizem. Entretanto, a rua pode ser violenta justamente porque não tem criança. O crime não se instala nas ruas onde as crianças brincam, onde os vizinhos se conhecem e sentam no meio fio para jogar conversa fora. Ao contrário, os bandidos escolhem mesmo são as ruas desertas, onde os vizinhos não fazem ideia do que acontece na casa ao lado.

 

A rua é lugar de criança. É também lugar de adultos, de adolescentes, de casais de namorados, de idosos, de toda gente. É preciso transformar a rua: exigir de volta as nossas praças, os bancos para o namoro dos casais, as áreas verdes, as cadeiras nas calçadas. O espaço público, enfim, tomado novamente como público.

 

É evidente que isto não significa que se deva aceitar com passividade que crianças, adolescentes ou quaisquer outros cidadãos estejam abandonados à violência das ruas. Aqui, um entendimento simples: se temos o que ensinar a este jovens, temos também o que com eles aprender – a cidade de volta!

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” apresenta-se, nesta semana, no Espaço Clariô, em Taboão da Serra. As apresentações são financiadas pelo PROAC 2011 – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e, nesta cidade, contam com o apoio do Grupo Clariô e do Hotel 155.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no Espaço Clariô
Rua Santa Luzia, 96 – Vila Sta. Luzia – Taboão da Serra – SP
dias 23 e 24 de março, às 20h 
Informações: (11) 4701.8401 /(11) 9621.6892    
Entrada gratuita    

 

 

23 – Crack se vence com alegria e esperança!

 

Na semana passada, no dia 12 de março, suspendemos brevemente as apresentações de “Agora  e na Hora de Nossa Hora” pelo interior de São Paulo. A pausa tinha fim: apresentar o espetáculo para gestores de unidades socioeducativas do Estado do Rio de Janeiro.

 

Depois, já no dia 13, viajamos para Assis, em São Paulo, onde entre os dias 14 e 16, voltamos à turnê que registra os 18 anos da Chacina da Candelária.

 

Tanto em Assis quanto no Rio de Janeiro, houve bate-papos com os espectadores sobre o processo de criação do trabalho e sobre a infância e juventude em situação de rua.  Em Assis, uma espectadora perguntou, referindo-se à triste e ineficaz ação policial na  região conhecida como Cracolândia, na cidade de São Paulo, como o cidadão comum poderia contribuir para um debate mais produtivo sobre a situação de rua. Outros espectadores demonstraram igual preocupação com o uso de crack entre crianças e adolescentes. 

 

A reposta para inquietações tão maiúsculas, claro, não é simples – ainda que sob um ponto de vista o seja: não se elejam políticos afeitos a tomar a polícia como única política social! Porém, uma resposta, menos direta  e mais conectada com a mina experiência seguiu: com alegria e esperança. Parece piegas, eu sei e o reconheci nas duas cidades. 

 

A primeira impressão de ingenuidade se desfaz quando se relatam casos por mim testemunhados em que meninos de rua deixaram o consumo de substâncias psicoativas e até mesmo retomaram o contato com as suas famílias. Um deles, que no livro “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense” (Editora Hucitec, 2007) nomeio como João, se reinventou jogando malabares com pedras da antiga estação ferroviária de Campinas. Sendo aquela estação o lugar que se procurava para o consumo do crack, logo o adolescente reconheceu que, treinando malabares, poderia evitar o uso da droga. O menino, depois, torna-se monitor-auxiliar da oficina de circo que eu ministrava e os demais participantes do trabalho assim o reconheciam. Se acaso me atraso, ele inicia a condução do treino. Além disto, muda de aparência (sempre banhado!) e começa a tomar conta de um menino mais novo, evitando que o pequeno (e, portanto, ele mesmo!) use drogas. Por fim, surpreendentemente se ausenta e deixa um bilhete: sabe que é importante para a oficina, mas quer ver a família, não quer mais viver na rua. O recado é assinado como “o monitor João” e, junto dele, recebo uma corrente como presente. 

 

Só se vence o crack com alegria e esperança. Aprendi de uma vez por todas! Há conflito, há dor, há perdas, claro que há. Só se ultrapassam estas dificuldades quando se projeta um futuro melhor, para além do presente enfrentamento com as drogas (e consigo mesmo). João não tinha nada – nem mesmo bolinhas para treinar malabares. Mas tinha a si mesmo – o que não é pouca coisa! 

 

Em casa, infelizmente, retornam antigos problemas. O menino, que decidira mudar, decide outra coisa. E volta para as ruas. Nunca soube os reais motivos para a nova decisão: problemas com o padrasto, o Conselho Tutelar que vigia todos os seus passos (não pode dançar no Forró porque é menor de idade; não pode conversar com moradores de rua porque são más influências), dificuldade de adaptação à vida de poucas aventuras na casa. Nunca João mesmo me explicou suas motivações.

 

Uma coisa eu conclui, porém: é difícil que o mundo acompanhe as decisões de mudanças de cada um de nós. Mudar é bom e é difícil: exige empenho, luta. Exige! Não foram poucas as vezes que vi meninos de rua procurando mudar de vida enquanto rígidas estruturas sociais o empurravam de volta – inclusive identificadas por um dos braços armados do Estado: a polícia. A manutenção da ordem (esta palavra é escolhida: ordem!) vence com força e sisudez.    

 

Na apresentação do Rio de Janeiro, no bate-papo com os gestores das unidades socioeducativas estávamos descarados. Acrescentamos a palavra amor ao debate. Assim, a nossa plataforma de futuro: alegria, esperança, amor. Pode parecer piegas. Que o pareça! Havendo felizes transformações, possamos nós dizermos como ao fim da oração cristã: que assim seja! Seja! 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” apresenta-se nos dias 23 e 24 de março, às 20h, no Espaço Clariô, em Taboão da Serra. As sessões são apoiadas pelo Grupo Clariô de Teatro e pelo Hotel 155.    

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no Espaço Clariô
Rua Santa Luzia, 96 – Vila Sta. Luzia – Taboão da Serra – SP
dias 23 e 24 de março, às 20h
Informações: (11) 4701.8401 /(11) 9621.6892    
Entrada gratuita