animação

Oferta!

Feliz ė o povo que tem Caetano Veloso!
Feliz ė a família que, cantando a si mesma, celebra muitas outras!
Felizes são filhas e filhos que, hoje, puderam abraçar suas mães!
Felizes são as mulheres e homens que, na ausência de suas matriarcas, puderam inventá-las em outras pessoas!
Felizes aqueles e aquelas que, não podendo criar este brinquedo que engana as faltas, despenderam cuidados maternais consigo mesmos!
Felizes os humanos que, não alcançando nada disso, puderam, na palavra, dar sentido à solidão!
Feliz quem, não podendo manejar com habilidade a língua, tem silêncio!
Feliz quem, a despeito do barulho dos tempos, do governo e da falta de amor, não perdeu a esperança: todo dia tem o dia todo!

 

(texto escrito depois do show “Ofertório”, em São Paulo). 

Hora de voltar para casa

Uma das aulas mais bonitas que tive na Goldsmiths University of London foi sobre Wole Soyinka, dramaturgo nigeriano. A lição foi ministrada por Osita Okagbue, também nigeriano e chefe do Departamento de Teatro e Performance da Universidade.

Debateu-se especialmente a peça “Death and King’s Horseman”. Ainda em tempos coloniais, o protagonista, segundo a tradição local, deve se suicidar para seguir ou conduzir o espírito do monarca que acabara de falecer. Este argumento dá margem a um arrepiante tensionamento de assuntos e estruturas da tragédia ocidental.

O tema da renúncia de si em favor de uma sociedade também está presente em diferentes dramaturgias clássicas do Ocidente. Por outro lado, contemporaneamente, é difícil debatê-lo profundamente com estudantes europeus sem que renúncia seja entendida como perda de algo.

Isto, Okagbue disse, é muito diferente da vivência do aluno africano. Na Nigéria, exemplificou ele, é comum os jovens buscarem saberes na Europa. Depois da experiência, retornam para a coletividade e validam sua mestria no convívio. “Na minha cultura, não há saber em si ou para si”, ele insistia. “Conhecimento só é digno deste nome quando direcionado em favor da comunidade”. Há pouco sentido, portanto, no estudo com uma perspectiva de “carreira”, ou seja, com a busca de sucesso pessoal sem proveito para os que estão por perto.

Lembrei da aula porque, hoje, estou finalizando uma etapa fundamental de meus estudos: um estágio de pós-doutorado. É hora de voltar para casa. Começa, enfim, o aprendendizado de tudo o que aprendi.

Arquivo Kazuo Ohno

Mergulho no Arquivo Kazuo Ohno, na Universidade de Bolonha, na Itália. Os materiais sintetizam os trabalhos do bailarino japonês. São os momentos finais de meu estágio de pós-doutorado.

Assisto a um DVD, em língua japonesa, sem legendas. Entendo menos que nada: uma conversa informal com Yoshito Ohno, em 2002, no estúdio onde trabalha até hoje. Na ponta da mesa, seu pai, Kazuo, naquele momento com mais de noventa anos, às vezes, parece dormir, sentado numa poltrona.

Subitamente, o mais velho começa a se mover. Yoshito, sem interromper a conversa, percebe que algo acontece. Aos poucos, silêncio. O filho, muito discretamente, vai até o aparelho de som e coloca uma música. Sem poder ficar em pé pelo peso da idade, Kazuo baila.

Há pessoas que dançam. Há outras que são dança.

Yumiko Yoshioka em Berlim

Frequentemente me emociono com aulas. Não digo com isso que me arrebato durante as lições – o que também acontece e seria esperado de alguém que tem na fiscalidade seu fundamento de arte. O que quero dizer é que me comove ver um professor ou professora sintetizando, num exercício, um princípio, uma poética, um ponto de vista sobre o mundo. Acho encantador ver um plano de aula, um programa bem elaborado.
Assim, hoje, quando a professora e bailarina de butô Yumiko Yoshioka demonstrou uma prática, durante um workshop em Berlim, eu fui mobilizado como quem assiste a um espetáculo. Enquanto ela se movia, algo em mim dançou: a alegria de ter corpo! A alegria de ser corpo! O corpo!

Yumiko Yoshioka na Espanha

Uma das grandes felicidades do estudante é encontrar sua professora. Eu experimento este prazer, nestes dias, reencontrando Yumiko Yoshioka. O começo de sua carreira deu-se na Ariadone, companhia japonesa que, em 1978, apresentou o butô ao Ocidente. Acho graça no destino prenunciado por este nome: estar com esta dançarina restitui o fio que me liga ao princípio das coisas.

Hoje, na abertura do curso, os estudantes, como é comum, inquietavam-se: afinal, o que é o butô? Yoshioka, com a sabedoria dos anos de prática, calmamente esclareceu: “É uma pergunta, como a vida”.

A explicação fez nascer em mim um silêncio, destes que nos surpreendem quando já não faltam as palavras. Não digo que me saciei, livrando-me da inquietação. O que aconteceu é que, de repente, a mestra me liberou de uma lógica.

É possível que experienciar as coisas seja menos dar solução ao mistério e mais alimentar as suas perguntas. Daí que, talvez, a missão de uma geração não seja entregar alguns porquês (prontos, concluídos) àqueles e àquelas que a sucedem, mas transmitir as dúvidas renovadas de sentido. A vida pode ser um enigma pedindo decifração: “o que vais fazer de mim?” Como crianças ingênuas, podemos também ser o eco que lhe devolve a charada: “que vais fazer de mim?”

Volto para casa como quem sorri com o corpo inteiro. Já posso, enfim, terminar o curso sabendo que nada me será ensinado. Quanto propósito há na falta absoluta de propósito! Quanto aprendizado há, como escreveu Guimarães Rosa, “nonada”.

Os governos e os bancos

Joaquim Levy, que coordenou a elaboração do programa econômico da campanha de Aécio Neves e foi Ministro da Fazenda de Dilma, agora, é parte do governo Bolsonaro como Presidente do BNDES.

Henrique Meirelles esteve no governo Lula como Presidente do Banco Central e era o preferido do líder petista para a ocupar a Fazenda no segundo mandato de Dilma – cargo que ocupou no governo Temer. Agora, é apontado como possível “Secretário dos sonhos” de Dória.

Enquanto os brasileiros se matam nas ruas (e isto não é uma metáfora), debatendo, com frequência, temas de fundo moral, o mercado e a sua tradicional amoralidade escolhem aqueles que nos governam.

Isto ajuda a explicar como, em tempos de profunda crise econômica, com o desemprego e os seus fantasmas batendo à porta do trabalhador, os bancos contabilizam sucessivos, inesgotáveis, recordes de lucro. A eficiência é enorme!

Pansori no South Bank Centre

Saio da estonteante apresentação de Ahn Sook-Sun e Jun-Su Kim, artistas de Pansori, a tradicional arte coreana que mistura canto e narração. A programação é parte do K-Music, o Festival Internacional de Música Coreana de Londres.
Usualmente, pensamos que através da cultura reconhecemos quem somos. Sem que isso seja meia verdade, não chega a constituir a máxima inteira: cultura é também o que fomenta a invenção do que seremos.
É impossível viver sem que se encontre sentido para o cotidiano amanhecer do humano em nós! Hoje e sempre, imaginar pode ser um ato perturbador!

O Brasil e a sua autocrítica

Lula terminou o seu governo com 87% de aprovação da população. Estávamos todos e todas (ou quase todos e todas) com ele, inclusive parte expressiva dos eleitores que se declaram antipetistas nesta eleição. A despeito disto, hoje, à esquerda e à direita, ouço o coro pedindo que o PT faça a sua autocrítica.
Claro está, neste raciocínio, que quem tem que se repensar é o partido, não a sociedade brasileira que o apoiava. Ou seja, quem tem que rever a sua história é alguém que não nós. Pergunto-me: até quando vamos continuar considerando que o país é um outro e não nós mesmos, nossa própria experiência?
Uma candidatura violenta como a de Jair Bolsonaro, que declaradamente guarda nostalgia da brutal ditadura militar, só chega ao segundo turno porque teimosamente não aprendemos com o que vivemos.
Cada um de nós pode continuar a apontar o dedo para os demais. Isso pode até nos dar um certo conforto intelectual, uma sensação de coerência de quem não tomou parte “nisto tudo que está aí”. Porém, tenho para mim que isso não nos livra dos fantasmas do passado.
Em tempo: apoio Fernando Haddad para presidente! Poucas vezes vi um homem manter tanta elegância, abertura ao diálogo e trabalho incansável num momento tão paradoxal.

Cotas e a universidade do século XXI

Jair Bolsonaro, que quer reduzir a política de cotas em instituições de ensino no Brasil, não para de dar motivos para votar em Fernando Haddad.
A minha experiência de pós-doutoramento na Goldsmiths University of London veio reforçar a minha convicção da necessidade de políticas públicas de estímulo à diversidade. Na aula de Teatro Africano Contemporâneo, somos doze estudantes com seis diferentes nacionalidades: além dos britânicos, há nigeriano, grega, indiana, estadunidense e, claro, eu que sou brasileiro. Somos diversos, pensamos diversamente e temos sotaques diferentes para nos expressarmos.
Desta diversidade, vão emergindo formas de saber. Não há verdades universais. Há acolhimento e escuta. Cada um de nós parece ocupado não somente do dizer, mas também do como dizer. Assim, não falamos apenas para reafirmar as nossas certezas, mas para ver como as nossas palavras se realizam em outras pessoas.
Na fricção de experiências, vejo o mistério do conhecimento. Lanço ao mar palavras escritas em cartas que estão dentro de garrafas. Deste modo, pergunto: existo? Como por milagre, o outro não apenas encontra estas incertas pistas sobre mim, como também responde: existismos!
No curso interdisciplinar sobre “Decolonização de métodos de pesquisa”, que é oferecido a alunos de todos os programas da Goldsmiths, a docente lembra a todo momento: no século XXI, desenvolver pesquisa pressupõe perguntar: o que é conhecimento? Quem está legitimado a determinar o que é conhecimento? Em que termos podemos fazê-lo? Lembre-se: estou no Reino Unido, sem dúvidas, capitalista e de história como metrópole nas relações coloniais.
A política de cotas, penso, contribui para a constituição de uma diversidade equivalente a esta que acabo de relatar. Certamente, esta ação favorece a correção de distorções de um processo histórico excludente. Além disto, constrói uma outra universidade. Assim, tanto quanto ajudar a ressignificar o passado, as cotas fomentam a construção do saber do futuro.

 

Meu filho completa 4 anos

O escritor japonês Kenzaburo Oe conta que, em passagem por um parque na Índia, evitou o caminho que o levaria, pela primeira vez, à sua árvore mais famosa. Ele não queria ser apresentado à novidade sem que seu filho, Hikari, estivesse em sua companhia. Acho esta uma linda definição de amor: a alegria de conhecer junto!

Hoje, o meu filho completa 4 anos. Celebramos e agradecemos, portanto.

Se é verdade que é um contentamento infinito ver a inauguração das novidades do mundo em sua presença, igualmente feliz é a experiência ordinária: o espanto diante do hábito. Acho esta uma linda definição de amor: a alegria de desconhecer junto!

Coragem e os filhos

Algumas pessoas da minha própria família, além de alguns pais de alunos e ex-alunos – hoje profissionais dos palcos – defendem ideias que flertam com o autoritarismo (com discursos contra artistas, a favor de tortura etc.). Vejo isso e só consigo me lembrar de “Mãe Coragem e Seus Filhos”, texto de B. Brecht.
A personagem-título da peça precisa apostar na guerra – como comerciante que vende artefatos aos soldados, ela vive da luta odienta, afinal. É a batalha que permite alimentar a sua prole, não? Aos poucos, porém, esta mesma guerra vai tirando, um a um, todos os seus filhos.

Não é crítica: “O Prisioneiro”

Assisti ao novo espetáculo de Peter Brook e Marie-Hélène Estienne, “O Prisioneiro”, no National Theatre, em Londres. A peça tem uma simplicidade fabular oriental: um homem está sentado diante de uma prisão. A partir daí, seguem-se perguntas igualmente caras aos povos do Oriente: quem é o homem? O que está fazendo? É algum tipo de castigo? O que é prisão? O que é liberdade? De saída, já sabemos para onde vai e para onde não vai a dramaturgia. Não vai muito longe, mas, em mim, foi fundo.

Agora, diferentemente de muitas manifestações cênicas, o trabalho não tem na espetacularidade um contraponto ao minimalismo da fábula e da forma dramatúrgica. A performance dos atores e atrizes não articula canto, dança e recitação – como se vê no teatro sânscrito ou em parte do do teatro japonês, por exemplo. Não há figurinos ou maquiagem que nos encantem pela beleza plástica. Não há cenografia que vá além do indiciamento da paisagem de um deserto. Há apenas o vazio e as palavras.

Assisti a peça e meditei. Quando leio os trabalhos teóricos de Brook, meu espírito latino-americano se agita; algo em mim recusa o alicerce de seu pensamento. “O teatro revela que somos fundamentalmente muito parecidos”, ele parece me dizer. “Acho bonito pensar que, considerando nossas semelhanças, nunca deixamos de ser diferentes. Teatro é plural”, respondo calado.

Diante da materialidade da cena, a agitação cessa. Por instantes, meu espírito parece tocar os de Brook e Estienne. Irmanamo-nos, talvez, mais na busca e menos na resposta – que, aliás, é sempre infinita e perturbadoramente provisória, precária até. Ao fim, convivemos – apoiados em nossas semelhanças ou diferenças, não importa. Vivemos juntos! Haverá lição mais bonita de fraternidade que existirem, lado a lado, aqueles que não experienciam as coisas da mesma maneira? Presença e silêncio nas entrelinhas dos discursos.

Não se deve buscar novidades no novo trabalho do Théâtre des Bouffes du Nord. É um tema tradicional em diversos ramos de espiritualidade tratado com simplicidade por diretor e diretora reconhecidos por uma aproximação minimalista (ou essencialista) da matéria cênica. Sem sobressaltos. O repetido dos dias que nunca é o mesmo.

Peter Brook e Marie-Hélène Estienne certamente não buscam no teatro reconhecimento social – têm criações memoráveis, pretígio. Ao continuar trabalhando – como é bonita a gratuidade do teatro, a sua graça! – vão cavando fundo nessa coisa inominável que somos. Em “O Prisioneiro”, cavei junto o sem nome que sou.

Workshop Norihito Ishii, na Goldsmiths University of London

Na Goldsmiths University of London, semana de curso com Norihito Ishii, bailarino japonês da Cia Sakai Juku. No trem de volta pra casa, eu sinto a alegria do estudante que, por instantes, tocou a própria vocação. Estranha escolha profissional que me faz crer em Deus enquanto me arrasto no chão, imitando uma lagarta.

A divindade, aqui, não é menos que coração batendo, suor que escorre da testa, o silêncio de quem enfrenta, no corpo, algo que não sabe fazer. Será Deus também desvio e incompetência?

A aula começa agitada, estudantes ansiosos. Conforme passa o tempo, porém, algo muda. Não saber é também um estar em si, um vazio vasto e bonito. Possivelmente, meus alunos ririam do próprio professor, sempre exigente, agora, inábil para movimentos tão simples – qualquer invertebrado irracional poderia fazê-los! E eu me divertiria junto, celebrando a completa ausência de respostas.

“Hamlet” no Globe Theatre

Assisti a uma montagem de “Hamlet”, no Globe Theatre, o teatro de Shakespeare – ou aquele que foi reconstruído e aberto em 1997. Esta experiência soma-se a outras, que tive no Japão, assistindo a programas inteiros de Nô, Kabuki, Bunraku. A tradição e os seus ensinamentos.

Adoro o teatro de pesquisa, a inovação, as vanguardas: a cena lembrando que sempre podemos ser diferentes do que somos. Igualmente lindo é ver se desenrolando diante de nossos olhos exatamente o que esperávamos. O palco confirmando a si mesmo – ou a nós. Há, assim, a possibilidade de fazermos melhor aquilo que sempre foi feito. E, se não pudermos nos aperfeiçoar hoje, garantimos a possibilidase de fazê-lo amanhã.

O “Hamlet”, no Globe, apresentava atualizações, é verdade. Atrizes “jogando” alguns dos papéis masculinos (Hamlet, Horácio, Laertes – os jovens que faceiam uma ordem velha, sustentada por uma lógica de homens). Um ator, por outro lado, deu voz à Ofélia – foi curioso ver uma fúria masculina, esta que paradoxalmente a leva à loucura, projetada sobre rei e rainha em cena que, não raro, é feita de fragilidade. Nada disso, porém, esgarça o tecido da tradição. Ao contrário, presentifica as conveções que a constituem. O célebre “ser ou não ser” pode apontar questões de feminilidade e masculinidade na contemporaneidade. Pode também nos religar ao humano que nunca deixamos de ser.

A tradição, hoje, lembrou-me de algumas das nossas poucas certezas: nascemos e morreremos. Isso não é tudo. Mas também não é pouco.

Para ver mais sobre a peça: http://www.shakespearesglobe.com/whats-on-2018/hamlet

Yumiko Yoshioka em Tavira

Em Tavira, Portugal, o encontro alegre com a dançarina de butô e professora Yumiko Yoshioka. Poderia usar, como muitos, a palavra “mestra”. Gosto porém, da nobreza da palavra “professora” que, ao fiinal das contas, não guarda nenhum ranço místico e, portanto, aproxima efetivamente o aluno da coisa estudada.

Hoje, durante a oficina, a camiseta de Yoshioka anunciava uma pedagogia:

“Same
Same
But different”

Ou: “o mesmo, o mesmo, mas diferente”.

Lendo a frase, fiquei pensando nas vezes em que o estudante – e, no caso, estou falando de mim – ansioso por buscar coisas diferentes, diferentes, cede ao hábito. Sempre o velho novo.

Não é fácil resolver os enigmas da criação artística porque, antes, é difícil de sair do labirinto que somos.