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“Agora e na Hora de Nossa Hora” estréia em Edimburgo

 

Estreamos, enfim, no Edinburgh Festival Fringe 2011! Apresentações bonitas, com públicos de diferenets partes do mundo: França, Polônia, Alemanha, Holanda, Brasil. Curiosamente, a cidade tem uma grande comunidade brasileira e, além disso, o festival recebe muitos produtores de diversas nacionalidades, inclusive brasileiros.

 

Hoje, uma produtora polonesa, depois de ver a peça e saber mas sobre o fato histórico que ela apresenta (a matança de oito meninos de rua por policiais: a Chacina da Candelária), fez uma pergunta simples e desconcertante: por que os policiais matam crianças? A pergunta não é nova. E, como em outras vezes, eu me enrolei muito para respondê-la. Depois, lembrei de um texto, escrito como parte de meu trabalho de doutoramento. De certa maneira, ele sintetiza duas experiências opostas – ambas elucidam motivações para apresentar o trabalho no exterior. O texto está abaixo, adaptado.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora”, um espetáculo sobre meninos de rua, foi criado a partir de pesquisas sobre a dramaturgia de ator. A partir da observação e imitação de crianças e adolescentes em situação de rua foi criado um repertório corporal e vocal que serviu de base à criação das cenas.

 

Esta interação com meninos de rua foi, desde o início do processo criativo, estendida à realização de oficinas de arte (circo, dança, artes plásticas e música) no projeto “Gepeto”, da ONG ACADEC, em Campinas. A partir de atividades muito simples, como malabares com pedras tiradas do trilho do trem, vi meninos de rua abandonando o vício do crack e até mesmo voltando para suas casas. Eis a força e a necessidade da arte!

 

Entretanto, também vi, repetidas vezes, que quando um menino de rua pretendeu mudar a sua vida, rígidas estruturas sociais o impediam: a bem da verdade, não sabemos o que fazer com o menino de rua que não quer mais ser um menino de rua; como se relacionar com ex-marginal?

 

Nas amarras sociais, novas inquietações: afinal, o que pode a arte? É necessária uma arte que pode transformar tão pouco? Na busca por respondê-las, esforcei-me ainda mais na apresentação do espetáculo. É preciso, pensava eu, aproximar mundos, o dos incluídos e dos excluídos; a arte poderá ser mediadora. Assim, a partir de 2006, “Agora e na Hora de Nossa Hora” realizou temporada em São Paulo, percorreu festivais no país e chegou a ser apresentado no exterior, em festivais na Espanha, na Suíça, no Kosovo e no Marrocos.

 

No exterior, em especial, foram curiosas as reações da audiência: “Por que policiais assassinam meninos de rua?”, perguntavam-me na Espanha. “O que mudou em seu país depois do seu espetáculo?”, perguntavam-me na Suíça. Perguntas simples, quase ingênuas, de quem vive distante da realidade em que vivemos – lembro que, na Suíça, pude caminhar na madrugada pelo centro da cidade sem medo; nem a polícia eu temi! E, no entanto, como era difícil respondê-las. Facilmente eu disse: “A polícia assassina crianças atendendo a uma pressão social porque, na verdade, incomoda muito a idéia de que, coletivamente, não sabemos como incluir os excluídos”. Resposta pronta, na ponta da língua.

 

Porém, dada a resposta, ecoavam ainda as perguntas: como o povo brasileiro pode conviver tão bem com a idéia de que grupos de extermínio são formados cotidianamente para matar gente pobre? Mais: qual a força de um espetáculo de teatro para transformar este fato cruel? O que mudou em meu país depois do meu espetáculo? Para quê o teatro neste contexto? À toa?

 

Em novembro de 2007, o espetáculo é apresentado no Skena UP, no Kosovo. O convite para se apresentar no festival foi formulado por Bekim Lumi, curador do Skena UP, que o havia assistido no evento suíço. No Kosovo, país que ainda procura se reconstruir depois de uma das guerras mais sangrentas da segunda metade do século XX, a experiência era justamente oposta àquela vivida na Suíça: enquanto nos Alpes, o mundo ideal apresentava-se como possível, nos Bálcãs, tudo parecia restrição. Ali, onde a realidade sócio-política parece tão hostil, nenhuma pergunta sobre a função da arte.

 

Na Universidade de Pristina, o principal curso de formação teatral do país é ministrado em apenas duas salas de aula: uma para as aulas teóricas e outra para as aulas práticas. Como o país enfrentava intenso racionamento de energia, parte das aulas da Universidade acontece à luz de velas. Lembro ainda que o inverno no Kosovo é rigoroso e, possivelmente, sem energia excedente, as salas de aula careçam de um eficiente sistema de calefação. Ainda assim, neste lugar em que o teatro parecia improvável, ele acontecia. Os alunos que conheci, os mesmos que apresentavam entusiasmados seus professores, relataram que as aulas são assiduamente freqüentadas por seus estudantes.

 

E não havia nesta vivência da arte, nenhum discurso sobre a necessidade de resistência do teatro. Fazia-se teatro pelo prazer de fazê-lo. Resistência que se constrói não no discurso da necessidade da arte, mas na alegria de vivenciá-la. Pude observar isto também na atitude de outros artistas que levaram espetáculos para o festival, cuja realidade social parecia igualmente hostil à criação: assim eram os trabalhos do Irã, da Albânia, da Macedônia e do meu país, o Brasil. Onde a necessidade de reconstrução da realidade é tão urgente (refiro-me mesmo à construção da realidade material, socialmente partilhada: postos de saúde, praças, escolas, instituições públicas), uma quantidade grande de jovens se dedica à inutilidade da arte.

 

As apresentações no exterior sempre nos colocam em xeque: o mundo tem muitos jeitos. Em Edimburgo, estamos oferecemos um deles para ser debatido: o nosso.

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