animação

26 – Identidade: transitoriedade

 

Na última semana, apresentamos “Agora e na Hora de Nossa Hora” no Espaço Clariô – sede do grupo de teatro homônimo. Ali, um grupo – apaixonado e apaixonante! – muitíssimo afeito ao debate sobre as relações teatro/sociedade. O Clariô lembra-nos que as artes em geral – e o teatro em especial – fortalecem nossos laços comunitários: identidade, pertencimento. Isto motivou uma reflexão acerca da construção de uma certa visão de mundo pela população de rua. Neste texto, adaptado de meu livro “Hora de Nossa hora: o menino de rua e o brinquedo circense (Hucitec, 2007), breve pensamento sobre os deslocamentos da população de rua.

 

Desde a origem das cidades, há registros de pessoas que fazem da rua morada. Diversos olhares foram lançados já sobre os habitantes da rua. Da compaixão ao escárnio; do medo (que leva, não raro, às ações de enclausuramento, afastamento destas pessoas do cotidiano das cidades) ao preconceito. O olhar sobre estas pessoas corresponde a um olhar sociocultural e histórico – mutável, portanto.

 

Em nossos tempos, já escrevi em outra postagem, um pensamento urbanístico é norma: ordenação da circulação de pessoas e mercadorias. Os habitantes da rua, neste contexto, permanentemente se deslocam como os demais indivíduos da cidade. Entretanto, o fazem de maneira diferenciada. Se outros habitantes da cidade transitam com a finalidade de sair de um lugar para chegar em outro, os habitantes da rua não desenham um deslocamento objetivo; não há ponto de chegada. Ora se deslocam motivados pela ordem dominante que os expulsa (assim é a ação da polícia, por exemplo), ora se deslocam atrás de outras oportunidades de sobrevivência. Gente que faz da vida movimento.

 

Neste deslocamento contínuo, a população de rua constrói sua identidade. A rua adquire sentidos diferenciados para estas pessoas. O nomadismo implica numa série de referências de sociabilidade para a população de rua, como o desenvolvimento de relações efêmeras e fragmentadas e a sensação de liberdade. Ao se deslocar, o habitante das ruas se constrói, faz-se andando.

 

Ao ocupar a rua de maneira diferenciada, a população de rua é facilmente destacada na paisagem urbana. Seu modo de vida subverte a lógica e a expectativa de ocupação de espaços que os outros habitantes da cidade aprenderam a incorporar. Os habitantes da rua são, para outros cidadãos, um pouco fora do lugar.

 

A transitoriedade dos adolescentes em situação de rua e a itinerância própria do circo podem, em parte, explicar a facilidade com que meninos e meninas de rua se entregam às atividades circenses – o que acontece não só no projeto “Gepeto”, da ONG ACADEC, em que atuei ao lado de meninos de rua de Campinas, mas em diversos outros projetos que fazem do circo sua principal forma de atuação, como o projeto “Se essa rua fosse minha”, no Rio de Janeiro – RJ. É como se o circo trouxesse no bojo de suas técnicas uma qualidade arquetípica do deslocamento contínuo. Como ferramenta para dialogarmos com a transitoriedade, a linguagem da transitoriedade.

 

Próxima parada dos deslocamentos de “Agora e na Hora de Nossa Hora” pelo interior de São Paulo: São José dos Campos.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em São José dos Campos
Mostra Joanense de Teatro
31 de março, às 21h e 01 de abril, às 19h
CET – Centro de Estudos Teatrais
Av. Olivo Gomes, 100 – Parque da Cidade – Santana
Informações: (12) 3924-7358. 

 
  

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