animação

Yumiko Yoshioka na Espanha

Uma das grandes felicidades do estudante é encontrar sua professora. Eu experimento este prazer, nestes dias, reencontrando Yumiko Yoshioka. O começo de sua carreira deu-se na Ariadone, companhia japonesa que, em 1978, apresentou o butô ao Ocidente. Acho graça no destino prenunciado por este nome: estar com esta dançarina restitui o fio que me liga ao princípio das coisas.

Hoje, na abertura do curso, os estudantes, como é comum, inquietavam-se: afinal, o que é o butô? Yoshioka, com a sabedoria dos anos de prática, calmamente esclareceu: “É uma pergunta, como a vida”.

A explicação fez nascer em mim um silêncio, destes que nos surpreendem quando já não faltam as palavras. Não digo que me saciei, livrando-me da inquietação. O que aconteceu é que, de repente, a mestra me liberou de uma lógica.

É possível que experienciar as coisas seja menos dar solução ao mistério e mais alimentar as suas perguntas. Daí que, talvez, a missão de uma geração não seja entregar alguns porquês (prontos, concluídos) àqueles e àquelas que a sucedem, mas transmitir as dúvidas renovadas de sentido. A vida pode ser um enigma pedindo decifração: “o que vais fazer de mim?” Como crianças ingênuas, podemos também ser o eco que lhe devolve a charada: “que vais fazer de mim?”

Volto para casa como quem sorri com o corpo inteiro. Já posso, enfim, terminar o curso sabendo que nada me será ensinado. Quanto propósito há na falta absoluta de propósito! Quanto aprendizado há, como escreveu Guimarães Rosa, “nonada”.

Os governos e os bancos

Joaquim Levy, que coordenou a elaboração do programa econômico da campanha de Aécio Neves e foi Ministro da Fazenda de Dilma, agora, é parte do governo Bolsonaro como Presidente do BNDES.

Henrique Meirelles esteve no governo Lula como Presidente do Banco Central e era o preferido do líder petista para a ocupar a Fazenda no segundo mandato de Dilma – cargo que ocupou no governo Temer. Agora, é apontado como possível “Secretário dos sonhos” de Dória.

Enquanto os brasileiros se matam nas ruas (e isto não é uma metáfora), debatendo, com frequência, temas de fundo moral, o mercado e a sua tradicional amoralidade escolhem aqueles que nos governam.

Isto ajuda a explicar como, em tempos de profunda crise econômica, com o desemprego e os seus fantasmas batendo à porta do trabalhador, os bancos contabilizam sucessivos, inesgotáveis, recordes de lucro. A eficiência é enorme!

Pansori no South Bank Centre

Saio da estonteante apresentação de Ahn Sook-Sun e Jun-Su Kim, artistas de Pansori, a tradicional arte coreana que mistura canto e narração. A programação é parte do K-Music, o Festival Internacional de Música Coreana de Londres.
Usualmente, pensamos que através da cultura reconhecemos quem somos. Sem que isso seja meia verdade, não chega a constituir a máxima inteira: cultura é também o que fomenta a invenção do que seremos.
É impossível viver sem que se encontre sentido para o cotidiano amanhecer do humano em nós! Hoje e sempre, imaginar pode ser um ato perturbador!