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O Brasil e a sua autocrítica

Lula terminou o seu governo com 87% de aprovação da população. Estávamos todos e todas (ou quase todos e todas) com ele, inclusive parte expressiva dos eleitores que se declaram antipetistas nesta eleição. A despeito disto, hoje, à esquerda e à direita, ouço o coro pedindo que o PT faça a sua autocrítica.
Claro está, neste raciocínio, que quem tem que se repensar é o partido, não a sociedade brasileira que o apoiava. Ou seja, quem tem que rever a sua história é alguém que não nós. Pergunto-me: até quando vamos continuar considerando que o país é um outro e não nós mesmos, nossa própria experiência?
Uma candidatura violenta como a de Jair Bolsonaro, que declaradamente guarda nostalgia da brutal ditadura militar, só chega ao segundo turno porque teimosamente não aprendemos com o que vivemos.
Cada um de nós pode continuar a apontar o dedo para os demais. Isso pode até nos dar um certo conforto intelectual, uma sensação de coerência de quem não tomou parte “nisto tudo que está aí”. Porém, tenho para mim que isso não nos livra dos fantasmas do passado.
Em tempo: apoio Fernando Haddad para presidente! Poucas vezes vi um homem manter tanta elegância, abertura ao diálogo e trabalho incansável num momento tão paradoxal.

Cotas e a universidade do s’eculo XXI

Jair Bolsonaro, que quer reduzir a política de cotas em instituições de ensino no Brasil, não para de dar motivos para votar em Fernando Haddad.
A minha experiência de pós-doutoramento na Goldsmiths University of London veio reforçar a minha convicção da necessidade de políticas públicas de estímulo à diversidade. Na aula de Teatro Africano Contemporâneo, somos doze estudantes com seis diferentes nacionalidades: além dos britânicos, há nigeriano, grega, indiana, estadunidense e, claro, eu que sou brasileiro. Somos diversos, pensamos diversamente e temos sotaques diferentes para nos expressarmos.
Desta diversidade, vão emergindo formas de saber. Não há verdades universais. Há acolhimento e escuta. Cada um de nós parece ocupado não somente do dizer, mas também do como dizer. Assim, não falamos apenas para reafirmar as nossas certezas, mas para ver como as nossas palavras se realizam em outras pessoas.
Na fricção de experiências, vejo o mistério do conhecimento. Lanço ao mar palavras escritas em cartas que estão dentro de garrafas. Deste modo, pergunto: existo? Como por milagre, o outro não apenas encontra estas incertas pistas sobre mim, como também responde: existismos!
No curso interdisciplinar sobre “Decolonização de métodos de pesquisa”, que é oferecido a alunos de todos os programas da Goldsmiths, a docente lembra a todo momento: no século XXI, desenvolver pesquisa pressupõe perguntar: o que é conhecimento? Quem está legitimado a determinar o que é conhecimento? Em que termos podemos fazê-lo? Lembre-se: estou no Reino Unido, sem dúvidas, capitalista e de história como metrópole nas relações coloniais.
A política de cotas, penso, contribui para a constituição de uma diversidade equivalente a esta que acabo de relatar. Certamente, esta ação favorece a correção de distorções de um processo histórico excludente. Além disto, constrói uma outra universidade. Assim, tanto quanto ajudar a ressignificar o passado, as cotas fomentam a construção do saber do futuro.

 

Meu filho completa 4 anos

O escritor japonês Kenzaburo Oe conta que, em passagem por um parque na Índia, evitou o caminho que o levaria, pela primeira vez, à sua árvore mais famosa. Ele não queria ser apresentado à novidade sem que seu filho, Hikari, estivesse em sua companhia. Acho esta uma linda definição de amor: a alegria de conhecer junto!

Hoje, o meu filho completa 4 anos. Celebramos e agradecemos, portanto.

Se é verdade que é um contentamento infinito ver a inauguração das novidades do mundo em sua presença, igualmente feliz é a experiência ordinária: o espanto diante do hábito. Acho esta uma linda definição de amor: a alegria de desconhecer junto!

Coragem e os filhos

Algumas pessoas da minha própria família, além de alguns pais de alunos e ex-alunos – hoje profissionais dos palcos – defendem ideias que flertam com o autoritarismo (com discursos contra artistas, a favor de tortura etc.). Vejo isso e só consigo me lembrar de “Mãe Coragem e Seus Filhos”, texto de B. Brecht.
A personagem-título da peça precisa apostar na guerra – como comerciante que vende artefatos aos soldados, ela vive da luta odienta, afinal. É a batalha que permite alimentar a sua prole, não? Aos poucos, porém, esta mesma guerra vai tirando, um a um, todos os seus filhos.

Não é crítica: “O Prisioneiro”

Assisti ao novo espetáculo de Peter Brook e Marie-Hélène Estienne, “O Prisioneiro”, no National Theatre, em Londres. A peça tem uma simplicidade fabular oriental: um homem está sentado diante de uma prisão. A partir daí, seguem-se perguntas igualmente caras aos povos do Oriente: quem é o homem? O que está fazendo? É algum tipo de castigo? O que é prisão? O que é liberdade? De saída, já sabemos para onde vai e para onde não vai a dramaturgia. Não vai muito longe, mas, em mim, foi fundo.

Agora, diferentemente de muitas manifestações cênicas, o trabalho não tem na espetacularidade um contraponto ao minimalismo da fábula e da forma dramatúrgica. A performance dos atores e atrizes não articula canto, dança e recitação – como se vê no teatro sânscrito ou em parte do do teatro japonês, por exemplo. Não há figurinos ou maquiagem que nos encantem pela beleza plástica. Não há cenografia que vá além do indiciamento da paisagem de um deserto. Há apenas o vazio e as palavras.

Assisti a peça e meditei. Quando leio os trabalhos teóricos de Brook, meu espírito latino-americano se agita; algo em mim recusa o alicerce de seu pensamento. “O teatro revela que somos fundamentalmente muito parecidos”, ele parece me dizer. “Acho bonito pensar que, considerando nossas semelhanças, nunca deixamos de ser diferentes. Teatro é plural”, respondo calado.

Diante da materialidade da cena, a agitação cessa. Por instantes, meu espírito parece tocar os de Brook e Estienne. Irmanamo-nos, talvez, mais na busca e menos na resposta – que, aliás, é sempre infinita e perturbadoramente provisória, precária até. Ao fim, convivemos – apoiados em nossas semelhanças ou diferenças, não importa. Vivemos juntos! Haverá lição mais bonita de fraternidade que existirem, lado a lado, aqueles que não experienciam as coisas da mesma maneira? Presença e silêncio nas entrelinhas dos discursos.

Não se deve buscar novidades no novo trabalho do Théâtre des Bouffes du Nord. É um tema tradicional em diversos ramos de espiritualidade tratado com simplicidade por diretor e diretora reconhecidos por uma aproximação minimalista (ou essencialista) da matéria cênica. Sem sobressaltos. O repetido dos dias que nunca é o mesmo.

Peter Brook e Marie-Hélène Estienne certamente não buscam no teatro reconhecimento social – têm criações memoráveis, pretígio. Ao continuar trabalhando – como é bonita a gratuidade do teatro, a sua graça! – vão cavando fundo nessa coisa inominável que somos. Em “O Prisioneiro”, cavei junto o sem nome que sou.