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Não é crítica: “Cabras – cabeças que rolam, cabeças que voam”

 

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A Cia Teatro Balagan visitou a minha cidade, Campinas. “Cabras – cabeças que rolam, cabeças que voam” é um espetáculo que muitos viram e que dispensa elogios ao texto, ao cenário, ao figurino, à música, à encenação. Porém, ontem, algo chamou minha atenção especialmente: o trabalho dos atores.

 

Sou suspeito para falar porque sou irmanado nas dificuldades e aprendizados deste projeto artístico com esta diretora, a Maria Thais. De qualquer modo, fiquei comovido. Porque, em “Cabras…”, os atores partem de uma certa recusa em narrar a si mesmos, narrando humanidades muitas – inclusive humanidades “não humanas” (uma bala de revolver, uma cabra, um cachorro…). Espantosamente, porém, ao se colocarem neste jogo de alteridade (“eu”, como ponta de uma lança, em busca de um “outro”; “eu” em tensão com um “outro”) deixam escapar, quase que sem perceber, algo de si. É ou não uma alegria que o teatro nos liberte de nós mesmos para, enfim, nos revelar?

 

Não me refiro à revelação das intimidades de quem atua, a sua biografia, os seus segredos. Falo de outra coisa. O que se revela é um ponto de vista – ou uma perspectiva, como provavelmente a Maria Thais gostaria de dizer. Se “teatro” é “o lugar de onde se vê”, os atores da Balagan lembram que não apenas fazem ver, mas eles mesmo olham: a coisa narrada e (um espanto!) os próprios espectadores. Uma inversão e embaralhamento de perspectivas que, “caleidoscopicamente”, não encerra significados, multiplica sentidos e comemora encontros.

 

Sempre que assisto a atores assim, em festa, volto para casa orgulhoso do ofício que escolhi e para o qual espero que eu seja vocacionado. A Cia Balagan visitou a minha cidade. Viva!

 

Tradição e inovação

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O poeta e ensaista Octavio Paz desenvolveu uma interessante tese acerca da modernidade euro-ocidental. Fundado num certo elogio à transformação, este moderno recusou tudo o que lhe parecia estagnado, como  os conceitos de tradição, repetição etc. Ao criar linhas continuas de rompimento com concepções arcaicas, porém, a modernidade gerou, paradoxalmente, uma nova tradição: a tradição da ruptura.

 

O teatro, não raro, valeu-se desta espécie de recusa dos seus antecedentes como um mote para a construção de inovações da linguagem. Esta, no entanto, não é a única estratégia possível. Artistas russos do início do século XX, por exemplo, procuraram a renovação do teatro justamente no tensionamento com tradições outras, como as asiáticas.

 

Seguindo esta trilha, vemos contemporaneamente  um renovado interesse por tradições não euro-ocidentais – indígenas, africanas, asiáticas etc. E este contato com outras formas de expressar o humano empurram o teatro para a busca de outras formas para a linguagem cênica.

 

Há, assim, um jogo entre tradição e ruptura. Por um lado, a palavra tradição não é apenas um amontoado de saberes parados num passado longínquo. Por outro, a pesquisa do novo é impulsionada por relações de alteridade – não só descontinuidades, mas também abertura à continuidades diversas. Desta maneira, podemos ver um novo tensionamento entre tradição e ruptura no lugar da tradição da ruptura.

 

Shakespeare escreveu que “o mundo todo é um palco”. E, hoje, diga-se, este mundo é vasto e diverso como nunca. A tentativa de encená-lo poderá empurrar o teatro para as suas bordas.

Pedagogia continuada

 

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Foto: Luciana Orvat

O trabalho cotidiano do ator está muito além da cena. Isto é, para além dos resultados revelados no espetáculo teatral, há a permanente investigação das potências de seu corpo, voz, imaginação etc.

 

Algumas pessoas nomeiam este espaço do trabalho sobre si como “treinamento de ator”. O uso desta palavra, treinamento, desperta debates diversos: afinal, é possível treinar habilidades que tornem o ator apto à cena? Mais: sendo o teatro invenção, como é possível treinar habilidades para linguagens ainda não conhecidas? O treino, então, só nos tornaria aptos à realização do que já conhecemos?

 

Lembremos que, na segunda metade do século XX, o diretor polonês Jerzy Grotowski renovou o uso desta palavra. Para ele, o treino é o espaço em que o ator se vê com o a realidade do ofício que escolheu. Depois de apropriações muitas, porém, a palavra desgastou-se e, não raro, é tomada como manual que torna um ator um “ator melhor” – sendo isso pressionado por muitas concepções técnicas, poéticas, filosóficas, espirituais.

 

Aprendi com a diretora e professora Maria Thais uma outra prática: pedagogia. A diretora lembra que no teatro russo são tênues os limites entre criação e aprendizado. Ora, enquanto criamos a cena criamos igualmente os procedimentos técnicos necessários a ela. Neste sentido, o espaço pedagógico não estaria limitado ao espaço formal da escola de teatro. Ao contrário, a pedagogia confunde-se com um estado permanente em que o artista se abre às experiências que o atravessam, aprendendo com elas.

 

Neste limite entre criação, pedagogia e pesquisa, tudo ensina. Daí a profunda necessidade do artista da cena manter espaços de investigação e estudo. Como, enfim, viabilizar em si o aprendizado proporcionado pelo exercício cotidiano do teatro? Estar pronto, lembro de Shakespeare, não é se considerar apto, acabado, mas em prontidão.

 

Fantasia é política

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Na última sexta feira, dois de setembro, o filósofo Vladimir Safatle escreveu artigo em que dizia: “Nunca na história brasileira foi tão importante o exercício da imaginação, da autoanálise, da insubmissão e do destemor”. Como ator – alguém que toma a imaginação como ofício, portanto – tomei a fala como um chamado.

 

É verdade que muitos já relacionaram construção simbólica, pensar e agir.  Para Gaston Bachelard, “é preciso que a imaginação seja demasiada para que o pensamento tenha o bastante”. O filósofo francês, inclusive, toma a imaginação como a “própria existência humana”.

 

O texto de Safatle, porém, atualiza esta percepção: o contexto político faz urgir o reconhecimento do potencial transformador e subversivo de nossa capacidade imaginativa. Afinal, construir o mundo é, antes, imaginá-lo de maneira diversa. A fantasia, que não é alienação ou escapismo, será a única saída para a construção de uma nova realidade.

 

Para os artistas, assim, o “agora” provoca e impulsiona: como lapidar instrumentos técnicos (o que se confunde como a melhora de si, reparemos bem) para revelar um mundo que não está pronto? Como ajudar a parir um mundo que ainda não mostrou a sua imagem? Daí a profícua aproximação, feita por Safatle, entre imaginação, autoanálise e destemor. Nos limites deste rigor, os profissionais da imaginação hão de reconhecer a sua vocação. O chamado é urgente. E ninguém poderá ficar de fora.