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Não é Crítica: “Homens Imprudentemente Poéticos”, de Valter Hugo Mãe

Estou arrebatado pelo último livro de Valter Hugo Mãe: “Homens Imprudentemente Poéticos”. É como se, de repente, Kawabata, o primeiro autor japonês a receber o Nobel, pudesse escrever em português!

 

Some-se a isso a inventividade do idioma, herdada de Saramago, incluindo-se o não uso de pontuação para além do ponto final e da vírgula. E se o escritor veterano, um dia, vislumbrou a Península Ibérica despregando-se da Europa, em “A Jangada de Pedra”, agora, Hugo Mãe quase parece ter visto algo inesperado nesta imagem: lusos e espanhóis poderiam não apenas estar se divorciando da Europa, mas também buscando esta diminuta ilha no oceano: o Japão! O espírito luso, de repente, tão nipônico! É como uma saudade do que nunca fomos…

 

E, numa obra tão precisamente localizada no Globo terrestre, sobra espanto: somos todos, como a ilha nipônica no Pacífico, um pequeno ajuntado de solidão e mistério. Com sonhos de grandeza, porém!

Está chegando: “OE” em João Pessoa

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“OE” em João Pessoa

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Está chegando: “OE” no Fiac Bahia

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“OE” no Fiac Bahia

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Está chegando: “OE” em Alagoinhas, na Bahia

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“OE” em Alagoinhas, na Bahia

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“OE” no Nordeste do Brasil

OEEspetáculo inspirado na obra do escritor japonês Kenzaburo OeCom Eduardo OkamotoEncenação de Marcio AurelioDramaturgia inédita de Cássio Pires

“OE”, espetáculo solo do ator Eduardo Okamoto com direção de Mracio Aurelio e dramaturgia de Cássio Pires,  circula por cidades do Nordeste do Brasil: Alagoinhas e Salvador (Bahia), João Pessoa (Paraíba), Recife (Pernambuco), Parnamirim e Natal (Rio Grande do Norte). O projeto de circulação, intitulado “‘OE’: modos de fazer”, foi contemplado com o Prêmio Myriam Muniz da Funarte – Fundação Nacional das Artes e prevê, além das apresentações do trabalho, interações entre parte da sua equipe, a plateia e artistas locais em bate-papo e intercâmbio. A programação em cada cidade será divulgada, nos próximos meses, nesta página.

 

O projeto de circulação, assim como o espetáculo, é inspirado na obra do escritor japonês Kenzaburo Oe – laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1994. A enfermidade do próprio filho, deficiente intelectual, é recorrente na obra do autor, que inclui contos, escritos políticos, romances e um importante ensaio sobre Hiroshima. Além de escritor renomado, Kenzaburo Oe é conhecido mundialmente por seu ativismo contra armas e uso de energia nucleares. Espantosamente, o seu trabalho relaciona autobiografia, ficção, mitologia, fatos históricos, comentários sobre arte e política. Para ele, “[há uma conexão] entre a violência em escala mundial, representada por artefatos nucleares, e a violência existente no interior de um único ser humano”. Por isso, a sua tarefa como escritor está imbuída da escolha da “imaginação como metodologia de observação do mundo contemporâneo.”

 

“‘OE’: modos de fazer”, toma uma das peculiaridades da obra de Kenzaburo Oe (a firme correlação entre a criação artística e a atuação do artista como cidadão) como mote para a circulação do espetáculo “OE” por cidades nordestinas. A fim de potencializar esta correlação, o projeto compreende, além da apresentação do espetáculo, encontros públicos: bate-papo de Eduardo Okamoto com a audiência, conversando sobre a obra de Oe, após a primeira sessão em cada cidade;  intercâmbios entre o ator, a diretora de produção do trabalho, Daniele Sampaio, e artistas, gestores de espaços ou coletivos de pesquisa em teatro acerca das relações entre crise e criação artística.

 

Na trama do espetáculo, um escritor, ao se dar conta da possibilidade da própria morte, escreve para um filho, deficiente intelectual, um livro com a definição de todas as coisa existentes no mundo: vida, falecimento, sonho, sociedade etc.

 

O espetáculo estreou na Mostra Oficial do Festival de Curitiba de 2015. Em São Paulo, no mesmo ano, fez duas temporadas bem sucedidas de público e crítica: no Sesc Consolação, entre 04/05 e 03/06, e na SP Escola de Teatro, de 08 a 24/6. O trabalho já circulou por festivais, como o FILO – Festival Internacional de Teatro de Londrina, e pelo interior paulista com financiamento do PROAC – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo.

 

O processo de pesquisa para a obra incluiu um estágio de Eduardo Okamoto, em fevereiro de 2014, no Kazuo Ohno Dance Studio, no Japão. O espetáculo foi financiado com recursos do Prêmio Myriam Muniz 2013, da Funarte, e do Faepex da UNICAMP.

Não é crítica: “Cabras – cabeças que rolam, cabeças que voam”

 

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A Cia Teatro Balagan visitou a minha cidade, Campinas. “Cabras – cabeças que rolam, cabeças que voam” é um espetáculo que muitos viram e que dispensa elogios ao texto, ao cenário, ao figurino, à música, à encenação. Porém, ontem, algo chamou minha atenção especialmente: o trabalho dos atores.

 

Sou suspeito para falar porque sou irmanado nas dificuldades e aprendizados deste projeto artístico com esta diretora, a Maria Thais. De qualquer modo, fiquei comovido. Porque, em “Cabras…”, os atores partem de uma certa recusa em narrar a si mesmos, narrando humanidades muitas – inclusive humanidades “não humanas” (uma bala de revolver, uma cabra, um cachorro…). Espantosamente, porém, ao se colocarem neste jogo de alteridade (“eu”, como ponta de uma lança, em busca de um “outro”; “eu” em tensão com um “outro”) deixam escapar, quase que sem perceber, algo de si. É ou não uma alegria que o teatro nos liberte de nós mesmos para, enfim, nos revelar?

 

Não me refiro à revelação das intimidades de quem atua, a sua biografia, os seus segredos. Falo de outra coisa. O que se revela é um ponto de vista – ou uma perspectiva, como provavelmente a Maria Thais gostaria de dizer. Se “teatro” é “o lugar de onde se vê”, os atores da Balagan lembram que não apenas fazem ver, mas eles mesmo olham: a coisa narrada e (um espanto!) os próprios espectadores. Uma inversão e embaralhamento de perspectivas que, “caleidoscopicamente”, não encerra significados, multiplica sentidos e comemora encontros.

 

Sempre que assisto a atores assim, em festa, volto para casa orgulhoso do ofício que escolhi e para o qual espero que eu seja vocacionado. A Cia Balagan visitou a minha cidade. Viva!

 

Tradição e inovação

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O poeta e ensaista Octavio Paz desenvolveu uma interessante tese acerca da modernidade euro-ocidental. Fundado num certo elogio à transformação, este moderno recusou tudo o que lhe parecia estagnado, como  os conceitos de tradição, repetição etc. Ao criar linhas continuas de rompimento com concepções arcaicas, porém, a modernidade gerou, paradoxalmente, uma nova tradição: a tradição da ruptura.

 

O teatro, não raro, valeu-se desta espécie de recusa dos seus antecedentes como um mote para a construção de inovações da linguagem. Esta, no entanto, não é a única estratégia possível. Artistas russos do início do século XX, por exemplo, procuraram a renovação do teatro justamente no tensionamento com tradições outras, como as asiáticas.

 

Seguindo esta trilha, vemos contemporaneamente  um renovado interesse por tradições não euro-ocidentais – indígenas, africanas, asiáticas etc. E este contato com outras formas de expressar o humano empurram o teatro para a busca de outras formas para a linguagem cênica.

 

Há, assim, um jogo entre tradição e ruptura. Por um lado, a palavra tradição não é apenas um amontoado de saberes parados num passado longínquo. Por outro, a pesquisa do novo é impulsionada por relações de alteridade – não só descontinuidades, mas também abertura à continuidades diversas. Desta maneira, podemos ver um novo tensionamento entre tradição e ruptura no lugar da tradição da ruptura.

 

Shakespeare escreveu que “o mundo todo é um palco”. E, hoje, diga-se, este mundo é vasto e diverso como nunca. A tentativa de encená-lo poderá empurrar o teatro para as suas bordas.

Pedagogia continuada

 

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Foto: Luciana Orvat

O trabalho cotidiano do ator está muito além da cena. Isto é, para além dos resultados revelados no espetáculo teatral, há a permanente investigação das potências de seu corpo, voz, imaginação etc.

 

Algumas pessoas nomeiam este espaço do trabalho sobre si como “treinamento de ator”. O uso desta palavra, treinamento, desperta debates diversos: afinal, é possível treinar habilidades que tornem o ator apto à cena? Mais: sendo o teatro invenção, como é possível treinar habilidades para linguagens ainda não conhecidas? O treino, então, só nos tornaria aptos à realização do que já conhecemos?

 

Lembremos que, na segunda metade do século XX, o diretor polonês Jerzy Grotowski renovou o uso desta palavra. Para ele, o treino é o espaço em que o ator se vê com o a realidade do ofício que escolheu. Depois de apropriações muitas, porém, a palavra desgastou-se e, não raro, é tomada como manual que torna um ator um “ator melhor” – sendo isso pressionado por muitas concepções técnicas, poéticas, filosóficas, espirituais.

 

Aprendi com a diretora e professora Maria Thais uma outra prática: pedagogia. A diretora lembra que no teatro russo são tênues os limites entre criação e aprendizado. Ora, enquanto criamos a cena criamos igualmente os procedimentos técnicos necessários a ela. Neste sentido, o espaço pedagógico não estaria limitado ao espaço formal da escola de teatro. Ao contrário, a pedagogia confunde-se com um estado permanente em que o artista se abre às experiências que o atravessam, aprendendo com elas.

 

Neste limite entre criação, pedagogia e pesquisa, tudo ensina. Daí a profunda necessidade do artista da cena manter espaços de investigação e estudo. Como, enfim, viabilizar em si o aprendizado proporcionado pelo exercício cotidiano do teatro? Estar pronto, lembro de Shakespeare, não é se considerar apto, acabado, mas em prontidão.

 

Fantasia é política

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Na última sexta feira, dois de setembro, o filósofo Vladimir Safatle escreveu artigo em que dizia: “Nunca na história brasileira foi tão importante o exercício da imaginação, da autoanálise, da insubmissão e do destemor”. Como ator – alguém que toma a imaginação como ofício, portanto – tomei a fala como um chamado.

 

É verdade que muitos já relacionaram construção simbólica, pensar e agir.  Para Gaston Bachelard, “é preciso que a imaginação seja demasiada para que o pensamento tenha o bastante”. O filósofo francês, inclusive, toma a imaginação como a “própria existência humana”.

 

O texto de Safatle, porém, atualiza esta percepção: o contexto político faz urgir o reconhecimento do potencial transformador e subversivo de nossa capacidade imaginativa. Afinal, construir o mundo é, antes, imaginá-lo de maneira diversa. A fantasia, que não é alienação ou escapismo, será a única saída para a construção de uma nova realidade.

 

Para os artistas, assim, o “agora” provoca e impulsiona: como lapidar instrumentos técnicos (o que se confunde como a melhora de si, reparemos bem) para revelar um mundo que não está pronto? Como ajudar a parir um mundo que ainda não mostrou a sua imagem? Daí a profícua aproximação, feita por Safatle, entre imaginação, autoanálise e destemor. Nos limites deste rigor, os profissionais da imaginação hão de reconhecer a sua vocação. O chamado é urgente. E ninguém poderá ficar de fora.

 

Não é crítica: “Nós”, do Galpão

Quero dizer, com espanto, que um grupo de teatro existe há quase 34 anos, no Brasi! O Galpão é um rasgo de “possível” num mundo de inviáveis. Goste-se ou não de um trabalho, há alento em saber que houve outros antes e que, oxalá, haverá outros depois. Existir, neste contexto, já não é um feito notável?

 

Quero dizer, com festa, que um povo que tem Teuda Bara deveria ser feliz sempre. Mas, no fundo, aquela liberdade toda não busca felicidade apenas, mas a intensidade inteira da vida – e nisso, sabemos, há perigos, desvios muitos.

 

Quero dizer, como quem ora, que a beleza desta mulher é admirável, assustadora, quase insuportável. Só algo do tamanho do teatro poderia acolhe-la.

 

Quero dizer, como quem medita, que não se trata de gostar ou não do novo espetáculo do Galpão – nem sei se é possível gostar sempre e inteiramente de uma obra. Não se trata de gostar ou não do teatro. Trata- se de gostar da vida. E a celebrarmos na vida desta mulher.

“Eldorado” e “Noites Árabes em S. J. Campos

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A Mostra Agosto Popular recebe espetáculo solo e sob direção de Eduardo Okamoto. As apresentações acontecem nos dias 27 e 28 de agosto, às 20h, no CAC Walmor Chagas. A entrada é gratuita.

 

“Eldorado” é um solo de Eduardo Okamoto, com direção de Marcelo Lazzaratto e dramaturgia de Santiago Serrano. O espetáculo é resultado de estudos do ator sobre a tradução da rabeca – instrumento de arco e cordas, como o violino, muito presente em manifestações diversas da cultura popular do Brasil. No espetáculo, acompanhado  por uma “Menina”, um cego busca encontrar o que nenhum homem pôde jamais: Eldorado.

 

“Noites Árabes” é dirigido por Okamoto e tem dramaturgia de Isa Kopelman. Em cena, os atores do Vila8 – grupo criado e coordenado pelo diretor a partir de sua atuação docente na UNICAMP. Na encenação, cinco atores sobre um tapete narram histórias do conflito judeu-palestino nos moldes da “Mil e Uma Noites”.

 

As apresentações encerram a Mostra Agosto Popular de Teatro, uma realização da Cia Teatro da Cidade, de São José dos Campos. A mostra já está na sua terceira edição e tem apoio do PROAC – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo.

 

Serviço
“Noites Árabes” em São José dos Campos
Dia 27 de agosto, às 20h

 
“Eldorado” em São José dos Campos
Dia 28 de agosto, às 20h

 
CAC Walmor Chagas
Rua Netuno, 41, Jardim da Granja, São José dos Campos – SP
Informações: (12) 3941.7631
www.ciateatrodacidade.com.br

 
Ingressos gratuitos

 

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