animação

Daniel Schenker: Pesquisa materializada em cena

 

recusaAntonio Salvador e Eduardo Okamoto em Recusa: comprometimento em cena (Foto: Ernesto Vasconcelos)

 

FESTIVAL DE CURITIBA / SÃO PAULO – O projeto de Recusa, da Cia. Teatro Balagan, surgiu de uma notícia de jornal, destacada ao final do espetáculo, referente a índios que foram localizados, medicados, mas recusaram contato com os brancos e voltaram para a mata. O encontro com a diferença, a contaminação por uma cultura diversa, é visto aqui mais como ameaça do que como fonte de enriquecimento – o que soa natural, em se tratando da história indígena. A preocupação está com a preservação de uma determinada pureza, de uma essencialidade, de algo que não deve ser maculado.

 

A partir de um fato real, Luís Alberto de Abreu investiu numa dramaturgia que evoca a formação da identidade brasileira e atravessa o tempo. Realça a submissão dos índios ao processo civilizatório. A sutileza do texto só é ferida no momento em que o autor assume uma abordagem mais frontalmente política. À frente da encenação, Maria Thais revela apurado trabalho de pesquisa refletido nas interpretações refinadas de Antonio Salvador e Eduardo Okamoto, que transitam entre a encarnação dos personagens e uma narração comprometida, sem a distância com que esse recurso é normalmente empregado. Os atores comprovam domínio vocal, tanto no canto delicado quanto na firmeza da narração, valorizam a musicalidade do texto, cortam as falas de maneira surpreendente.

 

A cenografia de Márcio Medina tem como principais elementos pequenos arranjos compostos por filetes de bambus, que constituem travessias no modo habilidoso com que são manipulados pelos atores no decorrer da apresentação. O figurino, também de Márcio Medina, se resume praticamente a adequados e encardidos shorts vermelhos. A iluminação crepuscular de Davi de Brito oscila entre a calorosa laranja (mas sem enveredar por uma padronizada luz solar) e a frieza do azul. A expressiva música (a cargo de Marlui Mirada) é produzida em cena por meio do canto e pelo uso de instrumento.

 

Na recém-encerrada edição do Festival de Curitiba, Recusa foi visto no Centro de Eventos Sistema FIEP. A amplidão do espaço prejudicou o espetáculo, apesar das belas soluções – particularmente, o aproveitamento da cidade, cujo movimento era acompanhado através de uma parede espelhada, e a iluminação de uma grande árvore do lado de fora da sala. No Centro Internacional de Teatro Ecum, em São Paulo, a encenação resulta mais concentrada diante do público.

 

O crítico viajou a convite da organização do festival.

 

* Fonte: http://danielschenker.wordpress.com/2013/04/09/pesquisa-materializada-em-cena/

Jornal Tribuna: Espetáculo retrata a cultura indígena

 

RECUSA, da Cia. Balangan de Teatro, foi indicado ao Prêmio Shell de Teatro de São Paulo em quatro categorias

 

Foto: ALE CATAN

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A Cia. Balangan de Teatro estará no Sesc Ribeirão Preto nesta sexta-feira, 26 de abril, com o espetáculo Recusa, indicado ao Prêmio Shell de Teatro de São Paulo 2012 nas categorias direção, ator, cená­rio e música. A dramaturgia é de Luis Alberto de Abreu.

Criada em 1999, o espetá­culo de estreia da companhia foi Sacromaquia, em 2000, e desde então, outras quarto obras foram apresentadas. A Balangan traz no currículo A besta na Lua (2003-2004), Au­romaquia (2004-2006), Západ – a tragédia do poder (2006- 2007) e Prometheus – a tragé­dia do fogo (2010-2012).

 

Em 2007 e 2008, a com­panhia realizou o projeto Do Inumano ao mais-Humano, com duas ações de formação: uma voltada para os artistas do grupo e outra, a forma­ção do olhar para o teatro, voltada para o espectador. Dois dos temas pesquisados ali, inumano-Trágico e inu­mano-Animal, geraram dois espetáculos: Prometheus – a tragédia do fogo e Recusa.

 

Recusa começou a ser de­senhado a partir do interesse despertado pela notícia vei­culada no jornal Folha de S. Paulo, em 16 de setembro de 2008, sobre o aparecimento de dois índios piripkura sobreviventes – a etnia foi con­siderada extinta há mais de 20 anos. Viviam nômades, perambulando por fazendas madeireiras no noroeste do Mato Grosso, próximo ao município de Ji-Paraná, em Rondônia, e ambos se recu­savam a estabelecer qualquer contato com os brancos.

 

Foram encontrados por­que suas gargalhadas ressoa­ram na floresta e chamaram a atenção: eles riam das histó­rias que contavam um ao ou­tro enquanto davam conta de comer a caça recém-abatida. O espetáculo traz dois índios piripkura; dois heróis ameríndios, Pud e Pudleré, criadores dos seres; um pa­dre que foi engolido por uma onça e resolveu morar dentro de um lugar inesperado; um fazendeiro que matou um índio e o mesmo índio que o matou, por uma cantora que se perde na mata, por Ma­cunaíma e seu irmão, os he­róis dos Taurepang e outros tantos.

 

A encenação de sexta-feira (26) será às 20h30 horas, no Galpão de Eventos, que tem capacidade para 80 pessoas, e não é recomendado para menores de 12 anos. O Sesc Ribeirão Preto fica na rua Ti­biriçá, nº 50 (telefone 3977- 4477), na região central da cidade. Os ingressos custam R$ 10 (inteira), R$ 5 (usuário matriculado, estudante com carteirinha e idoso acima de 60 anos) e R$ 2,50 (traba­lhador no comércio de bens e serviços matriculado e de­pendentes).

 

 

* Fonte:http://www.tribunaribeirao.com.br/materia/espetaculo-retrata-a-cultura-indigena/

Eldorado em Vigo

 

Estamos na Espanha, onde apresentamos “Agora e na Hora de Nossa Hora” (com minha dramaturgia e direção Verônica Fabrini) e “Eldorado” (com direção de Marcelo Lazzaratto e dramaturgia de Santiago Serrano) na Mostra Internacional de Tetro Universitário de Ourense – MITEU. A mostra é anual e, além de trabalhos de estudantes do ensino superior, apresenta trabalhos profissionais convidados – onde estamos incluídos. Enquanto que o primeiro trabalho será levado à cena hoje, às 23h no Auditório Municipal de Ourense, o outro foi apresentado em Vigo, também no seu Auditório Municipal, no dia 17, às 21h.

 

A apresentação de “Eldorado”, dois dias atrás, foi um pequeno milagre. Não me refiro à qualidade da minha atuação ou do espetáculo como um todo – que, diga-se, foi bastante favorecido pelo bonito teatro. Refiro-me aos pequenos encontros possíveis à vida e ao teatro. Depois de atravessarmos o Atlântico para as apresentações, aqui, encontramos o dramaturgo de “Eldorado”, Santiago Serrano. Ele estava, antes, em Grenoble, na França, onde participava de colóquio sobre dramaturgia. Depois, a passeio, estava em Lisboa. Dali, veio assistir à primeira estreia internacional do espetáculo.

 

A casualidade já seria grande – encontrar tão distante e de maneira não planejada um parceiro fundamental do trabalho. Mas não foi tudo. Nesta cidade, Serrano esteve, há quatro anos, acompanhado do ator argentino Jorge Rodriguez. O ator, falecido há exato um ano, foi companheiro de vida e de criações de Serrano. Os dois estiveram em Vigo justamente porque gostariam de conhecer a terra dos pais de Jorge, sua história de vida, suas raízes – sua família emigrara de um pequeno povoado próximo a Ourense para a Argentina, onde Jorge nasceu.

 

 

A magia da vida preencheu de significados o texto de Santiago: “Você está pensando o mesmo que eu?”, pergunta o personagem cego da peça. “Sim, é minha terra, a terra de minha mãe! Mas por que é que eu volto aqui? Sempre acontece a mesma coisa! Eu tenho que deixar o passado para trás, mas ele está sempre na minha frente!”, completa.

 

Às vezes, o teatro insinua à vida a sua própria face. Outras, é a vida mesmo que nos ensina a estar no palco.    

 

La Voz de Galicia: Entre bambalinas y roqueros

Teatro de Italia y Brasil

 

La Miteu vive un fin de semana intenso de actividades, con grupos procedentes de Italia, Brasil y Portugal, además de Galicia y Madrid, y con propuestas artísticas para todos los gustos, desde teatro a danza, pasando por la magia. La oferta para la jornada de hoy tiene carácter internacional, con la presencia de grupos de Italia y Brasil. El Gruppo Limpido – Banda Kurenai, de Génova, representa esta tarde en el Teatro Principal (20.30 horas) su montaje My name y el brasileño Eduardo Okamoto estará en el Auditorio de Ourense (23.00 horas) con su espectáculo Agora e na hora de nossa hora. El precio de la entrada en ambos casos es de 3 euros.

 

Mañana mandarán las propuestas escénicas de Galicia y Portugal en la Miteu. El TEUC de Coimbra estará en el Principal con Projecto H (20.30 horas) y en el Auditorio (23.00 horas) se podrá disfrutar de la 3ª Xornada de Danza Interuniversitaria. Las entradas a 2 euros. En la madrugada, a partir de las 01.00 horas, estará Moroko en el Auriense con su espectáculo Eu creo na maxia. El acceso a esta sesión es libre. El domingo serán los integrantes del La Charanga, de la Complutense, los que representen Medea en el Principal (20.30 horas y a 2 euros la entrada). El sábado y el domingo impartirá Cecilia Hopkins un curso de teatro.

 

PRINCIPAL, AUDITORIO Y AURIENSE / Días: 19, 20 y 21 de abril (finaliza el 27). / Horarios: Todos los horarios, información de los espectáculos y precios se pueden consultar en www.miteu.es.

 

*Fonte: http://www.lavozdegalicia.es/noticia/ourense/2013/04/18/bambalinas-roqueros/00031366314362572642441.htm

 

La Región: El grupo brasileño Eduardo Okamoto actúa en la Miteu

 

La Mostra de Teatro Universitario de Ourense (Miteu) está prácticamente en su ecuador. Este fin de semana dentro de la programación destaca la presencia del grupo brasileño Eduardo Okamoto, que pondrá en escena la obra titulada ‘Agora e na hora de nossa hora’.

 

El argumento de la obra gira en torno al persona de Pedrinha, un superviviente del ataque de la Chacina da Candelária: escondido en un quiosco, el asistió al asesinato de ocho ‘niños de la calle’. Al narrar los acontecimientos de la madrugada, Pedrinha revela una sociedad que niega hasta la muerte a los ‘niños de la calle’, que habitan en una ciudad invisible por la que la gente pasa a diario pero no percibe su realidad más cruda y se muestra de acuerdo en que esos pobres niños están mal vistos.

 

LUGAR: AUDITORIO DE OURENSE.
FECHA: VIERNES, DÍA 19.
HORARIO: 23,00 HORAS.
ENTRADA: 3 EUROS.

 

*Fonte: http://www.laregion.es/noticia/250670/grupo/brasileno/eduardo/okamoto/actua/miteu/

Atores e Bastidores: Recusa mergulha na cultura indígena com afinada dupla de atores com entrega desmedida

 

recusa ernesto vasconcelos Crítica: Recusa mergulha na cultura indígena com afinada dupla de atores com entrega desmedida

Recusa deu a Eduardo Okamoto e Antônio Salvador o APCA de melhor ator – Foto: Ernesto Vasconcelos/Clix

 

Por Miguel Arcanjo Prado

O árduo trabalho de pesquisa teatral é evidente na encenação do espetáculo Recusa, da Cia. Balagan, com direção de Maria Thaís.

Em cena, Eduardo Okamoto e Antonio Salvador, que dividiram o Prêmio APCA de melhor ator em 2012, vivem os dois índios Pripkura que rejeitam a civilização do homem branco.

Em um trabalho exaustivo e convincente, a dupla faz jus ao reconhecimento que teve. Entregam-se aos personagens sem medo ou receio, demonstrando domínio de corpo, voz e olhar.

 

Os mitos indígenas são incorporados na história – incluindo aí a inspiração narrativa mitológica em pares apontada pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009) como característica dos indígenas do Novo Mundo.

Os atores representam bichos, riem, gritam e, sobretudo, falam língua indígena.

No começo, a sensação é de estranhamento, mas, aos poucos, o público mergulha, por meio da fala e gestos, na cultura apresentada no palco.

 

Luiz Alberto Abreu assina a dramaturgia, que partiu da notícia de jornal sobre os dois índios que não quiseram contato com o mundo civilizado e faz do corpo dos atores sua grande história.

 

A narrativa não é convencional; engloba pensamentos, situações e sensações daqueles índios diante do mundo. Na primeira parte, provoca mais interesse que nos momentos finais, quando o público sente o começo de um cansaço. Um pequeno corte teria feito bem ao espetáculo.

A direção acerta ao priorizar o trabalho dos atores. Não há pirotecnias fora do corpo destes. O delicado cenário assinado por Márcio Medina – responsável também pelos figurinos – é de simplicidade poética. Contudo, a iluminação de Davi de Brito poderia ter tido uma proposta de maior peso, o que não acontece.

 

Apesar da contundência da atuação de ambos, Okamoto consegue se destacar, mais preciso e sem arroubos.

 

A reiteração faz o espetáculo perder impacto na parte derradeira. Um destes momentos é a longa inserção da história de Macunaíma, livro de Mário de Andrade de 1928, que, apesar de ser feita de forma crítica, soa forçada.

 

Recusa é um teatro feito no corpo de uma afinada dupla de atores entregues à missão de dar vida no mundo e na arte civilizada a dois índios que desprezaram tudo o que vinha do homem branco. Esta é a grande dualidade da peça e também seu maior mérito.

 

Recusa 
Avaliação: Bom

 

* Fonte: http://entretenimento.r7.com/blogs/teatro/2013/04/16/critica-recusa-mergulha-na-cultura-indigena-com-afinada-dupla-de-atores-com-entrega-desmedida/

Praza Pública: MITEU: durante dúas semanas choverá teatro sobre Ourense

 

JORGE M. DE CALLE 

 

Como todos os anos, cando chega a primavera, chega tamén a MITEU. A Mostra de Teatro Universitario de Ourense cumpre a maioría de idade convertida en todo un referente dos festivais de teatro universitario e profesional a nivel galego, estatal e internacional. Dino os seus participantes de todo o mundo, que por uns días se converten en convidados a unha cidade, Ourense, que tornará durante dúas semanas, dende este venres 12 ao sábado 27 de abril, anfitrioa privilexiada das xentes das artes escénicas.

 

E todo iso a pesar da malchamada “crise” e das trabas económicas impostas pola Xunta, que non concreta nin asegura o seu apoio futuro e non achega máis que 900 euros para o festival máis importante de Ourense. Faino a través da pasiva AGADIC, a Axencia Galega das Industrias Culturais, que Gali, unha alumna e actriz da Aula de Teatro de Ourense, parodiou encarnando unha moza durmindo pracidamente durante a presentación á prensa da programación da MITEU. Cando se lle preguntou se colaborara, espertou e contestou: “nin si nin non, senón todo o contrario”. A edición deste ano conta con 65.000 euros de orzamento, un 20% menos que en 2012, dos cales o Concello achega a maior parte, 33.600, ademais de apoio material e técnico e o Teatro Principal; a Universidade de Vigo uns 10.000, cedendo as aulas de teatro e colaborando o resto do ano; e a Deputación de Ourense 9.500, poñendo a disposición do festival o Auditorio. O Goberno español prexudicou tamén o normal desenvolvemento do festival ao denegarlle o visado á compañía de Tunisia, por, segundo o cónsul, existir o risco de que os seus membros “puidesen quedar en España de maneira irregular”, polo que non terá lugar a súa representación nin a charla que ían dar sobre a realidade do seu país.

 

Porén, a XVIII MITEU seguirá na mesma liña de difusión do teatro nacional, estatal e internacional e o achegamento ás diversas culturas, con 17 aulas universitarias e unha ducia de compañías profesionais de teatro de Brasil, Ecuador, Arxentina, EEUU, Tunisia, Italia, Portugal (Covilhâ, Lisboa, Coimbra, Aveiro), España (Madrid, Castela-León, Navarra, Cataluña) e Galicia. Ademais entregará os seus habituais premios do xurado, o público e a organización aos mellores espectáculos. E os responsables da MITEU ofrecerá o seu premio de honra á Plataforma das Artes Escénicas, como recoñecemento do labor e o esforzo realizado durante todo este ano de oprobio dende o Goberno galego aos profesionais do sector.

 

A figura de Vidal Bolaño, grande autor contemporáneo do teatro galego e homenaxeado nas Letras Galegas deste ano, cobrará especial relevancia grazas ás montaxes preparadas para a ocasión de Cordelia (Ourense) e outras aulas universitarias coma Lugo, Vigo ou A Coruña. Xunto a este clásico de hoxe, teremos clásicos de sempre como a Antígonas de Sófocles ou a Medea de Eurípides, a través de Lisboa e Madrid, respectivamente, e autores contemporáneos como Rodrigo García (Compostela), Alfredo Sanzol (Pamplona) ou Juan Luis Sáez (Burgos), “palabras comprometidas co seu entorno, co seu mundo”. Compañías galegas da “traxectoria” de Ningures ou Teatro do Adro, creacións recentes coma Pinchacarneiro, o teatro do corpo e dramaturxia de actor de Banda Kurenai e Eduardo Okamoto, o teatro infantil de Geppeto, teatro de rúa (Rosaura, Trécola,Túnez, Lisboa, Lugo), xunto ao humor tan necesario” e profesional como o de Yllana (Madrid), Jango Edwards (EEUU), Acontrabutaca ou os Irmáns Lumieira (Galicia), que queren “afastarnos do suicidio colectivo, aínda que Maricastaña” o propoña con “encanto” (en referencia ó título da última peza do nivel superior da Aula de Teatro Universitario de Ourense, que pechará coma sempre o festival).

 

Xunto ao moito teatro, adulto e infantil, universitario e profesional, danza e mesmo maxia, haberá actividades complementarias e outras artes tocando o teatro que converten a MITEU un festival multidisciplinar: un curso de “artes performativas de Oriente” con Cecilia Hopkins (Arxentina), moita música, con Alba Sarraute, Best Life, Ménage à Trois e Xosé Manuel Budiño. unha exposición fotográfica da Asemblea de Cooperación pola Paz sobre Tunisia, berce da “primavera árabe”, o documental Positive Generation de Médicos sen Fronteiras, encontros das compañías co público, etc.

 

Nesta edición, o seu director Fernando Dacosta elixiu como tema da “Benvida” a importancia das palabras, o seu significado, valor e a prostitución que se fai destas na sociedade actual. Coma sempre, o compromiso social é inherente a este festival, que aspira, máis que a evadirnos, a representar, falar e reflexionar sobre a realidade do noso tempo, a través das palabras e das historias:

 

16 días de emoción, reflexión, humor, poesía e teatro nos que Ourense se converte na capital do Teatro

 

“Vivimos en tempos onde a palabra corralito, agradable e suave, designa o roubo dos cartos ao pobo. Externalización utilízase para a privatización salvaxe daquilo que custou tanto tempo, esforzo e loita conseguir, como a sanidade pública, por exemplo, ou a educación, ou a xustiza. Chámase rescate ao apresamento infame dos pobos. Constitución é sinónimo de inmobilismo. Democracia é perpetuación no poder dos de sempre. Terrorismo serve agora para referirse a reivindicacións necesarias; deber (da policía, por exemplo) ponse enriba da mesa para non dicir ostiar (aos manifestantes por exemplo); Mentira é verdade e verdade é mentira. Reforma laboral serve para despido libre; brotes verdes dise no canto de algúns estanse forrando e forraranse máis; preferentes utilízase por non dicir timo; bilingüismo remítenos a inglés mal falado xunto a español mal falado (non ao galego, “idiolecto” infame para certas persoas que rexen a educación). Cando se fala de interese nacional debe lerse o interese dos poderosos; festa nacional coma tortura a animais; beneficio bancario como diñeiro que nos arrebatan;cidade da cultura como cemiterio da cultura; peaxe como sistema feudal de cobro de camiños,… Cando din Deus queren dicir Eu (por eles)”.

 

En definitiva, 16 días de emoción, reflexión, humor, poesía e teatro nos que Ourense se converte na capital da escena.

 

Moita máis información na web da MITEU, e axenda actualizada día a día n’O Galiñeiro, o blog de teatro de Praza Pública.

 

*Fonte: http://praza.com/cultura/4115/miteu-durante-duas-semanas-chovera-teatro-sobre-ourense/

Estadão: Festival de Curitiba faz bom retorno às origens

 

AE – Agência Estado

Ao anunciar sua programação para 2013, o Festival de Curitiba já prenunciava ser melhor que o de anos anteriores. Promessa que, de fato, se cumpriu, durante os 13 dias do evento. Nesta 22ª edição, não é que os tropeços tenham desaparecido. Eles lá estavam. Mas não se pode deixar de admitir que as escolhas da curadoria tenham soado mais acertadas desta vez.

 

 

Primeiro, é preciso destacar a grande surpresa deste ano, e ela veio da ala internacional. Até então, a regra em Curitiba era encontrar esmaecidos títulos estrangeiros, alguns já vistos em outros festivais ao redor do País. A escolha da atração coreana “Pansori Brecht” mudou esse quadro. Acompanhada apenas por três músicos, a cantora e atriz JaRam Lee reinventou o sentido de “Mãe Coragem e Seus Filhos”, clássico de Bertolt Brecht. Transportou o enredo para a China, interpretou sozinha todos os personagens da trama com um notável virtuosismo, seja no canto seja na representação. Um daqueles assombros, que só aparecem de tempos em tempos. Nitidamente filiada à tradição oriental do Pansori – gênero de canção narrativa muito popular na Coreia – sua obra não teme abraçar outras referências. JaRam Lee concebeu uma ópera, algo épica, algo pop. Tão modesta quanto refinada.

 

Para além das boas montagens que selecionou, um dado a ser comentado neste festival é o retorno aos seus princípios. Desde sua criação, a mostra da capital paranaense chamou para si a responsabilidade de ser uma “vitrine” do que se faz no teatro nacional. O conceito, em si, não é imune a críticas. Um festival, afinal, pode ter outras tantas funções. O que vinha acontecendo, contudo, é que o recorte que Curitiba apresentava, ano a ano, não condizia nem fazia jus à diversidade da cena nacional. Ficavam alijados aspectos importantes do teatro atual: O fortalecimento dos grupos estáveis, especialmente em São Paulo. O surgimento de novos dramaturgos. As experimentações da linguagem cênica.

 

Em 2013, a mostra curitibana mostrou-se mais próxima da ideia de vitrine que pretende abraçar. As pesquisas dos mais instigantes encenadores contemporâneos passaram por aqui: Marcio Abreu, Enrique Diaz, Roberto Alvim, Maria Thais, Leonardo Moreira e Grace Passô trouxeram seus trabalhos.

 

Se quisermos lançar luz sobre alguns títulos, devemos admitir que, mais uma vez, brilhou a Companhia Brasileira de Teatro. Nas últimas edições, o grupo de Curitiba marcou presença no Fringe – programação paralela do Festival. Neste ano, foi alçado à grade principal e, novamente, apresentou o melhor espetáculo nacional da temporada. “Esta Criança”, que marca a parceria do conjunto com a atriz Renata Sorrah, teve que agendar sessões extras para dar conta do público. A grande demanda não ocorreu por acaso. A agudeza do texto do francês Joël Pommerat encontrou intérpretes à altura. E uma encenação, a cargo de Marcio Abreu, capaz de potencializar os seus sentidos.

 

Também merece ser nominalmente destacada “Recusa”, criação de Maria Thais e da companhia Balagan. Para dar conta das ambiguidades do universo ameríndio, a encenadora apoiou-se nas interpretações preciosas de Antonio Salvador e Eduardo Okamoto.

 

O Festival deu um passo adiante ao investir em coproduções. Deixou de apenas esperar pela oferta disponível e tratou de intervir no mercado, fomentando alguns projetos. Os resultados dessa iniciativa foram ora mais ora menos felizes. Um acerto neste setor foi, certamente, “Cine Monstro – Versão 1.0”. Dirigida e interpretada por Enrique Diaz, a peça ainda está em processo de criação. Mesmo incompleto, porém, esse novo mergulho de Diaz na obra do canadense Daniel MacIvor já prenuncia suas potencialidades.

 

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo. 

 

* Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,festival-de-curitiba-faz-bom-retorno-as-origens,1018388,0.htm

Hoje em Dia: crítica de Miguel Anunciação para Recusa

 

Macksen Luiz: Festival de Curitiba 2013

 

Com movimentos lentos e cuidadosos, a 22ª edição do Festival de Curitiba se mexeu. Pouco e com algumas reticências, a curadoria da mostra procurou se afastar da série de espetáculos do Rio e de São Paulo dos anos anteriores e levar a Curitiba montagens que trazem alguma proposta para além do encenador do momento, do ator em evidência na televisão e do gênero da vez. Não que essas linhas curatoriais tenham sido abandonadas, já que a maioria dos espetáculos da programação vem do eixo, e seria muito difícil escapar desse quadro da produção teatral brasileira. Os nomes sonantes do vídeo continuam na vitrine curitibana, ao mesmo tempo em que alguns gêneros se mantenham como balizadores de uma cena mais identificada com o entretenimento. Mas são detalhes para festival que incluiu este ano propostas instigantes, até patrocinou algumas delas, e que surpreendeu na mostra paralela Fringe.

 

Recusa – A Cia. Balagan de São Paulo, com direção de Maria Thaís e dramaturgia de Luiz Alberto de Abreu, fundamenta a cena através de mitos da cultura indígena, conotados por notícias recentes. Saga de dupla de índios, de padre e fazendeiro que são de devorados e devoram, de Macunaíma e seu irmão, ritualizada em canto, dança e línguas ancestrais em contrapontos de histórias, corpos e vozes. Quase registro etnográfico, a dramaturgia confunde planos narrativos, oscilando entre a representação de etnias e suas linguagens derivativas, e fatos, ideologia e crítica. Recusa é construído dessas ressonâncias, nas quais estão presentes algum orientalismo, vaga memória de outras encenadores e intérpretes e volume de pesquisa que se reflete no rigor das atuações. Os duplos que se transmutam em homens, animais e natureza e se interpenetram em símbolos impulsionadores, desaguam em fluxo narrativo que captura sons e movimentos compondo, ao lado da cenografia de Márcio Medina e dos atores Antônio Salvador e Eduardo Okamoto, esta instalação performática fracionadamente contundente.

 

* Adaptado de: http://macksenluiz.blogspot.com.br/2013/04/festivais.html 

 

 

 

Horizonte da Cena: O reconhecimento do outro e a metamorfose como estrutura – observações sobre “Recusa” e entrevista com Maria Thaís

 

SORAYA BELUSI 

 

Reconhecer o outro, vestir o outro, tornar-se o outro. Esta é a metáfora que percorre a estruturação do discurso teatral em “Recusa”. O espetáculo, apresentado na Mostra Oficial do Festival de Curitiba 2013, foi um dos trabalhos mais premiados da atual temporada em São Paulo (incluindo Shell e APCA), com ênfase às atuações de Antonio Salvador e Eduardo Okamoto. O duo de atores sintetiza em cena a constatação do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss de que, nas culturas ameríndias, a mitologia se baseia na existência de um duplo, a presença de um par mítico em que os indivíduos, em vez de aniquilar-se, compartilham sua diferença essencial.

 

Okamoto e Salvador atingiram um grau de apropriação tão alto do material vivenciado no período de pesquisa que estiveram em Rondônia, com os Paiter Suruí, que não atuam no nível da representação, mas sim da recriação, disponibilizando seu potencial vocal e corporal para mostrarem o mundo pela perspectiva do outro; nunca no lugar do outro.

 

No início do espetáculo, Pud e Pudleré (como saberá mais tarde o público), estão dançando, cantando e brincando, em um dialeto próprio e não-identificável. Brincam de se transformar em pacas, aves, cobras… Esta “mutação permanente” apresentada na cena inicial servirá de base também a toda a dramaturgia, na qual Luís Alberto de Abreu articula diversas narrativas indígenas, rompendo com a noção de uma construção no tempo, emendando uma narrativa à outra, como se a primeira se metamorfoseasse na próxima, constituindo várias formas de vida presentes em um único ser – a ideia de que nos mitos indígenas, outrora, todos os seres foram humanos. Em cena, Okamoto e Salvador ora são pássaros, ora homens, onça, mulher, árvore, fazendeiro, índio e homem branco; coexistem em suas várias formas de vida, ora como narradores, ora como criaturas.

 

Aqui, o espectador é convidado a deslocar-se em um movimento de não reconhecer-se em cena, mas, sim, ao outro, o índio metamorfoseado nos corpos e nas vozes dos atores, que “vestiram suas peles”. Cena e plateia não ocupam o mesmo espaço, não são a mesma coisa, separados que estão pelos galhos de madeira. Não são os índios que se negaram a aceitar o homem branco; são estes que não aceitam que se pode querer continuar sendo índio. No mesmo sentido, cabe ao espectador estabelecer contato. No fim, é ele quem recusa, ou não.

 

Todos esses pontos serviram de base à conversa que o Horizonte da Cena teve com a diretora e pesquisadora teatral Maria Thaís, da Cia. Balagan. Professora da USP, a encenadora-pedagoga estabelece conexões entre “Recusa” e as escolhas estéticas e temáticas do coletivo, fundado em 1999 e que tem em seu repertório montagens como “Tauromaquia” e “Prometheus – A Tragédia do Fogo”, dentre outras.

 

ENTREVISTA
Como se desenvolveu o processo de criação do espetáculo? Qual foi o ponto de partida que os levou a investigar as tradições e mitos indígenas?

 

É um projeto da companhia e nasce com o Antônio Salvador, ator do grupo há dez anos, e de uma série de coisas que a gente vem fazendo há mais de uma década e dos temas que a companhia vem escolhendo trabalhar. Parte, ainda, de uma notícia de jornal, em 2008, de que foram encontrados dois índios ainda isolados que estavam sendo ameaçados pela atuação de madeireiros da região. Já estávamos tendo uma aproximação com a cultura indígena, ameríndia, através do estudo de textos de antropologia e, quando nós vimos aquela notícia, ela despertou para o Antonio uma imagem de que dali poderia sair algum projeto de montagem. E foi quando chegou o Eduardo. Perguntei ao Antonio com quem ele gostaria de trabalhar. Ele escolheu o Duda (Eduardo Okamoto), já que ele já tinha esse desejo e os dois foram contemporâneos na Unicamp. Ele ligou para o Duda, que topou na hora.

 

Então, tínhamos uma notícia, textos teóricos da área de antropologia, que tinham que ser desvendados porque não eram de fácil leitura, mas que muito nos mobilizavam. Tem uma questão anterior a isso porque, naquele momento, tudo estava muito em crise para a gente no sentido de encontrar novas formas de formular o próprio trabalho e de lidar com essa contradição que é a pesquisa. A gente faz pesquisa pensando em fazer um espetáculo. Mas você não sabe o que vai encontrar e o formato do que chamamos de espetáculo podia ser muito diverso do que fizemos em “Recusa”. Será que não é só uma performance, só canto, ou só dança, ou no campo do rito, eram perguntas que nos fazíamos. Não sabíamos o que fazer. Mas havia uma questão importante: era não fazer um espetáculo com esse material de acordo com o senso básico de teatro. Não me refiro a desconstruir o dramático, mas sim, falar de um modo que não supõe se existe o dramático, porque aquele mundo precisaria encontrar uma forma que fosse justa ao material, onde forma e conteúdo ficassem amalgamados. Não queria representar o índio; ele está aí, é uma cultura viva. E a representação não dá conta da complexidade, não quero reduzir a cultura a uma única coisa.

 

Até porque, no fim, trata-se de homens brancos que iriam “representar” índios…

 

Uma questão de fundo é essa tensão: até que ponto somos brancos? Eu não me coloco como essa ocidental, mulher branca. Quando li o material que narrava os mitos, por exemplo, eu tinha para mim coisas que posso chamar de reconhecimento, o que para os outros não tinha reconhecimento algum, já que sou do sertão (Maria Thaís é baiana), que abalou fortemente o processo civilizatório da cultura indígena – o próximo trabalho, inclusive, vai esbarrar nessas questões.

 

O espetáculo propõe um jogo muito interessante de quem é o agente da recusa. Você, inclusive, inicia a encenação propondo que o outro se manifeste, com seu canto, dança, forma de estar no mundo, linguagem. Isso gera, num primeiro momento, um desconforto no espectador, que, pela minha visão, se sente aliviado quando a narrativa começa a ser feita em português.

 

Tem muita recusa em assistir ao espetáculo, de permitir outra fruição. A gente percebe as pessoas que olharam e, de cara, não querem aquilo. Outras que não querem, mas se encantam porque tem uma performance muito viva e crível acontecendo, na performance dos atores e da cena, tudo muito amalgamado entre ator, texto, música, cenário, reconhecem um valor estético, embora não se deleitem com o que está sendo dito. E aqueles que se comovem no sentido pleno, que a gente não esperava.

 

Na estrutura do teatro que a gente concebe mais tradicionalmente, o espectador deve se reconhecer. Neste trabalho, ele reconhece ao outro, não a ele mesmo, não tem a possibilidade de reconhecimento porque ele não é índio e, muitas vezes, recusa o outro. Chegar nesse resultado, independentemente de qualquer efeito teatral, me leva a uma descoberta de que o teatro não é o reconhecimento e, sim, o encontro com o outro. Encontro com o estranhamento, com o outro, que não conhece, que não nomeia de imediato.

 

A Balagan sempre apresentou trabalhos de consistência e qualidade inegáveis, mas ainda não havia alcançado tanta projeção junto às premiações de classe, imprensa e festivais. A que se deve esse lugar que “Recusa” conquistou?

 

Eu creio que é só amadurecimento do próprio percurso, coisas que vão ficando mais sintéticas e, por isso, mais potentes. Preocupações que estão lá dentro de ‘Recusa’ estavam lá atrás. O “Sauromaquia”, por exemplo, um espetáculo também poético, e que já tinha ali a vontade de inscrever uma polifonia da cena, de não estar amarrado a uma ideia de um teatro com uma dramaturgia temporal. Não estamos falando de fragmentação, mas sim de células que existem simultaneamente e autonomamente. Nesse processo, um dia falei para o Abreu: “essa dramaturgia é espacial”. Disse isso porque a gente ainda estava tentando achar uma organização temporal, constituir um tema que fique aproximando o espectador para o reconhecimento. Mas conseguimos, no fim, abrir mão disso. As questões artísticas pairam sobre as nossas cabeças há muito tempo: a questão da narratividade, o ator e a performance do corpo e da voz pautam o trabalho desde sempre. Mas tem o amadurecimento.

 

Já a coisa da repercussão tem vários aspectos. Tem um lado negativo e perigoso: a expectativa. Como todo artista deseja, a sua obra reverbera para o mundo, isso todo mundo deseja e é mágico. A outra faceta é o perigo de acreditar que isso é a sua forma e achar que vai reproduzir isso. E tenho certeza de que não vou conseguir nunca mais fazer a mesma coisa que fiz em “Recusa”, mas sei também que vou ter que me policiar para não tentar repeti-lo. Além disso, “Recusa” é devedor de muita gente atrás que vem tratando do tema, gerações e gerações, por isso a citação ao Macunaíma do Antunes e do Mario de Andrade. Nós somos devedores dessa história.

 

Os mitos, aliás, de uma forma ou de outra são a base dos espetáculos da Balagan?

 

Eu não gosto muito da vida ordinária. O teatro não é o lugar da vida ordinária, ainda que eu me divirta muito quando vá ver coisas que tratem do lugar mais cotidiano. Mas não é isso o que eu gostaria de fazer, não é falar das pessoas, mas do humano com essa dimensão além do humano. Isso esteja presente em mim por formação cultural talvez. Nasci num local em que o mundo mítico e o real coexistem. O mito é lacunar, ele deixa brechas para que o espectador crie. E me alinho a esse pensamento de que o espectador é parte da criação. O ator, muitas vezes, acha que tem que dizer tudo, com a palavra, o corpo, a voz. A gente tem uma tendência a representar tudo, a dar uma estrutura que é facilitadora. Por outro lado, a linguagem que o mito traz só se constituiu na lacuna. O teatro é presencial, é onde a alteridade existe de fato, e não posso supor que esse cara chamado espectador não tenha capacidade de articulação. O mito me dá essa dimensão também de simultaneidade, de teia, porque o mito não se resolve nele mesmo. E tem, ainda, uma dimensão em termo de escolha de linguagem: eu gosto de coro, de muita gente em cena. “Recusa” mesmo não é monologo porque é, em síntese, a potência da alteridade, porque os dois, o Antonio e o Duda, são diferentes mesmo, e a gente conseguiu jogar com isso. Prefiro contar histórias de grupos onde os sujeitos, dentro do grupo, se manifestam. O mito não pertence a um homem específico, mas a muitos.

 

Falando e pertencimento, uma das discussões mais acaloradas no campo da pesquisa é a questão da transculturalidade e a apropriação de culturas tradicionais. Como você enxerga esse debate e como isso se deu em “Recusa”?

 

Os Suruí disseram uma vez para nós: “vivemos com não-indígenas nos mantendo indígenas”. Isso foi muito determinante para o nosso olhar. Não tem nada aqui no trabalho que reproduza, que seja uma mimese do que vivenciamos lá. O campo da arte é o da absoluta liberdade. Ali tem um patrimônio imaterial, mas eu só posso falar da minha experiência sobre ele, até porque os próprios índios têm boca, voz e inteligência para falarem por eles mesmos sobre o patrimônio. Nesse sentido, artisticamente, eu não posso fazer senão dessa forma. Como tirar de lá e ser outra coisa? Não posso tomar o lugar do outro, senão eu o mato. O outro continua a existir, aí que é o passo que eu aspiro que o espetáculo tenha dado, fazer outra coisa, sermos nós.

 

(*) A jornalista viajou a convite do evento.

 

* Fonte: http://horizontedacena.blogspot.com.br/2013/04/o-reconhecimento-do-outro-e-metamorfose.html 

Gazeta do Povo: “Recusa”: índio não quer apito

 

SANDRO MOSER

 

O espetáculo “Recusa” que a Cia. Balagan levou nesta segunda(1) à noite no centro de exposições da FIEP – com reapresentação hoje à noite – retrata com brilho e ousadia o universo das culturas indígenas do Brasil e de toda a América do Sul.

 

A encenação de Maria Thais, laureada com um justo prêmio Shell, transformou uns 30 m² do galpão da Federação das Indústrias na imensidão do território selvagem brasileiro que no final perde seu terreno para o agronegócio. (Ironicamente, a última vez que estive no espaço foi para uma feira de tratores e produtos agrícolas).

 

A escolha do galpão, por certo, deu-se em razão da acústica e do eco necessário a narrativa cênica contundente em que os atores transformam seus corpos e vozes em instrumentos de uma forma impressionante.

 

A atuação da Antônio Salvador e Eduardo Okamoto é, sem dúvida, o grande mérito da montagem. Em dueto, eles são possuídos por alguns espíritos da floresta (homens, onças, rios…) e cantam nas línguas originais de diversas etnias, algo que torna o espetáculo um irresistível recital de musica indígena acústica. Destaque para a cena em que a onça come um padre jesuíta e para as estupefaciadas gargalhadas que, aliás, são as forças motivadoras do espetáculo.

 

“Recusa” é inspirada em uma notícia veiculada pelo jornal Folha de S. Paulo em 2008 sobre dois índios pertencentes a tribo piripkura considerados extinto há mais de 20 anos e que foram localizados por antropólogos por causa das gargalhadas que dão ao contarem histórias um para o outro.

 

Na peça, a dupla vive como nômade, perambulando por fazendas madeireiras do Brasil central. Os dois índios, no entanto, recusam qualquer contato com os brancos.

 

A dramaturgia Luís Alberto de Abreu mistura várias lendas de diferentes etnias indígenas contados com dança e música e também com a prosódia própria dos índios colonizados. Algo que é muito rico e agradável para quem se interessa pala cultura indígena (para quem usou o guarani kaiuanas redes sócias então a peça é obrigatória), mas que causou incômoda estranheza em alguns espectadores desavisados.

 

A narrativa desliza, entretanto, quando um dos índios devora um fazendeiro e o texto se transforma em um discurso político contra os culpados habituais (burocracia estatal, agronefócio, sociedade omissa e hipócrita).

 

A carga ideológica e panfletária destoa da musicalidade do restante do espetáculo, que já dava o mesmo recado sem precisar desta nota explicativa. Algo que ao fim não serve para tirar a força da montagem, uma das peças obrigatórias do festival.

 

Vale dizer

Para quem for até a FIEP hoje a noite, cuidado com a caótica entrada pela Avenida das Torres em obras: é um trecho de estrada de chão, duzentos metros antes do portão principal, cuja sinalização quase não se vê á noite. E também use os estacionamentos do fundo do espaço, os mais próximos ao Jardim Botânico, a menos que o desejo seja dar uma longa caminhada noturna.

 

*Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/cadernog/festivaldecuritiba/conteudo.phtml?id=1359267&tit=Recusa-indio-nao-quer-apito

O Globo: Cia Balagan encena a premiada ‘Recusa’ em Curitiba e planeja montar no Rio

 

LUIZ FELIPE REIS*

 

CURITIBA – Prestes a completar 15 anos à frente da Cia. Teatro Balagan, em 2014, Maria Thais não é só uma diretora respeitada, mas uma pesquisadora que aproxima investigação teórica e prática artística como duplos que se inter-relacionam e complementam. Fala-se de duplo aqui porque é a investigação desse conceito que rege as peças “Prometheus — A tragédia do fogo” (2011) e “Recusa” (2012) — esta última apresentada segunda e terça no Festival de Curitiba.

 

Até o fim do ano, a diretora planeja levar as duas ao Rio. Em “Prometheus”, a companhia investiga o mito fundador do homem e da cultura ocidental. Em “Recusa” — vencedora em 2012 dos prêmios Shell (direção e cenário) e APCA (os atores Eduardo Okamoto e Antonio Salvador dividiram o troféu) —, o grupo volta-se à criação sob a ótica da cultura ameríndia.

 

— A questão do duplo é central nas duas, mas abordada de modo diferente — diz Maria. — “Prometheus” traz dois irmãos (Prometeu e Epimeteu), mas revela a separação entre eles, a separação entre deuses e homens, entre o homem e a natureza. Então mostra-se o desaparecimento do outro.

 

Já na cultura ameríndia o duplo aparece de forma inversa, a partir da noção de que “as forças do mundo existem na sua duplicidade”, como diz Maria.

 

— É um contraponto. Para os ameríndios, a Humanidade não está só em nós, mas em tudo. Os gregos separam, e ao olharmos para o mundo ameríndio descobrimos a coexistência, uma cultura em que tudo existe e se dá na relação.

 

“Recusa” é guiada pelos dois atores premiados, que encarnam seres complementares. Assim, histórias são cantadas ou narradas por dois índios piripkura; por dois heróis ameríndios; por Macunaíma e seu irmão, entre outros.

 

— A peça é um chamado. As pessoas vão se dando conta de uma herança. Você se conecta com algo que te pertence, mas que você não sabia.

 

“Recusa” nasceu em 2008, após uma notícia sobre a descoberta de dois índios piripkura, etnia considerada extinta. Iniciou-se então uma campanha para demarcar suas terras, assim como um debate sobre o papel do estado na tentativa de colocar os índios sob tutela. Vem daí o título, “Recusa”.

 

— Tendemos a achar que eles precisam de salvação e que nós a iremos oferecer. Mas são eles que sabem distinguir o bom e o ruim — diz Maria. — Desde o começo, sabíamos que uma notícia de jornal não daria conta da história. Era preciso criar uma linguagem. Os índios são cênicos, espetaculares e rituais por essência. E talvez esteja aí a chave que nos liga.

 

*O repórter viajou a convite da produção do festival

 

* Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura/cia-balagan-encena-premiada-recusa-em-curitiba-planeja-montar-no-rio-7999689

 

Gazeta do Povo: Peças premiadas recheiam a segunda semana

 

Ale Catan/Divulgação / Recusa se baseia em etnia quase extinta de índios brasileiros: dois integrantes da tribo foram encontrados no Mato Grosso, contrariando a hipótese de desaparecimento
Ale Catan/Divulgação

 

Recusa, que estreia hoje na programação do evento, ganhou estatuetas de melhor cenário e direção no Prêmio Shell; O Homem Travesseiro levou melhor espetáculo no Prêmio APTR.

 

A segunda semana do Festival de Teatro de Curitiba começa com peças premiadas, estreias nacionais e o segundo espetáculo internacional, In the Dust, da consagrada companhia britânica 2Faced Dance. Pós-feriado de Páscoa, a expectativa da organização é que os próximos dias promovam ainda mais movimentação teatral na cidade, já que, além das peças, a programação traz uma apresentação da Banda Panamericana, no Teatro Positivo, na quarta-feira, e o Gastronomix, feira gastronômica que acontece sábado e domingo no Museu Oscar Niemeyer.

 

Entre as atrações da Mostra 2013, um dos curadores do festival, Celso Curi, indica Recusa, que levou o Prêmio Shell (etapa Rio de Janeiro) de melhor direção e cenário. O espetáculo surgiu a partir de uma notícia divulgada em 2008 sobre o aparecimento, no Mato Grosso, de dois índios sobreviventes de uma etnia considerada extinta há mais de vinte anos.

 

“É um trabalho lindo, que conta a nossa história, e os atores [Antonio Salvador e Eduardo Okamoto] são geniais.”

 

Curi destaca ainda Mara­vilhoso (estreia nacional), sobre a história de um homem que se vê sem perspectivas depois do enterro da mãe. “É um grupo com jovens atores que logo devem despontar na lista dos melhores”, acredita o curador, que aconselha o público a aproveitar para assistir a espetáculos de companhias de outros estados, como O Diário de Genet, da Ateliê Voador Companhia de Teatro, e Breve, da Teatro da Queda, ambas de Salvador (BA). “É algo que fica mais difícil de se ver fora do festival depois”, salienta.

 

Outra estreia desta segunda-feira, também premiada, é O Homem Travesseiro, com direção e atuação de Bruce Gomlevsky, que venceu o Prêmio da Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR) nas categorias de melhor espetáculo, direção e ator coadjuvante (Tonico Pereira), além de ter sido considerada uma das dez melhores montagens de 2012 pelo jornal O Globo.

 

Gomlevsky teve contato com o texto de Martin McDonagh, que já foi encenado pelo mundo afora, há quatro anos, e ficou impressionado com a qualidade dramatúrgica.

 

“Fizemos uma tradução que é encenada na íntegra, e que toca em temas importantes, como a liberdade de expressão, a censura e o poder transformador da arte”, disse o diretor, em entrevista por e-mail à Gazeta do Povo.

 

O acúmulo da função com a de ator, diz ele, é um “grande desafio, muitas vezes enlouquecedor”. “Tenho a sorte de contar com uma equipe excelente. Também me preparei durante um ano para enfrentar isso.”

 

Guimarães Rosa
A diretora Yara de Novaes se inspirou no conto “Esses Lopes” do livro Tutameia, Terceiras Estórias, de Guimarães Rosa, para criar Maria Miss, que é narrada em primeira pessoa e tem um cenário minimalista. “Seguimos a ideia do conto, que tem uma estrutura que sugere algo simples.

 

Além disso, Guimarães nos leva para algo mais essencial e menos espetacular, em que a palavra é capaz de tirar as coisas do lugar”, ressalta Yara, que já esteve outras vezes no festival com espetáculos como Tio Vânia e Caminho para Meca, mas está ansiosa para se apresentar pela primeira vez no Teatro do Paiol.

 

“Sei que é um lugar muito especial para Curitiba, que tem uma história bastante interessante.”

 

*Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/cadernog/festivaldecuritiba/conteudo.phtml?tl=1&id=1358709&tit=Pecas-premiadas-recheiam-a-segunda-semana