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Cacilda Blog de Teatro: “Recusa” e a Praça Roosevelt

Comentário crítico de Nelson de Sá sobre “Recusa”, espetáculo da Cia Teatro Balagan em que Eduardo Okamoto é ator-convidado.

  

No último fim de semana, fui à praça Roosevelt ver “Recusa”, mas o que queria mesmo era ver a própria praça. Queria ver a praça enfim reinaugurada _a tempo de pegar a eleição, ainda que com a reforma incompleta_ e também a escola montada pelos governos estadual e municipal para a Organização Social dirigida por Ivam Cabral.

 

A peça é muito bem realizada, por Maria Thaís. É uma encenação rigorosa, visualmente de impacto, com intérpretes precisos. Thaís reafirma sua qualidade como encenadora, e além disso revela dois atores de especial grandeza.

 

Tanto física como vocalmente, Eduardo Okamoto e Antonio Salvador apresentam um espetáculo que faz jus ao tema e aos seres humanos que buscam espelhar _e dois índios em particular.

 

A peça parte de uma reportagem que João Carlos Assunção e Claudio Angelo publicaram no jornal há quatro anos, aqui, intitulada “Funai recorre à procuradoria para proteger área de dois índios isolados”, mais precisamente, os dois últimos membros de uma etnia de Rondônia, os piripkuras.

 

A partir daí, dessa imagem inicial de dois seres humanos isolados, na selva como no palco, “Recusa” aborda a questão indígena de vários pontos de vista, desde o debate sobre Código Florestal ou hidrelétricas, que é o mais simples, até os mais profundos, como o vínculo do homem com o animal.

 

Nesse último ponto, a interpretação ecoa o célebre conto de Guimarães Rosa representado tão celebremente quanto por Paulo Autran, “Meu Tio o Iauaretê”. Foi o que vi de mais marcante de Autran: ele se mesclava fisicamente a um animal. Okamoto e Salvador não chegam a tal simbiose, ao menos em seu primeiro fim de semana, mas também deixam marca.

 

O problema de “Recusa” está no texto. Luís Alberto de Abreu, de grande talento para aproximar dramaturgia e público, como nas peças populares que fez para a Fraternal Cia. de Arte e Malas-Artes por mais de uma década, desta vez adapta mitos diversos e não parece buscar qualquer fio narrativo, o que resulta pouco teatral.

 

Soa aleatório, deixa a sensação de que poderiam ser muitas cenas ou peças diferentes, um amontoado que poderia começar e terminar em qualquer lugar, por horas sem fim e sem ritmo.

 

Para além da peça, o espaço no primeiro andar da SP Escola de Teatro, um prédio adaptado, é um avanço em relação àqueles dos Satyros, ao lado e algumas casas adiante.

 

É menos uma sala de teatro, distante até de um auditório de convenção como há tantos hoje voltados para teatro, e mais uma sala de ensaio, que se abre para uma pequena plateia. É limitado para os espectadores, mas é relativamente amplo para as encenações.

 

A escola como um todo, a exemplo da praça, ainda parece em construção, ao menos nos primeiros andares. Mesmo assim, promete. E é maravilhoso que, embora criada por um grupo ligado a um político em especial, abrace outros artistas, relacionados a outros políticos.

 

Thaís e Abreu são muito identificados com a Escola Livre de Teatro de Santo André, que, registre-se, perdeu força com a troca no governo municipal anos atrás, do PT para o PSDB. Espera-se agora que não aconteça o mesmo, na direção inversa, com a SP Escola de Teatro, de certa forma espelhada na de Santo André.

 

É significativo que a praça Roosevelt, reformada por José Serra, tenha sido palco de uma manifestação contrária a ele, também no último fim de semana.

 

O grande equívoco do ex-prefeito nesta campanha foi embarcar num discurso homofóbico, para agradar aos líderes católicos e evangélicos mais reacionários. Ex-ator amador do “Vento Forte” de Zé Celso, ele chega à eleição exaurido, inclusive na classe teatral, daí o ato Existe Amor em SP, com shows de Criolo e Karina Buhr, esta muito ligada ao Oficina.

 

Não vejo o menor problema no engajamento deste ou daquele artista nesta ou naquela linha política. Não vejo problema sequer no fato de atrair recursos deste ou daquele governante, desde que respeitada a lei. Vale para os Satyros como vale para o Oficina.

 

Muito do avanço recente nos orçamentos públicos diretos para teatro _como o Fomento, o ProAC, as estatais federais que sustentam companhias e abrem novos teatros na cidade_ saiu da afinidade inicial com este ou aquele grupo, ampliando-se depois.

 

Mas o importante é não retroceder, como aconteceu em Santo André. Novamente, espera-se que não haja descontinuidade por diferenças que são da política, não do teatro.

 

* Fonte: http://cacilda.blogfolha.uol.com.br/2012/10/25/recusa-e-a-praca-roosevelt-2/

Folha de SP: “Recusa” retrata cultura indígena com brilho

Cena ameríndia. “Recusa”, espetáculo da Cia. Balagan, propõe um mergulho no caldeirão das culturas indígenas do Brasil.

 

Mais que retratá-las, os artistas envolvidos incorporaram suas línguas, cantos e mitos até o ponto de tornarem-se índios.

 

A encenação de Maria Thaís se ancora no trabalho de dois atores, Antônio Salvador e Eduardo Okamoto, que concretizam esta incorporação e sustentam uma narrativa cênica contundente.

 

A dramaturgia de Luiz Alberto de Abreu, que partiu de lendas recolhidas, quer revelar o que é ser esse outro sem uma dramatização convencional. Contou para isso com os atuantes, fazendo de seus corpos e vozes fundo sonoro e visual com que narram algumas histórias.

 

  Ale Catan/Divulgação  
Cena da peça "Recusa", da Cia. Balagan
Cena da peça “Recusa”, da Cia. Balagan

 

A direção musical de Marluí Miranda propiciou que os intérpretes assimilassem cantos de diversas etnias, sempre apresentados nas línguas originais, o que torna seus desempenhos um recital de musica acústica.

 

A forma do dueto, ou da dupla que interage em uníssono, segue a estrutura das mitologias ameríndias descrita pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss.

 

Ele reparou que na América indígena os pares míticos não se aniquilavam entre si, mas compartilhavam suas diferenças criativamente.

 

Acrescente-se a percepção de outro antropólogo, o brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, sobre a peculiar noção de humanidade daquelas culturas. Ela permite estabelecer um fluxo de mutações em que os seres flutuam por diversas formas de vida.

 

Ali, homens, animais, plantas e rios têm suas almas ou são igualmente pessoas.

 

Os dois intérpretes variam entre serem homem e onça, pássaro e árvore, narrador e coisas narrada. Contam desde cosmogonias primitivas até casos recentes, como o que inspirou a produção, sobre dois índios isolados que se recusaram a receber ajuda quando descobertos.

 

O único estranhamento, neste discurso indígena que se quer não mediado pelo homem branco, é quando a voz de um fazendeiro devorado ainda fala na barriga do índio. O tom ideológico contrasta com o “pensamento selvagem” que vinha sendo cultivado.

 

É pouco para empanar o brilho da realização da Balagan, que arrisca uma nova abordagem teatral da questão indígena.

 

RECUSA
QUANDO de qui. a sáb., às 21h30; dom., às 19h; última semana
ONDE SP Escola de Teatro (pça. Roosevelt, 210; tel. 0/XX/11/3775-8600)
QUANTO R$ 10
CLASSIFICAÇÃO 12 anos
AVALIAÇÃO ótimo

 

* Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1174544-critica-recusa-retrata-cultura-indigena-com-brilho.shtml

Carta Capital: Sem a ambição do contato

Comentário de Álvaro Machado sobre “Recusa”, da Cia Teatro Balagan, em que Eduardo Okamoto é ator-convidado. 

 

O lado esquerdo que faz da Praça Roosevelt referência para o teatro paulistano, com várias companhias vizinhas de porta, abre seu mais novo espaço cênico, no mezanino do prédio da SP Escola de Teatro, estadual. Uma proposta inovadora seria o mínimo a esperar, e ela chega com a Cia. Balagan e a peça Recusa, dramaturgia de Luís Alberto de Abreu. Diretora do grupo, Maria Thaís imprimiu ao projeto os contornos de seu aprendizado direto com dois herdeiros de Constantin Stanislavski (1863-1938): os também russos Iuri Alschitz e Anatol Vassiliev.

 

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Vivência e arte. Antonio Salvador e Eduardo Okamoto, quatro anos de estudos, viagens e pesquisas para compor os personagens

 

No espírito desse sistema de interpretação, que amalgama às técnicas de palco a própria vivência dos atores, Eduardo Okamoto e Antonio Salvador passaram quatro anos a estudar, com a diretora, as culturas indígenas brasileiras, em viagens e pesquisas às quais contribuíram, entre outros, a compositora Marlui Miranda. O ponto de partida foi uma notícia de jornal de 2008, sobre dois indivíduos piripkura, os últimos de sua etnia, doentes e em recusa sistemática de contato com os brancos. “Recusa” também é palavra do vocabulário libertário do filósofo La Boétie, da poeta Marina Tsvetaieva, do teatrólogo Meyerhold – o mais radical discípulo de Stanislavski – e do antropólogo Pierre Clastres, todos esses referências alinhavadas na peça.

 

Pleno da espantosa entrega de seus atores, o espetáculo de narrativa não linear se ampara em econômicos recursos cenográficos desenhados por Márcio Medina, também fundador do grupo. Às lendas sul-americanas de criação do mundo a Balagan oferece ainda, até dezembro, o contraponto de Prometheus (2011), com fundo mitológico grego.

 

Recusa
Cia. Teatro Balagan
Até 16 de dezembro
SP Escola de Teatro

 

*Fonte: http://www.cartacapital.com.br/cultura/sem-a-ambicao-do-contato/

 

 

“Eldorado” em Araçatuba

 

Eduardo Okamoto apresenta o solo “Eldorado” no Festara – Festival de Teatro de Araçatuba. O espetáculo é dirigido por Marcelo Lazzaratto e tem dramaturgia de Santiago Serrano. A apresentação é parte da programação do Festara 2012 – Festival de Teatro de Araçatuba e acontece no Teatro Castro Alves, às 20h30.  

 

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O Festara – Festival de Teatro de Araçatuba é uma realização da Prefeitura Municipal de Araçatuba, por meio da Secretaria de Cultura, com o apoio do SENAC Araçatuba, SESC – SP e Secretaria de Estado da Cultura.

 

Em 2011, o festival teve 25 peças foram encenadas. Companhias e grupos teatrais paulistas, do interior e da capital, assim como dos estados de Goiás, Rio de Janeiro, Paraná, Paraíba e Santa Catarina estiveram presentes, celebrando as artes cênicas e provocando um exercício de reflexão sobre a cultura.

 

“Eldorado” foi criado a partir de estudos de Eduardo Okamoto sobre a tradição da rabeca – instrumento de arco e cordas, como o violino, presente em muitas manifestações da cultura popular do Brasil. A partir destes estudos, o premiados dramaturgo argentino criou uma texto inédito. Ali, conta-se a fábula de um cego que, acompanhado por uma “Menina”, busca encontrar o que nenhum homem pôde jamais: Eldorado. 

 

Depois de um longo processo de estudo e criação dramatúrgica (aproximados três anos), o diretor Marcelo Lazarrato lapidou as criações de ator e dramaturgo, conferindo forma final ao espetáculo. Assim, procurou universalizar os estudos de Okamoto que, inicialmente, pautava-se em relações regionais (a rabeca e os rabequeiros). Neste lugar atemporal, propício ao maravilhamento, o personagem cego da fábula  é todo homem e o Eldorado é a busca humana pelo seu bom lugar.

 

Serviço:
“Eldorado” em Araçatuba  
22 de outubro, às 20h30 
Teatro Castro Alves 
Duque de Caxias, 29 – Centro
(18) 3608-1176 
Ingressos gratuitos  

Jornal do Comércio: O testemunho do fim. Ou do início.

 

No final de setembro de 2008, alguns jornais noticiaram que funcionários da Funai (Fundação Nacional do Índio) em Rondônia estavam tentando junto ao Ministério Público Federal autorização para proteger uma região de floresta, no Estado do Mato Grosso, onde viviam os  dois últimos índios piripkura. Segundo os jornais, os índios, Tikun e Monde-í, eram nômades, não falavam português e fugiam constantemente dos brancos. Últimos representantes de uma etnia que se acreditava extinta havia mais de 20 anos, os dois índios foram localizados em função do som de suas risadas – enquanto se alimentavam da caça, deixavam que as gargalhadas atravessassem a floresta. “Não sei nem dizer o que senti quando li a notícia”, diz agora o ator Antonio Salvador. “Fiquei assustado, talvez até identificado com uma certa atitude deles. Eles pareciam nos dizer: vocês não testemunharão o nosso fim. Havia algo ali que eu não compreendia, passei uma semana chorando”.

 

Na semana seguinte, Salvador secou as lágrimas e arregaçou as mangas. Juntou-se à diretora Maria Thaís, da Cia. Teatro Balangan, ao dramaturgo Luis Alberto de Abreu e ao ator Eduardo Okamoto para dar início a um rigoroso e multidisciplinar  trabalho de pesquisa que, quatro anos depois, resultou na peça Recusa, que estreia hoje, inaugurando um  espaço cênico na Cidade, o SP Escola de Teatro Sede Roosevelt.

 

Recusa não pretende ser uma simples dramatização ou desdobramento de um fato jornalístico. “O que nos interessou, logo no início, foram os vários pontos de vista que se apresentavam sobre estes povos que recusam o nosso modelo de sociedade”, diz Salvador. “Decidimos estudar outras matérias de jornais, relatos antropológicos, histórias que ouvimos de outras pessoas e a mitologia de alguns povos”. Segundo o ator, o que definiu a linha de trabalho a ser adotada na concepção de Recusa foi a constatação de que, em inúmeras cosmologias ameríndias, o mundo sempre existiu e já acabou diversas vezes. “Para estes índios, toda a criação é obra de uma dupla de gêmeos não idênticos. Se os piripkura são apenas dois, talvez não seja o fim do mundo, pode ser o começo. O mito está aí”.

 

As últimas notícias que Antonio Salvador teve a respeito dos índios Tikun e Monde-í davam conta de que, ao contrário do desejo dos madeireiros e fazendeiros da região, que os queriam bem longe dali, eles estavam vivos e passando bem. E provavelmente rindo alto.

 

Recusa. Estreia nesta sexta (5). SP Escola de Teatro – Sede Roosevelt. Praça Roosevelt, 210. Tel.: 3258-6345. Quinta a sábado às 21h30. Domingo às 19h. R$ 10. 

 

* Fonte: http://www.dcomercio.com.br/index.php/dcultura/sub-menu-dcultura/97263-o-testemunho-do-fim-ou-do-inicio

Estadao: Companhia Balagan estreia espetáculo ‘Recusa’ em SP

AE – Agência Estado

Dois índios, de uma tribo considerada extinta, vagam por fazendas de Mato Grosso. Há mais de 20 anos não havia sinal da sua etnia, os piripkuras. Mas essa dupla de sobreviventes se recusa a fazer contato com quer que seja. Não quer falar com homens brancos. Não quer ajuda. Juntos, eles apenas riem das histórias que contam um ao outro. Preferem ficar sós.

  

Em “Recusa”, espetáculo que entra em cartaz quinta, a companhia Balagan tomou esse episódio verídico como ponto de partida. Veiculada pela imprensa em 2008, a notícia surge como mote para a parceria entre a diretora Maria Thais e o dramaturgo Luís Alberto de Abreu. De posse da história, eles organizaram uma montagem que entrelaça diversos olhares.

 

Além dos dois índios piripkuras, também aparece uma dupla de heróis ameríndios, Pud e Pudleré. O fazendeiro que matou um índio e sua vítima. Macunaíma e seu irmão. “Tentamos aprender como multiplicar perspectivas. Em vez de tentar apreender o mundo por uma perspectiva só”, explica Eduardo Okamoto, ator que divide a cena com Antonio Salvador. “Para esses povos não é possível nunca anular as diferenças, porque o mundo é feito delas. O que é um pouco diferente da tradição europeia e ocidental, em que há uma voz única, um só ponto de vista.”

 

A vontade de apreender o mundo de outra maneira, que não a usual, já havia motivado a criação anterior da companhia. Em “Prometheus – A Tragédia do Fogo” enredos múltiplos e cenas descontínuas foram convocadas para recontar o mito grego. Recusava a dimensão heroica de Prometeu, titã que rouba o fogo dos deuses para entregá-lo aos homens. Nos dois espetáculos, organizam-se cosmologias diferentes da nossa: de um lado a grega, do outro a ameríndia. Um outro traço comum também aproxima as montagens: em ambas, os mitos criadores partem da figura de gêmeos. “São dois tratamentos completamente distintos para a ideia de duplo”, pontua a diretora. “Para os gregos, o gêmeo de Prometeu, que é Epimeteu, precisa ser morto. No caso ameríndio, o duplo é necessário.”

 

Para compor a peça, Abreu partiu de uma série de discursos de naturezas distintas: além do episódio jornalístico, narrativas antropológicas, passagens míticas e discursos de entidades ligadas à causa indígena foram utilizadas. Também não faltaram canções e transcrições de relatos dos próprios indígenas. Durante a processo de pesquisa para construção da montagem, o grupo passou um período na aldeia Gapgir, em Rondônia. “Mas temos plena consciência de que esse não é o discurso deles. Não é a voz deles. Somos nós que estamos falando”, ressalva a encenadora. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

 

RECUSA

SP Escola de Teatro (Praça Roosevelt, 210, Consolação). Telefone (011) 3775-8600. 5ª a sáb., 21h30; dom., 19 h. R$ 10. Estreia 4/10. Até 16/12.

 

* Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,companhia-balagan-estreia-espetaculo-recusa-em-sp,940093,0.htm

Revista Bravo!: Herdeiros aplicados

Álvaro Machado, na Revista Bravo de outubro, menciona “Recusa”, espetáculo da Cia teatro Balagan em que Eduardo Okamoto é ator-convidado.

 

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Ao receber diretores russos para suas montagens, companhias brasileiras, como a Mundana, aprimoram o célebre método de interpretaçãocriado pelo ator Constantin Stanislávski

 

O russo Adolf Shapiro, rodeado pelos atores da Mundana, em ensaio da peça Pais e Filhos. Faz dois anos que o diretor trabalha com o grupo

 

Companhias de repertório com ambições vanguardistas conheceram dias férteis no Brasil dos anos 60 – os teatros Oficina e Arena são alguns dos melhores exemplos. Hoje em dia, ainda florescem, mas a depender da teimosia de um núcleo estável de atores e de subsídios para desenvolver linguagem cênica própria. Às trintonas Galpão, de Belo Horizonte, e Lume, de Campinas, além do próprio Oficina, entre outras, soma-se neste mês a Mundana, de São Paulo.

 

Criado em 2007 por Aury Porto e Luah Guimarãez, o grupo de 12 atores vem revelando apetite na difícil empreitada de adaptar clássicos da literatura. Após montar Albert Camus (A Queda) e triunfar com sua premiada versão teatral de sete horas de O Idiota, de Dostoiévski, a Mundana estreia em São Paulo Pais e Filhos, transposição para a cena do romance de Ivan Turguêniev (1818-83), publicado aqui em tradução de Rubens Figueiredo. Desta vez, o trabalho de adaptação contou com a colaboração de Adolf Shapiro, um dos mais importantes diretores russos da atualidade.

 

Consolidando um perfil, essa é a terceira imersão da Mundana na idade de ouro da literatura e do teatro russos, entre as décadas de 1830 e 1930 – a segunda foi Tchekhov 4 – Uma Experiência Cênica, junção de quatro atos de diferentes obras desse autor. A montagem, experimental, motivou a primeira vinda de Shapiro ao Brasil. O amor à primeira vista pela companhia brasileira foi daqueles de gerar ciúme em grupos europeus que esperavam semelhante oportunidade. Pois o diretor-pedagogo é mestre reconhecido de um conjunto russo de técnicas teatrais que, além de promoverem o jogo cênico eficaz, operam avanços na própria psicologia de cada ator.

 

Aos 73 anos, Shapiro é considerado um dos principais herdeiros de Constantin Stanislávski (1863-1938), que legou ao teatro o seu mais efetivo método de interpretação e consolidou a figura do diretor, antes dele praticamente inexistente. “É uma profissão como a de cosmonauta ou tratorista: própria do século 20”, lembra Shapiro, que tomou contato com os ensinamentos de Stanislávski por meio daquela que foi por décadas sua principal assistente: Maria Knébel (1898-1985).

 

No formol
Nada é tão simples como parece no universo do teatro russo, que o diretor-visitante reputa como “o melhor do mundo, ainda”. Segundo ele, Stanislávski provou a força de seu “sistema” por meio de livros e de sucessores, que continuam a orientar os mais consagrados atores do mundo (veja quadro na pág. 92). Logo, porém, o teórico compreendeu que, como diz Shapiro, “nossas qualidades representam a continuidade de nossas insuficiências”. Stanislávski, então, abandonou os detalhados planos que escrevia para cada peça e voltou-se ao teatro vivo, aberto à improvisação, que une a mão volitiva do diretor às oscilações dos atores.

 

“Há, na verdade, três tipos de diretor”, explica Shapiro. “O organizador, importante para supervisionar a companhia e a montagem; o metteur en scène, que é o criador, capaz de extrair a essência poética das peças; e, por fim, o diretor-pedagogo, como Stanislávski, para o qual o longo laboratório junto aos atores importa mais que o espetáculo.” E qual deles prevalece hoje em dia? “Um tipo de organizador que, como um general, dá ordens sem parar. Muitos se dizem continuadores de Stanislávski. Após sua morte, houve disputas violentas para ver quem seria o principal herdeiro. Mas a essência de seu sistema é viva e, portanto, sujeita a transformações. Se ele visse a maneira ‘formolizada’ como o repetem hoje, morreria pela segunda vez.”

 

Pela detalhada construção psicofísica e pelas especulações em torno da “verdade” de cada personagem, as obras de Turguêniev representaram uma contribuição decisiva na constituição do Teatro de Arte de Moscou, que Stanislávski fundou em 1897 com Vladimir Nemiróvich-Danchenko (1858-1953). Este, porém, afastou-se anos depois para conceber espetáculos de acabamento primoroso, enquanto o colega enveredava pelos estudos sobre a interpretação.

 

A trama sobre o choque de gerações e as visões antagônicas da sociedade na segunda metade do século 18 foi proposta aos brasileiros pelo próprio Shapiro. Pais e Filhos ficou célebre por ter forjado o termo “niilista”. Assim foram caracterizados os jovens que, como Bazárov, o protagonista da peça, negaram o poder aristocrático russo, inclusive com ações terroristas.

 

“Para o Ocidente, a cultura russa se resume a Tchekhov e Dostoiévski, quando há uma plêiade de escritores maravilhosos: Púshkin, Griboédov, Gógol, Turguêniev, Leskóv, Bulgákov… Apesar de todo meu amor por Tchekhov, estudar o sistema Stanislávski sempre com base nesse autor tornou-se um lugar-comum. Turguêniev oferece um terreno igualmente fértil. Acredito, sobretudo, que ele atinge o nervo central da vida contemporânea: no livro, um homem coloca as ideias acima de tudo, mas, no momento em que deve confrontar-se com a vida, a ideia é destruída. Como dizia Dostoiévski, ‘nenhuma ideia vale a lágrima de uma criança’.”

 

Em Pais e Filhos, o “processo” – palavra mais importante que “espetáculo”, segundo a linhagem de Stanislávski – foi iniciado há dois anos. De início, Elena Vássina, professora do departamento de Línguas Orientais da Universidade de São Paulo, serviu de ponte entre Shapiro e a Mundana. Estabelecida no Brasil desde os anos 90, a acadêmica russa prestou consultoria à adaptação de O Idiota. E, no festival de Moscou que comemorou os 150 anos de Tchekhov, em 2010, aproximou Shapiro de Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc e incentivador de longa data da Mundana.

 

Bordado
Interessadas em pedagogia e direção, as atrizes Luah Guimarãez e Lúcia Romano vão anotando as palavras mais significativas do mestre. “Ele evoca uma estrada para cada ator, mas é um percurso interno, que a cada dia se torna mais longo e jamais será finalizado, com avanços e retornos, como num bordado”, diz Luah. Já Lúcia nota que “o grupo está aprofundando a relação iniciada em 2010, mas sem expectativas em excesso. Tão ou mais importante que o espetáculo é a relação entre o diretor e o ator na criação de um teatro vivo, como disse Stanislávski”.

 

Há três décadas, o polonês Jerzy Grotówski (1933-99), considerado por Shapiro “o melhor stanislavskiano do século 20”, constituía uma forte referência sobre o laboratório teatral para pesquisadores brasileiros. Nos últimos seis anos, porém, outros dois russos com perfil de “mestres-pedagogos” iniciaram trabalhos no Brasil. Radicado na Alemanha e ministrando cursos comissionados pela Unesco do Japão às Américas, Iúri Alschitz, 65 anos, assina a direção de Eclipse, mais recente espetáculo dos mineiros do Galpão, baseado em contos de Tchekhov.

 

Em São Paulo, a diretora Maria Thaís, da Cia. Teatro Balagan, estreia neste mês Recusa, espetáculo gestado por três anos e meio. E que ecoa sua longa formação em Moscou junto a Alschitz – cujas visitas ao Brasil ela coordena – e a Anatoli Vassiliev, 70 anos, também ex-aluno de Maria Knébel, tido como um dos mais brilhantes poetas-encenadores da atualidade. Na afamada Escola de Arte Dramática da capital russa, Maria Thaís chegou a assinar coreografia e preparação corporal para uma Ilíada de Vassiliev que exigiu oito anos dos envolvidos. Ou à maneira russa: todo um processo.

 

O pai do teatro naturalista e sua linhagem
Autor de um famoso sistema de interpretação, Constantin Stanislávski tem discípulos no mundo todo.

 

O que une (além da profissão, claro) o milanês Gianfrancesco Guarnieri, a norte-americana Meryl Streep e o elenco do filme Cidade de Deus? De certo modo, todos são herdeiros do russo Constantin Stanislávski (foto), cujo 150º aniversário será celebrado em 2013. Ator, diretor, escritor e pedagogo, Stanislávski criou, entre o final do século 19 e o início do 20, aquele que se tornaria o mais famoso sistema de interpretação do mundo. Ícone do teatro naturalista, o teórico defendia a vivência de emoções autênticas pelos atores, que devem ser seus personagens, e não apenas interpretá-los.

 

Como é impossível controlar o que se deixa de herança, o legado de Stanislávski foi assimilado de maneiras distintas, até porque seu sistema é algo vivo, definido pela mobilidade. Nos Estados Unidos, ele inspirou a escola Actor’s Studio, que estimula o uso da memória afetiva na construção do personagem (recurso visto com cautela por Stanislávski). Eugênio Kúsnet, que nasceu na Rússia em 1898 e migrou para o Brasil em 1926, foi pioneiro na difusão de seus ensinamentos. Preparadora de elenco, Fátima Toledo estudou com Kúsnet e tem Stanislávski entre suas referências.

 

1. ORIGEM. Com Vladimir Nemiróvich-Dânchenko, Stanislávski fundou o Teatro de Arte de Moscou, em 1897. A Gaivota, de Tchekhov foi um dos primeiros sucessos do grupo. Na foto, uma das leituras da peça.

 

2. TRANSMISSÃO. A atriz norte-americana Stella Adler estudou com Stanislávski em Paris nos anos 30. De volta aos Estados Unidos, difundiu os ensinamentos do mestre para seus alunos de teatro.

 

3. INFLUÊNCIA no brasil Stanislávski é uma das referências de Fátima Toledo, principal preparadora de elenco do país. Ela foi aluna do ator Eugênio Kúsnet, que nasceu na Rússia e estudou teatro em Moscou.

 

4. A PRESENÇA EM HOLLYWOOD Vencedora do Oscar de 2012 por seu papel em A Dama de Ferro, Meryl Streep é considerada pelo diretor Adolf Shapiro como “atriz-modelo de Stanislávski”.

 

Recusa.
SP Escola de Teatro (Praça. Roosevelt, 210, SP).
De 5a a sáb., às 21h, dom., às 19h.
De 4/10 a 16/12. R$ 10.

 

*Fonte: http://bravonline.abril.com.br/materia/herdeiros-aplicados#image=adolf-shapiro-pais-e-filhos