animação

27 – Meninos de Rua: apropriações

 

Nesta semana, o espetáculo “Agora e na Hora de Nossa hora” é apresentado em São José dos Campos, como parte da Mostra Joanense de Teatro. As 18 sessões no interior de São Paulo registram, como as 18 postagens que escrevo neste blog, os 18 anos da Chacina da Candelária. Assim é o projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”. Aqui, um texto sobre as múltiplas tentativas de apropriação dos meninos de rua pelo Estado e outras instituições – adaptado de “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense” (Hucitec, 2007).

 

Ao ter considerada a sua sociabialidade incompleta (assim são a infância e a juventude) meninos e meninas de rua facilmente se tornam “sujeitos apropriáveis”. O Estado, as instituições, grupos e pessoas com os quais dialogam sabem o que deve ser feito dos meninos. Meninos de rua são alvo de infindas tentativas de reintegração à sociedade. Estas são tentativas de capturá-los para o cumprimento de um modelo que nem sempre desejam assumir.

 

Justificadas nos seus argumentos que desenham a figura do “menor abandonado” estas ações, no entanto, fracassam. Isto porque não levam em conta que a rua não é só espaço de desconstrução de relações; a rua é também construção de uma nova sociabilidade. Viciadas num olhar preconceituoso sobre a rua e o modo de vida de seus habitantes, estas ações pretendem, não raro, tirar da rua os meninos a qualquer custo, procurando discipliná-los a um modelo de juventude. Repito: nem sempre estes meninos estão dispostos a abraçar estes modelos.

 

Há neste modelo de atuação, uma certa arrogância. O povo brasileiro, “pacífico por natureza”, pode deixar escapar, na sua conduta junto aos meninos de rua, preconceito e intolerância que tanto condena em outros povos. Quando os EUA decidiram, em nome da liberdade do povo do Iraque, praticar o genocídio que até hoje a história testemunha, nossas representações políticas facilmente manifestaram seu repúdio à guerra. Nisto eu estava completamente de acordo. Entretanto, é curioso observar que, no Brasil, crianças e adolescentes, em nome do seu bem, sejam forçados a cumprir um modelo de vida que não desejam para si.

 

Assim, os projetos e programas sociais, as instituições, todos sabem o destino que dariam para a vida destes adolescentes. Poucos sabem ouvir o que os adolescentes pretendem de si mesmos. Os adolescentes não participam da construção de seu próprio projeto de vida.

 

É preciso, agora, considerar que meninos e meninas de rua trazem experiências variadas, diversas daquelas que nós, moradores de casa, trazemos. Isto é aceitar que suas expectativas podem ser diferentes das nossas. Caso contrário, falaremos sozinhos, sem encontrar nos meninos interlocutores.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em São José dos Campos
Mostra Joanense de Teatro
31 de março, às 21h e 01 de abril, às 19h
CET – Centro de Estudos Teatrais
Av. Olivo Gomes, 100 – Parque da Cidade – Santana
Informações: (12) 3924-7358.  

 

26 – Identidade: transitoriedade

 

Na última semana, apresentamos “Agora e na Hora de Nossa Hora” no Espaço Clariô – sede do grupo de teatro homônimo. Ali, um grupo – apaixonado e apaixonante! – muitíssimo afeito ao debate sobre as relações teatro/sociedade. O Clariô lembra-nos que as artes em geral – e o teatro em especial – fortalecem nossos laços comunitários: identidade, pertencimento. Isto motivou uma reflexão acerca da construção de uma certa visão de mundo pela população de rua. Neste texto, adaptado de meu livro “Hora de Nossa hora: o menino de rua e o brinquedo circense (Hucitec, 2007), breve pensamento sobre os deslocamentos da população de rua.

 

Desde a origem das cidades, há registros de pessoas que fazem da rua morada. Diversos olhares foram lançados já sobre os habitantes da rua. Da compaixão ao escárnio; do medo (que leva, não raro, às ações de enclausuramento, afastamento destas pessoas do cotidiano das cidades) ao preconceito. O olhar sobre estas pessoas corresponde a um olhar sociocultural e histórico – mutável, portanto.

 

Em nossos tempos, já escrevi em outra postagem, um pensamento urbanístico é norma: ordenação da circulação de pessoas e mercadorias. Os habitantes da rua, neste contexto, permanentemente se deslocam como os demais indivíduos da cidade. Entretanto, o fazem de maneira diferenciada. Se outros habitantes da cidade transitam com a finalidade de sair de um lugar para chegar em outro, os habitantes da rua não desenham um deslocamento objetivo; não há ponto de chegada. Ora se deslocam motivados pela ordem dominante que os expulsa (assim é a ação da polícia, por exemplo), ora se deslocam atrás de outras oportunidades de sobrevivência. Gente que faz da vida movimento.

 

Neste deslocamento contínuo, a população de rua constrói sua identidade. A rua adquire sentidos diferenciados para estas pessoas. O nomadismo implica numa série de referências de sociabilidade para a população de rua, como o desenvolvimento de relações efêmeras e fragmentadas e a sensação de liberdade. Ao se deslocar, o habitante das ruas se constrói, faz-se andando.

 

Ao ocupar a rua de maneira diferenciada, a população de rua é facilmente destacada na paisagem urbana. Seu modo de vida subverte a lógica e a expectativa de ocupação de espaços que os outros habitantes da cidade aprenderam a incorporar. Os habitantes da rua são, para outros cidadãos, um pouco fora do lugar.

 

A transitoriedade dos adolescentes em situação de rua e a itinerância própria do circo podem, em parte, explicar a facilidade com que meninos e meninas de rua se entregam às atividades circenses – o que acontece não só no projeto “Gepeto”, da ONG ACADEC, em que atuei ao lado de meninos de rua de Campinas, mas em diversos outros projetos que fazem do circo sua principal forma de atuação, como o projeto “Se essa rua fosse minha”, no Rio de Janeiro – RJ. É como se o circo trouxesse no bojo de suas técnicas uma qualidade arquetípica do deslocamento contínuo. Como ferramenta para dialogarmos com a transitoriedade, a linguagem da transitoriedade.

 

Próxima parada dos deslocamentos de “Agora e na Hora de Nossa Hora” pelo interior de São Paulo: São José dos Campos.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em São José dos Campos
Mostra Joanense de Teatro
31 de março, às 21h e 01 de abril, às 19h
CET – Centro de Estudos Teatrais
Av. Olivo Gomes, 100 – Parque da Cidade – Santana
Informações: (12) 3924-7358. 

 
  

25 – A Música dos Meninos de Rua: “Dia de Visita”, do Realidade Cruel

 

Ao contrário do que se pensa, meninos e meninas em situação de rua, não raro, são ligados fortemente às suas origens, sobretudo, às suas famílias. Ainda que dolorosamente nem sempre mencionem isto, impressiona o quanto o tema os mobiliza. Curiosamente, diga-se, os meninos tendem a reproduzir nas ruas as estruturas familiares que conheciam em casa. Assim, andam em grupos e alguém considerado um pouco mais maduro (menino ou menina mais velha, um morador de rua adulto, uma prostitua) acabam assumindo a postura de pai ou mãe da rua, responsabilizando-se pelos demais.

 

Nesta postagem, um vídeo do grupo Realidade Cruel, de Hortolândia, região de Campinas. Já disse, em outro texto, que o grupo fala fundo aos meninos de rua. Aqui, uma música em que tratam justamente de um dia de visita (um detento recebendo a visita da mãe, no presídio). Muitas vezes a ouvi na Febem. Outras tanta ouvi meninos cantando-a nas ruas.

 

 

Nesta semana, o espetáculo “Agora e na Hora de Nossa Hora” apresenta-se em São José dos Campos, como parte da Mostra Joanense de Teatro.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em São José dos Campos
Mostra Joanense de Teatro
31 de março, às 21h e 01 de abril, às 19h
CET – Centro de Estudos Teatrais
Av. Olivo Gomes, 100 – Parque da Cidade – Santana
Informações: (12) 3924-7358.  

 

 

24 – Rua: encontros

 

As 18 sessões de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no interior de São Paulo registram os 18 anos da Chacina da Candelária. As apresentações são acompanhadas de bate-papos, exposição, doação e divulgação de livro, 18 postagens, neste blog, sobre a situação de risco social. Neste texto, adapto trecho do livro “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense”, de minha autoria (Editora Hucitec, 2007).

 

A rua é espaço múltiplo. É espaço de circulação de pessoas com diferentes origens, situações socioculturais e econômicas, com diversidade de opções políticas, ideológicas e religiosas. Ao passar ou ocupar a rua, cada um dos habitantes da cidade imprime um pouco de si no seu espaço. A rua, assim, ganha significações tão diversas quanto é possível à diversidade de pessoas que por ela passam. A população de rua, incluídos crianças e adolescentes, é parte desta diversidade.

 

Ao longo da história, variam as concepções sobre a rua. Antes, espaço de encontro e de interações entre os habitantes das cidades, progressivamente a rua torna-se local de passagem. Seu espaço não é mais local de concentração de pessoas e organização da vida social. A rua é destinada exclusivamente ao deslocamento. É neste progressivo esvaziamento da rua que se constrói e se consolida o discurso de limpeza e ordenação do espaço urbano – a cidade virou urbe. A rua passou a ser projetada de maneira a facilitar deslocamentos, sem superfícies rugosas, sem possibilidade de aglomerações. A rua é puramente espaço da transitoriedade.

 

A disciplina urbanística, entretanto, pode planejar espaços, mas não as pessoas. A rua continua a congregar a multiplicidade de cidadãos. Se as intervenções urbanísticas tendem ao desejo da dispersão popular (o que, arrisco-me a afirmar, corresponde a interesses de classe das elites no poder), a multiplicidade de pessoas que ocupam a rua tende a imprimi-la com outros sentidos. Diversidade é resistência. Assim, persistem em tomar a rua como espaço do encontro, os vendedores ambulantes, os pregadores religiosos, os artistas populares. As ações destas pessoas tendem às aglomerações, a um uso do espaço da cidade que a funcionalidade do pensamento urbanístico excluía.

 

A despeito disto, em nossos tempos, o pensamento urbanístico justifica políticas públicas que pretendem facilitar o deslocamento de pessoas (com trajetos programados, sempre utilitários, como o de casa para o trabalho, por exemplo) e a circulação de mercadorias. A força deste pensamento nas cidades tende a conflitar com o modo de vida daqueles que procuram ocupar a rua com outra finalidade que não o puro deslocamento. A rua é reafirmada como lugar perigoso, indefinido, violento. A rua não é lugar de criança.

 

Neste contexto, os trabalhos sociais com jovens em situação de rua requerem que se exercite um outro olhar para a urbe. Porque não se trata somente de discutir o que fazer dos meninos que vivem nas ruas. Trata-se de discutir um projeto de cidade. Lugar de criança não é na violência da rua, dizem. Entretanto, a rua pode ser violenta justamente porque não tem criança. O crime não se instala nas ruas onde as crianças brincam, onde os vizinhos se conhecem e sentam no meio fio para jogar conversa fora. Ao contrário, os bandidos escolhem mesmo são as ruas desertas, onde os vizinhos não fazem ideia do que acontece na casa ao lado.

 

A rua é lugar de criança. É também lugar de adultos, de adolescentes, de casais de namorados, de idosos, de toda gente. É preciso transformar a rua: exigir de volta as nossas praças, os bancos para o namoro dos casais, as áreas verdes, as cadeiras nas calçadas. O espaço público, enfim, tomado novamente como público.

 

É evidente que isto não significa que se deva aceitar com passividade que crianças, adolescentes ou quaisquer outros cidadãos estejam abandonados à violência das ruas. Aqui, um entendimento simples: se temos o que ensinar a este jovens, temos também o que com eles aprender – a cidade de volta!

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” apresenta-se, nesta semana, no Espaço Clariô, em Taboão da Serra. As apresentações são financiadas pelo PROAC 2011 – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e, nesta cidade, contam com o apoio do Grupo Clariô e do Hotel 155.

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no Espaço Clariô
Rua Santa Luzia, 96 – Vila Sta. Luzia – Taboão da Serra – SP
dias 23 e 24 de março, às 20h 
Informações: (11) 4701.8401 /(11) 9621.6892    
Entrada gratuita    

 

 

23 – Crack se vence com alegria e esperança!

 

Na semana passada, no dia 12 de março, suspendemos brevemente as apresentações de “Agora  e na Hora de Nossa Hora” pelo interior de São Paulo. A pausa tinha fim: apresentar o espetáculo para gestores de unidades socioeducativas do Estado do Rio de Janeiro.

 

Depois, já no dia 13, viajamos para Assis, em São Paulo, onde entre os dias 14 e 16, voltamos à turnê que registra os 18 anos da Chacina da Candelária.

 

Tanto em Assis quanto no Rio de Janeiro, houve bate-papos com os espectadores sobre o processo de criação do trabalho e sobre a infância e juventude em situação de rua.  Em Assis, uma espectadora perguntou, referindo-se à triste e ineficaz ação policial na  região conhecida como Cracolândia, na cidade de São Paulo, como o cidadão comum poderia contribuir para um debate mais produtivo sobre a situação de rua. Outros espectadores demonstraram igual preocupação com o uso de crack entre crianças e adolescentes. 

 

A reposta para inquietações tão maiúsculas, claro, não é simples – ainda que sob um ponto de vista o seja: não se elejam políticos afeitos a tomar a polícia como única política social! Porém, uma resposta, menos direta  e mais conectada com a mina experiência seguiu: com alegria e esperança. Parece piegas, eu sei e o reconheci nas duas cidades. 

 

A primeira impressão de ingenuidade se desfaz quando se relatam casos por mim testemunhados em que meninos de rua deixaram o consumo de substâncias psicoativas e até mesmo retomaram o contato com as suas famílias. Um deles, que no livro “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense” (Editora Hucitec, 2007) nomeio como João, se reinventou jogando malabares com pedras da antiga estação ferroviária de Campinas. Sendo aquela estação o lugar que se procurava para o consumo do crack, logo o adolescente reconheceu que, treinando malabares, poderia evitar o uso da droga. O menino, depois, torna-se monitor-auxiliar da oficina de circo que eu ministrava e os demais participantes do trabalho assim o reconheciam. Se acaso me atraso, ele inicia a condução do treino. Além disto, muda de aparência (sempre banhado!) e começa a tomar conta de um menino mais novo, evitando que o pequeno (e, portanto, ele mesmo!) use drogas. Por fim, surpreendentemente se ausenta e deixa um bilhete: sabe que é importante para a oficina, mas quer ver a família, não quer mais viver na rua. O recado é assinado como “o monitor João” e, junto dele, recebo uma corrente como presente. 

 

Só se vence o crack com alegria e esperança. Aprendi de uma vez por todas! Há conflito, há dor, há perdas, claro que há. Só se ultrapassam estas dificuldades quando se projeta um futuro melhor, para além do presente enfrentamento com as drogas (e consigo mesmo). João não tinha nada – nem mesmo bolinhas para treinar malabares. Mas tinha a si mesmo – o que não é pouca coisa! 

 

Em casa, infelizmente, retornam antigos problemas. O menino, que decidira mudar, decide outra coisa. E volta para as ruas. Nunca soube os reais motivos para a nova decisão: problemas com o padrasto, o Conselho Tutelar que vigia todos os seus passos (não pode dançar no Forró porque é menor de idade; não pode conversar com moradores de rua porque são más influências), dificuldade de adaptação à vida de poucas aventuras na casa. Nunca João mesmo me explicou suas motivações.

 

Uma coisa eu conclui, porém: é difícil que o mundo acompanhe as decisões de mudanças de cada um de nós. Mudar é bom e é difícil: exige empenho, luta. Exige! Não foram poucas as vezes que vi meninos de rua procurando mudar de vida enquanto rígidas estruturas sociais o empurravam de volta – inclusive identificadas por um dos braços armados do Estado: a polícia. A manutenção da ordem (esta palavra é escolhida: ordem!) vence com força e sisudez.    

 

Na apresentação do Rio de Janeiro, no bate-papo com os gestores das unidades socioeducativas estávamos descarados. Acrescentamos a palavra amor ao debate. Assim, a nossa plataforma de futuro: alegria, esperança, amor. Pode parecer piegas. Que o pareça! Havendo felizes transformações, possamos nós dizermos como ao fim da oração cristã: que assim seja! Seja! 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” apresenta-se nos dias 23 e 24 de março, às 20h, no Espaço Clariô, em Taboão da Serra. As sessões são apoiadas pelo Grupo Clariô de Teatro e pelo Hotel 155.    

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no Espaço Clariô
Rua Santa Luzia, 96 – Vila Sta. Luzia – Taboão da Serra – SP
dias 23 e 24 de março, às 20h
Informações: (11) 4701.8401 /(11) 9621.6892    
Entrada gratuita    

 

 

22 – Basquiat

 

 

 

Seguimos o nosso périplo de 18 apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” e 18 postagens neste blog, registrando os 18 anos da Chacina da Candelária. Assim é o projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”, financiado com recursos do PROAC 2011 – Programa de Ação Cultural do estado de São Paulo. Próxima parada: Assis.  

 

Eu não sei explicar o porquê, mas a obra de Jean Michel Basquiat sempre exerceu em mim um profundo efeito: transtorno, perturbação mesmo. Tudo o que posso dizer é que, aos 16 anos, numa exposição em São Paulo, vi muitos de seus quadros. Um deles me tomou a alma – exatamente este que abre a postagem. Um enorme anjo negro! Nunca mais o esqueci. Nunca mais uma obra pictórica teve efeito semelhante em mim – talvez “O Grito”, de Edvard Munch, tenha se aproximado.    

 

Assim, ainda que eu possa escrever que é notável que um jovem que viveu nas ruas tenha sua obra conhecida mundialmente; ainda que eu diga que é incrível que ele tenha contribuindo substancialmente para o reconhecimento do grafite como arte; ainda que eu possa traçar muitos paralelos entre ele e os muitos artistas que conheci na rua – poetas, pintores, músicos; ainda assim, nada vai poder equivaler a perturbação de senti aos 16 anos de idade – provavelmente um dos meus primeiros contatos com aquilo que chamamos de arte.

 

Em muitas circunstâncias, incluindo no processo que levou a “Agora e na Hora de Nossa Hora”, trabalhei a partir de suas imagens, procurando incorporá-las.  A imagem deste anjo, inclusive, por muito tempo, foi a imagem de programas e cartazes do espetáculo. Não escrevia nenhum texto, apenas se imprimia a imagem no material gráfico e – Oxalá queira assim – na experiência do espectador.

 

E, como diz Hamlet, ao fim da peça, diante da força da obra de arte e da vida, que todo o resto seja silêncio. 

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” em Assis
 Dias 14, 15 e 16 de março, às 20h 
Teatro Municipal padre Enzo Ticinelli
Rua Floriano Peixoto, 757
Ingressos gratuitos
Informações: (18) 3322-2613 e 3322-2677 

 

21 – Teatro e pedagogia

 

Estamos na cidade de Garça, no interior de São Paulo. Aqui, realizamos duas apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora”, inseridas no projeto “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!”.  Assim, se registram os 18 anos da Chacina da Candelária em 18 sessões do espetáculo, exposição, bate-papo, workshop e 18 postagens neste blog. O projeto é financiado pelo PROAC 2011 – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.     

 

Apresentar na cidade de Garça era um desejo cultivado desde 2009, quando inciamos contatos com a Secretaria de Cultura deste município que, naquele ano, levou um ônibus de garcenses ao Filo – Festival Internacional de Tetro de Londrina para assistir a “Eldorado”. Muitas foram as tentativas até a nossa chegada aqui.

 

Aproveitando esta pequena-grande vitória, a Secretaria de Cultura de Garça programou atividades paralelas não previstas no projeto PROAC: a realização das oficinas “Elaboração de Projetos Culturais”, ministrada pela produtora Daniele Sampaio, no dia 08 de março, e “Dramaturgia do Corpo”, ministrada por mim entre 09 e 10 de março. As inscrições, gratuitas, estão encerradas.

 

Toda a minha formação em teatro foi permeada por atividades docentes. Comecei a estudar teatro formalmente, em 1998, aos dezessete anos, na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Aos 18, nem mesmo sabendo o que é o teatro, já dava aulas desta linguagem. Assim, em muitas circunstâncias atuei como docente: para crianças e adolescentes, terceira idade, lideres do orçamento participativo de Campinas, população de rua adulta, meninos e meninas em situação de rua, adolescentes privados de liberdade na Febem, no ensino fundamental, como professor de Educação Artística da rede estadual de ensino paulista, em curso profissionalizante de teatro, em universidade pública, em curso particular do ensino superior, em cursos livres e workshops.

 

Desta maneira, sempre o meu aprendizado da linguagem esteve fortemente atrelado às minhas atividades docentes. Dando aulas, aprendi sobre teatro. Não só. Aprendi também sobre docência. Porque, não tendo domínio da linguagem que ensinava (e este domínio provavelmente eu continuo não tendo), só poderia compartilhar experiências. Assim, reduziam-se os espaços do aconselhamento para se ampliarem os espaços de jogo. O aprendizado do teatro e no teatro se dá fundamentalmente pela experiência da criação.  

 

Entendi, assim, que todo o processo criativo inclui aprendizado pedagógico: sabedoria que se absorve na caminhada. E um bom processo de teatro gera aprendizado em direções muitas e envolvendo muitas pessoas – o que obviamente não significa que o aprendizado é o mesmo para todos. Em diálogo com  a Profa. Dra. Maria Thais, da ECA/USP, aprendi a origem da palavra pedagogo: do grego paidagogos, que sintetiza duas outras palavras – paidós (criança) e agogos (condutor). Assim, pedagogo seria aquele que conduz um outro ao ensino, sabedoria. Ou seja, a pedagogia parece estar mais afeita a tornar o aprendizado possível que ensinar propriamente.          

 

Por fim, ao estudar o trabalho de grandes nomes do teatro, reconheci que grandes pesquisas de linguagem estavam frequentemente associadas às atividades pedagógicas. Assim são os trabalhos de Stanislavski, Meyerhold, Grotowski, Copeau, Lecoq etc. Isto sem falar nos brasileiros, como o notável trabalho de Antunes Filho.  Ensinar, mesmo para o pedagogo, parece, enfim, fortemente articulada à descoberta.  

 

Workshop Dramaturgia do Corpo em Garça
Realização da Secretaria de Cultura de Garça
Dias 09 de março, das 18h30 às 22h30, e 10 de março, das 9h às 13h
Escola Municipal de Cultura Artística
Rua 27 de dezembro-10   -Vila Williams 

 

20 – A rua em exposição

 

As 18 apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no interior de São Paulo registram, tal qual as 18 sessões já realizadas em temporada paulistana, os 18 anos da Chacina da Candelária. Acompanham esta circulação, atividades paralelas diversas: workshop, bate-papo, postagens neste blog, exposição.

 

O processo de criação de “Agora e na Hora de Nossa Hora” incluiu a interação com meninos de rua em um projeto social, em Campinas, a inspiração no conto “Macário”, do mexicano Juan Rulfo, o estudo sobre a Chacina da Candelária – quando, no Rio de Janeiro, oito meninos de rua foram assassinados por policiais. Quando eu inciei as apresentações do espetáculo, eu julgava que a obra deveria sintetizar todas as forças e motivações que a geraram. Assim, eu não quis apresentar o trabalho em um programa. 

 

Porém, a partir das interações com o espectador, revi esta minha escolha. Eram frequentes as perguntas sobre o processo de criação – especialmente sobre a minha interação com os meninos de rua e sobre a Chacina da Candelária. Aí, entendi que o espetáculo é apenas a ponta de um icebergue, porta de entrada para outros entendimentos: uma relação diversa com os problemas sociais do Brasil, com a cidade em que vivemos, com os seus cidadãos. A arte como mediadora de mundos – aquele em que vivemos e aqueles que ainda podem ser sonhados.  Entendi, neste momento, que o espetáculo de teatro era tão importante quanto o processo que o gerou. Ao se revelar aquilo que veio antes, a cena evidencia com maior intensidade a força de vida daqueles que a motivaram: crianças e adolescentes em situação de rua.   

 

A partir deste momento, seguiram-se tentativas muitas de proporcionar uma certa imersão do espectador na situação de rua. Escrevi um livro, “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense”, publicado pela Editora Hucitec, em 2007. Criei programas para a peça, incluindo minha interação com os meninos de rua já na sua sinopse – os fatos da realidade ordinária como fundamento de efabulação da realidade extraordinária do teatro.  Tanto quanto me foi possível, realizei conversas com os espectadores, após as apresentações. Por fim, projetei uma exposição.

 

Em princípio, sem verba alguma, eu mesmo criei com fotos e trechos de diários de trabalho uma pequena amostragem do processo. O resultado tinha muita boa vontade, mas nenhuma elegância – tudo próximo aos trabalhos que realizei na pré-escola, ainda criança.  

 

Agora, contemplados com recursos do PROAC 2011  – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, foi possível realizar um trabalho mais acurado. O trabalho foi realizado pelo Lu Orvat Design – que já cuida da visualidade de nossos trabalhos em site, cartazes, programas etc.  

 

Este “expográfico” procura apresentar, em forma e conteúdo, o processo de criação do espetáculo. Primeiro, toma como fundamento a apresentação do relato das vivências: como um diário de trabalho em 3D, a exposição apresenta trechos do livro escrito por mim, passagens de narrativas e relatos de outros autores que escreveram sobre a população de rua, falas de meninos de rua, comentários de espectadores. Não há imagens pictóricas. Através da palavra, a exposição sugere que o espectador crie as suas próprias imagens.

 

Depois, a exposição usa como suporte aproximadamente 33 peças quadradas de papelão, todas iguais. Assim, procura-se, aqui, o mesmo princípio de montagem que inspirou a criação do espetáculo: peças autônomas, sem hierarquia entre elas e sem a necessidade de uma linha clara de causalidade entre si, apresentam um panorama da rua. O espectador é responsável por interagir com a obra, fazendo associações e ilações.

 

Assim, temos:
– Cada uma das peças, representações de temas constituintes do tema geral: a vida das ruas;
– A exposição tomando diferentes aspectos do objeto representado, em diferentes perspectivas – tal qual o princípio cubista, tomando o mesmo objeto de cima, de baixo etc.   
– O espectador, pela sua experiência de fruição, articula os conteúdos todos, criando, ele mesmo, a sua própria representação do tema. 

 

A exposição estará apresentada em todas as sete cidades em que “Agora e na Hora de Nossa Hora” for apresentada nesta circulação do PROAC. Neste final de semana, as últimas apresentações do espetáculo na Escola Livre de Teatro de Santo André – ELT.   

 

 

 

 

 “Agora e na Hora de Nossa Hora” em Santo André
Praça Rui Barbosa, s/n
26 e 27 de fevereiro e 03 e 04 de março de 2012, às 20h30
Ingressos gratuitos
Telefone: 11 4996.2164