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Tradição e Modernidade: tecnologia e artesanato na criação de “Eldorado”



Este texto é motivado pelo lançamento do layout de nosso novo site e reflete sobre o uso de tecnologias da informação e algumas possíveis influências sobre as Artes Cênicas. Assim, como a postagem anterior, adapta trechos de meu trabalho de doutoramento em Artes Cênicas na UNICAMP. Para acessar a tese na íntegra, clique aqui.

 

A experiência de uso da tecnologia da informação a serviço de relações de troca humanas, sendo estas, diga-se o fundamento da linguagem teatral, eu já havia experimentado antes da publicação deste novo site. No início de minhas pesquisas, quando a equipe do trabalho era pequena e eu mesmo organizava as atividades de produção, uma das minhas primeiras tarefas foi a criação do meu próprio site:<www.eduardookamoto.com>. Eu, que não tenho nenhuma formação em tecnologia (excetuando-se a genética nipônica que, brincam os amigos, me empurra com facilidade para esta área), pude sozinho, com a ajuda do tópico “Ajuda” do próprio software de produção de sites, produzir meu próprio território virtual. A partir deste sítio, acabei por agendar apresentações internacionais (Espanha, Suíça, Marrocos, Kosovo) e estabeleci muitos contatos inesperados. O site que trata de um trabalho brasileiro, que por muito tempo apresentou como único espetáculo um trabalho sobre meninos de rua, chegou a registrar acessos até mesmo na China, no outro lado do mundo.

 

O dramaturgo Santiago Serrano, de “Eldorado”, igualmente se surpreende com a divulgação de sua obra pela web. Sua página, também criada por ele mesmo, contabiliza mais de 80.000 acessos do mundo todo. Isto possibilitou que textos seus fossem montados em lugares distantes da sua residência: EUA, México, Espanha, França, Bulgária, Brasil etc.

 

Diga-se que o processo de criação do espetáculo “Eldorado” valeu-se amplamente da comunicação virtual. Inicialmente, as primeiras fotografias e vídeos de rabequeiros – os artistas populares que inspiraram o trabalho – foram retiradas da Internet. Conheci muitos rabequeiros que efetivamente eu nunca encontrei.

 

Não obstante a possibilidade das viagens inventadas, dos encontros intuídos, das realidades sonhadas, a Internet possibilitou também os encontros de vida a vida, quando, em Iguape e Cananéia, conheci rabequeiros e construtores de rabeca pessoalmente. A pesquisa de campo só foi possível porque consultei, antes mesmo de partir de Campinas, onde moro, o site do Museu Vivo do Fandango. A web revelava-me um circuito de visitação por casas de artistas populares e salões fandangueiros. Isto garantiu sucesso nos encontros com estes artistas numa viagem com recursos próprios – e, portanto, necessariamente rápida, já que eu não poderia me afastar por muito tempo de outros ambientes de trabalho e mesmo não poderia custear uma longa estada naquelas cidades.

 

Vale dizer que, durante a própria pesquisa de campo surpreendi-me com o uso de tecnologia pelos próprios artistas da tradição popular. Não me refiro somente às técnicas que cada um usa para criar a sua própria arte (o conhecimento que cada um gera para tocar ou construir um instrumento da sua própria maneira). Refiro-me também ao uso de expedientes da pós-modernidade.

 

O Seu Benedito Nunes, de Iguape, por exemplo, mostrava-me orgulhoso que a sua rabeca trazia já embutido “um chip” (referia-se a um captador), que permitia uma conexão rápida com mesa e amplificador de som. Além disto, hoje, a busca por vídeos no portal YouTube apresenta uma grande quantidade de rabequeiros e manifestações populares em que a rabeca se insere. Há, inclusive, mestres rabequistas que têm sua própria área no portal MySpace, que prima pelo compartilhamento de trabalhos artísticos, sobretudo de música.

 

A tradição é pós-moderna: antecipou importantes referenciais da produção erudita da cultura (é o caso, por exemplo, de uma das marcas do atuante contemporâneo, cujo trabalho se pauta pela não especialização entre atores, bailarinos e cantores) e não abre mão da tecnologia para criar ondas cada vez maiores e mais intensas de relação humana.

 

Por fim, pela navegação na rede, ainda pude chegar a Buenos Aires, cidade que eu não conheço pessoalmente e estabelecer uma parceria com o dramaturgo argentino. Se eu me deixei levar pelas muitas fabulações possíveis, finalmente, eu convidava alguém que morava longe de minha casa a viajar comigo. Desta maneira, eu não só me permitia atravessar pelas realidades vividas ou inventadas, mas procurava também atravessar um outro, que também fabulava suas próprias jornadas. “Eldorado”, aprendi, é encontro que se vale de recursos diversos para acontecer.


Plataforma para a Liberdade


Este texto é motivado pelo lançamento do layout de nosso novo site e reflete sobre o uso de tecnologias da informação e algumas possíveis influências sobre as Artes Cênicas. Esta postagem, assim como a próxima, adapta trechos de meu trabalho de doutoramento em Artes Cênicas na UNICAMP. Para acessar a tese na íntegra, clique aqui.


Nossas atividades, no teatro, estão além do espetáculo. Incluem pesquisa de linguagem, suas implicações sociais e estéticas, atividades pedagógicas, tentativas múltiplas de teorização das pesquisas na forma de trabalhos acadêmicos, artigos, livro. Ainda que o espetáculo seja o norte do trabalho, sabemos que não se dá menor importância às muitas outras atividades que a ele estão ligadas e até mesmo o fundamentam.

 

Motivado pelo lançamento do nosso novo site – o “nosso”, aqui, não é mera formalidade, mas procura estender os méritos do trabalho à equipe que o desenvolve: diretores, dramaturgos, cenógrafos e figurinistas dos espetáculos, técnicos e produtores, assessores de imprensa etc. – voltei a algumas reflexões que já vinha tecendo sobre a importância da comunicação virtual, via Internet, para o desenvolvimento das nossas pesquisas em Artes Cênicas.

 

Para o geógrafo Milton Santos, a democratização do acesso às ferramentas de comunicação em massa possibilitará profundas transformações sociais. Para ele, a história do homem “vai de par com a história das técnicas”. Ao surgirem novas técnicas as outras não desaparecem: enquanto os atores hegemônicos utilizam o conjunto de técnicas mais atuais, os não hegemônicos continuam usando técnicas menos atuais e poderosas. Vivemos num tempo, no entanto, em que, pela primeira vez na história da humanidade, um conjunto de técnicas, a tecnologia sintetizada no computador, se faz sentir de maneira generalizada no mundo e, assim, o uso das tecnologias propiciará uma organização social mais justa e menos desigual. A técnica, enfim, nos lembra o geógrafo brasileiro, poderá retomar seu sentido de plataforma da liberdade e não mais ser tomada como instrumento de dominação.

 

Milton Santos lembra ainda que a grande parte da produção de mídia do mundo é detida por apenas poucas agências internacionais da informação – 90% da mídia é produzida por apenas 6 empresas! Isto explica o porquê jornais diferentes em diferentes partes do planeta reproduzem imagens, matérias, pontos de vista. As mídias da informação efetivamente realizam uma intermediação entre as pessoas e o mundo; não vivemos o mundo, mas o vemos como nos fazem ver.

 

Assim, quando as ferramentas de comunicação se tornam acessíveis ao cidadão comum, abre-se espaço para a multiplicidade de pontos de vista. Não só: abre uma possibilidade de comunicação entre pessoas. A informação não mais como intermediação, mas como potencial de relação humanista.

 

Para o lançamento deste novo site, escolhemos a plataforma WordPress – para saber mais:<http://br.wordpress.org> . Seu fundamento é justamente o uso gratuito e livre colaboração, tendo código aberto para modificações. Seu uso é tão simplificado que eu mesmo, estudando esta ferramenta a partir de mecanismos de busca da Internet, desenvolvi um site/blog para a “Mostra 10 Anos por uma Escrita do Corpo”.

 

Desejando cuidar um pouco mais do acabamento estético do site – afinal, o cuidado estético é o nosso trabalho – desenvolvemos este novo layout em parceria com o Luorvat Design. O estúdio de São Paulo, com larga experiência em arquitetura da informação, responsabilizou-se pelo registro fotográfico de ensaios e treinamentos, assim como pela a criação de um layout exclusivo.

 

O site contém informações diversas sobre os espetáculos e estudos desenvolvidos até aqui, permitindo que o seu espectador estenda sua experiência para os seus processos geradores. O blog permitirá a publicação não somente dos resultados finais das pesquisas, formalizadas em espetáculos, cursos e textos, mas também a maneira mesmo como vem sendo desenvolvida até aqui. Há textos disponibilizados para download gratuito, para uso não comercial – com o pedido de que gentilmente se cite a fonte de origem. Por fim, o site deverá servir ainda como uma espécie de “central de produção”, organizando e tornando acessíveis as informações necessárias para a realização de apresentações: condições técnicas, reelases e fotos de divulgação etc.

 

Assim, esperamos deste novo site não só a divulgação dos trabalhos, mas, sobretudo, um espaço para a projeção de novos encontros.