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Calor e Saudade de Natal

A mostra “10 ANOS POR UMA ESCRITA DO CORPO” propõe uma espécie de síntese de estudos desenvolvidos pela sua equipe ao longo dos últimos 10 anos. Como um “inventário itinerante”, apresentamos em 05 cidades de 05 diferentes regiões do Brasil: Natal, Belém, Goiânia, Belo Horizonte e Porto Alegre. Estamos, agora, em Belo Horizonte, onde as duas últimas apresentações do espetáculo “Eldorado” encerram os trabalhos na cidade.

 

Tive, ao longo do tempo de apresentação nas quatro cidades por onde passou o projeto, pouco tempo de escrever textos que partilhassem as minhas impressões do trabalho e da realidade cultural das cidades. Estando envolvido em quase todas as atividades – dois solos, oficina, demonstração etc. – acabei confiando aos atores do Teatro Camaleão o registro das andanças.

 

Aqui, no entanto, procuro deixar, ainda que com umas semanas de atraso, as minhas reflexões a respeito de nosso desenvolvimento e das pessoas que conhecemos ao longo de nosso trajeto. Assim, pretendo publicar 04 textos, cada um dedicado a uma cidade que já nos recebeu.

 

Natal foi a primeira cidade a ser visitada. Entre os dias 20 a 26 de maio, realizamos, conforme havia sido projetado: duas apresentações dos espetáculos “Agora e na Hora de Nossa Hora”, “Eldorado” e “Uma Estória Abensonhada”; uma oficina; uma demonstração de processo de trabalho; um lançamento de livro. Enquanto as apresentações de espetáculo e lançamento de livro  aconteceram na Casa da Ribeira, as atividades formativas aconteceram na sede de um importante grupo de teatro:  o Barracão dos Clowns de Shakespeare.

 

Natal é uma localidade quente! E o calor do clima parece contagiar as pessoas que lá vivem. Fomos recebidos de maneira muitíssimo amorosa. Antes de tudo, a parceria com a  Casa da Ribeira e os produtores Henrique Fontes e Cris Simon garantiu uma excelente estrutura para nos receber: bons restaurantes e hotel; teatro bem localizado e muito aconchegante; excelente trabalho de divulgação, com destaque para a assessoria de imprensa feita pelo Luciano Dantas. Depois, os grupos de teatro da cidade, como o “Atores à Deriva” nos acolheram ainda mais, apoiando-nos em todas as atividades – chegamos, inclusive, a ensaiar na sua nova sede. Os Clowns de Shakespeare igualmente não hesitaram em abrir suas portas para receber parte de nossa programação. Por fim, mesmo em meio ao muito trabalho que envolve uma mostra como esta, a bela cidade de Natal nos possibilitou encantadores passeios, com praias, paisagens, refeições – foi inesquecível a visita à vizinha comunidade de Pipa!

 

Com uma recepção tão quente, a cidade possibilitou intensa troca com os artistas locais – gente boa e talentosa que deixou saudades!

 

Nenhum dos integrantes da equipe já havia estado em Natal. Assim, esta foi a primeira vez que realizamos trabalhos naquela cidade. Impressionou, por isso, o envolvimento dos artistas locais com a programação, sobretudo nas atividades de formação: oficina e demonstração.  Mesmo de longe, já sabíamos que Natal tem uma intensa atividade cultural, especialmente teatral: a fama da Casa da Ribeira, por exemplo, já se espalha como um importante espaço de referência da produção nacional, sobretudo nordestina, e outros grupos, como os Clowns de Shakespeare,  já conseguiram fazer seus bonitos trabalhos ultrapassarem as fronteiras da cidade e do estado. Conhecendo de perto esta realidade, ficamos surpresos com o abundante potencial de troca artística. Realmente eu não esperava a grande quantidade de pessoas interessadas em participar da oficina, com aumento do número de vagas e, ainda assim, estabelecendo uma considerável lista de espera. E, na realização dos trabalhos práticos, aqueles atores demonstraram ânsia em estudar – o que se revelava numa grande quantidade de energia física. Foi surpreendente ver artistas com trabalhos já em desenvolvimento sobre temas correlatos às nossas pesquisas – como as relações entre corpo e cena – muito abertos à nossa experiência.

 

Na demonstração de trabalho, envolvimento semelhante pôde ser sentido. Muitas perguntas e apontamentos que podem contribuir para a construção de nossa trajetória.

 

Na apresentação dos espetáculos,  um público talentoso: disposto não somente a assistir a uma peça de teatro, mas disposto a ajudar a construí-la: imaginando; abrindo-se a linguagem do trabalho; comentando.  Sem dúvida nenhuma a continuidade dos trabalhos da Casa da Ribeira, com enfrentamento diário das dificuldades que envolvem esse tipo de empreitada, contribui sobremaneira para a construção disso.

 

Por fim, em Natal, ainda foi a cidade em que reecontrei os atores do Teatro Camaleão, que participam da mostra com “Uma Estória Abensonhada”, e que eu não via desde que, no início de 2009,  me exonerei da Universidade Federal de Santa Maria – cidade onde vivem.  Em Natal, também reecontrei o amigo Robson Haderchpek, colega de classe nos tempos de formação da UNICAMP e, hoje, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

 

Natal, já disse, é uma cidade quente! Com tantos reencontros e novos amigos, a despedida, não poderia deixar de ser, foi marcada por lágrimas. Nem tínhamos partido e já sentíamos saudades. Começo inesquecível de uma circulação cujo objetivo,  tanto quanto apresentar trabalhos já desenvolvidos, é a abertura para os possíveis encontros e provocações.

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