animação

Chuva Celebrada


O espetáculo “Chuva Pasmada” fundamenta-se na obra de Mia Couto. A gênese deste processo criativo, no entanto, não se limita à matéria literária: inclui os festejos de dez anos de trabalhos do ator Eduardo Okamoto e do Grupo Matula Teatro. Chuva é celebração.

 

O espetáculo marca o reencontro de Alice Possani, atriz do Matula, e Eduardo Okamoto, um dos fundador deste grupo e que, a partir de 2005, seguiu carreira solo. Em 2010, ano de estréia deste novo trabalho, ator, atriz e grupo completam dez anos de trajetórias (às vezes em caminhos próximos; outras, autônomos).

 

E se o texto de Mia Couto é escrito de passagens – tratando de amor, crescimento, amadurecimento, morte -, esta “Chuva” é também trânsito para novas experiências. É certo que há de se celebrar os dez anos em que jovens artistas de teatro se dedicam a um projeto artístico de longo prazo, construído no tempo – que sempre nos faz outros. Mas também há de se celebrar os anos vindouros que o tempo precedente aponta. Esta nossa chuva, que nunca esteve pasmada, há também de preparar para o fluir de um rio sempre nascente.

 

Na abertura ao novo, os atores aproximaram-se de outros artistas, como o encenador Marcelo Lazzaratto e o dramaturgo Cássio Pires. Ambos, com linhas de estudo distintas daquelas que marcam as trajetórias de Matula e Okamoto, puderam referenciar a criação com novos procedimentos – como o uso da palavra, matéria pouco explorada em trabalhos anteriores fundados em linguagem corporal. Na reunião das diferenças, realizamos em processo criativo a provocação de Mia Couto: coração sempre começando no peito de outra pessoa.

 

 

Processo de criação

Em “Chuva Pasmada” os atores valeram-se dos procedimentos da mimese corporal, mas apontaram para pontos de pesquisa ainda pouco estudados: as suas relações com um texto dramatúrgico previamente escrito – o conto de Mia Couto e a adaptação de Cássio Pires. Assim, ao mesmo tempo em que coletavam materiais para a criação de personagens, os atores desenvolveram trabalhos de leitura e entendimento de texto. Um dos fundamentos do trabalho reside justamente no equilíbrio entre matéria dramatúrgica e materiais físico-vocais codificados pelos atores.

 

Um dos desafios da interpretação residia numa dificuldade: apenas dois atores deveriam apresentar a grande quantidade de personagens do texto literário. Isto de certa maneira “pressionou” os artistas na consolidação da linguagem do espetáculo, com atores desdobrando-se em narradores e diversos personagens. Aqui, o trabalho de mimese foi fundamental: ampliando o repertório dos atores, oferecendo grande quantidade de materiais à criação.

 

A leitura que a equipe de criação imprimiu ao conto moçambicano trouxe outra dificuldade: interessava não a leitura típica das relações étnicas (sociais, históricas, mítico-religiosas etc) dos povos africanos, mas a leitura arquetípica das relações humanas. Assim, mais que identificar cada ator a um personagem, interessava identificar cada atuante a todos os personagens: a potência humana de assumir diversos papéis: Homem, Mulher, Velho, Menino . Isso levou a nova provocação para os atores. Cada personagem seria representado por mais de um ator, sem a utilização de referencias de cenografia e figurinos. A equipe de criação se perguntava: como, somente com seus corpos, as personagens poderão “viver” em diferentes atores? Como fazer o público reconhecer um mesmo personagem ainda que existam diferenças entre os corpos de um ator e de uma atriz? Aqui, o desafio foi mantendo as características de cada ator aproximar “eixos” de personagens.

 

“Chuva Pasmada” é fundado no trabalho do intérprete, com poucos recursos cenográficos e de figurinos. Num processo inaugurado em confronto de matéria literária com “material de ator”, o espetáculo acaba por sintetizar-se na idéia da palavra tornada corpo: com imagens literárias alimentando a criação de matrizes físicas; com matrizes vocais imprimindo novos sentidos às palavras; com o discurso verbal provocando novas sensações ao discurso não-verbal.

“Chuva Pasmada” no Olho do Furacão



Transcrevemos, abaixo, a crítica de Kil Abreu para o espetáculo “Chuva Pasmada”, apresentado no Fentepp 2010.


 

Nesta versão teatral do conto de Mia Couto, defendida por Alice Possani e Eduardo Okamoto, sobressai uma vez mais algo recorrente na cena brasileira dos últimos anos: a visita ao tema da cultura comunitária, temporalmente recuada e que deixa ver um tipo de sociabilidade em que a vida surge ainda nas bases de um compartilhamento possível, de aspirações coletivas quanto aos sentidos da existência. É esta perspectiva que dimensiona o caráter filosófico que a montagem tem. O dado de dramaticidade está no ruído que, inesperado, aparece para perturbar a ordem deste mundo visível na sua totalidade de valores. É a fenda aberta naquela realidade pacífica o que gera o interesse teatral.

 

No Brasil o gosto por estas dramaturgias pode ser visto em projetos artísticos como o do grupo Lume (Café com queijo é exemplar) e a linhagem de pesquisas orientadas pela antropologia teatral. Mas está também em autores cujos propósitos e estéticas são bem diversos, como Newton Moreno (pensemos em Agreste e Assombrações do Recife velho) e Luis Alberto de Abreu (Maria peregrina, Borandá e outras). Além destes, que mantêm trabalhos de excelência, há um sem número de artistas e grupos tateando campos parecidos. De todo modo há a disposição para formalizar um imaginário social que ganha maior sentido e utilidade não apenas pelo que representa de recuo nostálgico a modos de convivência hoje praticamente perdidos, mas porque estes modos contrastam violentamente com a nossa própria maneira de viver no presente.

 

A começar pelo que talvez pudesse ser o ponto de chegada deste argumento, podemos dizer então que Chuva Pasmada é um espetáculo bonito e útil porque, como nos bons exemplos desta linhagem, deixa claro, ainda que nas entrelinhas, o contraste daquele mundo com as relações atuais, em tudo fragmentadas e cada vez mais distantes da possibilidade de visualização como totalidade. De dentro da sua expectativa fabular a narrativa nos alerta para uma solidão que se anuncia terrível e, pior, paradoxal, porque se dá no olho do furacão de uma dinâmica social, a nossa, em que se proclamam justo os ganhos da interação instantânea que, no entanto, são sempre parciais e altamente mediados.

 

Tendo como tarefa dar concretude ao narrado a dupla de atores, sob a orientação de Marcelo Lazzaratto, transita com grande interesse pelas dobras da história. Tem a seu favor a dramaturgia de Cassio Pires, que faz pacto de convivência com o que é fundamental no conto, aquilo que se convencionou chamar “relato simples”, um gênero de épica das origens que mantém assento na oralidade tradicional, ainda que aqui ela apareça revestida com o acabamento de uma voz literária particular.

 

Em um dedicado trabalho de investigação das imagens que o texto oferece, Alice e Okamoto usam sofisticado repertório atoral, com apoio na gestualidade que, referente aos personagens e situações, não quer mimetizá-los à risca, preferindo a estilização. É um caminho que deixa como ganho o desenho necessário das ações e os espaços livres para uma atuação dinâmica que envolve o relato e a mímesis a um só tempo. São performances sustentadas e empáticas que, entretanto, ainda deixam em suspenso (para usar uma imagem do conto) algo importante. Há grande eficácia na composição das personagens, na chave escolhida. Isto garante uma parte do efeito e do interesse que temos no acompanhamento da narrativa. Mas, salvo engano, ainda será preciso dedicar a mesma atenção quanto ao desenrolar mais exterior das ações. A sintonia fina que é possível ver na construção dos papéis ainda carece de investimento na área da narração. É que o conto, por simples que pareça, tem uma estrutura com muitas dobras, que incluem informações e sentidos. Não temos, por hora, a clareza necessária sobre estas informações, o que por fim acaba prejudicando a apropriação dos sentidos.

 

É claro que com isto não se diz que o espetáculo deva levar o espectador tendenciosamente a um sentido, o que seria traição à abertura poética que a dramaturgia preserva. Entretanto, trata-se de uma narrativa exemplar que tem, sim, um campo de possibilidades de leitura circunscrito ou ao menos esperado. Esclarecer melhor o andamento das ações, as relações de causa e consequência não no aspecto dos seus efeitos, mas do que há nelas de mais objetivo, qual seja, as suas circunstâncias, certamente vai favorecer muito a leitura final que, assim, poderemos fazer com as nossas chaves próprias. Isto seria tão importante quanto o estado, a atmosfera cênica que já estão bem instalados no espetáculo (e, neste capítulo, com a colaboração fundamental da trilha pensada por Michael Galasso).

 

É uma difícil e por isso bela tarefa artística. Mas tem como operadores um time de muita qualidade, pela importância mesmo dos seus respectivos trabalhos e, sobretudo, pelo nível de inquietação que podemos ver neles. Então o reclamo por uma apropriação mais efetiva da platéia na relação com a montagem talvez ainda interesse. Por comum, esta seria também uma forma de articular, nesta idéia de um compartilhamento mais generoso, uma resposta possível àquela dor da época que – supomos – Mia Couto intui com razão, mesmo que a represente subliminarmente.

Fonte: Kil Abreu / Foto: Fernando Martinez


Estréia “Chuva Pasmada” no Sesc Pompéia


Hoje às 21h, no Novo espaço Cênico do SESC Pompéia,  estreia a temporada do espetáculo Chuva Pasmada! Espetáculo em parceria com o Grupo Matula Teatro.

 

 

De 22/10 (hoje) à 14/11 (com exceção do dia 31/10)

Sextas e Sábados às 21h; Domingos às 19h.
Ingressos de R$ 3,00 a R$ 12,00
SESC Pompéia: Rua Clélia, 93 – São Paulo-SP

Porto Alegre: o teatro e a comunidade

Em Porto Alegre, a mostra “10 Anos por uma Escrita do Corpo” foi realizada como parte da programação do Festival Jogos de Aprendizado, organizado pela Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, de 06 a 11 de julho de 2010.

 

As primeiras apresentações do espetáculo “Agora e na Hora de Nossa Hora”, realizadas na Terreira da Tribo, sede do Ói Nóis, já materializaram a principal característica de nossas apresentações em Porto Alegre: a interação da cena com a comunidade.

 

A Terreira tem como tradição os fortes laços de interação entre o seu espaço e a comunidade que o circunda. Esta é, como já se sabe, uma das especificidades do trabalho do Ói Nóis Aqui Traveiz: a profunda correlação entre política e a criação estética. No Festival Jogos de Aprendizagem, isso se evidenciou mais: primeiro porque boa parte da programação do festival foi constituída por espetáculos realizados por alunos de oficinas oferecidas pelo grupo; depois, porque todos os espetáculos tiveram enorme afluência de espectadores (“Uma Estória Abenssonhada” teve duas sessões com mais de 400 espectadores por apresentação; “Agora e na Hora…” teve média de 120 e “Eldorado” média de 200 espectadores por sessão ), com grande participação de alunos da rede pública de ensino, levados às salas de espetáculo por ônibus da prefeitura.

 

Vale ressaltar que a grande parte dos alunos da rede pública que compareceram às apresentações assistiam a um espetáculo de teatro pela primeira vez. Isso, em si, diga-se constitui atitude politica por meio de uma ação artística: incluir os excluídos em ambientes que não têm o hábito de frequentar; permiti-los conviver com outros atores sociais da cidade; tornar acessíveis os bens simbólicos produzidos socialmente a uma parcela ada população que, normalmente, não têm acesso a isso.

 

A inquietação, no entanto, ainda permanece: isso basta? Foi contrastante a diferença de experiências daqueles que foram levados por ônibus da prefeitura diretamente das salas de aula da escola com aqueles que frequentam as oficinas do Ói Nóis. Não nos referimos a qualidade de fruição da obra – coisa, diga-se, imensurável. Referimo-nos propriamente à capacidade de estender a experiência daquele dia para a vida cotidiana, como hábito. Ou seja, não temos dúvida de que tão importante quanto facilitar um primeiro acesso às obras de arte é criar autonomia no espectador para que ele, por conta própria, torne-se capaz de escolher quando, o que e como quer assistir uma obra teatral. Neste sentido, acreditamos profundamente que a formação de público necessariamente deve extrapolar o espaço da apresentação e desenvolver-se em atividades muitas, como acontece com os alunos-oficinandos do Ói Nóis Aqui Traveiz.

 

O Festival Jogos de Aprendizagem, enfim, constitui um espaço espacial de trocas de experiências e apresentação de bons trabalhos, com convivência entre espetáculos de iniciantes, artistas parceiros (como nós que realizávamos a nossa mostra), grupos convidados de diferentes partes do país, críticos. Ao mesmo tempo, cada um apresentando a sua própria experiência e todos abertos a vivência do outro.


Belo Horizonte: o teatro e a cidade

As atividades da mostra “10 Anos por uma Escrita do Corpo”, em Belo Horizonte, foram realizadas no Galpão Cine Horto, Centro Cultural gerido pelo Grupo Galpão, entre os dias 28 de junho e 04 de julho de 2010.


Belo Horizonte é uma grande cidade e, assim, a realização da mostra foi permeada pelas relações entre o teatro e o espaço urbano: exigindo diferenciadas estratégias de divulgação; envolvendo maior planejamento nos custos de realização do projeto; envolvendo maior exposição de mídia; possibilitando trocas com grupos e artistas cujo trabalho tem grande repercussão em níveis regional e nacional – como o próprio Galpão, que nos recebeu.


Antes mesmo de chegarmos à cidade, recebemos muitos telefonemas de jornalistas interessados em noticiar a estada de nossa equipe em Belo Horizonte. A antecipação de nossa chegada pela mídia, não só facilitou a divulgação da mostra em uma cidade com imensas dimensões territoriais e populacionais, mas também nos preparou para as relações entre a cena e o espaço urbano que caracterizariam as apresentações em Minas Gerais e, mais tarde, em Porto Alegre.


Foi curioso, ao longo de nossa jornada, perceber diferenças de recepção do espetáculo a partir dos diferentes contextos culturais nos quais foram apresentados. Nas regiões Norte e Nordeste, por exemplo, o espetáculo “Eldorado” – que tem como protagonista um cego rabeca, instrumento musical muito presente e manifestações culturais destas localidades – teve recepção mais calorosa que “Agora e na Hora de Nossa Hora”, que trata da situação de rua entre crianças e adolescentes em grande cidades. Por outro lado, em Belo Horizonte, cidade que efetivamente convive largamente com os meninos de rua, recebeu com mais entusiasmo justamente o espetáculo que os retrata.


Neste sentido, a cena de “Agora e na Hora de Nossa Hora” extrapolou o palco do Galpão Cine Horto e , nas ruas da cidades se completava: no contato com a população de rua; no debate sobre os processos de exclusão social etc. Aliás, diga-se, esta dinâmica de interações entre ações artísticas e ações políticas já estavam explicitas no envio de cartão de boas vindas à equipe da mostra assinado pessoalmente pelo prefeito de Belo Horizonte.


Também as atividades formativas puderam ser permeadas pelas relações entre a cena e a urbe. Isso porque boa parte de seus participantes eram atores experientes, muitos com formação universitária em Artes Cênicas, e com amplas referências (com só numa cidade cosmopolita se vê) . Assim, se, antes, os espetáculos foram assistidos por espectadores cujo trabalho tem tido grande repercussão na cena nacional, agora, na oficina, o trabalho pôde ser amplamente experienciado em suas metodologias geradoras e debatido em suas potências e elementos ainda a serem desenvolvidos.


Impressionou também à equipe de realização do projeto as instalações do Galpão Cine Horto, com salas de exposições, apresentações de espetáculo, ensaios, cinema, escritórios de administração e publicações e festivais próprios (como a revista Subtexto e o Festival de Cenas Curtas). Soma-se a isso a exposição, apresentada no momento de nossa estada em Belo Horizonte, em homenagem à Wanda Fernandes, fundadora do Galpão: foi bonito e inspirador aos jovens artistas da mostra “10 Anos por uma Escrita do Corpo” conhecer mais fundamente a história de um dos principais grupos de teatro do Brasil – sua formação, desenvolvimento de poética própria e estruturação administrativa de suas atividades.


Como já acontecera antes, em outras cidades contempladas pela nossa circulação, recebemos e doamos publicações (livros e DVDs) e reconhecemos: aquilo que, hoje, apresenta-se como fundamentos de nosso trabalho (pesquisa de linguagem, pedagogia, reflexão e registro de processos criativos) foi, anos antes, semeados por artistas como os do Grupo Galpão em seus 30 anos de história.


Belo Horizonte é uma cidade grande. E grandiosas foram também as oportunidades de aprendizado e trocas em nossa estada na capital mineira.

Encontro e Reencontros em Goiânia


Em Goiânia, a Mostra 10 ANOS POR UMA ESCRITA DO CORPO foi realizada em parceria com o V ENCONTRO DE ATORES-CRIADORES. Como sugere o nome do evento anual organizado pelo Teatro Ritual, a programação reúne artistas da cena, apresentando e dialogando seus trabalhos.

 

Como não poderia deixar de ser, a força de nossa programação na cidade esteve nos encontros. Antes de tudo, com o público: as apresentações foram quentes, com casa cheia. “Agora e na Hora de Nossa Hora”, que já havia se apresentado naquela cidade, teve espectadores que o reviram nesta nova oportunidade. Também houve relato de muitas pessoas que nos escreveram, depois, dizendo-se surpresos com o trabalho que acabaram de conhecer. “Eldorado” fez suas primeiras apresentações em Goiânia – igualmente com recepção calorosa. Houve ainda, além da sessão regular aberta a o público, uma apresentação especial de “Uma Estória Abensonhada” para alunos da rede pública estadual, com direito a sessão de autógrafos e fotos dos atores. A oficina realizada na Universidade Federal de Goiás contou com a presença de alunos e também de professores do curso de teatro.

 

Os encontros, no entanto, não pararam por aí. Pude rever grandes amigos, hoje trabalhando na região Centro-oeste do Brasil, sobretudo na Universidade: os amigos dos tempos de graduação na UNICAMP Kleber Damaso e Renata Lima; a professora Natássia Garcia; o grande Newton de Souza. As apresentações dos trabalhos, aqui, foram especiais. Porque, na platéia, contamos com a presença de pesquisadores que, além de pensarem continuamente a cena, acompanham meus processos de formação, de estudo e, alguns deles, até mesmo de vida.

 

Neste sentido, registro a especialíssima partilha de caminhos com o professor-mestre Newton de Souza. A atribuição de maestria a ele não é gratuita. Meu aprendizado com ele, aliás, ultrapassa em muito a titulação de Mestre que a academia lhe atribui. Para mim, Newton é mestre no sentido mais tradicional do termo: aquele que, através do oficio do teatro, contribui para que outros artistas menos experientes possam se lançar na direção de si mesmos. Considero que foi ao seu lado que me iniciei na linguagem teatral: primeiro diretor-professor, no Grupo Atrás do Grito de Teatro  – o nome do grupo como referência aos ensaios na região do Ipiranga, onde Dom Pedro II deu o famoso grito de independência do Brasil. Como um Projeto de Extensão da Universidade Paulista, o grupo reunia em seu elenco a comunidade acadêmica e comunidade externa a ela. Ali, eu fundei as bases que, ainda hoje, alicerçam o meu trabalho: o desenvolvimento de estudos teatrais amparados em Universidades Públicas; com amplo diálogo entre os trabalhos acadêmicos e o contexto em que se inserem através de projetos de Extensão Universitária; a certeza de que a dimensão técnica e estética da linguagem artística carrega em si uma outra, sócio-política; a insuperável conexão arte-vida. Reencontrar o mestre Newton (e são muitos que com ele se iniciaram no teatro e o tem neste grau de respeito) foi um grande presente.

 

É preciso reconhecer também que, numa cidade em que nossa mostra primou pelos reencontros, tivemos alguns desencontros. Foram muitas as dificuldades de produção e organização de nossa participação. Inicialmente, esperávamos que a Universidade nos recebesse como anfitriã do evento. Esperávamos inaugurar, com nossas apresentações, um novo Centro Cultural da instituição. Assim, esperava-se abarcar um de nossos objetivos no projeto: dialogar com pesquisadores teatrais de outros contextos, diversos daqueles que nos formaram.

 

Poucos dias antes do início de nossa partida para esta circulação, no entanto, soubemos que, por atrasos nas obras, a Universidade adiaria a inauguração do novo teatro.

 

Desta maneira, ficamos com pouco tempo para organizar uma nova estrutura e estabelecer novas parcerias. O Teatro Ritual que, por sorte, já planejava um evento para o mesmo período em que programávamos nossa passada por Goiânia, aceitou a empreitada de, em intenso ritmo de trabalho, incorporar nossa participação no ENCONTRO DE ATORES-CRIADORES.

 

A principal dificuldade foi a de conseguir pauta em uma sala de espetáculos que recebesse a contento os nossos trabalhos, com respeito às suas necessidades técnicas. Alocados no Teatro Yguá, do Centro Cultural Martim Cererê, pelejamos para adaptar os trabalhos àquela casa. O palco parecia pequeno, o pé-direito do prédio baixo para as necessidades de angulação dos equipamentos de iluminação. Aqui, mereceu destaque a ajuda inestimável da administradora do teatro, Dirce Vieira (poucas vezes vi uma gestora de espaço público tão apaixonada e comprometida com o seu trabalho!), e do técnico Stanley, que acompanhou nossas montagens. Com muita disposição, pulsão de criação, fita crepe e cabo de aço, deixamos tudo pronto para a chegada do público.

 

Goiânia, marcou-nos pelos reencontros! Nossa passagem por lá foi marcante porque, afinal, pudemos rever gente que, muito antes, já nos marcara muito!


Sabores e Saberes de Belém


A maior parte da equipe desta mostra visitou Belém pela primeira vez. Assim, as apresentações tiveram novos gostos: temperos dos alimentos e temperamentos do povo.

 

Belém é uma cidade de fortes sabores. Ali, os sentidos aguçaram-se: alimentamo-nos de sua rica culinária, conhecendo sabores até então inéditos para nós (o Açaí do Norte, o Pato e o Filhote no Tucupi, o Tacacá, sorvetes de castanha do Pará, de Cajá, de frutos inusitados, cervejas com diferenciados ingredientes e fermentação.

 

E espantosa e deliciosamente a experiência do paladar se expandiu em muitos outros sentidos. Um dos objetivos de nossa circulação por diferentes cidades é permitir que os próprios contextos culturais das cidades visitadas nos provocassem; que outras formas de ver as coisas pudessem, de certa forma, nos desestabilizar. Em Belém, pudemos nos alimentar de suas comidas, mas também de outras manifestações de sua cultura: seus cheiros, suas danças, suas águas abundantes dos rios, suas interações sociais na feira popular com suas mandingas e medicinas, seus modos de fazer teatro, suas maneiras de saber o mundo, enfim.

 

Esta percepção de outras formas de conhecimento foi potencializado pelas parcerias que garantiram a realização do evento: o IAP – Instituto de Artes do Pará; o Teatro Cláudio Barradas da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará; os Produtores Criativos que, entre outras características, destacam-se pelo potencial de entendimento da linguagem teatral para além da gestão de um projeto cultural – isso possivelmente porque seus integrantes são, antes de gestores, artistas. Assim, a experiência das ruas – nos restaurantes, feiras e interações – pode ainda reverberar em instituições e agrupamentos que se dedicam ao estudo, formação e pesquisa no campo da cultura.

 

Nestes termos, é espantoso como, no Pará, os artistas e instituições conseguem organicamente conjugar pesquisa de vanguarda (as experimentações de teatro como laboratório, por exemplo) com a tradição cultural regional. O IAP, por exemplo, tanto recebe uma mostra como a nossa, pautada em estudos de teatro contemporâneo, como desenvolve projetos como o “Tocando a Memória”, de registro da produção de rabecas no estado. A Cris, dos Produtores Criativos e também produtora do In Bust – coletivo que se dedica ao teatro com bonecos –, levou-nos para conhecer a sua sede e a sua intrigante experiência: uso de materiais amazônicos na criação de seus bonecos. A Andréia, também Produtores Criativos, acabava de apresentar um espetáculo com dança e cantoria fundado em lendas regionais – uma ópera amazônica! O diretor Marton Maués recebeu-nos em sua casa e falou da experiência de seu grupo que, trabalhando com humor, especialmente a linguagem do palhaço, encena peças clássicas, como Moliére, com referências da cultura regional.

 

A oficina de Dramaturgia do Corpo foi realizada no IAP. Surpreendeu, inicialmente, a grande quantidade de inscritos. Mais: a enorme fila de espera. Oferecida com participação gratuita, o trabalho teve enorme procura. Surpreendeu ainda mais a heterogeneidade do grupo: artistas iniciantes e profissionais, estudantes universitários e de cursos profissionalizantes, interessados em geral (professoras, donas de casa etc.). Foi praticamente unanime, ao final do trabalho, a avaliação de que a diversidade, ela mesma, foi criativa e muitos participantes revelaram que se sentiram muito acolhidos por este contexto.

 

As apresentações todas tiveram expressiva presença de estudantes da UFPA. Apresentando no Teatro Cláudio Barradas, recebemos uma grande quantidade de estudantes interessados não só na obra, mas também em seus processos. Assim, foram especiais as conversas depois das apresentações, as trocas de experiência na Demonstração de Processo de Criação. Recebemos revistas da Universidade, livros e cd de artistas locais.

 

O teatro vale menção: provavelmente o mais moderno teatro universitário do Brasil. Recém inaugurado, está muito bem equipado. E, antes, seu conceito é  importante: um espaço com arquibancadas móveis, com possibilidade de diferentes conformações, do palco italiano à arena. Por fim, ainda o charme de uma plataforma móvel que, atravessando o teatro de uma ponta a outra, facilita sobremaneira a montagem de luz. Merece destaque também o trabalho do técnico Tarek que, num teatro ainda sem funcionário responsável, como bolsista, garante de maneira quase heróica as condições técnicas das apresentações.

 

Antes de terminar, detenho-me um pouco mais na experiência do In Bust. A sua sede, num antigo casarão, tem uma exposição permanente dos bonecos de seus espetáculos. Ali, conhecemos, inclusive, bonecos usados em programas de televisão realizados na TV Cultura de Belém e que são transmitidos até na África! O espaço ainda tem ateliê de criação e anfiteatro ao ar livre para apresentação de espetáculos para a comunidade vizinha. In Bust ainda tem gente boa de papo: conhecemos a sua experiência de apresentações pelo interior do Pará, em comunidades de difícil acesso – muitos são os locais em que se chega de barco! – com paulista, urbano, não consegui deixar de me surpreender com a descrição de dias deste tipo de deslocamento.

 

Belém foi uma cidade a ser saboreada. Conhecemos a cidade com gosto  – no sabor e no gostar!

Calor e Saudade de Natal

A mostra “10 ANOS POR UMA ESCRITA DO CORPO” propõe uma espécie de síntese de estudos desenvolvidos pela sua equipe ao longo dos últimos 10 anos. Como um “inventário itinerante”, apresentamos em 05 cidades de 05 diferentes regiões do Brasil: Natal, Belém, Goiânia, Belo Horizonte e Porto Alegre. Estamos, agora, em Belo Horizonte, onde as duas últimas apresentações do espetáculo “Eldorado” encerram os trabalhos na cidade.

 

Tive, ao longo do tempo de apresentação nas quatro cidades por onde passou o projeto, pouco tempo de escrever textos que partilhassem as minhas impressões do trabalho e da realidade cultural das cidades. Estando envolvido em quase todas as atividades – dois solos, oficina, demonstração etc. – acabei confiando aos atores do Teatro Camaleão o registro das andanças.

 

Aqui, no entanto, procuro deixar, ainda que com umas semanas de atraso, as minhas reflexões a respeito de nosso desenvolvimento e das pessoas que conhecemos ao longo de nosso trajeto. Assim, pretendo publicar 04 textos, cada um dedicado a uma cidade que já nos recebeu.

 

Natal foi a primeira cidade a ser visitada. Entre os dias 20 a 26 de maio, realizamos, conforme havia sido projetado: duas apresentações dos espetáculos “Agora e na Hora de Nossa Hora”, “Eldorado” e “Uma Estória Abensonhada”; uma oficina; uma demonstração de processo de trabalho; um lançamento de livro. Enquanto as apresentações de espetáculo e lançamento de livro  aconteceram na Casa da Ribeira, as atividades formativas aconteceram na sede de um importante grupo de teatro:  o Barracão dos Clowns de Shakespeare.

 

Natal é uma localidade quente! E o calor do clima parece contagiar as pessoas que lá vivem. Fomos recebidos de maneira muitíssimo amorosa. Antes de tudo, a parceria com a  Casa da Ribeira e os produtores Henrique Fontes e Cris Simon garantiu uma excelente estrutura para nos receber: bons restaurantes e hotel; teatro bem localizado e muito aconchegante; excelente trabalho de divulgação, com destaque para a assessoria de imprensa feita pelo Luciano Dantas. Depois, os grupos de teatro da cidade, como o “Atores à Deriva” nos acolheram ainda mais, apoiando-nos em todas as atividades – chegamos, inclusive, a ensaiar na sua nova sede. Os Clowns de Shakespeare igualmente não hesitaram em abrir suas portas para receber parte de nossa programação. Por fim, mesmo em meio ao muito trabalho que envolve uma mostra como esta, a bela cidade de Natal nos possibilitou encantadores passeios, com praias, paisagens, refeições – foi inesquecível a visita à vizinha comunidade de Pipa!

 

Com uma recepção tão quente, a cidade possibilitou intensa troca com os artistas locais – gente boa e talentosa que deixou saudades!

 

Nenhum dos integrantes da equipe já havia estado em Natal. Assim, esta foi a primeira vez que realizamos trabalhos naquela cidade. Impressionou, por isso, o envolvimento dos artistas locais com a programação, sobretudo nas atividades de formação: oficina e demonstração.  Mesmo de longe, já sabíamos que Natal tem uma intensa atividade cultural, especialmente teatral: a fama da Casa da Ribeira, por exemplo, já se espalha como um importante espaço de referência da produção nacional, sobretudo nordestina, e outros grupos, como os Clowns de Shakespeare,  já conseguiram fazer seus bonitos trabalhos ultrapassarem as fronteiras da cidade e do estado. Conhecendo de perto esta realidade, ficamos surpresos com o abundante potencial de troca artística. Realmente eu não esperava a grande quantidade de pessoas interessadas em participar da oficina, com aumento do número de vagas e, ainda assim, estabelecendo uma considerável lista de espera. E, na realização dos trabalhos práticos, aqueles atores demonstraram ânsia em estudar – o que se revelava numa grande quantidade de energia física. Foi surpreendente ver artistas com trabalhos já em desenvolvimento sobre temas correlatos às nossas pesquisas – como as relações entre corpo e cena – muito abertos à nossa experiência.

 

Na demonstração de trabalho, envolvimento semelhante pôde ser sentido. Muitas perguntas e apontamentos que podem contribuir para a construção de nossa trajetória.

 

Na apresentação dos espetáculos,  um público talentoso: disposto não somente a assistir a uma peça de teatro, mas disposto a ajudar a construí-la: imaginando; abrindo-se a linguagem do trabalho; comentando.  Sem dúvida nenhuma a continuidade dos trabalhos da Casa da Ribeira, com enfrentamento diário das dificuldades que envolvem esse tipo de empreitada, contribui sobremaneira para a construção disso.

 

Por fim, em Natal, ainda foi a cidade em que reecontrei os atores do Teatro Camaleão, que participam da mostra com “Uma Estória Abensonhada”, e que eu não via desde que, no início de 2009,  me exonerei da Universidade Federal de Santa Maria – cidade onde vivem.  Em Natal, também reecontrei o amigo Robson Haderchpek, colega de classe nos tempos de formação da UNICAMP e, hoje, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

 

Natal, já disse, é uma cidade quente! Com tantos reencontros e novos amigos, a despedida, não poderia deixar de ser, foi marcada por lágrimas. Nem tínhamos partido e já sentíamos saudades. Começo inesquecível de uma circulação cujo objetivo,  tanto quanto apresentar trabalhos já desenvolvidos, é a abertura para os possíveis encontros e provocações.

Estréia Mostra 10 Anos por uma Escrita do Corpo


Hoje é o dia! Será aberta, em Natal, a mostra 10 ANOS POR UMA ESCRITA DO CORPO. Até o dia 26 de maio, serão 03 espetáculos, oficina, lançamento de livro e demonstração técnica.

 

O espetáculo de abertura da mostra é “Agora e na Hora de Nossa Hora”, solo de Eduardo Okamoto sobre crianças e adolescentes em situação de rua. As apresentações acontecem hoje e amanhã, dias 21 e 22, na Casa da Ribeira, às 20h. Os ingressos custam R$ 14,00. Outras informações podem ser obtidas pelo telefone: (84) 3211.7710.

 

Após a apresentação de estréia, Eduardo Okamoto autografará o livro “Hora de Nossa Hora: o menino de rua e o brinquedo circense” (Editora Hucitec, 2007). A publicação analisa o processo que levou o autor à criação do espetáculo, especialmente, a sua interação com meninos de rua em oficinas de circo do projeto Gepeto, da ong ACADEC, em Campinas.

Últimos preparativos



A mostra 10 ANOS POR UMA ESCRITA DO CORPO começa na quinta-feira, dia 2o de maio, em Natal. Até o dia 12 de julho, 05 cidades receberão 30 apresentações de 03 espetáculos, 05 demonstrações técnicas, 05 cursos com duração de 12 horas e lançamento de livro.

A equipe da mostra – a produtora Daniele Sampaio, os atores do Grupo Camaleão, e o técnico Eduardo Albergaria – já está em Natal. Hoje e amanhã, montam-se cenografia e iluminação do primeiro espetáculo e se realizam ações de divulgação.  Para conferir a programação em Natal, clique aqui.

Eu ainda estou em São Paulo, ocupado com aulas e finalizando projetos. Chego na madrugada de hoje para amanhã. Pela manhã, a produtora do trabalho enviou uma mensagem: “Natal é um paraíso!”

A ansiedade cresce…