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15. Culturas no Atravessamento de Teatros

 

É recorrente, no teatro contemporâneo, a realização de encontros entre culturas (interculturalidade) como procedimento de criação da cena. De maneira análoga, ainda que norteada por princípios diversos, muitas vezes opostos, em meus processos criativos frequentemente me vali de estudos intraculturais (o estudo da cultura mesmo em que vivo, a brasileira, como mote da criação). Saiba mais sobre isso aqui.

 

Pouco se fala de situações em que diferentes contextos socioculturais transformam o espetáculo de teatro, durante as suas apresentações, preenchendo-o de sentidos inesperados. Com  “Agora e na Hora de Nossa Hora” pude experienciar isso, em sessões no exterior e no Brasil. Aqui, apresento algumas dessas curiosas situações.

 

Foi inesquecível, por exemplo, apresentar no Kosovo, país que, em 2008, ainda procurava se reconstruir de uma das mais sangrentas guerras civis do século XX. Nunca a cena em que o menino de rua se rebela e ameaça com pedras os espectadores foi tão violenta.

 

Lá, inusitado foi também o ensaio técnico para o espetáculo. Como viajávamos somente eu e a diretora do trabalho, Verônica Fabrini, era necessário treinar o técnico que faria a operação da iluminação. Assim, eu dizia à Verônica as indicações de movimentos de luz, que as traduzia para o inglês para uma moça que nos acompanhava em nossa estada nos Bálcãs que, por sua vez, as traduzia para o albanês para o técnico que operaria a luz. Por vezes, o técnico tinha uma dúvida, refazendo o caminho das traduções inversamente.

 

Na Espanha, enrolei-me profundamente ao tentar explicar o porquê de policiais matarem crianças em situação de rua, no Brasil.

 

Em Juazeiro do Norte (Ceará), a apresentação no Teatro Patativa do Assaré, em frente à Basílica de Nossa Senhora das Dores, tradicional reduto de romeiros, preencheu o trabalho com uma religiosidade profunda.

 

Em Atibaia, interior de São Paulo, uma mágica: durante toda a sessão, barulhos de ratos no antigo cinema tornado teatro e, ao pronunciar um texto fundamental da peça (“Os ratos já não fazem barulho”), o espaço foi tomado por um indescritível silêncio.

 

Em Várzea Paulista, cidade muita próxima a São Paulo e, como quase todas as cidades próximas a São Paulo, pobre, fui congratulado por uma linda estudante secundarista que, ao final do espetáculo, disse “nunca ter presenciado uma atuação tão intensa”. Quando lhe perguntei se ia frequentemente ao teatro, a resposta foi tão sincera quanto o elogio: “Não, é a primeira vez”.

 

No Marrocos, na primeira cena em que tiro a camisa, mulheres com lindos lenços cobrindo-lhes a cabeça, segundo a tradição islâmica, deixaram a sala de espetáculos, horrorizadas com uma seminudez pública.

 

Em Campinas, ao saber da apresentação de um espetáculo de teatro, um menino de rua entra na sala. A minha atuação é ansiosa, eu quero saber a sua opinião. Porém, quase no final da peça, eu digo: “O que eu tenho mais vontade de fazer é agora!”. E o menino deixa a sala de apresentação sem que eu nunca soubesse se gostou do trabalho.

 

E houve ainda muitas experiências – infinitas: o público “profissional” dos festivais de teatro; os muitos espectadores que assistiam a uma encenação pela primeira vez; os espectadores que, em mais de uma circunstância, levaram consigo pedras que compõem o cenário, como recordação; a linda crítica no jornal de grande circulação que apresentava o espetáculo como capacitado para “mudar o mundo”, abrindo muitas portas para futuras apresentações; outra, na Suíça, que declarava que, a despeito dos muitos obstáculos (monólogo em português, sem tradução, sobre meninos de rua do Brasil, apresentado para um público estrangeiro), comunicava uma “emoção muito profunda”; um espectador que, na minha primeira temporada em São Paulo, apareceu com um ônibus na porta do teatro, levando outros 40 espectadores para a apresentação; Fernando Villar, professor da Universidade de Brasília, com uma pergunta simples – “Você chega ao seu limite com esse espetáculo?” – transformou-o para sempre; a produtora polonesa que, numa primeira apresentação criticou duramente a minha performance e, dando-me outra oportunidade, voltou ao espetáculo e se emocionou ao ver que eu incorporava várias de suas indicações; assim como a produtora coreana que, nas minhas primeiras ações, sentenciou que o ator é “muito tímido, por isso emprega energia demais” e, assim, igualmente modificou significativamente o meu trabalho…

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” fez de mim um homem afortunado. Com o trabalho recebi aquele tipo de fortuna que nenhuma crise econômica poderá subtrair: vivência plena das coisas. Eu estou vivo! Vivo!

 

Tomara que um pouco dessa vida que me alimenta em cena possa ser levada também aos espectadores. Tomara!

 

“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone: 11 3871-7700

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