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9. Teatro no Atravessamento de Culturas

 

Chegamos à nona postagem de “Agora e na Hora de Nossa Hora_18!” – projeto que, tal qual as 18  apresentações de “Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia e em cidades diversas no interior de São Paulo, marca os 18 anos da Chacina da Candelária.  Aqui, inicio uma breve reflexão acerca das apresentações do trabalho em solo estrangeiro. 

 

Quando da criação do espetáculo, entre 2003 e 2004, eu não concebia apresentá-lo a espectadores não brasileiros – ou, pelo menos, não latino-americanos. Tratando de um problema histórico-social próprio dessas terras e com um tratamento igualmente peculiar à essa zona da América (com forte referência à tradição católico-cristã, por exemplo), parecia-me que o trabalho dificilmente alcançaria comunicação com uma platéia que não partilhasse de um determinado universo histórico-social e até religioso. Assim, “Agora e na Hora de Nossa Hora” atendia a uma urgência: abrir o debate sobre a situação da infância e da juventude do Brasil – um brasileiro dirigindo-se diretamente a seus pares de nação.

 

Curiosamente, no entanto, sem qualquer tipo de agenciamento internacional, o trabalho começou a desenvolver uma certa carreira fora do Brasil: Espanha, Suíça, Marrocos, Kosovo, Escócia. Foi assim: um grupo de teatro suíço o assistiu no Festival de Londrina e o indicou a um evento em seu país; depois, um curador de festival do Kosovo o assistiu na Suíça e o indicou para se apresentar em seu evento… Estabeleceu-se, assim, quase que casualmente, uma certa rede de amizades que levou o trabalho a distintos países.  

 

Essas interações em apresentações no exterior, me animam a retomar um debate já suscitado em outra postagem: as relações entre cena e trocas culturais.

 

A interculturalidade é uma das marcas de um teatro contemporâneo. A partir do confronto de diferentes manifestações teatrais, artistas e teóricos esforçam-se na busca de seu elementos comuns. Ou seja, ultrapassando as diferenças, esses trabalhos tendem à valorização de um certo território humano universal.

 

Sob determinado ponto de vista, até aqui, os trabalhos desenvolvidos por mim em cooperação com outros artistas, partem de um ponto de vista diverso (possivelmente complementar) a esse: a valorização da singularidade. A premissa básica é a de que, ainda que possamos nos encontrar num território das estruturas humanas comuns (universais, arquetípicas etc.), o mundo se nos abre como experiência de singularidades. Ou seja, é a partir da vivência plena das situações não-universais que acessamos as estruturas humanas comuns. Assim, damos ênfase, no início dos trabalhos, àquilo que nos faz e nos define: a particularidade.

 

Isso se vê em suas diversas variáveis: o ponto de vista particular sobre o mundo de ator, diretor, dramaturgo, cenógrafo etc; os diferentes pontos de vista dos espectadores (resistindo sempre à tentação de fechar sentidos, mas trabalhando para ampliá-los sempre mais); as infinitas possibilidades de experiência dos muitos atores sociais apresentados pela cena (meninos de rua; rabequeiros etc.).

 

Esse foi o ponto de partida de “Agora e na Hora de Nossa Hora”. A partir de meu contato com meninos e meninas de rua em oficinas de circo do “Projeto Gepeto” (parceria entre a ONG ACADEC e o CRAISA, de Campinas), fui provocado a novos mundos, inusitados até ali para mim. Provocado por essas interações, precisei, depois, conferir expressão artística a essas impressões. Desta maneira, a experiência dos meninos, em atrito com a minha própria vivência das coisas, resultou na abertura de um novo jogo de experimentações: cena de teatro.

 

Considerando a “cultura das ruas” uma das incontáveis influências que constituem a cultura que me forma (a brasileira), digo que meu trabalho, como princípio, pauta-se em experiências INTRAculturaisem oposição à afirmação de experiências INTERculturais por artistas norteeuropeus. Eles afirmam as estruturas comuns à diversidade de manifestações culturais. A pesquisa intracultural pressupõe o inverso: a revelação da multiplicidade que compõe cada cultura.

 

O trabalho começa quando o ator é atravessado por uma experiência desestabilizadora. Ali, estranho a si mesmo, estrangeiro em sua própria terra e corpo, começa a revelar os muitos que ele é. Depois, sintetizando essa experiência como cena, ele a partilha como jogo com o espectador. A cena, como escreve Eugenio Barba, “experiência de uma experiência”. Finalmente, a experiência mesmo do espectador volta a atravessar artistas da cena que, então, revisitam a sua obra, reiniciando o ciclo de vivências.

 

O famoso teórico francês Patrice Pavis, escreve sobre um teatro no cruzamento de culturas para se referir ao modelo intercultural. Aqui, prefiro falar de um certo atravessamento de culturas. Ali, onde o teatro não se sustenta entre culturas, como ele sugere, mas onde os diversos homens que criam a cena são atravessados por uma experiência: camadas infinitas de singularidades compartilhadas.

 

 

 Serviço:
“Agora e na Hora de Nossa Hora” no SESC Pompéia:
Rua Clélia, 93
De 21 de outubro a 27 de novembro de 2011
Sextas e sábados, às 21h, e domingos às 19h
Ingressos: de R$ 3,00 a R$ 12,00
Telefone:  11 3871-7700      

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